LOGINDe repente, ouvi um barulho atrás de mim. Antes que pudesse me virar, alguém tampou meus olhos e sussurrou próximo ao meu ouvido:
— Adivinha quem é? Ouvi aquela voz, senti aquele hálito e estremeci. Estremeci de medo e, logo depois, de raiva. Era o segurança; era o Lincoln tocando em mim. Escapei de suas mãos asquerosas e me afastei o máximo que pude, até ficar encurralada no canto da parede. Ele fechou a porta e se aproximou de mim. — Saia daqui ou vou chamar a segurança! — eu disse. — Chama, Clarinha... Grita meu nome bem alto — disse ele, rindo da minha cara. — Eu sou a segurança — completou, abrindo os braços. Meu coração estava disparado e eu sentia muito medo. — O que você quer? Você é casado e eu não te dei liberdade nenhuma! — eu disse, gaguejando. — Sou casado só lá fora. Aqui, eu posso ser seu, se você quiser — disse ele, aproximando-se da minha boca. — SAI DAQUI! NÃO ENCOSTA EM MIM, SEU NOJENTO! Eu o empurrei com toda a minha força, mas quase não obtive resultado. De repente, a porta se abriu e ele se afastou abruptamente com o susto. Mike entrou e perguntou o que significava aquilo. Sem pensar, corri até ele, o abracei e comecei a chorar. — Nada, Doutor. Vim ajudar a moça em uma questão particular — mentiu Lincoln. — Não acho que ela precisasse da sua ajuda — rebateu Mike, seriamente. Eu continuava abraçada a Mike, soluçando. — Explica para ele, Clara... Sou um homem casado. Jamais faria algo... — Cala a boca e saia daqui! — Mike o interrompeu. — Espero não te ver nunca mais. SAIA! Assim que Lincoln saiu, eu ia me desfazer do abraço, mas percebi que ele o retribuía. Eu estava com vergonha, com medo, com raiva. Comecei a chorar novamente e senti seu abraço ficando mais forte. Isso me confortou. Ficamos assim por alguns minutos, até que ouvimos alguém se aproximar. Afastei-me e tentei secar as lágrimas o mais rápido que pude, mas quem quer que fosse, passou direto pela sala. — Clara, você está bem? Me conte o que aquele canalha fez. Não, não precisa me contar. Vamos à delegacia agora mesmo! — Ele nitidamente estava nervoso. — Ele não fez nada. Você chegou antes disso — eu disse, tentando conter as lágrimas. — Ele só tentou me beijar... Comecei a chorar novamente e Mike veio até mim. Levantou meu rosto e disse: — Agora estou aqui. Você está segura. Ele nunca mais encostará em você, ok? — Obrigada, Mike. Muito obrigada — eu disse, olhando naqueles olhos negros. Ele, de fato, me fazia sentir segura. — Você quer denunciá-lo? Nós podemos. O que ele fez é crime. — Não precisa... — Ele não trabalha mais aqui. E vou garantir que não trabalhe em lugar nenhum... — Tudo bem, isso já basta para mim. Obrigada. Mesmo. — Não precisa agradecer. Agora vou te levar para casa, ok? — Também estou demitida? — perguntei, assustada. — Não, claro que não! — Ele disse com um tom calmo e uma pitada de divertimento. — Vou te levar para que você descanse. Não precisa trabalhar depois do que aconteceu. — Ufa, que susto! — eu disse, rindo um pouco. — Então, se me permitir, prefiro ficar aqui. — Tem certeza? — Sim, ir para casa não vai mudar o que aconteceu. E, mais uma vez, graças a você, não foi nada muito sério. Prefiro ficar aqui e me distrair. E agora... mudar a cara desta sala. — Tudo bem, como preferir. Enquanto conversávamos, as pessoas iam chegando e logo o andar estava cheio como sempre. — Eu cheguei mais cedo pois estou bem animada para o que podemos fazer aqui! — Também estou — ele disse. — Você pensou em algum nome para chamarmos este lugar? — Não pensei. E você? — perguntou, curioso. — Pensei que poderia ser Espaço Acolher. O que acha? — Eu gostei... gostei muito. Para mim, pode ser esse mesmo! Mike olhou no relógio e disse: — Bom, agora eu preciso ir. Tenho uma reunião com a diretoria. E com o RH, claro — disse ele, referindo-se à demissão daquele homem. — Claro! Que Deus abençoe seu dia! — Amém, o seu