LOGINUma mão dele deslizou para minha cintura e me puxou de encontro ao seu peito, eliminando de uma vez toda a distância que havia se recusado a atravessar. Sua outra mão subiu até minha nuca me segurando imóvel e então sua boca tomou a minha com uma urgência que me roubou o ar e qualquer pensamento coerente.
Seus lábios, macios e quentes, pressionaram os meus com uma fome quase brutal e, quando entreabri a boca para recebê-lo melhor, Darian aproveitou a rendição e prendeu meu lábio inferior entre os seus, sugou devagar antes de mordê-lo e, no instante em que gemi, aprofundou o beijo, sua língua encontrando a minha sem qualquer vestígio da contenção de antes.
Aquilo não parecia apenas um beijo. Era fome finalmente saciada e, ao mesmo tempo, inexplicavelmente piorada.
Enterrei os dedos nos cabelos da nuca dele e o puxei ainda mais contra mim, arrancando de seu peito um som gutural que vibrou entre nossas bocas — lobo, predador e homem misturados em uma coisa só.
Darian respondeu me beijando com ainda mais intensidade, como se cada segundo de contato apenas aumentasse a necessidade de outro. Seus dentes voltaram ao meu lábio, firmes o bastante para provocar uma pontada deliciosa de dor, e ele engoliu o gemido que escapou de mim antes de aprofundar novamente o beijo. Sua língua buscou a minha num ritmo cada vez mais urgente, e eu correspondi sem qualquer pudor, ofegante, agarrada a ele enquanto nossas bocas pareciam incapazes de se separar por tempo suficiente até mesmo para respirar.
Beijá-lo foi como beber depois de uma sede longa demais. Um alívio quase doloroso percorreu meu corpo quando finalmente parei de lutar contra aquilo, e percebi, com uma vertigem deliciosa, que Darian tinha razão: depois de provar um ao outro, nenhum de nós parecia disposto a parar.
Tudo que conseguia sentir era o gosto de sua boca, o roçar áspero da barba contra minha pele, os dedos quentes entre meus cabelos e a força cuidadosamente contida do braço que me mantinha colada a ele.
O desejo cresceu tão depressa, alimentado pelo que era meu e pelo que eu sentia reverberar dele através do vínculo, que minhas pernas começaram a perder a força. Tentei me firmar, mas meus joelhos cederam e meu corpo amoleceu contra o dele, inteiramente sustentado pelo seu braço em minha cintura.
Darian percebeu. Um som rouco escapou de sua garganta e, por um instante, seus olhos se reviraram como se sentir meu peso se rendendo em seus braços lhe provocasse um prazer quase insano.
Então me apertou ainda mais contra o peito e voltou à minha boca com uma fome renovada, como se descobrir o efeito que tinha sobre mim houvesse destruído mais uma parte de seu controle. E, sempre que ele ameaçava se afastar para respirar, eu o procurava outra vez, incapaz de suportar sequer aqueles poucos centímetros de ausência.
Quando nossas bocas finalmente se separaram, o ar entrou quente e insuficiente em meus pulmões.
Continuei mole nos braços dele, os dedos ainda presos em seus cabelos, enquanto Darian encostava a testa na minha e tentava recuperar o fôlego.
Ele também estava desfeito e essa constatação, de que aquele homem sempre tão inabalável mal conseguia respirar por minha causa, provocou em mim uma satisfação quente e vertiginosa.
Eu não sabia se aquilo era o vínculo, ou o quanto de tudo aquilo teria existido mesmo sem aquela força nos empurrando um para o outro. Mas no momento, não importava.
— Zuri... — Sua voz saiu arrastada, rouca, como se cada sílaba custasse a sair da garganta. — Você não faz ideia do que está fazendo comigo.
Ele desceu a boca pelo meu rosto em beijos quentes, quase devotos, até alcançar meu pescoço, onde a língua encontrou a pulsação sob minha pele antes de seus lábios se fecharem sobre ela numa reverência quase religiosa.
Nem tive medo de que ele me marcasse naquele momento.
