MasukAs duas se olharam e senti uma tensão no ar. Então, Julia falou:
— Ela é filha do outro idealizador do hospital. Os Cavalcanti e os Nogueira iniciaram isso aqui... Por enquanto, é isso; estamos correndo contra o tempo. Você precisa apenas tentar ficar longe da Cassandra... bem longe. Pelo menos até ela vir ver a sua sala. — Minha sala? Minha sala, não; nossa sala — eu disse. — Eu não sou dona de nada aqui. — Ah, querida, você é dona de algo, sim. Mais valioso que qualquer coisa aqui. As duas riram e saíram de braços dados. Eu gostava da alegria delas; era lindo ver aquela amizade. Julia tinha um cabelo loiro incrível e, se você a olhasse de longe, não imaginava que era um amor de pessoa. Agora, essa Cassandra... ela já me causava medo sem eu nem conhecê-la. Eu precisava, então, começar com as mudanças. Conversei com a Renata e ela disse que o Mike já tinha mandado chamar o estagiário de neuropediatria para me ajudar, além da equipe de manutenção. Eles fariam o trabalho pesado para nós. Ela também me entregou um cartão corporativo. — Ele disse que o limite é beeem alto — avisou Renata. — Mas não se esqueça: não pode haver reformas estruturais. — Ok, entendi! Renata, quero fazer uma surpresa para o Mike... — Ah, eu sabia que estava rolando algo entre vocês dois! Eu sabiaaa... que lindos! Vocês são... Eu a interrompi imediatamente: — Tá doida, menina? Não tem nada rolando aqui! A surpresa é que vou chamar o irmão mais novo dele para fazer uma arte na parede. Não é esse o maior hobby dele? — Ah, sei... — disse ela, desanimada — Sim, o Antony tem trabalhado com isso. Mas, se você quer o contato dele, precisa pedir para o Mike ou para a Julia; eu não tenho. — Tudo bem. Obrigada! E para com essas conversas sobre eu e o Mike, viu? — Tá bom, tá bom. Ele prometeu que jamais se envolveria com alguém que trabalhasse com ele... — disse ela, em um tom dramatico divertido. — Sério? Por quê? — Você não sabe mesmo? O pai dele se envolveu com a secretária la de cima, e o Mike e a Cassandra... O telefone tocou e ela não pôde terminar de responder. Saí dali e fui ao banheiro; eu precisava pensar. Descobri que a esposa do Lincoln estava grávida. Será que eu deveria mesmo manter a demissão dele? Mike e Cassandra... o que houve entre eles? E ainda tenho a sala para entregar. É muita coisa! "Respira, Clara... respira.” Chegaram duas mensagens quase ao mesmo tempo. Olhei e vi que uma era da minha líder da igreja e a outra era do Mike. Abri a dele primeiro; "poderia ser algo sobre o trabalho", pensei... — "Como você está?", ele perguntou. — "Estou bem. Precisa de algo?" — "Não. Só queria saber como você está!" — "Estou bem, de verdade. E você? Conseguiu resolver as coisas?" — "Ainda estou no processo. Preciso voltar para a reunião. Qualquer coisa, me liga." — "Ok! Boa reunião!" Ele saiu de uma reunião só para me mandar mensagem? Que patrão faz isso? Ainda bem que o meu... Abri, então, a mensagem da minha líder: "Paz do Senhor, minha princesa. Eu posso te ligar rapidinho?" — "Oi, Ray! Pode, sim." Então, recebi a ligação. — Como você está sumida?— ela perguntou. — Estou bem! Sumida mesmo, né? Me desculpe, está uma loucura essa minha nova vida. — Imagino que esteja. Te liguei para te fazer dois convites. Um será para cantar e tocar em um evento que vamos fazer para empresários no final do mês. A ideia é convidar donos de empresas e diretores para trazer um momento de networking e, principalmente, de descanso para eles. E o segundo convite é para você vir ao culto de jovens este final de semana. E aí? — Nossa, que ideia incrível essa do evento! Claro que eu topo, pode contar comigo. Depois me passa por mensagem todas as informações para eu não esquecer. Eu posso convidar o meu patrão e a amiga dele para irem? Ela não é diretora, mas acho que sozinho ele não vai. – Na verdade, eu teria vergonha de convidá-lo sozinho, então pensei na Julia também. — Claro, pode sim. Vou te mandar o convite por mensagem. Precisamos confirmar presença uma semana antes, tá? E obrigada por continuar servindo com amor. — Imagina! Você sabe que eu amo isso. E sobre o culto, vou tentar ir, pode ter certeza. — Clara... — seu tom ficou um pouco mais sério. — Eu posso orar por você? Meus olhos se encheram de lágrimas mais uma vez; eu precisava mesmo de uma oração. — Ai, Ray... Pode, sim, com certeza. Estou precisando. Ela orou, então, por mim. Abençoou meu trabalho, meu ministério e minha vida. Pediu que o Senhor afastasse todo mal de mim. Quando terminou, ela disse: — Seja firme e constante, e não se esqueça de quem você é! O Senhor tem visto suas lágrimas e as