LOGINNo dia do nosso casamento, justamente quando o celebrante pediu que trocássemos as alianças, Gabriel, parado diante de mim, disse de repente: — Na verdade, estou tendo um caso com a sua melhor amiga. Fiquei paralisada, encarando-o, sem conseguir acreditar no que acabara de ouvir. Gabriel, porém, não hesitou nem por um instante. Continuou sereno, como se estivesse falando de algo absolutamente banal. — No dia em que você foi experimentar o vestido de noiva, nós transamos no provador ao lado do seu. Ela não conseguiu se segurar e gemeu algumas vezes. Você achou que ela estava passando mal e ficou preocupada com ela por um tempão. Quando voltou para o seu lado, as pernas dela ainda estavam tremendo. Um frio percorreu meu corpo inteiro. Rígida, virei a cabeça devagar e procurei minha melhor amiga entre os convidados. Ela sorria, radiante. Ergueu o buquê acima da cabeça e gritou meu nome no meio da multidão. Apenas uma hora antes, tinha sido ela quem, com os olhos marejados, ajeitara a barra do meu vestido e me fizera prometer que seria feliz. Gabriel prosseguiu: — E pouco antes da cerimônia, enquanto você se maquiava, ela estava sentada no meu colo. Ficou tão nervosa que deixou minhas costas todas arranhadas. Então baixou os olhos para a aliança que ainda segurava entre os dedos, sem nunca ter chegado a colocá-la em minha mão. Quando tornou a falar, sua voz continuava fria, quase indiferente. — Carolina, eu já contei tudo. Se ainda quer se casar comigo ou não, a decisão é sua.
View MoreOito anos.É.Eu já havia desperdiçado oito anos da minha vida com ele.E quantos períodos de oito anos alguém tinha para desperdiçar?Gabriel continuava batendo a testa contra o chão, cada vez com mais força, como se machucar a si mesmo pudesse compensar tudo o que havia me feito sofrer.A cena logo começou a chamar atenção.Os pedestres diminuíam o passo, paravam e cochichavam entre si, tentando entender o que estava acontecendo.Gabriel, que sempre se importara tanto com a opinião dos outros, parecia não enxergar ninguém ao redor.Continuava ajoelhado, completamente alheio à multidão.— Levanta.Ele não se mexeu.Pelo contrário, bateu a testa no chão outra vez, ainda mais forte.— Gabriel, isso muda alguma coisa?Minha voz continuou fria.— Já aconteceu. Minha mãe já foi enterrada. De que adianta fazer isso agora?— Carol...Ele finalmente ergueu a voz, trêmula.— Eu sei que não devia ter vindo.Engoliu em seco.— Sei que você não queria me ver. Sei também que fiz coisas imperdoávei
Gabriel só conseguiu descobrir meu paradeiro mais de um mês depois.Nesse tempo, pediu ajuda a todos que pôde e procurou cada conhecido que talvez soubesse alguma coisa sobre mim.Até que um amigo com quem nunca tivera muita intimidade lhe contou:— Eu vi a Carol em Santa Aurora.Gabriel comprou uma passagem no mesmo dia.Quando o avião pousou e ele saiu do aeroporto, parou diante daquela cidade desconhecida e olhou ao redor.Só então percebeu que não fazia ideia de por onde começar.Santa Aurora era enorme.Havia empresas demais, gente demais, lugares demais onde eu poderia estar. Mesmo assim, começou pelo que tinha.Passou a ligar para empresas uma por uma, perguntando por mim em todos os lugares que encontrava.Algumas diziam que não havia ninguém com aquele nome.Outras desligavam antes mesmo que ele terminasse de explicar.Gabriel passou a tarde inteira ao telefone e só parou à noite, quando a bateria do celular acabou e sua garganta já ardia de tanto falar.No dia seguinte, deci
Gabriel percorreu funerárias e cemitérios por toda a cidade.Foi de um lugar a outro, perguntando, procurando, insistindo sem descanso.Até que finalmente encontrou o nome da minha mãe em um cemitério cercado de flores.A lápide ainda era nova.Na fotografia, ela sorria.Era o mesmo sorriso que sempre surgia em seu rosto quando via Gabriel.Ele se lembrou de como minha mãe costumava segurar sua mão com carinho, os olhos cheios de alegria.— Gabriel, estou entregando a Carol aos seus cuidados. Cuida bem dela, viu?Gabriel caiu de joelhos diante da lápide.O impacto contra o chão foi forte.Devia ter doído.Mas ele não sentiu nada.— Tia...Tentou continuar, mas a voz saiu rouca, quase irreconhecível.Nenhuma outra palavra veio.E o que ele poderia dizer?Que, enquanto Carol levava dezessete pontos nas costas, ele estava cuidando de Juliana e colocando gelo em seu ferimento?Que, enquanto ela esperava sozinha diante da sala de cirurgia, rezando desesperadamente para que a mãe sobrevivess
Sem querer, Gabriel se lembrou do que havia desencadeado a crise da minha mãe.A imagem voltou inteira à sua cabeça.Quando entrara no quarto, encontrara minha mãe deitada na cama, extremamente debilitada, com os olhos perdidos no teto.Eu segurava Juliana com toda a força, transtornada, gritando com ela.Então era isso.Eu não estava fazendo cena.Não tinha simplesmente perdido a cabeça.Juliana havia provocado minha mãe a ponto de fazê-la passar mal.E, mesmo assim, Gabriel escolhera ficar contra mim.Tinha me afastado com um empurrão.Depois, mesmo vendo minhas costas feridas e cobertas de sangue, fora embora sem hesitar.As últimas forças de Gabriel se esvaíram.Ele desabou no chão, ainda segurando o celular com a mão trêmula.— Me desculpa, Carol. Eu errei. Eu errei.Sua voz mal saía.— Por favor... Atende. Eu te imploro.Ligou uma vez.Depois outra.E outra.A cada tentativa, repetia a mesma súplica, agarrando-se à esperança absurda de que, em algum momento, eu atenderia.Até que












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