LOGINSabrina tentou disfarçar o nervosismo, forçando um sorriso amarelo enquanto ajeitava a postura. — Henrique, acho que os seus olhos estão pregando peças em você. As servas mais velhas que escolhi para cuidar deste retiro são todas mulheres rústicas e de constituição mais grossa. É natural que, vistas de longe e no escuro, elas pareçam um pouco masculinas.Embora uma sombra de dúvida ainda pairasse no olhar de Henrique, ele costumava acreditar nas palavras dela de olhos fechados, como se fossem leis irrevogáveis. Aproveitando-se dessa submissão, Sabrina sugeriu com uma voz doce que me levasse pessoalmente de volta aos meus aposentos, pedindo aos homens que aguardassem do lado de fora do pátio por alguns instantes.Assim que cruzamos a pesada porta do retiro, a máscara de bondade derreteu. Sabrina dispensou os poucos criados presentes com um aceno brusco, virou-se para mim e cravou os dedos no meu queixo com uma força brutal. Ela aproximou o rosto até que eu pudesse sentir a respiração
Fui largada no chão, imóvel e indefesa diante de Sabrina, com uma vontade imensa de questionar o motivo de tanta crueldade contra mim. Antes que eu pudesse articular qualquer som, ela se antecipou com um sorriso zombeteiro estampado no rosto.— Olha só para o seu estado, esse é o fim exato que uma personagem secundária merece! — Disse ela, com os olhos brilhando de malícia. — Não faça essa cara de espanto. Eu também sou uma jogadora do sistema, e a verdadeira protagonista deste mundo. Com que direito você achou que podia tentar roubar os meus alvos?Tudo fez sentido naquele instante, e a minha única esperança era que o ódio dela fosse grande o bastante para me tirar a vida. Eu já não queria participar daquele jogo doentio ou completar missão alguma. O meu único desejo era voltar para casa em paz. Percebendo o meu desespero em silêncio, ela soltou uma risada carregada de escárnio.— Está querendo morrer? Pois saiba que eu não vou facilitar as coisas para o seu lado. — Sussurrou Sabrin
A sensação era de ter mergulhado em um sono profundo e interminável, habitado apenas pelos rostos banhados em lágrimas dos meus pais, transbordando uma aflição que me cortava o coração.— Não tenha medo, Luana. Você vai ficar boa, filha. Vamos dar um jeito, nem que a gente precise vender tudo o que tem para pagar o seu tratamento.Foi exatamente por causa dessa devoção que, quando o sistema me contatou com uma proposta, aceitei sem hesitar a missão de entrar neste mundo paralelo. O tempo na minha realidade havia sido congelado no exato instante da minha partida, logo no meio das festas, quando minha mãe tinha prometido voltar para casa trazendo o meu doce favorito. Nesse pesadelo angustiante que se formava, eu via a mim mesma concluindo a missão e voltando para o meu lar, apenas para encontrar um vazio insuportável. Vasculhei cada canto da casa, abri cada porta com as mãos trêmulas, mas meus pais haviam desaparecido para sempre.— Pai! Mãe! — Despertei aos prantos, com o grito rasgan
O espanto tomou conta de todos os presentes por um instante, como se ainda processassem o que acabara de ser dito. Sabrina vacilou, seu corpo balançando de leve, mas, ao perceber que ninguém notara sua hesitação, ela logo recuperou a postura impecável e balançou a cabeça com uma expressão de pura inocência.— Eu... claro que não, eu jamais faria isso. — Sussurrou ela, com a voz embargada e os olhos baixos.Com o rosto tomado pela aflição, Pedro puxou Sabrina para um abraço protetor e enxugou com delicadeza o rastro úmido em seu rosto. — Não chore, minha querida. Todos nós aqui conhecemos o seu coração e sabemos da sua bondade. — Consolou ele, acariciando os cabelos da jovem numa tentativa de acalmá-la.Carlos também se aproximou depressa, assumindo o papel de guardião devotado, e fez o possível para arrancar um sorriso dos lábios trêmulos da garota.— Não chore, Sabrina. Daqui a pouco vamos admirar a lua cheia juntos. Você está mais deslumbrante do que uma deusa esta noite.Cercada p
A espada de Pedro carregava um fio letal. Mesmo que ele tivesse contido a força do golpe no último instante, a lâmina fria ainda afundou bons centímetros no meu peito, rasgando a minha carne sem piedade. O remédio que Carlos havia me forçado a engolir mais cedo cumpriu o seu papel cruel, multiplicando a dor do ferimento a um nível insuportável para qualquer ser humano. O sangue escorria sem parar, manchando as minhas roupas enquanto as minhas forças se esvaíam e eu desabava no chão de pedra. Faltava muito pouco. Eu só precisava aguentar mais um pouco de dor e, enfim, voltaria para a minha verdadeira casa.O palácio mergulhou em um caos absoluto. Passos apressados ecoavam por todos os lados enquanto várias pessoas se aglomeravam ao meu redor, e pude sentir mãos trêmulas pressionando pedaços de tecido contra o meu peito para conter a hemorragia.— Luana, não ouse fechar os olhos! — Gritou uma voz carregada de desespero.Em meio à névoa da quase inconsciência, a silhueta de um homem fami
As folhas da espirradeira carregavam um veneno letal, mas, como Sabrina adorava aquela planta, meu irmão havia dado um jeito de mantê-la florida o ano inteiro no pátio da nossa casa. Quando tentei proibir o cultivo daquela flor perigosa por medo de que alguém se envenenasse por acidente, Sabrina fez um escândalo, chorando sem parar e recusando qualquer comida.— Luana, você só não quer que o Carlos plante essas flores para mim porque não gosta de mim. — Acusou ela na época, com os olhos cheios de lágrimas.Naquela ocasião, Carlos a protegeu atrás de si e me lançou um sorriso cheio de deboche, dizendo que, se eu queria perseguir a garota, deveria inventar uma desculpa melhor.— Uma coisa dessas, tão amarga, nunca seria engolida por engano, pois qualquer pessoa cuspiria no mesmo segundo em que colocasse na boca. — Justificou ele para defender os caprichos dela.Quem diria que aquela mesma planta amarga se tornaria o meu bilhete de saída deste mundo. O gosto intragável tomou conta do meu







