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Capítulo 2: O Silêncio Entre as Notas

last update publish date: 2026-05-12 00:22:08

❥Capítulo 2: O Silêncio Entre as Notas

"Eu arrumo a casa da maneira que você gostava 

Mas sua capa ainda está no sofá, do dia que você partiu

Você me ensinou a cantar uma canção

E agora ela soa tão amarga

As palavras sempre doem, e eu perdi a melodia

Então eu vou comprar flores no supermercado

E arrumar toda essa mesa para uma só pessoa

Na esperança de que de alguma forma, de alguma forma

Eu me lembre de como era sentir seu amor

Você era um anjo para o mundo

Mas um anjo ainda maior para mim

E eu sinto sua falta

Mais do que qualquer palavra pode dizer"

Supermarket Flowers | Ed Sheeran

O uísque desce como lâmina quente pela garganta, mas o ardente é familiar — um velho inimigo que conhece cada um dos meus pontos fracos. Jurei que nunca mais voltaria beber pela Claire. Mas, hoje, ficou difícil  resistir. As crianças finalmente dormem, e agora estamos enclausurados na penumbra da sala.

— Como você está? — a voz de Zion é baixa, quase absorvida pela escuridão. Ele gira o copo entre os dedos, a luz do abajur dançando sobre o líquido âmbar como um farol trêmulo.

Engulo outro gole, sentindo o álcool travar batalha com a dor que insiste em permanecer.

— Vocês sabem que esse dia sempre será o pior para mim — digo, e minha voz soa estranhamente rouca, como se eu houvesse gritado por horas. Talvez eu tenha gritado. Nos primeiros anos, era assim: eu acordava aos berros, suando frio, convencido de que tudo não passava de um pesadelo. Até olhar para o lado e ver o espaço vazio na cama. Até me levantar e encontrar o sobretudo azul-marinho dela ainda pendurado atrás da porta, impregnado com aquele cheiro suave de lavanda que teimava em não desaparecer.

Meu aniversário. Seu aniversário de morte. O universo tem um senso de humor perverso, unindo duas datas que deveriam estar a mundos de distância.

Zion não diz nada. Sabe que não há palavras que possam preencher o vazio que ela deixou. Em vez disso, ele enche meu copo novamente, um gesto silencioso de solidão compartilhada. Fora, a chuva começa a cair, batendo contra as vidraças como se o céu também estivesse de luto.

— Às vezes — confesso, quebrando o silêncio pesado — ainda compro dois pães de canela no café da esquina. Chego em casa antes de perceber que não preciso mais disso.

Ele finalmente olha para mim, seus olhos refletindo a dor que eu carrego.

— Ela odiaria ver você assim, Dec. Sabia como você a amava, mas ela jamais quereria que você deixasse de viver por causa disso.

Um sorriso amargo curva meus lábios.

— Essa é a parte mais cruel — sussurro. — Se ela está em algum lugar, com certeza está furiosa comigo por não ter seguido em frente.

Luka levanta seu copo.

— Para ela, então. Para a mulher que nunca quisera ser motivo de sua tristeza, mas sim de sua força.

Maeve suspira, inclinando-se para frente.

— Eu acho que você deveria voltar aos palcos. Deixar o mundo ouvir as músicas que escreveu nesses seis anos.

Olho para as mãos. As mesmas mãos que seguravam o microfone para milhares, que acariciavam o rosto dela, que agora fazem fórmula de matemática da 4ª série e amarram cadarço de sapatos infantis.

— Não sei se ainda tem espaço pra mim. O mercado agora é de meninos de 20 anos com cabelo colorido.

Zion dá uma risada seca.

— E desde quando cantar tem uma faixa etária? Aquele vídeo que a Claire compartilhou na sua conta de artista? Ele viralizou, Dec. Eu estava no México e vi os comentários. As fãs estão implorando por você.

Claire. 

A porra do vídeo.

Ela me filmou cantando baixo no estúdio caseiro e postou sem eu saber.

— E o que eu faço com ela, Zion? Não vou virar um daqueles pais que largam os filhos pra correr atrás de fama. Antes ela tinha a Evie.

— Você não é tudo o que ela tem — ele corta. — Ela tem os avós, a Maeve, e a nós. Você não tá sozinho.

O copo pesa na minha mão.

Ela merecia mais.

Merecia uma mãe.

Merecia um pai que não fosse um farrapo humano.

— Não tô pronto.

Zion sabe quando parar. Ele muda de assunto, fala da turnê, das fãs que jogam sutiãs no palco.

