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Darian poderia ter me beijado ali mesmo.
Estava tão perto que sentia o calor irradiar do corpo dele, uma barreira viva de energia que fazia minha pele formigar em alerta. A mão dele apoiada na mureta me prendeu no lugar, mas foi o corpo inclinado — quase encostando — que roubou meu ar. O cheiro dele me invadiu: amadeirado, chuva de verão e algo indefinível, selvagem.
Em qualquer outro momento, eu teria considerado aquilo uma invasão. Mas ele não tentou me tocar. E vê-lo conter toda aquela força por mim me desarmou mais do que qualquer toque.
— Por que você está parado assim tão perto? — minha voz saiu rouca, trêmula. Tentei soar casual, mas meus olhos me traíram, descendo pela terceira vez para a sua boca.
A sobrancelha dele arqueou, lenta, provocadora.
— Você me acusou de não respeitar seus limites. — disse inclinando a cabeça, a distância permanecendo cruelmente intacta. — Então estou tentando algo diferente: esperar que você venha até mim.
Com aquela inclinação, a luz da varanda atingiu apenas um lado de seu rosto, deixando o outro mergulhado em sombras. De repente, ele já não parecia o homem que eu conhecia, mas o lobo que eu vira caçar naquele dia na Floresta de Obsídia.
Bonito demais para ser seguro. Perto demais para eu fingir que não queria ser devorada.
— E se eu não for? — A provocação saiu mais ofegante do que eu gostaria, traindo a verdade que vinha tentando esconder até de mim mesma: eu não queria que ele continuasse esperando.
Dessa vez, eu queria que ele simplesmente tomasse a iniciativa, sem me dar tempo para pensar. Talvez assim fosse mais fácil fingir que não queria ceder tanto quanto ele queria me fazer ceder.
— Então fico aqui. — O sorriso de Darian se tornou perigosamente lento. Ele se inclinou até a boca quase roçar minha orelha, sem me tocar, mas provocando um arrepio violento em minha pele com a sua respiração. — Até você não suportar mais me ter tão perto sem me tocar.
Quando recuou, havia puro desafio em seus olhos.
Em seus olhos a mudança foi brutal — aquela vigilância constante, aquela tensão de caçador, derreteu-se em algo mais perigoso ainda. Fome pura, desavergonhada, direcionada exclusivamente para mim.
Era mais fácil resistir ao Darian arrogante que invadiu minha vida com a certeza absoluta de que me reconhecer como companheira lhe dava direito absoluto sobre mim. Mas o homem diante de mim agora... ele era um problema fatal. Ainda orgulhoso, ainda letal, mas disposto — pela primeira vez — a esperar que eu fosse até ele. E isso estava destruindo minha determinação.
Ele ergueu a mão, mas parou a poucos centímetros do meu rosto. Era uma mão grande, de dedos longos e veias discretamente marcadas sob a pele, forte de um jeito que eu já conhecia bem demais. Ainda assim, naquele instante, seus dedos tremeram.
Ou talvez eu estivesse imaginando.
A hesitação naquele gesto, vinda de um homem que parecia capaz de mover montanhas sem pestanejar, fez meu estômago se revirar.
— Posso? — A pergunta saiu rouca, sem vestígio de ironia, e soou mais íntima do que qualquer toque já dado.
Olhei para aqueles dedos suspensos no ar e algo dentro de mim — algo que não tinha nome, que existia antes da razão — estremeceu em reconhecimento.
Tentei soltar o meu habitual "não", moldei a palavra na boca, mas ela morreu antes de nascer, sufocada por uma força antiga que me dizia que eu já era dele, que sempre fui.
Ele não se mexeu. Não diminuiu a pressão, não deu espaço para eu respirar e recuperar a sanidade. Apenas esperou, dominando o ar entre nós com uma paciência que eu não tinha, como se soubesse que o nosso vínculo facilitaria o trabalho dele.
