LOGINHelena fechou os olhos por um instante.— Isso foi imprudente.— Foi verdade. — Uma pausa. — E foi a única coisa que eu disse naquela sala que ninguém tinha escrito para mim.Ela não conseguiu responder.Do outro lado, Gabriel acrescentou:— O fragmento aberto às oito e cinquenta e dois. Conseguimos saber de que aparelho?— Não. Só do andar.— Otávio chegou às oito e quarenta. Foi o primeiro.— Isso não prova nada.— Eu sei. — A voz dele endureceu um pouco. — Só estou contando o que vi. Você me ensinou a separar.Helena apertou o telefone.— Ensinei?— Hoje de manhã. Na mesa da cozinha. Quando disse que acreditava em uma parte e não conseguia perdoar a outra. — Gabriel ficou em silêncio por um segundo. — Eu nunca tinh
Helena abriu o arquivo.O texto era quase igual ao que Mariana encontrara de madrugada. Havia a cláusula de impedimento prolongado, a substituição temporária e o nome dela como representante designada.Mas havia também um parágrafo novo, logo abaixo.Na hipótese de recusa expressa do representante designado, o exercício dos votos do bloco caberá ao conselheiro mais antigo em exercício, até a cessação do impedimento.Helena parou de respirar por um segundo.— Isadora.A perita se aproximou e leu.— Isso não estava aqui.— Não.— Tem certeza?Helena já abria a cópia preservada às seis e vinte, a versão que Mariana baixara do servidor externo, registrara e lacrara diante das duas.Colocou os documentos lado a lado.A cláusula de impe
Nenhum arquivo apagado.Só nomes, horários e pedidos que agora precisariam receber respostas.Na sala, Isadora continuava trabalhando sobre a cópia preservada.Helena se aproximou quando a perita a chamou.— Encontrei uma referência ao vazamento Rossi.Gabriel veio atrás.O documento não continha uma previsão vaga de que o pai de Beatriz cairia.Trazia uma lista de riscos.No fim, havia uma observação:Caso a operadora preserve o beneficiário secundário, manter acesso às fontes anteriores à intervenção.Helena leu outra vez.O beneficiário secundário.Caio.Eles haviam considerado a possibilidade de que ela mexesse nos registros para protegê-lo.Não significava que a tivessem obrigado.A decisão fora dela.E alguém
Helena percorreu os anexos.Havia um parecer. O mesmo número de referência que Mariana encontrara no pacote societário.Chamou a advogada.As duas compararam os documentos com a correspondência recebida por Gabriel e preservada na conta externa de seu advogado antigo.O parecer fora encaminhado dias depois do casamento.Junto dele, uma solicitação:Revisão emergencial do protocolo de representação. Adequar à nova configuração familiar.Helena leu em silêncio.Depois voltou ao documento do arquivo.— Ele não precisou prever o casamento — disse. — Precisou encontrar uma forma de usá-lo depois.Gabriel apoiou a mão no encosto da cadeira.— E ontem fez parecer que estava tudo planejado desde o começo.— Porque queria que a gente olhasse para trá
Isadora chegou pouco depois das cinco, acompanhada por uma advogada de cabelos curtos e uma pasta de couro sem nenhuma identificação de escritório.Apresentou-a como Mariana Duarte.— Ela nunca trabalhou para a Holding, para os fundos ou para sua família — disse a perita.Mariana cumprimentou os dois e foi direta:— Antes de qualquer coisa, preciso saber o que Mirante disse exatamente. Não o que vocês entenderam. As palavras.Helena repetiu a ligação enquanto Gabriel anotava os horários de que se lembrava.A advogada ouviu sem interromper.Quando Helena terminou, Mariana abriu a pasta.— Há duas coisas que precisamos separar. Uma é o que ele pode fazer contra Gabriel. Outra é o que ele quer que vocês acreditem que acontecerá depois.— A sucessão — disse Helena.— Sim. Receber uma intimação não transfere o controle de uma empresa para a esposa de ninguém. E afastamento da administração, herança e direito de voto são assuntos diferentes.Gabriel soltou o ar lentamente.Era a primeira fr
Gabriel voltou a dirigir, mas não aumentou a velocidade.Helena permaneceu com o telefone na mão até a tela se apagar. As palavras de Mirante ainda ocupavam o espaço entre os dois.Um império que foi construído para ser seu.Ela olhou para o homem ao lado.Gabriel tinha os olhos fixos na estrada e o maxilar contraído. Parecia estar revendo cada decisão dos últimos anos, procurando o ponto em que deixara de escolher e começara a obedecer sem perceber.Helena reconheceu aquela procura.Também estava fazendo isso.— Ele não vai ganhar a próxima hora — disse ela.Gabriel virou o rosto por um instante.— Como?— Já nos tirou uma noite inteira. E agora quer que passemos o resto da madrugada discutindo se o nosso casamento foi uma decisão nossa ou dele.— Você acha que foi mentira?Helena demorou a responder.— Acho que ele misturou coisas verdadeiras com coisas que ainda não conseguimos verificar.Gabriel assentiu devagar.— A intimação pode existir.— Pode. A pasta de sucessão também. Mas







