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Capítulo 5

작가: Heliotrope
O último golpe que me despedaçou foi o celular do meu irmão.

Ryan o havia deixado sobre o sofá enquanto tomava banho, e a tela acendeu com uma nova mensagem no instante em que eu atravessava a sala.

O grupo se chamava A Família de Sophie.

Os membros eram: Mãe, Pai, Ryan, Ethan e Sophie.

Meus pais biológicos, meu irmão e o homem que jurara ser meu namorado há três anos haviam criado um grupo exclusivo com Sophie e o batizaram de Família.

Abri a conversa.

O grupo havia sido criado no dia em que nos mudamos para a casa nova.

A primeira mensagem era uma foto do quarto de Sophie, acompanhada da legenda:

“A nossa Sophie finalmente tem um cantinho só dela.”

Ryan havia respondido:

“Quem quer que magoe a minha irmã mais nova vai ter que responder a mim.”

Continuei rolando a tela.

Ali discutiam sobre o colchão dela, o abajur, as prateleiras, o bolo de aniversário e se Ethan poderia levá-la à aula de arte.

Dedicaram mais tempo a planejar o conforto de Sophie do que alguém jamais dedicou a perguntar se eu conseguia dormir sobre um piso de cimento.

Foi então que encontrei uma mensagem de voz da minha mãe.

— Ethan, às vezes tenho a impressão de que você se preocupa mais com a Sophie do que com a Nora. Ela passou por tantas dificuldades, e saber que você estará sempre ao lado dela me traz paz.

Ethan havia respondido:

“Não se preocupe, Dona Bennett. Garanto que a Sophie sempre terá alguém com quem contar.”

Ryan completou:

“É por isso que você é da família, meu irmão.”

A minha própria mãe havia pedido ao meu namorado que cuidasse de outra mulher para sempre, e o meu irmão havia lhe agradecido por aceitar.

Ninguém se lembrou de que Ethan deveria estar construindo um futuro ao meu lado.

Acima da conversa em grupo, havia uma conversa fixada entre Ethan e Sophie.

Sophie escrevera:

“Você acha que a Nora vai ficar chateada se descobrir o grupo?”

Ethan respondeu:

“Ela não vai descobrir.”

Um minuto depois, Sophie retrucou:

“Que bom. Odiaria que ela interpretasse mal.”

Ela sabia perfeitamente o quanto aquilo doeria. Apenas preferia fingir que não havia feito nada de errado.

Fitei a tela até que a visão se embaçasse.

Todos sabiam que me excluir me feriria.

Fizeram-no de olhos abertos e decidiram que o bem-estar de Sophie importava mais do que a minha dor.

Devolvi o celular ao sofá, com os dedos gelados.

Senti-me como se acabasse de ler a sentença de um julgamento em que cada pessoa que eu amava havia testemunhado contra mim.

A decisão havia sido tomada há muito tempo.

Eu era simplesmente a última a descobrir que já havia perdido.

Quando Ryan saiu do banho e notou o meu rosto, a expressão dele se alterou.

— Você mexeu no meu celular?

— Por que existe um grupo chamado “A Família de Sophie”?

Ryan arrancou o aparelho de sobre o sofá.

— Esse grupo serve para combinarmos como cuidar da Sophie.

— Então por que o Ethan está dentro?

— Porque ele nos ajuda.

— Ele é o meu namorado.

A minha voz se elevou apesar de todos os meus esforços.

— É o meu namorado há três anos, e mesmo assim vocês criaram um grupo de família só para eles, sem me incluir.

O rosto da mãe endureceu.

— Abaixe a voz.

— Você disse ao Ethan que se sentia aliviada por ele cuidar da Sophie.

— Ela precisa de pessoas em quem possa confiar.

— Eu também preciso.

As palavras escaparam antes que eu pudesse detê-las.

Odiou o fato de que, depois de tudo, eu ainda suplicasse à minha própria família que se lembrasse de que eu também precisava deles.

— Você tem pai, mãe e um irmão — disse a mãe.

— A Sophie perdeu o pai por causa desta família.

— E isso significa que ela também tem direito ao meu namorado?

— O que está insinuando?

— Estou perguntando se existe algo na minha vida que vocês não considerem que pertence mais a ela do que a mim.

O rosto de Sophie empalideceu.

— Nora, eu jamais quis…

A porta da frente se abriu e Ethan entrou.

Viu o celular nas mãos de Ryan e, sem hesitar, já se posicionou para se defender.

— Nora, está transformando isso em algo que não é.

— Então o que é?

— É apenas um grupo de apoio. Só isso.

— Um grupo de apoio com o nome de “A Família de Sophie”.

— Você sabe tudo o que ela passou.

— Sei que me deixou sozinha no dia do nosso aniversário de namoro para passar o dia com ela.

O maxilar dele se cerrara.

— Ainda vamos continuar com isso?

— Comprou para ela um presente de trezentos dólares e me entregou balas de liquidação porque não se lembrava do que eu gostava.

— Foi um engano.

— Você cometeu o mesmo engano há três anos.

Sophie começou a chorar.

— Nora, eu jamais pedi a ninguém que fizesse isso por mim.

A mãe imediatamente a puxou para junto de si.

— Calma, minha querida. Você não fez nada de errado.

Ryan se colocou ao lado dela, enquanto Ethan me olhava com evidente impaciência.