E estava mesmo facilitando. Cada fibra do meu ser cedia, rendida a uma corrente invisível que me puxava para para ele.
— Pode. — A palavra escapou, trêmula, derrotada. Um sopro rouco que eu não conseguiria pegar de volta. Eu estava cansada. Cansada de lutar contra a correnteza que me puxava para ele desde o primeiro instante que nos vimos naquele maldito evento.
Os dedos dele deslizaram, afastando uma mecha rebelde, prendendo-a atrás da orelha com uma delicadeza que contradizia a violência contida no resto do corpo. O polegar ficou, preguiçoso, traçando o contorno do meu maxilar em uma carícia que queimava — não só na pele, mas em algum lugar mais profundo, como se ele tocasse cordas que eu não sabia que possuía e fizessem todo o meu corpo vibrar em resposta.
Seus olhos mergulharam nos meus antes de descerem para minha boca, e acompanhei o instante exato em que o castanho das íris ganhou aquele brilho acobreado nas bordas. Já tinha visto aquilo vezes suficientes para reconhecer o que significava: raiva, poder ou... desejo.
Dessa vez, não tive dúvidas. Senti o desejo de Darian reverberar dentro de mim, encontrar o meu e amplificá-lo até que já não soubesse distinguir onde terminava o que eu sentia e começava o que vinha dele.
— Se quiser que eu pare, diga agora. — A respiração quente dele roçou meus lábios, tornando quase insuportáveis os poucos centímetros que ainda nos separavam. Mesmo assim, Darian não avançou. — Porque eu te quero tanto, Zuri, que estou ficando louco. E se eu chegar mais perto, se eu descobrir o gosto da sua boca... — A voz falhou por um instante, mais grave e desesperada quando ele continuou. — Eu não vou ser capaz de parar.
— E se… Se eu não quiser que você pare desta vez? — perguntei, mas minha voz saiu baixa e ofegante, traindo qualquer segurança que eu pretendesse demonstrar.
O desejo dele continuava reverberando através do vínculo, encontrando o meu e se intensificando até que os poucos centímetros entre nós parecessem uma crueldade.
Darian fechou os olhos por um instante, o maxilar contraído enquanto um som baixo ameaçava escapar de sua garganta. Ele o conteve com uma respiração profunda, mas os dedos se fecharam ao lado do corpo, denunciando o esforço para não me tocar. Quando tornou a abrir os olhos, o cobre já havia avançado ainda mais sobre o castanho de suas íris.
— Não diga isso como se não soubesse o efeito que tem em mim. — A voz saiu rouca, arrastada pelo esforço de se controlar. — Já está difícil o bastante me controlar por você.
A rouquidão de sua voz deslizou por mim como um toque e, por um instante, esqueci o que pretendia responder. Saber que eu conseguia abalar daquele jeito um homem como Darian deveria ter me feito sentir no controle; em vez disso, só deixava mais evidente o quanto ele também me afetava.
Molhei os lábios, nervosa, e os olhos dele acompanharam o movimento devagar, com uma atenção que fez meu fôlego vacilar.
— E quem disse que eu quero facilitar para você?
Darian ficou imóvel por um segundo, como se precisasse ter certeza de que ouvira direito. Então sua boca se curvou naquele sorriso lento e perigoso que sempre fazia alguma coisa se apertar dentro de mim, embora a tensão em seu maxilar denunciasse o quanto ainda precisava se controlar.
— Então é isso que está fazendo? — A voz dele desceu ainda mais, rouca. Darian inclinou o rosto, diminuindo a distância entre nossas bocas sem chegar a vencê-la. — Está dificultando de propósito só para descobrir o quanto eu aguento? Zuri... — Meu nome deixou seus lábios como uma oração e uma maldição ao mesmo tempo, rouco de desejo e de uma súplica que um homem como ele jamais admitiria estar fazendo.
