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O acolher

last update publish date: 2026-04-13 08:52:10

​De repente, ouvi um barulho atrás de mim. Antes que pudesse me virar, alguém tampou meus olhos e sussurrou próximo ao meu ouvido:

​— Adivinha quem é?

​Ouvi aquela voz, senti aquele hálito e estremeci. Estremeci de medo e, logo depois, de raiva. Era o segurança; era o Lincoln tocando em mim. Escapei de suas mãos asquerosas e me afastei o máximo que pude, até ficar encurralada no canto da parede. Ele fechou a porta e se aproximou de mim.

​— Saia daqui ou vou chamar a segurança! — eu disse.

​— Chama, Clarinha... Grita meu nome bem alto — disse ele, rindo da minha cara. — Eu sou a segurança — completou, abrindo os braços.

​Meu coração estava disparado e eu sentia muito medo.

​— O que você quer? Você é casado e eu não te dei liberdade nenhuma! — eu disse, gaguejando.

​— Sou casado só lá fora. Aqui, eu posso ser seu, se você quiser — disse ele, aproximando-se da minha boca.

​— SAI DAQUI! NÃO ENCOSTA EM MIM, SEU NOJENTO!

​Eu o empurrei com toda a minha força, mas quase não obtive resultado. De repente, a porta se abriu e ele se afastou abruptamente com o susto. Mike entrou e perguntou o que significava aquilo. Sem pensar, corri até ele, o abracei e comecei a chorar.

​— Nada, Doutor. Vim ajudar a moça em uma questão particular — mentiu Lincoln.

​— Não acho que ela precisasse da sua ajuda — rebateu Mike, seriamente.

​Eu continuava abraçada a Mike, soluçando.

​— Explica para ele, Clara... Sou um homem casado. Jamais faria algo...

​— Cala a boca e saia daqui! — Mike o interrompeu. — Espero não te ver nunca mais. SAIA!

​Assim que Lincoln saiu, eu ia me desfazer do abraço, mas percebi que ele o retribuía. Eu estava com vergonha, com medo, com raiva. Comecei a chorar novamente e senti seu abraço ficando mais forte. Isso me confortou. Ficamos assim por alguns minutos, até que ouvimos alguém se aproximar. Afastei-me e tentei secar as lágrimas o mais rápido que pude, mas quem quer que fosse, passou direto pela sala.

​— Clara, você está bem? Me conte o que aquele canalha fez. Não, não precisa me contar. Vamos à delegacia agora mesmo! — Ele nitidamente estava nervoso.

​— Ele não fez nada. Você chegou antes disso — eu disse, tentando conter as lágrimas. — Ele só tentou me beijar...

​Comecei a chorar novamente e Mike veio até mim. Levantou meu rosto e disse:

​— Agora estou aqui. Você está segura. Ele nunca mais encostará em você, ok?

​— Obrigada, Mike. Muito obrigada — eu disse, olhando naqueles olhos negros. Ele, de fato, me fazia sentir segura.

​— Você quer denunciá-lo? Nós podemos. O que ele fez é crime.

​— Não precisa...

​— Ele não trabalha mais aqui. E vou garantir que não trabalhe em lugar nenhum...

​— Tudo bem, isso já basta para mim. Obrigada. Mesmo.

​— Não precisa agradecer. Agora vou te levar para casa, ok?

​— Também estou demitida? — perguntei, assustada.

​— Não, claro que não! — Ele disse com um tom calmo e uma pitada de divertimento. — Vou te levar para que você descanse. Não precisa trabalhar depois do que aconteceu.

​— Ufa, que susto! — eu disse, rindo um pouco. — Então, se me permitir, prefiro ficar aqui.

​— Tem certeza?

​— Sim, ir para casa não vai mudar o que aconteceu. E, mais uma vez, graças a você, não foi nada muito sério. Prefiro ficar aqui e me distrair. E agora... mudar a cara desta sala.

​— Tudo bem, como preferir.

​Enquanto conversávamos, as pessoas iam chegando e logo o andar estava cheio como sempre.

​— Eu cheguei mais cedo pois estou bem animada para o que podemos fazer aqui!

​— Também estou — ele disse.

​— Você pensou em algum nome para chamarmos este lugar?

​— Não pensei. E você? — perguntou, curioso.

​— Pensei que poderia ser Espaço Acolher. O que acha?

​— Eu gostei... gostei muito. Para mim, pode ser esse mesmo!

Mike olhou no relógio e disse:

​— Bom, agora eu preciso ir. Tenho uma reunião com a diretoria. E com o RH, claro — disse ele, referindo-se à demissão daquele homem.

​— Claro! Que Deus abençoe seu dia!

​— Amém, o seu também! — Ele já ia saindo quando se lembrou de algo: — Ah! Vou te passar meu número pessoal. Se você precisar de alguma coisa, me avisa, ok? Não precisa chamar pelas secretárias; me liga se for necessário.

​— Ah, sim. Obrigada mais uma vez!

​Então, eu anotei o número dele.

Assim que ele saiu, mandei uma mensagem:

​"Esqueci, anota o meu número também ;) e estou aqui se precisar de mim também!"

​Guardei o celular, olhei para a sala e respirei fundo. Eu precisava fazer um ótimo trabalho ali; precisava deixar o Mike feliz. Refleti sobre muitas coisas, saí da sala e cumprimentei algumas pessoas, então avistei Nick. Ela estava com uma cara um pouco estranha, então perguntei:

​— Nick? Você está bem?

​— Não estou, Clara... A Verônica me ligou falando que o Lincoln foi demitido. Eles acabaram de descobrir que vão ser pais. Estou arrasada. E não sei o que aconteceu; ele vai sair sem direito a receber nada... Com certeza foi algo muito sério.

​— Amiga, preciso te contar uma coisa...

​Arrastei-a para um canto, mas, antes que pudesse dizer algo, a Dra. Julia apareceu.

​— Meninas, vamos trabalhar?

​— Estou indo, Doutora — disse Nicolly, um pouco desanimada.

​— O que aconteceu aqui? — a doutora perguntou, aproximando-se. — O que vocês estão conversando?

​Eu deveria falar para ela também o que aconteceu mais cedo com o Lincoln?

​— Não dá tempo de fofocar, meninas — ela disse quando nos alcançou. — Precisamos organizar a sala. Nick, adiantei o primeiro atendimento, pois vou assumir alguns do Mike... Falando em Mike — ela se dirigiu a mim —, você tem muito trabalho a fazer naquela sala, viu! E a víbora da Cassandra acabou de nos avisar que a sala precisa estar pronta até o final do dia — disse ela, revirando os olhos.

​— Gente! — eu disse. — Quem é Cassandra, pelo amor de Deus?

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