Fechei os olhos e deixei a cabeça tombar para trás, oferecendo-lhe mais espaço enquanto o prazer me amolecia ainda mais em seus braços. Darian demorou-se ali por alguns segundos, como se saboreasse minha entrega, antes de refazer lentamente o caminho até minha boca e tomá-la outra vez num beijo profundo e faminto.
— Eu quero tanto você — ele sussurrou contra meus lábios, o hálito quente misturando-se ao meu, incapaz de ficar longe da minha pele nem por um segundo —, que chega a doer aqui. — Sua mão subiu até o próprio peito, batendo uma vez, como se pudesse mostrar a dor física do desejo. — Fica comigo. Seja minha Luna. Seja minha, por favor. Só minha.
Deus... como eu queria pertencer a esse homem.
E talvez fosse justamente isso que mais me assustava: começava a acreditar que nem tudo entre nós vinha do vínculo. Que, por baixo daquela força sobrenatural que insistia em nos empurrar um para o outro, havia alguma coisa que era apenas nossa. Um desejo que não tinha sido imposto. Um sentimento que nascera de nós dois.
Uma escolha.
Estava prestes a responder que sim. Que seria dele da forma que ele desejasse…
Mas alguma coisa mudou enquanto Darian ainda me beijava.
O calor de seu corpo contra o meu começou a desaparecer devagar, como se estivesse sendo levado por uma corrente invisível. A boca que eu ainda sentia sobre a minha tornou-se distante, o braço firme em minha cintura perdeu consistência e, por um instante desconcertante, tive a sensação de estar entre dois lugares ao mesmo tempo.
Ainda havia Darian, seu cheiro, sua pele, o calor da sala — mas outras sensações começaram a atravessá-los: umidade, frio e fumaça.
Um gosto metálico de sangue explodiu no meu paladar onde, um segundo antes, só existia o gosto de sua boca.
Então tudo cedeu por completo, e a certeza me atravessou antes mesmo que eu pudesse compreender o que estava acontecendo: eu já não estava mais no presente.
Não sabia se aquilo pertencia ao passado ou ao futuro, apenas que, de algum modo impossível, eu havia sido arrastada para outro momento.
Quando abri os olhos, Darian já não me segurava diante dele e eu não estava mais naquela sala. Havia madeira áspera sob meus joelhos, chuva golpeando algum lugar próximo e um frio úmido penetrando minhas roupas até alcançar os ossos.
Pisquei, atordoada, tentando entender como podia ter saído de um lugar e aparecido em outro sem sequer ter me movido.
O que está acontecendo comigo?
Tentei puxar o ar, mas meus pulmões não responderam. Só então percebi as mãos que me seguravam, fortes demais, enquanto meu corpo lutava desesperadamente por uma respiração que não vinha.
Ergui o rosto e o vi.
Darian Ashford.
O mesmo rosto que eu beijava segundos antes estava diante de mim, mas havia algo profundamente errado.
Seus olhos ardiam em cobre e, daquela vez, não havia desejo algum neles. O cabelo estava mais comprido, úmido pela chuva, as roupas eram outras, antigas talvez, e havia em sua expressão uma devastação que eu nunca tinha visto.
Ele parecia fora de si, em ruínas.
Só então percebi como ele me segurava. Eu estava de joelhos, e Darian havia se abaixado comigo, um braço firme ao redor das minhas costas para me manter contra ele. Não sabia se ele me impedia de cair ou de fugir.
Tentei recuar, mas aquele corpo não respondeu como deveria. Foi então que baixei os olhos e vi o que havia na outra mão dele.
Havia uma adaga nela.
O metal era escuro, quase negro, comprido o bastante para fazer meu estômago se contrair, e sulcos estreitos percorriam a lâmina até desaparecerem sob os dedos fechados no cabo. A mão de Darian tremia como se ele estivesse lutando para recuperar o controle.
— Não, por favor... não faça isso… — As palavras saíram da minha boca sem que eu as escolhesse.
Um arrepio de puro horror me atravessou.
