LOGINNatalie
Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me encarando como se estivesse tentando decidir o que fazer. Então veio até mim, segurou meu braço e me puxou para fora. — Anda — ordenou, me arrastando e fazendo-me tropeçar. — Mãe, calma. Me deixa explicar... — tentei acompanhar seus passos, mas ela não diminuiu o ritmo. — Cala a boca. —respondeu seca, apertando ainda mais meu braço. Ela me levou para dentro de casa, fechou a porta atrás de nós e me empurrou em direção ao corredor. Bati as costas contra a parede e perdi o ar com o impacto. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes que ela me desse um tapa no rosto. — Você perdeu a cabeça? — gritou, com a voz carregada de raiva. — Depois de tudo que ele fez, é assim que você retribui? — Eu só me defendi. — respondi, sentindo a voz falhar enquanto minhas mãos ainda tremiam. — Você é uma filha ingrata! Ela veio para cima de mim antes que eu pudesse recuar. Puxou meu cabelo e começou a me bater com socos e chutes. Tentei me proteger como pude, encolhendo o corpo e cobrindo o rosto com os braços. — Você deveria ter morrido junto com seu pai! — gritou enquanto me arrastava pelos cabelos. Ao chegar na porta do quarto, ela soltou meu cabelo e me empurrou para dentro. Cambaleei para trás e caí sentada no chão. — Você vai ficar trancada no seu quarto e sem comer. Talvez assim aprenda a pensar antes de fazer as coisas. — A frieza em sua voz fez um arrepio percorrer meu corpo. Ouvi a chave girar na fechadura. Fiquei algum tempo sentada ali. Quando finalmente consegui me levantar, caminhei até a cama e me sentei na beirada. Meu rosto ardia, meu couro cabeludo doía e cada movimento fazia alguma parte do meu corpo reclamar. Passei a língua pelo canto da boca e senti outra vez o gosto metálico do sangue. Mas não era a dor que mais me incomodava. Fechei os olhos e tentei afastar a lembrança do que havia acontecido. A sensação das mãos dele sobre mim fazia meu estômago se revirar. Passei as mãos pelos braços, como se pudesse apagar aquela sensação da minha pele. Senti nojo. Não dele. De mim mesma. Embora soubesse que eu não tinha feito nada de errado, uma parte de mim ainda se perguntava se havia alguma coisa que eu poderia ter feito diferente. Eu queria arrancar aquela lembrança da cabeça, tomar um banho e esfregar a pele até não sentir mais nada. Apertei os braços contra o corpo e respirei fundo, tentando conter o tremor que voltava às minhas mãos. Olhei ao redor e tive a impressão de aquelas paredes haviam ficado menores. Eu já havia sido trancada ali antes, mas agora era diferente. Eu não conseguia parar de pensar no que Marcus poderia contar sobre o que aconteceu. E se ele dissesse aos policiais que eu o ataquei sem motivo? E se ninguém acreditasse na minha versão? Mas o que mais me assustava era pensar no que aconteceria quando ele voltasse para casa. Depois do que eu tinha feito, não fazia ideia do que ele seria capaz de fazer comigo. Peguei o celular sobre a cama e entrei na minha última conversa com Elisa. Passei os olhos pelas mensagens antes de finalmente começar a digitar. - Você ainda acha que eu posso ir? Perguntei, segurando o celular com as mãos trêmulas. A resposta chegou poucos segundos depois. - Claro que sim. Eu estava esperando você decidir. Fiquei alguns segundos olhando para a tela antes de responder. - Eu não posso mais ficar aqui. - Então não fica. Você pode vir para cá. A gente dá um jeito. Passei o polegar pela tela, hesitando antes de finalmente escrever: - A proposta que você me fez ainda está de pé? A resposta demorou um pouco mais dessa vez. - Até onde sei, sim. Se você vier, eu falo com o gerente assim que chegar. Li a mensagem duas vezes. Aquelas palavras não garantiam que tudo daria certo, mas havia alguma coisa esperando por mim do outro lado daquela porta. - Eu quero ir. - Tem certeza? Olhei novamente para a porta trancada antes de responder. - Tenho. Deixei o celular de lado e respirei fundo. Minha mãe estava com a chave, então sair por ali não era uma opção. Foi quando reparei na janela. Levantei-me e caminhei até ela. Abri a cortina e olhei para o quintal. Não era tão alta, mas eu teria que me arriscar. Quando voltei para perto da cama, percebi as manchas de sangue na minha blusa. Não queria continuar vestindo aquilo. Peguei outra no armário e me troquei rapidamente, evitando olhar por muito tempo para a roupa que havia tirado. Fui até a mochila que estava no canto do quarto e coloquei algumas roupas, minha escova de dentes, o carregador do celular e o pouco dinheiro que tinha guardado. O barulho de passos no corredor me fez congelar. Segurei a mochila contra o peito e fiquei em silêncio, até ouvir os passos se afastarem. Logo depois, ouvi a voz da minha mãe vindo da sala. Ela estava ao telefone provavelmente falando com Marcus. Se eu quisesse sair, aquela era a minha chance. Coloquei a mochila nas costas e voltei até a janela. Abri com todo cuidado para não fazer barulho e olhei uma última vez para a porta trancada. Eu não podia esperar mais. Passei uma perna pela janela e me apoiei no parapeito antes de descer. Quando meus pés tocaram o chão, pisei em falso e senti uma dor forte no tornozelo. Perdi o equilíbrio e caí de joelhos, apoiando as mãos no chão. A dor me fez fechar os olhos por um instante, mas não olhei para a janela atrás de mim. Eu precisava continuar. Levantei-me com dificuldade e comecei a caminhar pela estrada de terra, mancando e apertando a alça da mochila contra o ombro. Quando já estava alguns metros distante da casa, ouvi o cachorro do vizinho latir. Parei e olhei para trás. Então ouvi a porta da nossa casa se abrir.NatalieUma semana depois... Parei diante dos mesmos portões, segurando a lista que Claire havia me entregado. Respirei fundo antes de apertar o interfone, tentando controlar a ansiedade.O estalo do portão destravando ecoou na rua silenciosa. Caminhei até a entrada e, antes que pudesse bater, a porta se abriu.