Mag-log inEngraçado como as coisas nunca mudam nessa cidade
[…]
E eu me lembro de tudo
Desde quando éramos adolescentes brincando nesse parque de diversões
Queria estar com você lá agora
Se o mundo inteiro estivesse assistindo, eu ainda dançaria com você
Dirigiria por rodovias e cruzaria atalhos para estar com você
O tempo todo, a única verdade
É que tudo me lembra você
This Town | Niall Horan
LONDRES / DUBLIN
A luz do estúdio é suave, amarelada, diferente daquela claridade crua dos camarins. Fico sentado no banquinho, guitarra no colo, os dedos percorrendo as cordas sem pressa enquanto ajusto o último acorde da nova música.
Essa aqui é mais uma para você, Evie.
Claire está sentada no chão aos meus pés, desenhando em um caderno com a língua para fora — um hábito que herdou da mãe. Os rabiscos dela tomam a página inteira, cores vibrantes e formas que só fazem sentido na cabeça dela. Adoro isso.
Estive refletindo bastante sobre as palavras dos meus amigos e dela. Quem sabe eu possa retornar a cantar em pequenos shows.
— Eu gostei desse último refrão — ela diz, sem levantar os olhos do desenho.
O coração acelera levemente e um sorriso surge em meu rosto.
— Você diz isso em todos eles — dou um sorriso para ela, interrompendo a música por um momento. — Não importa quão horrível eu toque, você sempre aprecia. Assim como sua mãe…
Ela ri, mostrando o mesmo sorriso de Evie.
— O que posso fazer se, assim como minha mãe era, eu também sou apaixonado pela sua voz?
Estou prestes a responder a ela que me sinto privilegiado por ter uma fã como ela. É nesse momento que a porta do estúdio range e Luka entra.
— Cadê o rockstar aposentado? — ele grita, segurando duas latinhas de cerveja.
Claire levanta num pulo.
— Padrinho!
— Minha rainha! — Ele a pega no ar, fazendo ela gargalhar — mas antes ele j**a uma das cervejas para mim, deixando a outra sobre o sofá perto da porta. Eu pego no ar, mas nem abro. Só balanço a cabeça.
— E aí, vai deixar essas músicas mofando aqui ou vai botar pra tocar de verdade? — ele pergunta, sério por um segundo.
Claire me olha, esperando. O violão pesa no meu colo.
— Estou pensando em começar pequeno. Um showzinho ou dois apenas nas cidades próximas.
Luka sorri, aquele sorriso de eu sabia que você não aguentaria.
— Madison Square Garden pode esperar, então.
Eu rio, e pela primeira vez em anos, minha garganta não se aperta.
— Posso assumir essa responsabilidade? Deixar claro que Declan Callahan está de volta?
Assinto.
Zion entra sem bater.
— Estou te ligando sem parar… — a voz de Zion vibra, tensa, enquanto seus olhos se fixam em Claire com urgência.
Meu telefone deve ter descarregado.
Meu corpo reage antes da minha mente. Endireito a postura, todos os sentidos alertas. Esse tom — esse mesmo tom cortante — que ouvi pela última vez há seis anos, minutos antes de o mundo desmoronar.
— O que foi? — a pergunta sai mais como um comando, e me levanto num movimento brusco.
Zion engasga, as palavras presas na garganta. Luka, percebendo a espiral silenciosa que se inicia, envolve Claire com cuidado e a guia para fora da sala. A porta se fecha com um clique suave e definitivo.
No vácuo que se forma, o rosto de Zion se desfaz. A máscara de urgência dá lugar a uma gravidade devastadora.
— Charles tentou falar com você… — ele começa, a voz agora quebrada. — Como não atendia, me ligou. É sobre a mãe.
O ar some dos meus pulmões.
— Ela insistiu que ele não contasse nada para nós, mas… ele não aguenta mais carregar isso sozinho.
— Carregar o quê, Zion? — minha voz soa rouca, estranha para meus próprios ouvidos. — Fala logo!