Eu sentia aquele corpo, respirava através dele, enxergava por seus olhos, mas não comandava o que fazia ou dizia. Era como estar presa dentro de outra pessoa, obrigada a viver o que acontecia com ela.
Darian ergueu a adaga.
Tentei me afastar e, dessa vez, meu corpo reagiu com o mesmo desespero, debatendo-se contra ele. Darian me segurou com mais força, impedindo que eu escapasse. Quando ergui os olhos para seu rosto, vi seu maxilar tremer.
— Me perdoa... por favor. — A voz de Darian falhou, e sua mão tremeu ao redor da adaga. — Eu não consigo... Não consigo fazer isso parar.
Então a lâmina entrou no meu peito.
A dor foi brutal. Meu corpo se arqueou nos braços dele, e só consegui ver fragmentos: o rosto de Darian contraído de horror, a chuva presa em seus cílios, sua mão ainda fechada ao redor do cabo.
Mas não foi o corte que me fez gritar. A verdadeira dor veio um instante depois, quando alguma coisa dentro de mim respondeu à lâmina.
Senti um puxão profundo, impossível, vindo de um lugar que não era carne nem osso. Algo se desprendia dentro de mim e avançava em direção a Darian, enquanto meu corpo reagia com um desespero quase animal, contraindo-se em seus braços como se tentasse reter aquilo a qualquer custo.
Eu não sabia o que ele estava arrancando de mim. Só sabia que me pertencia de uma forma tão fundamental que perdê-lo parecia pior do que a própria lâmina atravessando meu peito.
O que ele está fazendo comigo?
Minha força começou a desaparecer. O frio avançou pelas extremidades, minha visão vacilou e, em meio ao pânico, uma certeza terrível se formou antes que eu estivesse pronta para aceitá-la.
Eu estava morrendo.
Ergui os olhos para Darian.
Ele estava me matando.
ZURISemanas antesPor alguns segundos, tive certeza de que havia entendido errado.Continuei olhando para Alistair, esperando que ele reformulasse a pergunta ou demonstrasse qualquer sinal de que aquilo fosse algum tipo de brincadeira particularmente elaborada. Não aconteceu. Seu rosto permaneceu sério, assim como o de Darian, parado perto da lareira, e até Eleanor, apesar da expressão mais gentil, parecia aguardar minha resposta como se o marido tivesse acabado de perguntar alguma coisa perfeitamente razoável.Lobisomens.De todas as explicações que eu havia imaginado para essa noite, aquela definitivamente não estava entre as primeiras cinquenta. Vampiros tinham passado pela minha cabeça. Alienígenas também, embora eu tivesse a decência de reconhecer que nenhuma das duas hipóteses merecia ser levada a sério.Lobisomens, curiosamente, não considerei.Apoiei a xícara no pires antes que minhas mãos decidissem começar a tremer.— Lobisomens... — repeti devagar, ainda procurando no ro
DARIANSemanas antesA incredulidade em seu rosto era tão evidente que, por um instante, apenas a observei.— Desculpa... o quê?Zuri tinha ouvido perfeitamente. Seu coração continuava acelerado, e eu ainda sentia pelo fio a confusão que se misturava à atração que ela tentava compreender.— Você é minha companheira — repeti, sem encontrar motivo para suavizar uma verdade tão simples.Ela me encarou como se eu tivesse enlouquecido.Ao nosso redor, os primeiros murmúrios começaram a romper o silêncio, mas não lhes dei atenção. Eu sabia o que aquela cena significava para todos os lobisomens presentes e sabia que, antes do fim da noite, a notícia de que eu havia reconhecido minha companheira provavelmente já teria atravessado metade das famílias importantes do território. Só que nada disso me interessava naquele momento.Zuri, por outro lado, parecia cada vez mais desconfiada. Seus olhos se demoraram nos meus por alguns segundos antes de percorrerem meu rosto, procurando alguma explicaçã