recompensará. Agora preciso desligar, o Miguel está me chamando igual a um doido. Ela deu risada, eu me despedi e desligamos. Miguel era o filhinho dela e senti saudade daquela fofura. Eu amo crianças; meu maior sonho é ser mãe. Limpei o rosto, me recompus e saí. Saí e fui para o Espaço Acolher (quase esqueci o nome que tínhamos dado à sala). Ao chegar lá, notei algumas pessoas retirando as cadeiras e a mesa de escritório. Então, um rapaz muito bonito, mais ou menos da minha idade, veio até mim. Ele era alto, magro e tinha os olhos cor do mar; seus cabelos eram de um loiro natural. — Olá! Me chamo Filipi. Você é a Clara, certo? — disse ele, estendendo a mão para o cumprimento. — Olá, Filipi! Sou eu mesma. — Eu sou o estagiário de Neuropediatria. Acredito que falaram que eu te ajudaria, né? — Ah, sim! Ainda bem que você chegou. Precisamos fazer isso rápido — eu disse, ansiosa. — Precisamos mesmo! Eu já trouxe algumas atividades que preparei ontem, podemos colocá-las aqui... — Ai, meu Deus... esqueci do Antony! — eu disse e saí correndo. Olhei para trás e completei: — Desculpa, eu já volto! Vi em seu rosto um certo divertimento enquanto ele assentia. Corri até a sala da Julia e vi que a porta estava aberta. — Doutora, eu preciso de ajuda! — Sim, pode falar. Vou ver o que posso fazer. — a senhora tem o número do Antony? O irmão do Mike? — Tenho... Por que você quer o número dele? E para de me chamar de "senhora", por favor. Sei que preciso retocar meu botox, mas "senhora" é demais, né? — Ai, desculpa! — eu disse, rindo. Então, expliquei minha ideia e ela adorou. Ela me passou o número dele e, assim que saí da sala, já liguei. Demorou um pouco para ele atender. Quando finalmente respondeu, me apresentei, expliquei meu plano e ele amou; disse que iria se trocar, juntar suas coisas e logo chegaria ao hospital. Ele nitidamente estava dormindo, e por isso demorou a atender. Voltei para o Espaço Acolher e encontrei Filipi novamente. Ele me explicou detalhadamente cada atividade que trouxe e como aquilo ajudaria as crianças. Filipi era metódico e falava apenas o necessário; exceto quando envolvia explicar algo técnico, aí ele falava um pouco demais para quem estava com pressa. Expliquei para ele como seria o "cantinho da música" que eu havia planejado e reforcei que precisávamos deixar o ambiente confortável para os acompanhantes. Vimos que precisávamos comprar algumas coisas e, se fôssemos pedir on-line, a entrega demoraria demais. Então, decidimos sair. Quando o elevador se abriu, Mike estava lá. Assim que ele nos viu, olhou de forma estranha, já que estávamos conversando animados sobre o que compraríamos. — Oi para vocês dois — disse ele, em um tom firme. — Oi, Mike! Estamos correndo contra o tempo, como nos pediu. Por isso, vamos nós mesmos comprar algumas coisas, pode ser? — perguntei. — Precisa que eu vá com você, Clara? — ele questionou, ignorando um pouco a presença do outro. — Não queremos te incomodar e nós damos conta, Doutor — respondeu Filipi, com segurança. — Clara? — Mike insistiu, olhando apenas para mim. — Não precisa, Mike. É aqui na avenida mesmo a maior parte das coisas. Vamos a pé. — Então, boas compras — disse ele, de forma seca, e saiu.A última nota do piano reverberou pelo salão de vidro, misturando-se ao som suave das folhas das arvores que batiam ao longe. Eu não desviei o olhar do Mike por um segundo sequer. Enquanto meus dedos deslizavam pelas teclas, vi no rosto dele aquele sorriso que se tornara meu combustível diário — uma mistura de orgulho, admiração e um amor que parecia transbordar. Naquela música, eu não estava apenas tocando notas; estava entregando minha alma, transformando a dor da ausência do meu pai em uma oferta de amor ao meu esposo. Lembrei-me de como tudo começou de forma tão pragmática, com um contrato de trabalho, e agora, aquele papel havia sido substituído por uma aliança de ouro que brilhava sob as luzes da festa, selando um destino que nenhum contrato poderia prever.Quando o silêncio finalmente se instalou, interrompido apenas pelo som da minha respiração ofegante pela emoção, Mike levantou-se da mesa. Ele caminhou até o piano com uma determinação suave. Sem dizer uma palavra, ele me aj
