Share

Capítulo 2

Author: Lily
A água do fosso que cercava o castelo era gélida e cortante, mas não fiz o menor esforço para lutar contra a correnteza, deixando meu corpo afundar devagar. Faltava tão pouco para voltar para casa que cheguei a me perguntar qual sabor de panetone meus pais teriam comprado para a nossa ceia em família neste ano.

No entanto, no meio daquela escuridão acolhedora, uma mão agarrou meu pulso com uma força brutal, me puxando de volta para a superfície contra a minha vontade.

— Luana! Que tipo de loucura é essa agora? — Esbravejou uma voz ofegante.

Abri os olhos com dificuldade e me deparei com Henrique. Aquele mesmo homem que instantes atrás exibia uma postura inabalável agora estava encharcado da cabeça aos pés, com o rosto pálido e tossindo sem parar, enquanto cravava um olhar furioso em mim.

— Você acha mesmo que fingir tentar se matar vai apagar todo o mal que causou à Sabrina? — Acusou ele, com a respiração entrecortada.

Encarei a irritação dele com total indiferença, sentindo apenas o cansaço pesar em meus ombros.

— Então me deixe morrer de verdade. A minha morte não é exatamente o que você tanto deseja? — Respondi, com a voz desprovida de qualquer emoção.

Aquelas palavras pareceram pegá-lo de surpresa, pois os olhos dele ficaram vermelhos de raiva em um piscar de olhos.

— Sabrina acabou de voltar para nós, e eu só não quero que ela perca a paz se preocupando com os seus dramas. — Retrucou ele, tentando justificar a própria atitude.

Ao notar os cantos dos olhos dele avermelhados, uma lembrança antiga invadiu a minha mente. Na época em que a família Souza foi condenada e perdeu tudo, Henrique sofreu as piores humilhações públicas. Como ele tinha a saúde frágil e guardava os sentimentos para si, nunca dizia uma palavra quando se sentia injustiçado, mas seus olhos sempre ficavam daquele mesmo tom de vermelho, e só o meu consolo era capaz de acalmá-lo.

Mas que motivo ele teria para se sentir injustiçado agora? Afinal, durante os últimos quatro anos, foi ele quem ordenou que os guardas e as servas da ala de confinamento fizessem da minha vida um verdadeiro inferno.

Percebendo que não conseguiria acabar com a minha vida ali, juntei a minha trouxa de roupas encharcadas do chão e comecei a caminhar na direção da casa da minha família.

Vendo o caminho que eu tomava, Henrique segurou meu pulso com firmeza e passou a me seguir de perto, passo a passo, como uma sombra vigilante.

— Você sempre foi cheia de truques, então quem garante que não vai tentar outra loucura no meio do caminho se eu não ficar de olho? — Justificou ele, apertando os dedos ao redor do meu braço. — Assim que eu entregar você nas mãos do Dr. Carlos, lavo as minhas mãos e nunca mais me importo com o que vai acontecer com a sua vida.

Meus passos hesitaram por uma fração de segundo. Neste mundo inteiro, a pessoa que mais desejava a minha morte era o meu próprio irmão mais velho, Carlos Lima. Por esse motivo, quando fui expulsa do palácio, a ideia de voltar para a propriedade da família Lima sequer passou pela minha cabeça.

Contudo, pensando bem agora, estar sob o mesmo teto que ele talvez fosse a oportunidade perfeita para conseguir o meu fim.

Assim que cruzamos os portões da residência da família Lima, vi que todos os criados corriam de um lado para o outro, ocupados limpando o quarto de Sabrina às pressas. O pátio principal estava decorado com dezenas de vasos de espirradeira, a flor favorita dela.

Carlos caminhava em nossa direção com um sorriso largo no rosto, segurando uma lanterna festiva nas mãos, mas toda a alegria desapareceu de suas feições no instante em que seus olhos encontraram os meus.

— Você ainda tem a coragem de aparecer aqui? — Disparou ele, com a voz carregada de nojo. — Eu jurava que você já tinha morrido em algum canto daquele palácio.

Fiquei paralisada no lugar, atingida pela lembrança de que o meu irmão nem sempre era um homem tão cruel. Nós dois perdemos nossos pais muito cedo e crescemos dependendo apenas um do outro, sendo a única família que nos restava.

Como todos os membros da linhagem Lima possuíam o dom da medicina, Carlos tinha o grande sonho de entrar para a corte e se tornar o Chefe da Medicina Real. Para ajudá-lo a pagar as despesas da viagem até a capital, eu passava os dias subindo as montanhas para colher ervas e vendê-las.

Certa vez, durante uma tempestade, o chão escorregadio me fez despencar de um barranco enquanto eu tentava alcançar uma planta medicinal raríssima, o que resultou em uma perna quebrada.

Aquela foi a primeira vez que vi o temperamento sempre dócil de Carlos dar lugar ao desespero. Ele correu tanto para me socorrer que perdeu um dos sapatos no meio da lama, me abraçando aos prantos e jurando que preferia desistir da capital a perder a sua irmãzinha. Ele me disse, com todas as letras, que sem mim ele não teria mais um lar, e que nada na vida dele faria sentido.