DARIANSemanas antesDuas horas antes da recepção, eu estava diante do espelho ajustando o nó da gravata quando meu pai entrou no quarto sem esperar que eu respondesse à batida. Pelo reflexo, vi Alistair fechar a porta atrás de si e caminhar alguns passos para dentro antes de parar, as mãos nos bolsos da calça e aquela expressão controlada que costumava significar que ele não tinha vindo discutir nada particularmente agradável. Continuei trabalhando na gravata. Se o assunto fosse urgente, ele falaria. Se não fosse, eu não pretendia facilitar.— Os dois representantes da Hawthorne chegaram esta tarde — informou finalmente. — Zuri Calloway e Elliot Mercer. Estarão na recepção esta noite.O nome dela não significou absolutamente nada para mim naquele momento. Eu havia visto os documentos do contrato, aprovado os valores e lido os relatórios sobre a empresa contratada, mas não tinha interesse suficiente na equipe operacional para decorar quem faria o quê. Minha participação naquele proje
ZURISemanas antes— Desculpa... o quê?Eu tinha ouvido perfeitamente, mas alguma parte do meu cérebro ainda parecia convencida de que, se ele repetisse, as palavras poderiam adquirir um significado menos absurdo. Darian continuava diante de mim, os dedos firmes ao redor do meu braço e os olhos acesos naquele cobre impossível, sem demonstrar o menor constrangimento por ter acabado de anunciar aquilo no meio de uma sala lotada. Ao nosso redor, o silêncio começava a se desfazer em murmúrios baixos, espalhando-se entre os convidados como se todos soubessem alguma coisa que Elliot e eu ignorávamos.— Você é minha companheira — repetiu Darian, e a certeza absoluta em sua voz conseguiu tornar tudo ainda mais estranho.Durante alguns segundos, uma quantidade pouco profissional de respostas atravessou minha cabeça. Você está maluco? Bateu a cabeça antes de entrar aqui? Comeu merda? Alguém colocou alguma coisa na sua bebida?A última ganhou alguma plausibilidade quando voltei a reparar nos o
ZURISemanas antesA placa anunciando Vesper Hollow surgiu quando já estávamos havia quase uma hora cercados por árvores. Depois de longas horas em um voo nada tranquilo, retiramos no aeroporto o carro alugado que a Hawthorne havia reservado para usarmos durante nossa estadia na cidade. Eu tinha visto fotografias da cidade antes da viagem, pesquisado a localização e até percorrido parte do trajeto pelo mapa, mas nada havia me preparado para a quantidade de floresta que existia ao redor dela. A estrada avançava entre pinheiros altos e montanhas que pareciam cada vez mais próximas, enquanto o sinal do meu celular oscilava entre uma barra e nenhuma.— Se o carro quebrar, eu quero deixar registrado que a ideia de vir pela estrada panorâmica foi sua — falei, olhando pela janela.— São só vinte minutos a mais. — Elliot manteve uma das mãos no volante e apontou para a paisagem com a outra. — Olha isso. Quando foi a última vez que você viu alguma coisa além de prédio, aeroporto e arquivo?—
ZURISemanas antes Quando minha chefe colocou uma pasta preta sobre a mesa e anunciou o valor do contrato que acabávamos de conseguir, Elliot engasgou com o café.— Desculpa. — Ele limpou a boca com as costas da mão e se inclinou para conferir o número outra vez. — Eu achei que você tivesse dito dois milhões.Margaret ergueu os olhos por cima dos óculos.— Eu disse dois milhões.Elliot virou lentamente o rosto para mim.— Zuri, por esse dinheiro, eu digitalizo até a lista de compras do tataravô deles.Mordi a parte interna da bochecha para não rir. Não funcionou muito bem. Margaret percebeu, como percebia tudo o que acontecia dentro da Hawthorne Heritage & Archives, e me lançou o mesmo olhar de reprovação que costumava reservar para pessoas que entravam em nossa área de conservação carregando café.— Terminou, Mercer?— Provavelmente não, mas posso fazer uma pausa.— Faça.Elliot recostou-se na cadeira com um sorriso inocente demais para alguém que trabalhava ali havia quase cinco an







