LOGINA chuva finalmente havia cessado.
Mas, para Helena, a tempestade continuava dentro do coração. Ela permanecia sentada na cama, vestindo um pijama simples, enquanto encarava o elegante cartão dourado que Lorenzo Castellani lhe entregara. Ao lado dele, repousava sua aliança de noivado. Ela a havia colocado sobre o criado-mudo assim que chegou em casa. Ficou observando aquele pequeno círculo de ouro durante longos segundos. Quantos sonhos cabiam dentro de uma aliança? Quantas promessas? Quantas mentiras? Respirou profundamente. Pegou o anel entre os dedos. Lembrou-se do dia em que Ricardo ajoelhou diante dela. — "Prometo que nunca vou fazer você sofrer." Uma lágrima escorreu. — Você conseguiu quebrar todas as promessas... Sem pensar mais, abriu a gaveta do criado-mudo e guardou a aliança lá dentro. Fechou a gaveta lentamente. Era como se estivesse enterrando uma parte da própria vida. Na sala, Clara permanecia acordada. Ela conhecia a filha. Sabia que Helena jamais conseguiria dormir naquela noite. Preparou um chá de camomila. Bateu delicadamente na porta. — Posso entrar? Helena forçou um sorriso. — Claro, mãe. Clara colocou a bandeja sobre a cama. — Trouxe um chá. Talvez ajude. Helena segurou a xícara quente entre as mãos. — Obrigada. As duas permaneceram alguns segundos em silêncio. Até que Clara perguntou: — Você ainda o ama? Helena demorou para responder. Olhou pela janela. As luzes da cidade pareciam distantes. — Acho que o homem que eu amava nunca existiu. Clara sorriu com tristeza. — Às vezes, a maior dor não é perder alguém. É descobrir que a pessoa que amávamos era apenas uma ilusão. Helena assentiu. — O pior é pensar que eu confiava na Vanessa mais do que em qualquer amiga. Ela conhecia todos os meus sonhos... Todos os meus medos... Clara segurou sua mão. — Filha... Nunca deixe que duas pessoas sem caráter façam você duvidar da mulher extraordinária que é. Helena apertou a mão da mãe. Naquele abraço silencioso, encontrou um pouco da força que acreditava ter perdido. Na Mansão Castellani... Lorenzo caminhava lentamente até a varanda de seu quarto. A vista da cidade era impressionante. Milhares de luzes iluminavam a escuridão. Mas nenhuma delas conseguia afastar a preocupação que sentia. Pensava em Enzo. O filho nunca havia fugido de casa. Algo estava errado. Muito errado. Pegou o celular. Ligou para Marcelo, seu chefe de segurança. — Quero todas as imagens das câmeras de hoje. Desde o momento em que saí para a empresa. A voz do outro lado respondeu imediatamente: — Sim, senhor. — E outra coisa... Quero um relatório completo. Quem entrou. Quem saiu. Quem teve contato com meu filho. Não deixe escapar absolutamente nada. — Entendido. Lorenzo desligou. Seu instinto dizia que aquela fuga não havia acontecido por acaso. No quarto ao lado... Enzo permanecia acordado. Abraçado ao ursinho. O menino olhava para o teto. Pensava em Helena. Ela havia sido gentil. Sorriu para ele. Cuidou de seu machucado. Abraçou-o. Não gritou. Não brigou. Não o machucou. Ele fechou os olhos. Fazia muito tempo que não se sentia seguro perto de um adulto. A única pessoa que lhe transmitia aquela sensação era seu pai. E agora... Aquela moça de cabelos castanhos. Baixinho, sussurrou: — Você prometeu voltar... No outro lado da mansão... Sabrina caminhava de um lado para o outro dentro do quarto. Estava irritada. Muito irritada. Pegou uma taça de vinho. Bebeu um gole. Depois outro. Seu reflexo no espelho mostrava uma mulher elegante. Bonita. Mas seus olhos revelavam algo diferente. Ambição. Ela aproximou-se do espelho. — Cinco anos... Cinco anos conquistando a confiança do Lorenzo. Cinco anos construindo meu lugar nesta casa. Não vou perder tudo por causa de uma desconhecida. Seu celular vibrou. Era uma mensagem de um investigador particular. "Já comecei a levantar informações sobre Helena Monteiro." Sabrina sorriu. Digitou rapidamente. "Quero saber tudo sobre ela. Família, amigos, trabalho, faculdade... tudo." Guardou o telefone. Seu plano já havia começado. Na manhã seguinte... O sol apareceu tímido entre as nuvens. Helena acordou cedo. Mal havia