E foi naquele tom de voz, naquela provocação que mal conseguia esconder o quanto ele também estava rendido, que perdi a vontade de continuar provocando. Eu o desejava havia tempo demais, talvez desde a primeira vez que ouvira meu nome na voz dele, e estava cansada de transformar cada impulso em resistência, de dizer não enquanto uma parte cada vez maior de mim queria descobrir como seria dizer sim. Talvez fosse o vínculo. Talvez aquela força fosse tão intensa quanto Darian dizia, e eu apenas estivesse cansada de lutar.
Ergui a mão e a pousei sobre o peito de Darian, sentindo o calor de seu corpo através da camisa e, sob minha palma, o coração batendo depressa demais para um homem que parecia tão imóvel. Levantei os olhos para ele.
Darian não se moveu.
O desejo dele continuava reverberando através do vínculo, intenso o bastante para encontrar o meu e fazê-lo crescer, mas nem mesmo assim ele encurtou a distância entre nós. Apenas me observou, o maxilar tenso e a respiração pesada, contendo cada impulso enquanto esperava que o próximo passo fosse meu.
Que eu escolhesse me entregar a ele.
E eu daria isso a ele. A nós dois. Porque depois de tanto tempo transformando desejo em tormento, ceder parecia menos uma derrota e mais uma espécie de salvação.
Meus dedos se fecharam em sua camisa com determinação.
— Beije-me. — Minha voz saiu rouca, suplicante, o pedido arrancado de um lugar em mim que já não queria resistir. — Meu Alpha.
Darian simplesmente parou.
O cobre incendiou seus olhos, e um rosnado baixo vibrou em seu peito, como se aquelas duas palavras tivessem rompido o último fio de seu controle.
ZURISemanas antesPor alguns segundos, tive certeza de que havia entendido errado.Continuei olhando para Alistair, esperando que ele reformulasse a pergunta ou demonstrasse qualquer sinal de que aquilo fosse algum tipo de brincadeira particularmente elaborada. Não aconteceu. Seu rosto permaneceu sério, assim como o de Darian, parado perto da lareira, e até Eleanor, apesar da expressão mais gentil, parecia aguardar minha resposta como se o marido tivesse acabado de perguntar alguma coisa perfeitamente razoável.Lobisomens.De todas as explicações que eu havia imaginado para essa noite, aquela definitivamente não estava entre as primeiras cinquenta. Vampiros tinham passado pela minha cabeça. Alienígenas também, embora eu tivesse a decência de reconhecer que nenhuma das duas hipóteses merecia ser levada a sério.Lobisomens, curiosamente, não considerei.Apoiei a xícara no pires antes que minhas mãos decidissem começar a tremer.— Lobisomens... — repeti devagar, ainda procurando no ro
DARIANSemanas antesA incredulidade em seu rosto era tão evidente que, por um instante, apenas a observei.— Desculpa... o quê?Zuri tinha ouvido perfeitamente. Seu coração continuava acelerado, e eu ainda sentia pelo fio a confusão que se misturava à atração que ela tentava compreender.— Você é minha companheira — repeti, sem encontrar motivo para suavizar uma verdade tão simples.Ela me encarou como se eu tivesse enlouquecido.Ao nosso redor, os primeiros murmúrios começaram a romper o silêncio, mas não lhes dei atenção. Eu sabia o que aquela cena significava para todos os lobisomens presentes e sabia que, antes do fim da noite, a notícia de que eu havia reconhecido minha companheira provavelmente já teria atravessado metade das famílias importantes do território. Só que nada disso me interessava naquele momento.Zuri, por outro lado, parecia cada vez mais desconfiada. Seus olhos se demoraram nos meus por alguns segundos antes de percorrerem meu rosto, procurando alguma explicaçã
