INICIAR SESIÓNCapítulo 4
Lavinia Marke Quinze dias. Quinze dias de escuridão profunda, de máquinas respirando por mim, de um corpo que teimava em não desistir mesmo quando a mente já tinha se entregado. Quando meus olhos finalmente se abriram, a luz branca do quarto me atingiu como uma facada. Tudo doía. A cabeça latejava com a familiar crueldade do tumor. O peito, onde a bala de prata tinha entrado, queimava sob os curativos. Meus braços pareciam feitos de chumbo. A garganta estava seca, arranhada, como se eu tivesse gritado por dias sem som. Pisquei várias vezes, tentando focar. O teto branco. O bip constante do monitor. O cheiro de antisséptico e algo doce, doentio, que eu reconhecia como o meu próprio cheiro de doença. Tentei me mexer e um gemido baixo escapou dos meus lábios. A dor era tão presente que parecia ter se tornado parte de mim. A porta se abriu com um clique suave. Uma enfermeira de meia-idade entrou, os olhos se arregalando ao me ver acordada. Ela se aproximou rápido, checando os aparelhos com mãos profissionais. — Senhorita Marke… graças aos deuses. Você voltou. — A voz dela era baixa, cuidadosa. — Fique quietinha. Não force. Eu engoli em seco. A voz saiu rouca, quase inaudível. — Quanto… tempo? — Quinze dias. Você esteve em coma induzido. O corpo não aguentaria de outra forma. — Ela hesitou, mordendo o lábio inferior. — O tumor… continua estável, mas o tiro complicou tudo. Você precisa de repouso absoluto. Quinze dias. Quinze dias em que o mundo tinha continuado sem mim. Quinze dias em que Ravi… eu não queria pensar nele. A rejeição ainda latejava no peito como uma segunda ferida, mais profunda que a da bala. A enfermeira ajustou o soro, mas algo no olhar dela me fez franzir a testa. Havia tensão ali. Segredo. — O que aconteceu? — perguntei, a voz um pouco mais forte. — Enquanto eu estava… dormindo. Ela hesitou de novo. Olhou para a porta, como se temesse alguém escutar. Depois se aproximou mais, a voz baixando para um sussurro. — O Alfa Orion Valek… da Alcateia dos Lobos Brancos… veio atrás de você. O coração deu um salto tão forte que o monitor acelerou o bip. Eu senti. Mesmo fraca, mesmo doente, eu senti o nome ecoar dentro de mim como um chamado antigo. — O quê…? — Ele chegou aqui há quase duas semanas. Disse que você era a companheira dele. Que sentia o laço. Que precisava te ver. — A enfermeira engoliu em seco. — O Alfa Darke não gostou. Os dois… brigaram. Feio. Muito feio. Quase destruíram a ala inteira. Segurança teve que intervir. O Alfa Valek só foi embora quando o médico jurou que você não acordaria tão cedo. Mas ele… ele deixou um recado. Disse que estaria esperando. Na fronteira. Que o laço não mentia. As palavras entraram em mim como fogo líquido. Orion Valek. Eu nunca tinha visto o rosto dele. Nunca tinha ouvido a voz. Mas o laço… o segundo laço, aquele que eu mal tinha tempo de processar antes de desmaiar, agora pulsou fraco e teimoso no peito. Diferente do de Ravi. O de Ravi era dor, rejeição, um fio estilhaçado. Esse… esse era quente. Persistente. Como se alguém tivesse segurado minha mão no escuro e se recusado a soltar. Uma lágrima escapou pelo canto do olho. Eu não sabia se era de alívio, de medo ou de uma esperança tão frágil que doía mais que o tumor. — Ele… realmente veio? — sussurrei. A enfermeira assentiu, o olhar suave pela primeira vez. — Veio. E brigou como se a vida dele dependesse disso. Algo dentro de mim, algo que eu achava morto desde a noite da rejeição, se mexeu. Um fio fino de esperança. Pequeno. Trêmulo. Mas vivo. Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo o corpo inteiro gritar de fraqueza. O tumor latejava atrás dos olhos. A cicatriz do peito puxava a cada respiração. Eu estava quebrada. Quase morta. Mas pela primeira vez em meses… alguém tinha vindo atrás de mim. Alguém não tinha me rejeitado. A decisão nasceu rápida, feroz, desesperada. — Eu quero alta. A enfermeira arregalou os olhos. — Senhorita, isso é impossível. Você mal consegue sentar. O médico— — Eu quero alta — repeti, a voz mais firme, mesmo que o corpo tremesse. — Agora. Traga os papéis. Ela tentou argumentar. Falou de risco, de hemorragia, de colapso. Eu não escutei. Só fiquei olhando para ela com a teimosia de quem já tinha morrido uma vez e não tinha mais nada a perder. No final, ela cedeu. Trouxe os formulários. Minha mão tremia tanto