dormido. Olhou o relógio. Sete horas. Seu celular estava cheio de notificações. Mensagens de colegas. Chamadas perdidas. Mensagens de parentes perguntando sobre os preparativos do casamento. E dezenas de ligações de Ricardo. Ela respirou fundo. Abriu apenas uma conversa. A de Vanessa. Havia uma única mensagem enviada durante a madrugada. "Você vai entender um dia que foi melhor assim." Helena sentiu um misto de tristeza e indignação. Sem responder. Bloqueou Vanessa. Depois abriu a conversa de Ricardo. Havia mais de trinta mensagens. "Precisamos conversar." "Você entendeu tudo errado." "Me atende." "Por favor." "Helena..." Ela leu cada uma delas. Depois apagou toda a conversa. Em seguida... Bloqueou o número dele também. Ao fazer isso, sentiu como se estivesse fechando definitivamente uma porta. Não havia mais volta. Nem para Ricardo. Nem para Vanessa. Enquanto tomava café com a mãe, seu olhar caiu novamente sobre o cartão de Lorenzo. Naquele dia aconteceria o jantar. Clara percebeu. — Está pensando em ir? Helena sorriu discretamente. — Ainda não sei. — E por que não iria? — Porque não quero parecer interesseira. Ele é um homem muito rico. Clara deu uma pequena risada. — Filha... Se esse homem fosse realmente tão superficial, não teria colocado o casaco nos seus ombros enquanto você tremia de frio. Nem teria olhado para você daquele jeito. Helena ficou curiosa. — Que jeito? Clara sorriu. — Com gratidão. Não como um bilionário olhando para uma desconhecida. Mas como um pai olhando para a mulher que salvou o maior tesouro da vida dele. As palavras da mãe ficaram ecoando em sua mente. Talvez ela tivesse razão. Sem saber, naquele mesmo instante, Lorenzo observava uma fotografia de Helena capturada pelas câmeras de segurança da avenida. A imagem mostrava exatamente o momento em que ela se lançou na frente do carro para salvar Enzo. Ele passou os dedos sobre a fotografia. E disse em voz baixa: — Existem pessoas que aparecem na nossa vida por acaso... Mas tenho a impressão de que você apareceu por destino. Sem imaginar... Naquele mesmo momento, outra pessoa também observava uma foto de Helena. Sabrina. Só que, ao contrário de Lorenzo... Em seus olhos não havia gratidão. Havia ódio. Um ódio que crescia a cada minuto. E ela acabava de tomar uma decisão. Faria Helena se arrepender de ter cruzado o caminho da família Castellani."Algumas pessoas desaparecem da nossa vida. Outras desaparecem apenas para que possam retornar no momento em que mais precisamos da verdade."Helena ficou imóvel diante da janela.A silhueta permanecia parada na porta da casa do outro lado da estrada.Seu coração começou a bater acelerado.Ela conhecia aquele rosto.Conhecia aquele olhar.Conhecia aquela pessoa.— Não... — murmurou.Lorenzo percebeu a mudança em sua expressão.— Helena, quem é?Ela não respondeu.Apenas continuou olhando.Beatriz aproximou-se da janela.Quando viu a pessoa, levou a mão à boca.— Meu Deus...Isabela olhou para ela.— Você também conhece?Beatriz começou a chorar.— Sim.Valentina franziu a testa.— Quem é?Helena finalmente conseguiu falar:— Meu avô.O silêncio tomou conta da sala.Lorenzo olhou novamente para a casa.— Henrique?Helena assentiu.— Ele está vivo.Clara começou a chorar.— Eu disse que vocês não estavam preparadas.Helena se virou.— Há quanto tempo você sabe?— Desde que ele reaparece
"Existem verdades que, quando descobertas, não libertam imediatamente. Primeiro, elas destroem tudo aquilo que acreditávamos ser real."Helena continuava olhando para o celular.A ligação havia terminado.Mas as últimas palavras de Samuel continuavam ecoando em sua mente.“O homem que vocês estão procurando não é meu chefe.”“É seu verdadeiro pai.”Ela sentia o coração bater descompassadamente.Lorenzo aproximou-se.— Helena...Ela ergueu os olhos.— Samuel disse que o homem que está por trás de tudo é nosso pai.Isabela ficou imóvel.Valentina também.— Mas como isso é possível? — perguntou Isabela.Helena balançou a cabeça.— Eu não sei.Beatriz aproximou-se lentamente.— Talvez seja hora de vocês conhecerem toda a verdade.As três irmãs olharam para ela.— Toda? — perguntou Valentina.Beatriz respirou fundo.— Sim.Eles voltaram para a casa onde estavam escondidos.Beatriz fechou todas as portas e janelas.Depois colocou sobre a mesa uma antiga caixa de madeira.Helena reconheceu i
