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Capítulo 3

Author: Moxi
No ano em que Lívia e Gustavo se casaram, Isadora e Joaquim Queiroz se divorciaram.

Os negócios de Joaquim tinham fracassado.

As dívidas não conseguiram destruir a família, mas a descoberta de que ele mantinha uma amante, sim.

Mais uma discussão violenta explodira em casa.

Lívia ainda se lembrava da noite em que Joaquim fora embora.

Furiosa, Isadora gritara:

— Vai atrás daquela mulher, então! E nunca mais volta!

Queria fazer ele ficar, mas acabara dando o pretexto de que Joaquim precisava para sair.

Naquele dia, Lívia estivera tão calma quanto Isadora agora.

Tinha ouvido Isadora dizer:

— Casamento é isso. Pensa bem se ainda quer casar com Gustavo.

Mas também não tinha conseguido dar ouvidos ao conselho.

Como qualquer mulher apaixonada, acreditava que seu amor era diferente.

E fora cruel ao responder:

— Eu não sou você. E Gustavo não é Joaquim.

No fim, acabara seguindo o mesmo caminho de Isadora.

A ligação terminou em discussão.

Sem forças, Lívia se apoiou na parede e cobriu o rosto. Uma aversão profunda tomou conta dela.

Não era por Gustavo. Nem por Isadora.

Era por si mesma.

As brigas e o silêncio dentro de um casamento já eram terríveis.

Mas o pior era o estrago que faziam por dentro.

Aos poucos, destruíam sua confiança, faziam ela duvidar de si, diminuir o próprio valor e, por fim, desprezar a pessoa que tinha se tornado.

Enquanto enxugava as lágrimas, Lívia viu Thiago sair pela porta dos fundos, ali perto.

O terno estava impecável.

De expressão distante, ele segurava um cigarro ainda apagado entre os dedos.

Seus olhos escuros encontraram os dela sem revelar nenhuma emoção.

— Veio buscar o carro?

— Vim.

Lívia conteve as lágrimas que ameaçavam escapar outra vez.

— Obrigada por ontem.

Thiago lançou um olhar em sua direção.

— Antes você não agradecia tanto.

Ela não sabia a que época ele se referia.

Mas, no ensino médio, quando tentava conquistar Thiago, realmente não media suas atitudes.

Fazia o que tinha vontade.

Só porque sentavam juntos, deixava o próprio lugar vazio e ocupava o dele quando ele saía.

Depois, ainda justificava com a maior tranquilidade:

— Eu gosto de sentar perto da janela.

Não tinha vergonha nenhuma.

Mesmo quando Thiago se sentava no lugar dela de cara fechada, Lívia se inclinava na direção dele.

— Eu gosto de você.

Ele não respondia. Só ficava ainda mais sério.

Agora, ela mal lembrava como era sentir o coração acelerar por alguém.

Muito menos tinha coragem de fazer alguma coisa a respeito.

Os dez anos com Gustavo tinham apagado seu jeito, seu temperamento e toda a vontade de viver aquele tipo de emoção.

Lívia não encontrou resposta para o comentário.

Thiago também não parecia interessado em prolongar a conversa.

Desviou o olhar e se afastou para fumar.

......

Lívia voltou de carro ao hospital, vestiu o jaleco e passou no banheiro.

Ao sair da cabine, encontrou Paula diante da pia.

— Ontem nevou tanto... Você não passou frio no caminho para casa?

Paula parecia preocupada.

Lívia abriu a torneira sem levantar a cabeça.

— Se tivesse passado mal, você acha que eu estaria aqui?

A voz era fria. Não havia nem um esboço de sorriso em seu rosto.

Paula demonstrou o incômodo.

— Você não gosta de mim?

Lívia fechou a torneira e encarou ela.

— Tem algum motivo para eu gostar?

Paula apertou os lábios.

— Você é a esposa do Gustavo, e ele é meu chefe. Claro que eu quero ter sua aprovação.

Lívia sorriu sem humor.

— Já reconheci que você é namorada do Gustavo. Quer mais aprovação do que isso? Ou está querendo ser a esposa? Nesse caso, um conselho: se casar com ele, esteja preparada para ser traída muitas vezes. Entendeu?

Os olhos de Paula ficaram vermelhos.

— Só quis saber como você estava. Vim cumprimentar, e você me trata assim? Pode entender minhas intenções errado, mas falar desse jeito dele não é demais? Gustavo passou mal ontem à noite, e eu trouxe ele ao hospital hoje cedo. Você não demonstra nenhuma preocupação e ainda fica fazendo pouco. É muita...

Paula a encarava como se tivesse toda a razão.

Para Lívia, sobrava o papel de vilã.

Ela pegou uma toalha de papel e secou as mãos.

— O Gustavo está com algum problema na cabeça?

Paula ficou sem reação.

— Ele bebeu demais e teve uma hemorragia no estômago.

— Então quem está com problema na cabeça é você?

— Você é médica! Como pode insultar os outros? Não tem educação?

Lívia não respondeu.

Saiu do banheiro com a mão esquerda no bolso e apontou para a placa do setor com a direita.

— Gustavo está com uma hemorragia no estômago. Em vez de ficar na gastroenterologia, lá embaixo, você veio parar na neurocirurgia. Pode explicar o que está fazendo aqui? Não deixaram você usar o banheiro de lá?

Seu rosto continuava impassível.

Paula fechou as mãos.

Lívia era linda a ponto de prender qualquer olhar. Mesmo sem expressão, seus olhos continuavam cativantes.

Não era difícil alguém se apaixonar por ela.

Paula já ouvira muitos comentários na empresa.

Diziam que Gustavo se interessara por ela porque seu rosto lembrava um pouco o da Lívia de antigamente.

Não se importava.

Era mais doce do que Lívia e entendia Gustavo melhor.

Acima de tudo, Lívia estava quase nos trinta.

Ela tinha só vinte e dois anos. Era muito mais jovem.

Nenhum homem resistia a uma mulher jovem.

Paula abriu um sorriso confiante.

— Quando uma garota nova faz birra, o homem acha que ela tem personalidade. Depois de certa idade, continuar sendo amarga assim só irrita. Você deve saber disso melhor do que ninguém, não é?

Lívia ergueu os olhos.

— Está tão empenhada em dizer que uma mulher de vinte e oito anos não vale nada... Sua mãe não chegou a essa idade? Ou você pretende morrer antes?

O rosto de Paula ficou vermelho de raiva.

— Você...

Lívia interrompeu, sem paciência:

— Se tem algum problema na cabeça, vai se tratar. E outra: Gustavo é um nojo. Se quiser, pode ficar com ele. Não tenho a menor intenção de disputar ele com você.

Os olhos de Paula se encheram de lágrimas.

Ao olhar para trás de Lívia, porém, ela fez um esforço visível para não chorar.

Lívia se virou.

Gustavo estava encostado na parede, de camisa e calça social.

Parecia pálido e um pouco fraco. O olhar, porém, era sombrio e não saía dela.

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