que a assinatura saiu torta, quase ilegível. Mas estava lá. Assim que ela saiu para chamar o médico, eu me movi. Cada movimento era uma batalha. Arranquei o soro com os dentes cerrados, ignorando a fisgada aguda. Tirei os sensores do peito. O monitor gritou em protesto, mas eu já estava descendo da cama, as pernas bambas como se fossem de gelatina. O chão frio sob os pés descalços. O avental do hospital balançando em volta do corpo magro demais. Saí pelo corredor dos fundos, o mesmo que os funcionários usavam para fumar. Ninguém me viu. Ou talvez ninguém quisesse ver. Eu caminhava como uma sombra, apoiando-me na parede sempre que a visão escurecia. A dor no peito era um animal vivo. O tumor batia no crânio como um martelo. Mas eu continuava. Do lado de fora, a noite estava fria e úmida. O cheiro de floresta veio forte, carregado de pinheiros e terra molhada. Eu respirei fundo, sentindo os pulmões queimarem. A fronteira dos Lobos Brancos ficava a quase três quilômetros dali. Eu sabia. Tinha ouvido os guardas falarem nos dias em que ainda estava consciente. Comecei a andar. Cada passo era uma agonia. As pernas tremiam. O sangue parecia grosso demais nas veias. Algumas vezes eu precisei parar, curvada, as mãos nos joelhos, cuspindo saliva com gosto de metal. O mundo girava. Mas a cada vez que eu pensava em desistir, o laço pulava no peito. Quente. Chamando. Como se alguém do outro lado estivesse gritando meu nome sem voz. Eu não ia morrer no hospital de Ravi. Eu não ia ficar esperando que ele decidisse se eu valia a pena. Se existia um Alfa que tinha vindo atrás de mim… eu ia até ele. A floresta engoliu o caminho. Galhos arranhavam meus braços. Pedras cortavam a sola dos pés. Eu não sentia quase nada além da dor constante e da determinação selvagem que me mantinha em pé. O tempo perdeu o sentido. Só existia o próximo passo. E o próximo. E o próximo. Quando o cheiro mudou, quando o ar ficou mais limpo, mais prateado, carregado de um poder diferente do dos Lobos Negros , eu soube que estava perto. A fronteira. Meus joelhos cederam. Eu caí de joelhos na terra úmida, as mãos afundando na folhagem. O corpo não aguentava mais. A visão escureceu nas bordas. O tumor gritou uma última vez, uma onda de dor tão forte que me tirou o ar. Eu desabei de lado, o rosto contra a terra fria, o avental do hospital sujo de lama e sangue seco. O laço explodiu no peito. Quente. Desesperado. Próximo. Eu sorri, fraca, delirante, enquanto a escuridão vinha. Alguém vinha. Pela primeira vez em muito tempo… alguém vinha. A última coisa que senti antes de apagar completamente foi o cheiro dele. Madeira. Tempestade. E algo selvagem que fez a loba adormecida dentro de mim se mexer pela primeira vez em meses. Depois, só o silêncio.Capítulo 6 Ravi Darke O escritório cheirava a uísque derramado e raiva contida. Eu andava de um lado para o outro como um animal enjaulado há horas. As cortinas pesadas estavam abertas, mas a luz da tarde não conseguia atravessar a escuridão que eu carregava dentro do peito. O lobo não parava. Rosnava. Girava. Acusava. Cada segundo sem notícia de Lavinia era uma facada nova. Quinze dias de coma. Um dia de sumiço. E eu ainda não tinha conseguido dormir uma noite inteira sem ver o corpo dela caindo no salão. O sangue. A voz quebrada. O olhar que me disse, sem palavras, que eu a tinha destruído. A porta se abriu com força. Klaus entrou primeiro, o rosto tenso, seguido por dois dos meus melhores rastreadores. O cheiro de floresta e urgência veio junto com eles. Eu parei no meio do cômodo, o corpo inteiro se tensionando. — Fala — ordenei, a voz baixa e perigosa. Klaus engoliu em seco. Os olhos dele não conseguiam ficar nos meus por muito tempo. — Encontramos o rastro, Alfa. O cor
Capítulo 5 Orion Valek O cheiro dela me atingiu como um soco no peito. Doce. Doente. Sangue seco. E por baixo de tudo… o laço. Forte. Desesperado. Chamando por mim com uma urgência que fez o lobo dentro de mim enlouquecer. Eu estava na fronteira quando o vento mudou. No segundo seguinte já corria, Kael atrás de mim tentando acompanhar. As árvores se tornaram manchas escuras. O chão sumia sob os pés. Eu só sentia o puxão no peito, cada vez mais fraco, como se o fio estivesse prestes a se romper. E então eu a vi. Um corpo pequeno, vestido apenas com o avental sujo de hospital, caído de lado na terra úmida. Os cabelos escuros espalhados pela folhagem. A pele pálida demais sob a luz da lua. Eu cheguei a tempo de vê-la tentar se levantar… e desabar de novo. — Não — o som saiu de mim como um rosnado. Eu me ajoelhei ao lado dela em menos de um segundo. As mãos grandes e quentes deslizaram sob o corpo frágil com um cuidado que eu não sabia que possuía. Ela não pesava quase nada. Os os