DARIANSemanas antesDuas horas antes da recepção, eu estava diante do espelho ajustando o nó da gravata quando meu pai entrou no quarto sem esperar que eu respondesse à batida. Pelo reflexo, vi Alistair fechar a porta atrás de si e caminhar alguns passos para dentro antes de parar, as mãos nos bolsos da calça e aquela expressão controlada que costumava significar que ele não tinha vindo discutir nada particularmente agradável. Continuei trabalhando na gravata. Se o assunto fosse urgente, ele falaria. Se não fosse, eu não pretendia facilitar.— Os dois representantes da Hawthorne chegaram esta tarde — informou finalmente. — Zuri Calloway e Elliot Mercer. Estarão na recepção esta noite.O nome dela não significou absolutamente nada para mim naquele momento. Eu havia visto os documentos do contrato, aprovado os valores e lido os relatórios sobre a empresa contratada, mas não tinha interesse suficiente na equipe operacional para decorar quem faria o quê. Minha participação naquele proje
ZURISemanas antes— Desculpa... o quê?Eu tinha ouvido perfeitamente, mas alguma parte do meu cérebro ainda parecia convencida de que, se ele repetisse, as palavras poderiam adquirir um significado menos absurdo. Darian continuava diante de mim, os dedos firmes ao redor do meu braço e os olhos acesos naquele cobre impossível, sem demonstrar o menor constrangimento por ter acabado de anunciar aquilo no meio de uma sala lotada. Ao nosso redor, o silêncio começava a se desfazer em murmúrios baixos, espalhando-se entre os convidados como se todos soubessem alguma coisa que Elliot e eu ignorávamos.— Você é minha companheira — repetiu Darian, e a certeza absoluta em sua voz conseguiu tornar tudo ainda mais estranho.Durante alguns segundos, uma quantidade pouco profissional de respostas atravessou minha cabeça. Você está maluco? Bateu a cabeça antes de entrar aqui? Comeu merda? Alguém colocou alguma coisa na sua bebida?A última ganhou alguma plausibilidade quando voltei a reparar nos o
ZURISemanas antesA placa anunciando Vesper Hollow surgiu quando já estávamos havia quase uma hora cercados por árvores. Depois de longas horas em um voo nada tranquilo, retiramos no aeroporto o carro alugado que a Hawthorne havia reservado para usarmos durante nossa estadia na cidade. Eu tinha visto fotografias da cidade antes da viagem, pesquisado a localização e até percorrido parte do trajeto pelo mapa, mas nada havia me preparado para a quantidade de floresta que existia ao redor dela. A estrada avançava entre pinheiros altos e montanhas que pareciam cada vez mais próximas, enquanto o sinal do meu celular oscilava entre uma barra e nenhuma.— Se o carro quebrar, eu quero deixar registrado que a ideia de vir pela estrada panorâmica foi sua — falei, olhando pela janela.— São só vinte minutos a mais. — Elliot manteve uma das mãos no volante e apontou para a paisagem com a outra. — Olha isso. Quando foi a última vez que você viu alguma coisa além de prédio, aeroporto e arquivo?—
ZURISemanas antes Quando minha chefe colocou uma pasta preta sobre a mesa e anunciou o valor do contrato que acabávamos de conseguir, Elliot engasgou com o café.— Desculpa. — Ele limpou a boca com as costas da mão e se inclinou para conferir o número outra vez. — Eu achei que você tivesse dito dois milhões.Margaret ergueu os olhos por cima dos óculos.— Eu disse dois milhões.Elliot virou lentamente o rosto para mim.— Zuri, por esse dinheiro, eu digitalizo até a lista de compras do tataravô deles.Mordi a parte interna da bochecha para não rir. Não funcionou muito bem. Margaret percebeu, como percebia tudo o que acontecia dentro da Hawthorne Heritage & Archives, e me lançou o mesmo olhar de reprovação que costumava reservar para pessoas que entravam em nossa área de conservação carregando café.— Terminou, Mercer?— Provavelmente não, mas posso fazer uma pausa.— Faça.Elliot recostou-se na cadeira com um sorriso inocente demais para alguém que trabalhava ali havia quase cinco an