"Quando tudo parece perdido, é preciso descobrir quem realmente está ao nosso lado. Porque, no momento decisivo, até um aliado pode se tornar a maior ameaça."Helena ficou paralisada.Ricardo segurava a arma apontada diretamente para Lorenzo.Samuel permanecia atrás dele, com um sorriso frio.No chão, Valentina lutava para respirar.— Não! — Helena gritou. — Ricardo, abaixe essa arma!Ele não se moveu.Lorenzo permaneceu imóvel.— Ricardo, se quer alguma coisa, fale comigo.Samuel soltou uma risada.— Ainda tentando negociar?Lorenzo ignorou-o.Seus olhos continuavam fixos em Ricardo.— Você não precisa fazer isso.Ricardo apertou a arma.— Eu sei.Helena sentiu o coração apertar.— Então abaixe.Ricardo olhou para ela.Por um instante, seus olhos revelaram dor.— Eu sinto muito.Samuel ordenou:— Atire.Helena se colocou diante de Lorenzo.— Não!Ricardo arregalou os olhos.— Saia da frente, Helena.— Não vou.— Ele vai morrer.— Então você terá que passar por mim primeiro.Samuel fi
"Às vezes, a pessoa que mais desejamos encontrar é justamente aquela que passou a vida acreditando que somos seu maior inimigo."Helena não conseguia tirar os olhos da mensagem.“Isabela acredita que foi você quem matou o pai dela.”As palavras pareciam não fazer sentido.— Meu pai? — perguntou Helena, quase sem voz. — O pai dela?Beatriz assentiu lentamente.— Sim.— Mas eu nunca matei ninguém!— Eu sei.— Então quem contou isso a ela?Beatriz abaixou os olhos.— Samuel.Helena sentiu o peito apertar.— Ele destruiu nossas vidas...Lorenzo aproximou-se e segurou sua mão.— E agora quer usar Isabela contra você.— Mas ela é minha irmã.— Exatamente.Helena respirou fundo.— Onde ela está?Beatriz respondeu:— Em uma casa antiga, nas montanhas. Foi para lá depois que desapareceu.Lorenzo pegou as chaves do carro.— Então vamos.Beatriz segurou seu braço.— Não será tão simples.— Por quê?— Porque Isabela não sabe que você é irmã dela.Helena ficou imóvel.— Ela não sabe?— Não.— Entã
"Algumas histórias começam no instante em que nascemos. Outras começam antes mesmo de abrirmos os olhos para o mundo. E, às vezes, para descobrir quem somos, precisamos voltar exatamente ao lugar onde tudo começou."Helena permaneceu parada diante do papel.“No hospital onde sua história realmente começou.”Ela releu a frase.Depois olhou para Beatriz.— Mãe... o que aconteceu naquele hospital?Beatriz demorou a responder.— Foi naquela noite que tudo mudou.Lorenzo aproximou-se.— E Augusto?— Samuel o levou para lá porque sabe que é o único lugar onde Helena pode descobrir toda a verdade.Helena apertou os punhos.— Então vamos.Beatriz segurou seu braço.— Você precisa estar preparada.— Para quê?— Para descobrir que talvez algumas das coisas que você acredita sobre o seu nascimento nunca tenham acontecido da maneira que contaram.Helena sentiu um arrepio.— Eu quero saber.Lorenzo segurou sua mão.— Então nós vamos descobrir juntos.O hospital estava abandonado havia anos.A fach
"Quando o passado abre suas portas, não há como voltar a ser quem éramos antes de conhecer a verdade."A mensagem de Samuel continuava aberta na tela do celular.“Venha sozinha à casa de Henrique. Se trouxer Lorenzo, Augusto morre.”Helena sentia o coração apertado.— Eu vou.Lorenzo imediatamente balançou a cabeça.— Não.— Lorenzo...— Não vou permitir que você entre naquela casa sozinha.— Ele está com meu pai.— E é exatamente por isso que não podemos fazer o que ele quer.Beatriz permaneceu em silêncio, observando os dois.Então falou:— Samuel espera que você vá sozinha.Helena olhou para ela.— E o que você sugere?— Que façamos exatamente o contrário.Lorenzo sorriu.— Finalmente concordamos em alguma coisa.Helena respirou fundo.— Então qual é o plano?Beatriz se aproximou do mapa que estava sobre a mesa.— A casa de Henrique tem três entradas.Ela apontou para uma delas.— A principal estará vigiada.Depois apontou para os fundos.— Aqui existe uma passagem subterrânea.Lor







