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Capítulo 1: Ainda Sinto Você (Parte II)

last update publish date: 2026-05-12 00:18:34

Capítulo 1 (Parte II)

O sino da porta da Tony’s Pizzeria tilinta quando entramos, carregando o cheiro de neve, glacê e chocolate seco grudado em nossas roupas. O calor do forno a lenha nos envolve de imediato, e por um segundo o mundo parece menor, mais simples, confinado entre mesas de madeira gasta, quadros antigos nas paredes e o perfume absoluto de massa assada.

Claire puxa minha mão com ansiedade, praticamente me arrastando para dentro. Matthew corre na frente, direto para o mural de fotografias antigas, onde, claro, há uma imagem dele de três anos atrás com molho de tomate no rosto e expressão de quem havia acabado de cometer um crime gastronômico.

Foi então que ouvi a voz.

— Se não é a família mais barulhenta de Dublin.

Zion está sentado no canto, perto da janela, com uma garrafa de cerveja artesanal na mão e aquele mesmo suéter de tricô horroroso que Evie lhe deu no nosso último Natal juntos. O sorriso largo ilumina o rosto dele quando Claire solta um grito agudo e se j**a em seus braços.

— Tio Zion! Você mentiu! Disse que só voltava na próxima semana!

Ele a ergue com facilidade, girando-a no ar como costumava fazer quando ela era menor.

— E perder o aniversário do meu melhor amigo? Nem morto. Além disso, alguém precisa impedir que seu pai peça pizza de abacaxi.

— Trauma desnecessário — murmuro, aproximando-me.

Os olhos dele encontram os meus por cima do ombro de Claire, e por trás da piada existe algo mais quieto. Zion sempre soube brincar na beira dos abismos sem empurrar ninguém para dentro deles. Talvez por isso eu nunca tenha precisado explicar muita coisa. Ele apenas via.

Maeve surge ao meu lado e abraça Zion com a intimidade de quem já dividiu tanto crises de riso quanto madrugadas silenciosas demais.

— Ele já pediu com azeitonas pretas, seu favorito — ela diz.

— Então ainda existe bondade neste mundo — Zion responde, colocando Claire no chão.

Matthew, que nunca viu limites como conceitos sérios, já escalou a cadeira ao lado dele e cutuca o prato à sua frente.

— Você comeu a minha, cheddar bacon!

Zion ri, rouco, e tira uma fatia escondida debaixo do guardanapo.

— Só estava testando seus instintos de detetive, pequeno Sinclair.

Luka aparece atrás de nós com sua calma habitual, puxando duas cadeiras extras para a mesa redonda próxima ao forno.

— Sentem antes que eu desista de vocês e volte para o estúdio — ele resmunga.

O garçom chega nesse momento equilibrando três bandejas enormes. Claire b**e palmas ao ver a margarita clássica. Matthew já enfia a mão na pepperoni antes mesmo que o prato toque a mesa. Maeve tira o copo dele do alcance do cotovelo, prevendo desastre. Zion abre espaço para Claire sentar ao seu lado, enquanto Luka me empurra discretamente para a cadeira oposta.

O ambiente me envolve como um cobertor quente.

Observo Claire dividir a própria pizza com Matthew, ensinando-o a enrolar a ponta da fatia, exatamente como eu ensinei a ela anos atrás. Zion discute acordes com Luka, usando um guardanapo como se fosse partitura. Maeve ri de algo no celular e, por um instante, todos parecem pertencentes a um tipo de normalidade que eu pensei ter perdido para sempre.

É Zion quem quebra o encanto.

— Lembra daquela vez que você e Evie tentaram cozinhar para o Natal e quase incendiaram a cozinha?

Eu solto um riso involuntário, curto, pego de surpresa.

— Aquilo foi culpa do seu conselho ridículo de flambagem.

— Foi arte culinária avançada.

— Foi bourbon num fogo aberto.

Claire arregala os olhos, fascinada.

— Mamãe botou fogo na cozinha?

Maeve apoia o queixo na mão, sorrindo.

— Tecnicamente, seu pai botou. Sua mãe só aplaudiu.

— Ela tirou foto! — completo, balançando a cabeça. — Em vez de apagar o pano de prato pegando fogo, ela pegou a câmera.

Claire ri alto, e há qualquer coisa de perigosamente lindo na forma como o som dela preenche o espaço. É parecido com o da mãe, mas mais leve, mais novo. Menos memória, mais futuro.

— Ela devia ser muito engraçada — Claire comenta, antes de morder a pizza.

A frase cai na mesa com a suavidade de uma pena e o peso de uma pedra.

Ninguém responde de imediato.

Porque sim, ela era.

Engraçada de um jeito desarmado. Luminosamente inconveniente. Daquelas pessoas que tropeçam no tapete, derrubam a bolsa inteira no chão de um restaurante lotado e ainda fazem todos em volta rirem junto em vez de sentirem pena. Evie transformava falhas em charme com uma naturalidade irritante.