também! — Ele já ia saindo quando se lembrou de algo: — Ah! Vou te passar meu número pessoal. Se você precisar de alguma coisa, me avisa, ok? Não precisa chamar pelas secretárias; me liga se for necessário. — Ah, sim. Obrigada mais uma vez! Então, eu anotei o número dele. Assim que ele saiu, mandei uma mensagem: "Esqueci, anota o meu número também ;) e estou aqui se precisar de mim também!" Guardei o celular, olhei para a sala e respirei fundo. Eu precisava fazer um ótimo trabalho ali; precisava deixar o Mike feliz. Refleti sobre muitas coisas, saí da sala e cumprimentei algumas pessoas, então avistei Nick. Ela estava com uma cara um pouco estranha, então perguntei: — Nick? Você está bem? — Não estou, Clara... A Verônica me ligou falando que o Lincoln foi demitido. Eles acabaram de descobrir que vão ser pais. Estou arrasada. E não sei o que aconteceu; ele vai sair sem direito a receber nada... Com certeza foi algo muito sério. — Amiga, preciso te contar uma coisa... Arrastei-a para um canto, mas, antes que pudesse dizer algo, a Dra. Julia apareceu. — Meninas, vamos trabalhar? — Estou indo, Doutora — disse Nicolly, um pouco desanimada. — O que aconteceu aqui? — a doutora perguntou, aproximando-se. — O que vocês estão conversando? Eu deveria falar para ela também o que aconteceu mais cedo com o Lincoln? — Não dá tempo de fofocar, meninas — ela disse quando nos alcançou. — Precisamos organizar a sala. Nick, adiantei o primeiro atendimento, pois vou assumir alguns do Mike... Falando em Mike — ela se dirigiu a mim —, você tem muito trabalho a fazer naquela sala, viu! E a víbora da Cassandra acabou de nos avisar que a sala precisa estar pronta até o final do dia — disse ela, revirando os olhos. — Gente! — eu disse. — Quem é Cassandra, pelo amor de Deus?A última nota do piano reverberou pelo salão de vidro, misturando-se ao som suave das folhas das arvores que batiam ao longe. Eu não desviei o olhar do Mike por um segundo sequer. Enquanto meus dedos deslizavam pelas teclas, vi no rosto dele aquele sorriso que se tornara meu combustível diário — uma mistura de orgulho, admiração e um amor que parecia transbordar. Naquela música, eu não estava apenas tocando notas; estava entregando minha alma, transformando a dor da ausência do meu pai em uma oferta de amor ao meu esposo. Lembrei-me de como tudo começou de forma tão pragmática, com um contrato de trabalho, e agora, aquele papel havia sido substituído por uma aliança de ouro que brilhava sob as luzes da festa, selando um destino que nenhum contrato poderia prever.Quando o silêncio finalmente se instalou, interrompido apenas pelo som da minha respiração ofegante pela emoção, Mike levantou-se da mesa. Ele caminhou até o piano com uma determinação suave. Sem dizer uma palavra, ele me aj
O momento do "Sim" não foi apenas uma palavra; foi o som de uma vida inteira sendo reconstruída sob o olhar atento do Criador. Quando o pastor fez a pergunta decisiva, o silêncio na chácara era tão profundo que podíamos ouvir o leve farfalhar dos tecidos brancos ao vento. Olhei para o Mike e, sem hesitar, com a voz firme e o coração em paz, pronunciei o meu "Sim". Ele repetiu o gesto, e ali, entre o lago e o pôr do sol, as duas vidas se tornaram uma só.A celebração foi encerrada de uma forma solene. Seguindo o protocolo que havíamos planejado, todos os padrinhos, as crianças e minha mãe saíram primeiro, deixando-nos sozinhos no altar por alguns instantes mágicos. Quando começamos a caminhar pela passarela para a nossa saída triunfal, os pastores, em um gesto de profunda reverência, estenderam as mãos sobre nós, selando nossa união com uma bênção final que parecia vibrar no ar.Fomos conduzidos a um quarto reservado na chácara, um refúgio de paz antes do turbilhão da festa. Tivemos