O problema é que, depois que acolhemos Sabrina em nossa casa, eu deixei de ser a única garota no coração do meu irmão.

Como a saúde de Sabrina era muito frágil, Carlos pegou as pílulas que eu havia passado anos preparando com todo o cuidado, remédios que seriam vendidos para comprar as roupas adequadas para a apresentação dele no palácio, e deu tudo para ela tomar.

O pior de tudo foi que Sabrina, achando o gosto amargo demais, jogava os remédios fora escondida. Quando descobri e a repreendi por isso, Carlos tomou as dores dela e me acusou de ser uma pessoa gananciosa.

— Luana, por acaso essas suas ervas valem mais do que a vida da Sabrina? — Gritou ele comigo na ocasião, me olhando com decepção.

Tempos depois, quando Sabrina fugiu, Carlos quebrou os meus dedos como punição e apagou o meu nome do registro genealógico da família Lima para sempre.

— Uma pessoa com a alma tão perversa quanto a sua não é digna de praticar a medicina da nossa família! A partir de hoje, você não é mais a minha irmã! — Sentenciou ele, sem um pingo de remorso.

Por causa disso, as mãos que treinei arduamente por mais de dez anos perderam a capacidade de aplicar agulhas de acupuntura. O dano foi tão grave que, durante o meu tempo na ala de confinamento, eu lavava as roupas muito mais devagar do que as outras servas, sendo alvo constante de xingamentos e maus-tratos.

Henrique pigarreou, exibindo uma expressão um pouco desconfortável, e quebrou o silêncio com um tom de hesitação.

— Com o retorno de Sabrina e a decisão do príncipe herdeiro de dispensar as outras mulheres, parece que Luana não conseguiu aceitar a situação. Ela tentou tirar a própria vida duas vezes na minha frente agora há pouco... — Relatou ele, observando a reação do outro.

Carlos franziu a testa, soltando um riso de deboche.

— Isso não passa de um teatrinho barato para chamar atenção. Sr. Henrique, um homem brilhante como você não deveria se deixar enganar por um truque tão sujo. Conheço a Luana melhor do que ninguém, e posso garantir que uma pessoa egoísta como ela jamais teria coragem de morrer de verdade.

Ao ouvir aquelas palavras, o rosto de Henrique relaxou. Ele balançou a cabeça e deu um sorriso amargo, como se estivesse zombando de si mesmo, parecendo arrependido por ter perdido o controle e demonstrado qualquer preocupação comigo perto do fosso.

Carlos ergueu a lanterna festiva que segurava e me lançou um olhar de puro desprezo.

— Estou de saída para levar este presente para a Sabrina no palácio, então não tenho tempo a perder com o seu drama. É bom que você já tenha sumido desta casa antes de eu voltar esta noite... — Ameaçou ele, virando as costas.

Antes mesmo que ele pudesse terminar a frase, estiquei a mão, arranquei uma folha de espirradeira do vaso mais próximo e a coloquei direto na boca, mastigando a planta venenosa sem hesitar.

A cor sumiu do rosto de Carlos no mesmo instante.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Eles Só Me Valorizaram Depois Que Me Perderam!   Capítulo 8

    Sabrina tentou disfarçar o nervosismo, forçando um sorriso amarelo enquanto ajeitava a postura. — Henrique, acho que os seus olhos estão pregando peças em você. As servas mais velhas que escolhi para cuidar deste retiro são todas mulheres rústicas e de constituição mais grossa. É natural que, vistas de longe e no escuro, elas pareçam um pouco masculinas.Embora uma sombra de dúvida ainda pairasse no olhar de Henrique, ele costumava acreditar nas palavras dela de olhos fechados, como se fossem leis irrevogáveis. Aproveitando-se dessa submissão, Sabrina sugeriu com uma voz doce que me levasse pessoalmente de volta aos meus aposentos, pedindo aos homens que aguardassem do lado de fora do pátio por alguns instantes.Assim que cruzamos a pesada porta do retiro, a máscara de bondade derreteu. Sabrina dispensou os poucos criados presentes com um aceno brusco, virou-se para mim e cravou os dedos no meu queixo com uma força brutal. Ela aproximou o rosto até que eu pudesse sentir a respiração

  • Eles Só Me Valorizaram Depois Que Me Perderam!   Capítulo 7

    Fui largada no chão, imóvel e indefesa diante de Sabrina, com uma vontade imensa de questionar o motivo de tanta crueldade contra mim. Antes que eu pudesse articular qualquer som, ela se antecipou com um sorriso zombeteiro estampado no rosto.— Olha só para o seu estado, esse é o fim exato que uma personagem secundária merece! — Disse ela, com os olhos brilhando de malícia. — Não faça essa cara de espanto. Eu também sou uma jogadora do sistema, e a verdadeira protagonista deste mundo. Com que direito você achou que podia tentar roubar os meus alvos?Tudo fez sentido naquele instante, e a minha única esperança era que o ódio dela fosse grande o bastante para me tirar a vida. Eu já não queria participar daquele jogo doentio ou completar missão alguma. O meu único desejo era voltar para casa em paz. Percebendo o meu desespero em silêncio, ela soltou uma risada carregada de escárnio.— Está querendo morrer? Pois saiba que eu não vou facilitar as coisas para o seu lado. — Sussurrou Sabrin