— A Sophie estava de luto. Não ia abandoná-la justamente quando precisava de alguém.

— Você já havia combinado comigo.

— Comemoramos o aniversário em outro dia.

Eu o fitava.

— Ou seja, você sempre poderá me amar em outro dia.

Por um instante, algo se modificou no olhar dele. Depois a impaciência voltou.

— Pare de distorcer as minhas palavras.

— Não preciso distorcer nada. Há três anos você me mostra exatamente o que significam.

Ryan se colocou entre nós.

— Já chega. O pai dela morreu salvando a minha vida. Cada um nesta família tem uma dívida com ela.

— Eu tinha treze anos quando ele morreu.

— Isso não importa.

— Não fui eu que o empurrei no rio.

A sala mergulhou em silêncio.

Jamais havia dito aquelas palavras em voz alta.

Ryan me olhou como se eu tivesse cometido algo imperdoável.

— Ninguém disse que foi você.

— Então por que eu pago por isso há dez anos?

A mãe soltou um suspiro chocado.

— Como pode dizer uma coisa dessas?

— Porque eu cedi o meu quarto quando tinha treze anos e dormi no depósito por um ano inteiro. Agora volto a dormir ali, enquanto vocês gastam fortunas decorando o quarto dela.

Voltei-me para Ethan.

— O meu namorado sabe quais são os gostos dela, as cores preferidas e os lugares onde o pai a levava. Mas depois de três anos, ainda não sabe sequer o que eu como.

Depois olhei para os meus pais.

— Vocês construíram uma família onde cabem todos os presentes nesta sala, exceto a sua própria filha.

Os olhos da mãe faiscaram.

— Isto não tem nada a ver com você.

Aquelas palavras esvaziaram algo dentro de mim, pois eram verdadeiras.

Nada nesta casa havia sido feito pensando em mim durante dez anos.

Ryan se aproximou, a voz trêmula de raiva.

— O pai dela entregou a vida por mim. Passarei o resto dos meus dias tentando quitar essa dívida.

— Jamais lhe pedi para não fazer isso.

— Então pare de agir como se cada gentileza que lhe fazemos fosse algo roubado de você.

— E é.

O rosto de Ryan se contorceu.

— Se guarda tanto rancor dela, então vá embora.

Como eu não me movi, gritou:

— Se não está disposta a ajudar esta família a honrar a sua dívida, então saia daqui.

O meu próprio irmão havia me mandado sair de casa.

Ninguém o impediu.

A mãe abraçava Sophie, enquanto Ethan desviava o olhar.

O pai apenas disse:

— Já chega. Acalmem-se todos.

Não pediu a Ryan que se desculpasse, nem disse que eu pertencia àquele lar, nem me pediu para ficar.

O silêncio dele doeu mais do que a raiva de Ryan.

Todos esperavam que eu chorasse, me trancasse no depósito e voltasse depois pedindo perdão.

Era o que eu sempre fizera.

Desta vez, calei-me.

Revisei a mochila pela última vez.

Documentos, passagens, cartão bancário e a carta de aceitação da vaga de pesquisa — tudo estava ali.

Quando atravessei a sala carregando-a, lançaram-me um olhar rápido e desviaram o olhar quase ao mesmo tempo.

A mãe bateu um copo sobre a mesa.

— Então agora vai fugir? Pois muito bem. Se sair por aquela porta, não volte mais.

Ryan soltou uma risada fria.

— Não dura nem um dia. Amanhã volta se arrastando, pedindo perdão.

— Sim — respondi. — Jamais voltarei.

Abri a porta.

Atrás de mim, a mãe continuava a me acusar de egoísmo. Ryan dizia que eu não sabia viver sozinha e que não tinha para onde ir.

Até amanhã, diziam, eu voltaria implorando perdão.

Entrei no táxi e olhei para a casa pela última vez.

Era isso que sempre haviam desejado.

Um lar sem mim.

E agora o teriam para sempre.

Quando cheguei ao aeroporto, era uma hora da madrugada do dia 13 de agosto. O voo que me levaria à instituição de pesquisa já estava em embarque.

Antes de passar pelo controle de segurança, retirei o chip do celular e o joguei no lixo.

Acreditavam que eu voltaria antes do café da manhã.

Não teriam notícias minhas pelos próximos dez anos.

Mãe. Pai. Ryan. Ethan.

Adeus.

Na manhã seguinte, a mãe se levantou para preparar o café.

— Sophie, prefere ovos mexidos ou omelete? Ryan, levante-se já.

Ao chegar diante do depósito, empurrou a porta sem pensar.

O quarto estava vazio.

Minhas roupas, meus documentos e a mochila haviam desaparecido.

— David! — A voz da mãe falhou.

— Ela realmente não voltou. Dissemos-lhe para não ir… e ela foi.

Ryan saiu correndo descalço e ligou para mim uma, duas, dez vezes.

Todas as ligações caíam imediatamente na fria mensagem automática.

Ethan chegou pouco depois e permaneceu imóvel, diante do depósito vazio.

Todos acreditavam que eu voltaria antes do café da manhã.

Foi então que o celular do pai tocou.

Um número desconhecido.

— É da família Bennett? — perguntou um homem.

— Meu nome é Walter Hayes. Trabalhei com Daniel Carter.

Fez uma pausa.

— Há algo sobre o dia em que Ryan caiu no rio que a sua família precisa saber.

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