— Espero que você não esteja espalhando suas sementes por aí — diz Maeve, com desdém e uma pitada de ciúmes na voz.

— Sempre tomando todos os cuidados cabíveis — ele fixa seu olhar nela, mostrando uma cartela de camisinha na carteira.

— E não pretende se casar mesmo? — provoco.

O sorriso some. Zion, Luka e Maeve são uma piada pronta. Eles se amam, se odeiam, transam, brigam, repetem.

— A única mulher que eu quis casar se recusa a ceder — ele murmura, voltando a olhar para ela e Luka pigarreia.

Ela apenas revira os olhos. 

— A única madrinha que desejo ter em meu casamento já não está mais entre nós, então, não. Agradeço.

Olho para a foto na estante. Evie sorrindo, grávida de Claire, com as mãos na barriga.

O Uísque acabou. Zion me olha, sério:

— Ela não ia querer você assim, Declan.

E é aí que eu quebro.

Porque ele tá certo.

Claire aparece na escada, esfregando os olhos.

— Você não deveria estar na cama, pequena? — Maeve pergunta a ela.

— Tô com sede — ela murmura, mas os olhos estão fixos em Zion. — Tio Z, você vai fazer o papai voltar a cantar?

Zion engole seco. Claire tem o dom de fazer perguntas que doem.

— Isso é coisa de adulto, pestinha. — Ele tenta disfarçar, mas a voz falha.

Claire avança até mim, cheirando a shampoo infantil e sonhos quebrados.

— Eu quero te ver cantando de novo, papai.

— Você sempre me vê cantando. — digo deixando ela me abraçar.

— Quero te ver se apresentar nos palcos, e tenho certeza de que minha mãe também ficaria feliz com isso.

Ela encolhe os ombros, num gesto que é tão Evie que me dói.

— Ela sempre sorria quando você cantava. Até quando era música triste.

Zion me olha como se tivesse acabado de receber um tiro. Talvez nós dois tenhamos levado.

O relógio da parede marca 2:17 AM. Fora, um carro passa com o rádio alto tocando "Flowers" da Miley Cyrus. A ironia não me escapa — a música sobre seguir em frente soando como uma piada cruel.

— Vamos — digo, pegando Claire no colo. — Hora de voltar pra cama.

Ela se aconchega no meu pescoço, quentinha e viva.

— Você promete pensar sobre o show?

Não respondo. Mas quando passo pela estante, vejo a foto de Evie sorrindo, e pela primeira vez em seis anos, imagino que talvez… só talvez… Zion e Claire estejam certos.

O quarto de Claire cheira a canela e giz de cera. Ela se enrola nos lençóis como um pequeno burrito, só os olhos — os tão parecidos com os meus — visíveis sobre a coberta.

— Conte mais da mamãe — ela pede, como faz toda noite desde que aprendeu a falar.

Minha mão treme ao afastar um cacho de cabelo da testa dela.

Seis anos contando histórias, seis anos tentando transformar migalhas de memória em algo que alimente essa criança faminta por uma mãe que nunca conheceu direito.

— Ela adorava sorvete de menta com calda de chocolate — começo, a voz saindo mais grossa que o normal. Mas só comia no inverno, dizia que era mais gostoso quando todo mundo achava absurdo.

Claire ri, o som mais puro do universo.

— Ela era engraçada!

— Era. — O passado dói nos dentes. — Uma vez, ela colocou marshmallow na pizza só pra me provocar.

— E você comeu?

— Claro que comi — finjo um suspiro dramático. — Teria comido barro se ela pedisse.

Claire se vira de lado, o ursinho de pelúcia esmagado contra o peito.

— Canta aquela música? A que você fez pra ela?

Eu deveria perguntar qual, já que todas que eu escrevi foram para a Evie.

Campo de Flores.

“Uau, esse campo de flores, como você achou?

Foi num caminho qualquer, o destino me levou…”

Minha voz racha no segundo verso. Claire não parece notar, seus olhos pesados de sono.

— Por que você parou de cantar, papai? — a pergunta sai sonolenta.

A resposta verdadeira morreria na minha garganta. Porque toda música era sobre ela. Porque o palco virou um caixão de memórias.

Porque, como diabos, eu canto sobre amor quando o meu foi enterrado numa cova vazia?

— Às vezes a gente perde a voz — minto, acariciando sua testa.

— Toda vez que você canta, — um bocejo — eu sonho com ela.

Saio do quarto com as pernas bambas. No corredor, a foto de Evie na parede me observa, sorrindo eternamente presa no tempo.

E pela primeira vez em seis anos, pego o violão empoeirado do armário.

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