  • Eles Só Me Valorizaram Depois Que Me Perderam!   Capítulo 6

    A sensação era de ter mergulhado em um sono profundo e interminável, habitado apenas pelos rostos banhados em lágrimas dos meus pais, transbordando uma aflição que me cortava o coração.— Não tenha medo, Luana. Você vai ficar boa, filha. Vamos dar um jeito, nem que a gente precise vender tudo o que tem para pagar o seu tratamento.Foi exatamente por causa dessa devoção que, quando o sistema me contatou com uma proposta, aceitei sem hesitar a missão de entrar neste mundo paralelo. O tempo na minha realidade havia sido congelado no exato instante da minha partida, logo no meio das festas, quando minha mãe tinha prometido voltar para casa trazendo o meu doce favorito. Nesse pesadelo angustiante que se formava, eu via a mim mesma concluindo a missão e voltando para o meu lar, apenas para encontrar um vazio insuportável. Vasculhei cada canto da casa, abri cada porta com as mãos trêmulas, mas meus pais haviam desaparecido para sempre.— Pai! Mãe! — Despertei aos prantos, com o grito rasgan

  • Eles Só Me Valorizaram Depois Que Me Perderam!   Capítulo 5

    O espanto tomou conta de todos os presentes por um instante, como se ainda processassem o que acabara de ser dito. Sabrina vacilou, seu corpo balançando de leve, mas, ao perceber que ninguém notara sua hesitação, ela logo recuperou a postura impecável e balançou a cabeça com uma expressão de pura inocência.— Eu... claro que não, eu jamais faria isso. — Sussurrou ela, com a voz embargada e os olhos baixos.Com o rosto tomado pela aflição, Pedro puxou Sabrina para um abraço protetor e enxugou com delicadeza o rastro úmido em seu rosto. — Não chore, minha querida. Todos nós aqui conhecemos o seu coração e sabemos da sua bondade. — Consolou ele, acariciando os cabelos da jovem numa tentativa de acalmá-la.Carlos também se aproximou depressa, assumindo o papel de guardião devotado, e fez o possível para arrancar um sorriso dos lábios trêmulos da garota.— Não chore, Sabrina. Daqui a pouco vamos admirar a lua cheia juntos. Você está mais deslumbrante do que uma deusa esta noite.Cercada p

  • Eles Só Me Valorizaram Depois Que Me Perderam!   Capítulo 4

    A espada de Pedro carregava um fio letal. Mesmo que ele tivesse contido a força do golpe no último instante, a lâmina fria ainda afundou bons centímetros no meu peito, rasgando a minha carne sem piedade. O remédio que Carlos havia me forçado a engolir mais cedo cumpriu o seu papel cruel, multiplicando a dor do ferimento a um nível insuportável para qualquer ser humano. O sangue escorria sem parar, manchando as minhas roupas enquanto as minhas forças se esvaíam e eu desabava no chão de pedra. Faltava muito pouco. Eu só precisava aguentar mais um pouco de dor e, enfim, voltaria para a minha verdadeira casa.O palácio mergulhou em um caos absoluto. Passos apressados ecoavam por todos os lados enquanto várias pessoas se aglomeravam ao meu redor, e pude sentir mãos trêmulas pressionando pedaços de tecido contra o meu peito para conter a hemorragia.— Luana, não ouse fechar os olhos! — Gritou uma voz carregada de desespero.Em meio à névoa da quase inconsciência, a silhueta de um homem fami

  • Eles Só Me Valorizaram Depois Que Me Perderam!   Capítulo 3

    As folhas da espirradeira carregavam um veneno letal, mas, como Sabrina adorava aquela planta, meu irmão havia dado um jeito de mantê-la florida o ano inteiro no pátio da nossa casa. Quando tentei proibir o cultivo daquela flor perigosa por medo de que alguém se envenenasse por acidente, Sabrina fez um escândalo, chorando sem parar e recusando qualquer comida.— Luana, você só não quer que o Carlos plante essas flores para mim porque não gosta de mim. — Acusou ela na época, com os olhos cheios de lágrimas.Naquela ocasião, Carlos a protegeu atrás de si e me lançou um sorriso cheio de deboche, dizendo que, se eu queria perseguir a garota, deveria inventar uma desculpa melhor.— Uma coisa dessas, tão amarga, nunca seria engolida por engano, pois qualquer pessoa cuspiria no mesmo segundo em que colocasse na boca. — Justificou ele para defender os caprichos dela.Quem diria que aquela mesma planta amarga se tornaria o meu bilhete de saída deste mundo. O gosto intragável tomou conta do meu

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status