Oculta atrás das grandes portas de madeira, eu me sentia em um universo paralelo. O burburinho lá fora chegava até mim como um eco distante, mas eu não estava totalmente às escuras. A equipe de fotografia, com um cuidado que me tocou, havia preparado uma pequena tela para que eu pudesse acompanhar o que acontecia no altar sem ser vista pelos convidados.Assisti à entrada dos padrinhos, cada casal trazendo um pedaço da nossa história. Vi a Nick e o Antonny cruzarem o gramado; ela, com o sorriso recuperado, caminhando com uma leveza que me fez suspirar de alívio. Em seguida, vi as crianças. A entrada delas foi como um bálsamo; a pureza daqueles passos pequenos em direção ao lago trazia uma doçura que preenchia todo o ambiente. Meu coração batia tão forte que eu podia senti-lo na ponta dos dedos, mas, por um milagre de autocontrole, as lágrimas permaneceram nos olhos sem cair. Eu estava emocionada, mas inteira.Eu via tudo, menos o Mike. A câmera estava estrategicamente posicionada par
O momento de vestir o "sim" finalmente chegou. Quando as portas se fecharam e todos saíram, o quarto mergulhou em um silêncio focado, quebrado apenas pelos cliques suaves das câmeras e o som das luzes dos cinegrafistas que registravam cada detalhe. Eu estava ali, no centro de tudo, pronta para me transformar na noiva que sempre imaginei ser.O vestido era uma verdadeira obra de arte. O corpo era estruturado com um corpete delicado, adornado por uma profusão de flores em 3D e rendas ricas que pareciam brotar do próprio tecido. O decote ombro a ombro trazia uma sensualidade discreta e romântica, com mangas longas e transparentes feitas de tule finíssimo, também bordadas com as mesmas flores que subiam pelos braços. A saia era uma nuvem monumental de tule em camadas e babados volumosos, criando um movimento etéreo e dramático. Havia uma fenda nao muito funda estratégica que trazia um toque moderno, permitindo que cada passo em direção ao altar fosse fluido e marcante.Para a maquiagem,
O sábado amanheceu com uma luz que parecia filtrada por um sonho. O café da manhã na varanda da casa de praia foi um daqueles momentos em que o tempo parece desacelerar só para nos deixar gravar cada detalhe na memória. O cheiro de café fresco se misturava à brisa salgada, e o som das risadas da minha família era a melhor trilha sonora que eu poderia desejar. Mas, assim que a última xícara foi posta de lado, a energia mudou. Era o dia. O dia do nosso "Sim".Antes de pegarmos a estrada de volta para a cidade, vi uma cena que fez meus olhos marejarem antes mesmo da maquiagem começar. Mike e Peter, calçando os tênis de corrida, trocaram um olhar de entendimento e saíram juntos para uma última corrida pela areia. Ver os dois, lado a lado, deixando para trás os fantasmas do passado e construindo uma ponte de amizade sobre o asfalto quente da orla, foi o primeiro sinal de que aquele dia seria repleto de milagres.A viagem de volta para a cidade passou em um piscar de olhos. Eu olhava pela
O sol já começava a se despedir, tingindo o céu com nuances de pêssego e lavanda, quando entrei no quarto para me transformar. A brisa que entrava pela janela trazia o som constante do mar, que parecia ditar o ritmo calmo do meu coração naquele momento.Abri o zíper da capa protetora e lá estava ele: o vestido para o nosso jantar de pré-casamento. Era um midi off-white de cair o queixo. A renda era delicada, com desenhos que lembravam a espuma das ondas, mas o corte tinha uma sofisticação inquestionável que elevava o visual. Ele abraçava o meu corpo com suavidade, terminando em uma saia fluida que dançava a cada passo que eu dava.Sentei-me em frente à penteadeira e expliquei para a moça o que eu queria. Escolhi algo que gritasse "noiva", mas sem entregar o mistério do grande dia. Usei tons de bronze e pêssego nos olhos para realçar o brilho do olhar, uma pele bem iluminada — com aquele viço de quem passou o dia sendo cuidada — e um batom nude rosado. Era simples, fresca e radiante.