O silêncio que se segue é espesso, pesado, até que as palavras finalmente escapam, mudas e cruéis:
— Ela está doente.
E de repente, o chão se abre novamente.
❤
Voltar à Irlanda é como mergulhar em um mar de memórias — cada rua, cada esquina, um fragmento de um passado mais feliz. Foi aqui que eu e Evie construímos nossa vida, desde aquele primeiro encontro desajeitado até o dia em que trocamos votos, emocionados, certos de que teríamos uma vida inteira pela frente.
Depois que perdi ela, a casa que dividíamos em Dublin, cheia dela em cada canto, tornou-se insuportável. Minha carreira como cantor estava em pausa, e quando surgiu a oportunidade de me tornar produtor musical em Londres, agarrei-a como um náufrago se agarra a um barco.
Precisei fugir. Levei Claire comigo, claro, mas deixei para trás pedaços de mim — e agora, voltar, é como rasgar uma cicatriz mal fechada.
O vento gelado de Dublin me golpeia o rosto quando saio do aeroporto, e por um momento, fecho os olhos. Claire aperta minha mão, sua pequena luva de lã quente contra minha pele.
Luka, Maeve e Zion não puderam vir.
— Tá com frio, papai? — ela pergunta, e seu sotaque já tem um toque britânico que me dói um pouco.
— Só um pouco, princesa — minto, sorrindo.
Estamos aqui porque minha mãe está doente. Porque, não importa o quanto eu tenha tentado fugir, algumas coisas não podem ser evitadas.
E enquanto entro no táxi, olhando a cidade passar pela janela, sinto Evie em cada detalhe — no cheiro da chuva, no tom das paredes, no sotaque do motorista.
Ela está em tudo. E eu não sei se consigo suportar isso.
O céu está nublado quando chegamos à casa dos meus pais, um reflexo perfeito da tempestade que se agita no meu peito. A porta da cozinha está entreaberta, e lá está ela, de costas para mim, as mãos tremendo levemente enquanto mexe em uma chaleira.
— Mãe.
Ela se vira, e vejo no seu rosto a surpresa, a culpa, o alívio.
— Declan. Meu Deus, o que você está fazendo aqui?
— Por que você não me contou? — Minha voz é mais áspera do que eu gostaria, mas a raiva é só medo disfarçado.
Ela suspira, os dedos enrugados passando pelos cabelos grisalhos.
— Não queria te preocupar. Você tem Claire, sua vida…
— Você é minha vida também — corto, a voz falhando. Claire se agarra à minha perna, sentindo a tensão. — O que está acontecendo, mãe?
Charles surge no corredor, convidando Claire a acompanhá-lo.
Ela me lança um olhar hesitante, mas eu confirmo com um aceno de cabeça. Assim que eles se afastam, é minha mãe quem quebra o silêncio:
— Eu venho sofrendo algumas quedas em casa, e quando Charles me levou ao hospital, os médicos descobriram um tumor.
O chão some debaixo dos meus pés.
— Onde?
— No cérebro.
Me seguro na bancada de sua cozinha.
— E o tratamento? Cirurgia?
Minha mãe observa a direção para onde seu marido e sua neta partiram, em seguida, volta o olhar para mim. Nos seus olhos, percebo a mensagem não verbal que ela transmite: não há garantias.
— É complicado, ela murmura.
Eu engulo seco, a cabeça latejando.
“Por que isso tem que acontecer comigo novamente?”
— Você vai lutar — digo, mais um pedido do que uma afirmação. — E vamos superar isso juntos.
Ela sorri, triste, e aperta meu rosto entre as mãos.
— Sempre, meu filho. Mas prometa-me uma coisa.
— O que?
— Que você vai viver, não importa o que aconteça. Por você. Por ela.
Olho para Claire, que ri em outro cômodo com Charles, e sinto o nó na garganta se apertar.
— Eu prometo. Amanhã, acompanharei a senhora para conversar com o seu médico e, se necessário, visitaremos outros. — Ela sorri, um sorriso sutil, mas concorda com a cabeça.
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