O momento do "Sim" não foi apenas uma palavra; foi o som de uma vida inteira sendo reconstruída sob o olhar atento do Criador. Quando o pastor fez a pergunta decisiva, o silêncio na chácara era tão profundo que podíamos ouvir o leve farfalhar dos tecidos brancos ao vento. Olhei para o Mike e, sem hesitar, com a voz firme e o coração em paz, pronunciei o meu "Sim". Ele repetiu o gesto, e ali, entre o lago e o pôr do sol, as duas vidas se tornaram uma só.A celebração foi encerrada de uma forma solene. Seguindo o protocolo que havíamos planejado, todos os padrinhos, as crianças e minha mãe saíram primeiro, deixando-nos sozinhos no altar por alguns instantes mágicos. Quando começamos a caminhar pela passarela para a nossa saída triunfal, os pastores, em um gesto de profunda reverência, estenderam as mãos sobre nós, selando nossa união com uma bênção final que parecia vibrar no ar.Fomos conduzidos a um quarto reservado na chácara, um refúgio de paz antes do turbilhão da festa. Tivemos
Oculta atrás das grandes portas de madeira, eu me sentia em um universo paralelo. O burburinho lá fora chegava até mim como um eco distante, mas eu não estava totalmente às escuras. A equipe de fotografia, com um cuidado que me tocou, havia preparado uma pequena tela para que eu pudesse acompanhar o que acontecia no altar sem ser vista pelos convidados.Assisti à entrada dos padrinhos, cada casal trazendo um pedaço da nossa história. Vi a Nick e o Antonny cruzarem o gramado; ela, com o sorriso recuperado, caminhando com uma leveza que me fez suspirar de alívio. Em seguida, vi as crianças. A entrada delas foi como um bálsamo; a pureza daqueles passos pequenos em direção ao lago trazia uma doçura que preenchia todo o ambiente. Meu coração batia tão forte que eu podia senti-lo na ponta dos dedos, mas, por um milagre de autocontrole, as lágrimas permaneceram nos olhos sem cair. Eu estava emocionada, mas inteira.Eu via tudo, menos o Mike. A câmera estava estrategicamente posicionada par
O momento de vestir o "sim" finalmente chegou. Quando as portas se fecharam e todos saíram, o quarto mergulhou em um silêncio focado, quebrado apenas pelos cliques suaves das câmeras e o som das luzes dos cinegrafistas que registravam cada detalhe. Eu estava ali, no centro de tudo, pronta para me transformar na noiva que sempre imaginei ser.O vestido era uma verdadeira obra de arte. O corpo era estruturado com um corpete delicado, adornado por uma profusão de flores em 3D e rendas ricas que pareciam brotar do próprio tecido. O decote ombro a ombro trazia uma sensualidade discreta e romântica, com mangas longas e transparentes feitas de tule finíssimo, também bordadas com as mesmas flores que subiam pelos braços. A saia era uma nuvem monumental de tule em camadas e babados volumosos, criando um movimento etéreo e dramático. Havia uma fenda nao muito funda estratégica que trazia um toque moderno, permitindo que cada passo em direção ao altar fosse fluido e marcante.Para a maquiagem,
O sábado amanheceu com uma luz que parecia filtrada por um sonho. O café da manhã na varanda da casa de praia foi um daqueles momentos em que o tempo parece desacelerar só para nos deixar gravar cada detalhe na memória. O cheiro de café fresco se misturava à brisa salgada, e o som das risadas da minha família era a melhor trilha sonora que eu poderia desejar. Mas, assim que a última xícara foi posta de lado, a energia mudou. Era o dia. O dia do nosso "Sim".Antes de pegarmos a estrada de volta para a cidade, vi uma cena que fez meus olhos marejarem antes mesmo da maquiagem começar. Mike e Peter, calçando os tênis de corrida, trocaram um olhar de entendimento e saíram juntos para uma última corrida pela areia. Ver os dois, lado a lado, deixando para trás os fantasmas do passado e construindo uma ponte de amizade sobre o asfalto quente da orla, foi o primeiro sinal de que aquele dia seria repleto de milagres.A viagem de volta para a cidade passou em um piscar de olhos. Eu olhava pela
O sol já começava a se despedir, tingindo o céu com nuances de pêssego e lavanda, quando entrei no quarto para me transformar. A brisa que entrava pela janela trazia o som constante do mar, que parecia ditar o ritmo calmo do meu coração naquele momento.Abri o zíper da capa protetora e lá estava ele: o vestido para o nosso jantar de pré-casamento. Era um midi off-white de cair o queixo. A renda era delicada, com desenhos que lembravam a espuma das ondas, mas o corte tinha uma sofisticação inquestionável que elevava o visual. Ele abraçava o meu corpo com suavidade, terminando em uma saia fluida que dançava a cada passo que eu dava.Sentei-me em frente à penteadeira e expliquei para a moça o que eu queria. Escolhi algo que gritasse "noiva", mas sem entregar o mistério do grande dia. Usei tons de bronze e pêssego nos olhos para realçar o brilho do olhar, uma pele bem iluminada — com aquele viço de quem passou o dia sendo cuidada — e um batom nude rosado. Era simples, fresca e radiante.