— Bom dia, Natalie. Entre — disse uma senhora de cabelos grisalhos, sorrindo de leve. — Sou a Norma. — Bom dia, Norma — respondi, entrando no hall.— A senhorita Claire teve que ir cedo para a faculdade, e me pediu para te orientar no que for preciso — explicou Norma, fechando a porta atrás de mim.— Tudo bem. Onde está a senhora Vivian? — perguntei, seguindo-a até a cozinha. — No quarto de hóspedes, no fim do corredor à esquerda —disse ela, estendendo a bandeja para mim. — Esse é o café da manhã dela. Qualquer coisa, estarei por aqui.Segui até o quarto com cuidado. Quando parei diante da porta, respirei fundo e bati duas vezes na madeira.— Pode entrar — respondeu uma voz
Natalie Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café vindo da cozinha. Sentei devagar na cama e uma dor incômoda latejou no tornozelo assim que coloquei os pés no chão. Encontrei Elisa na cozinha preparando o café e, assim que me viu entrar, ela apontou para uma cadeira à mesa. — Senta e come alguma coisa. Eu tenho uma notícia sobre o trabalho que te falei — disse Elisa, servindo duas xícaras. — A vaga para garçonete na boate foi preenchida? — perguntei, sentando-me e esperando que ela continuasse. — Foi, mas uma colega da faculdade está procurando alguém para cuidar da mãe nas próximas semanas — ela explicou, sentando-se à minha frente. — A mulher sofreu um acidente e vai precisar de ajuda. — E você acha que ela vai me contratar? — perguntei. — Ela quer te conhecer primeiro. Mandei mensagem e ela disse que pode te receber hoje pela manhã — respondeu ela, terminando o café. — Se você topar, vamos agora. Aceitei com um aceno. Saímos do apartamento e, cerca de vinte minut
Natalie De madrugada, quando o turno de Elisa finalmente terminou, saímos juntas da Velaris. O movimento na boate já começava a diminuir, e eu sentia meu corpo pesado depois de tudo o que aconteceu naquele dia. Entramos no carro assim que Elisa destravou as portas. — Você está com uma cara péssima — comentou Elisa, ligando o carro. — Obrigada pelo elogio — respondi, deixando escapar um sorriso cansado. — Estou falando sério. Você precisa descansar. — Eu sei. Só quero chegar logo ao seu apartamento. Seguimos em silêncio por algumas ruas enquanto eu apoiava a cabeça na janela, observando as luzes da cidade passarem. Foi quando percebi pelo retrovisor as luzes vermelhas e azuis de uma viatura surgindo logo atrás de nós. O breve toque da sirene fez Elisa diminuir a velocidade e encostar no acostamento. Um dos policiais se aproximou pelo lado do motorista enquanto o outro permaneceu alguns passos atrás, vigiando. — Boa noite — cumprimentou o policial se aproximando da janel
Natalie —É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada.— Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona.Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça.— Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro.Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta.Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas.Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia
NatalieO barulho da porta se abrindo me fez travar. Escondida no mato, a poucos metros da casa, eu tentava respirar sem fazer barulho. Por uma pequena abertura entre as folhas, vi minha mãe sair com o celular na mão. Ela atravessou o quintal e, antes de seguir para o galpão, parou por alguns segundos e olhou naquela direção.Marcus deve ter pedido para que ela verificasse alguma coisa antes de voltar do hospital. Quando ela se aproximou do galpão, abaixei-me e esperei até vê-la entrar.Apertei a alça da mochila e segui pelo pequeno caminho de terra que levava para fora da nossa propriedade, afastando os galhos que encontrava pela frente. A cada passo, sentia meu tornozelo doer, mas continuei mesmo assim.Ouvi veículos passando ao longe e segui naquela direção, tentando me orientar pelo som.Quando finalmente cheguei ao asfalto, olhei para os dois lados. Não havia placas indicando qual direção seguir, e eu nunca tinha ido além daquela região. O mais longe que costumava ir eram as ca
Natalie Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me encarando como se estivesse tentando decidir o que fazer. Então veio até mim, seguroumeu braço e me puxou para fora.— Anda — ordenou, me arrastando e fazendo-me tropeçar. — Mãe, calma. Me deixa explicar... — tentei acompanhar seus passos, mas ela não diminuiu o ritmo.— Cala a boca. —respondeu seca, apertando ainda mais meu braço.Ela me levou para dentro de casa, fechou a porta atrás de nós e me empurrou em direção ao corredor. Bati as costas contra a parede e perdi o ar com o impacto. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes que ela me desse um tapa no rosto.— Você perdeu a cabeça? — gritou, com a voz carregada de raiva. — Depois de tudo que ele fez, é assim que você retribui? — Eu só me defendi. — respondi, sentindo a voz falhar enquanto minhas mãos ainda tremiam.— Você é uma filha ingrata! Ela veio para cima de mim antes que eu pudesse recuar. Puxou meu cabelo e começou a me bater com socos e chutes. Tentei me pr