— Ela era — digo enfim. — Muito. E fazia piadas horríveis. Piores que as do tio Zion.

— Isso é calúnia — Zion protesta, levando a mão ao peito.

— Ela cantava bem melhor que ele também — acrescento.

— Agora sim você passou dos limites.

Claire sorri daquele jeito torto que quase sempre me desmonta.

— Eu queria lembrar mais dela.

O barulho da pizzaria continua ao redor: pratos, talheres, o forno crepitando, o sino da porta abrindo e fechando. Ainda assim, por um instante, tudo parece ficar distante.

Eu limpo os dedos num guardanapo e olho para minha filha.

— Você lembra algumas coisas — falo com cuidado. — Só não percebe.

Ela franze a testa.

— Tipo o quê?

Maeve troca um olhar silencioso comigo, como se pedisse permissão. Eu assinto.

— Você dança igual a ela quando acha que ninguém está vendo — Maeve diz.

— E faz aquela cara de nojo sempre que prova café — completa Luka.

— E fica brava quando alguém mexe nas suas estrelas do teto — Zion acrescenta. — Igualzinho.

Claire pensa nisso em silêncio, mastigando devagar.

— Eu também gosto de céu — ela murmura.

— Eu sei, estrelinha — respondo.

A expressão dela suaviza. E eu sinto o golpe familiar dessa mistura impossível entre perda e gratidão. Evie não está aqui. Mas está, de algum jeito impossível e cotidiano, nas pequenas manias da nossa filha. Nos gostos inexplicáveis. Nos gestos repetidos sem herança consciente.

Zion toma um gole da cerveja e me observa por cima da borda da garrafa.

— Sabe, ela odiaria ver você se culpando do jeito que ainda faz.

Minha mandíbula trava por reflexo.

— Zion…

— Não, escuta. — A voz dele não é dura. Só firme. — Você a amava. Todo mundo sabia. Evie sabia. O fato de você não ter respondido uma mensagem, ou não ter adivinhado uma surpresa, não reescreve uma vida inteira.

Olho para a mesa.

Para o guardanapo amassado.

Para a mão pequena de Claire roubando azeitonas do meu prato.

— Não parece tão simples — digo.

— Não é simples — Maeve intervém, suave. — Mas culpa e amor não são a mesma coisa, Declan. E você vive confundindo os dois.

As palavras dela me atingem num ponto exato, quase cirúrgico.

Luka apoia os antebraços na mesa.

— Você carrega isso como se estivesse pagando uma dívida. Mas não existe pagamento. Existe só o que vem depois.

“Depois.”

Passei seis anos odiando essa palavra.

Depois do acidente. Depois do enterro. Depois das reportagens. Depois da primeira vez que Claire perguntou quando a mãe voltava. Depois da primeira apresentação em que eu não consegui terminar uma música porque o timbre da plateia me lembrou o riso de Evie.

Depois nunca soou como continuidade.

Soava como traição.

— Talvez eu não saiba quem sou sem essa culpa — admito, em voz baixa.

Ninguém ri. Ninguém desvia. Ninguém tenta consertar a frase.

Claire apenas encosta a cabeça no meu braço.

— Você é meu pai — ela diz, como se isso bastasse.

E talvez baste.

Talvez eu tenha complicado demais algo que, no fim, sempre foi brutalmente simples: continuar não é esquecer. Respirar não é abandonar. Rir numa pizzaria, no dia em que o calendário insiste em sangrar, não apaga a dor. Só prova que ela não venceu tudo.

Zion estende a mão para o centro da mesa, pegando uma fatia.

— Então vamos fazer um acordo de aniversário — ele diz. — Você para de chamar a pizza de abacaxi de “aventura gastronômica” e nós paramos de deixar você se afogar sozinho na própria cabeça.

— Parece injusto — respondo.

— Excelente. Então está aceito.

Maeve ri. Luka balança a cabeça. Matthew, que claramente ouviu apenas a palavra “pizza”, levanta o copo como se estivesse brindando a um tratado internacional. Claire me olha de lado e sorri.

E eu sorrio de volta.

Não, porque estou curado.

Não, porque finalmente encontrei o tal fecho.

Mas porque, sentado ali, entre vozes, molho de tomate, amigos teimosos e uma menina de safira no dedo, eu entendo uma coisa que passei anos resistindo a aceitar:

o amor que ficou não precisa existir apenas como ferida.

Talvez ele também possa ser mesa posta. Fotografia no mural. Música antiga no estúdio. Pizza demais. Gente demais. Vida demais.

Talvez amar Evie, agora, seja permitir que ela continue viva nas partes bonitas — não só nas que doem.

Quando saímos da pizzaria, Claire enfia a mão pequena dentro da minha. A neve cai fina do lado de fora, pousando nos ombros do meu casaco. Antes de entrarmos no carro, olho para o céu escuro, pontilhado por poucas estrelas visíveis entre as luzes da cidade.

Por um instante, só um, levo a mão ao cordão sob a camisa e fecho os dedos em torno do anel.

Não como quem implora.

Como quem agradece.

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