Capítulo 4 Lavinia Marke Quinze dias. Quinze dias de escuridão profunda, de máquinas respirando por mim, de um corpo que teimava em não desistir mesmo quando a mente já tinha se entregado. Quando meus olhos finalmente se abriram, a luz branca do quarto me atingiu como uma facada. Tudo doía. A cabeça latejava com a familiar crueldade do tumor. O peito, onde a bala de prata tinha entrado, queimava sob os curativos. Meus braços pareciam feitos de chumbo. A garganta estava seca, arranhada, como se eu tivesse gritado por dias sem som. Pisquei várias vezes, tentando focar. O teto branco. O bip constante do monitor. O cheiro de antisséptico e algo doce, doentio, que eu reconhecia como o meu próprio cheiro de doença. Tentei me mexer e um gemido baixo escapou dos meus lábios. A dor era tão presente que parecia ter se tornado parte de mim. A porta se abriu com um clique suave. Uma enfermeira de meia-idade entrou, os olhos se arregalando ao me ver acordada. Ela se aproximou rápido, checand
Capítulo 3 Ravi Darke Quando a porta do quarto se abriu, Inês estava sentada na beira da cama, o rosto entre as mãos, os ombros tremendo de forma convincente. Lágrimas falsas escorriam pelas maçãs do rosto enquanto eu entrava como uma tempestade. Não falei no começo. Fiquei parado no meio do cômodo, o peito subindo e descendo com força, os olhos ainda brilhando com o resto da fúria e do choque. O cheiro de sangue de Lavínia ainda impregnava minhas mãos e minha camisa. O cheiro dela. Doente. Rejeitada. E ainda assim… mais corajosa do que qualquer lobo naquele salão. A imagem não saía da minha cabeça. O corpo frágil colidindo contra as minhas costas. O calor úmido se espalhando pela camisa. O peso dela deslizando para o chão. A voz rouca sussurrando que não tinha mais nada a perder. Cada detalhe se repetia em loop, como se o próprio lobo quisesse gravá-los a fogo na minha memória. Inês levantou o olhar, os lábios trêmulos. — Ravi… meu amor… eu fiquei tão assustada… eu não consegui
Capítulo 2 Orion Valek A dor chegou sem aviso. Não foi uma pontada. Não foi um desconforto. Foi uma lâmina quente atravessando o peito, rasgando tudo por dentro, como se alguém tivesse enfiado a mão nas minhas costelas e esmagado o coração com força bruta. Eu estava no meio da reunião com os anciãos da alcateia quando o impacto me derrubou. A cadeira de couro rangeu. Meu copo de uísque estilhaçou no chão. O ar sumiu dos pulmões. — Alfa? — a voz de Kael, meu beta, soou distante, abafada pelo sangue latejando nos meus ouvidos. Eu agarrei a borda da mesa de carvalho com tanta força que a madeira rangeu e rachou sob os dedos. A dor não era só minha. Era dela. Eu sabia. O laço, aquele fio invisível e selvagem que eu carregava há meses como uma ferida aberta, finalmente gritava. Minha destinada estava sofrendo. Não era medo comum. Não era tristeza. Era agonia pura. Rejeição. Sangue. A sensação metálica de prata queimando carne. O gosto de morte subindo pela garganta dela e e
Capítulo 1 Lavínia MarkeA esperança era a única coisa que ainda me mantinha de pé. E ela estava morrendo junto comigo.Cada batida irregular do meu coração era um lembrete cruel: o tumor dentro do meu crânio crescia. Lento. Insaciável. Às noites eu acordava com o gosto de metal na boca e a certeza de que, em breve, nem mesmo a dor restaria, só o silêncio. A loba dentro de mim dormia há meses, sufocada pela doença. Sem ela, eu era apenas uma casca.Mas ainda restava uma última aposta. O laço.Eu acreditava, com a teimosia desesperada de quem não tem mais nada, que quando Ravi Darke finalmente me visse, quando o fio elétrico do companheiro saltasse entre nós, algo mudaria. Que o poder dele seria forte o bastante pra expulsar a morte que já sussurrava no meu ouvido todas as noites.Eu estava errada.A mansão dos Lobos Negros cheirava a poder e expectativa. O ar era denso, carregado de feromônios de dezenas de lobos, e cada olho da matilha se cravou em mim quando cruzei o salão. Eu sent







