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Capítulo 3

Author: Lily
As folhas da espirradeira carregavam um veneno letal, mas, como Sabrina adorava aquela planta, meu irmão havia dado um jeito de mantê-la florida o ano inteiro no pátio da nossa casa.

Quando tentei proibir o cultivo daquela flor perigosa por medo de que alguém se envenenasse por acidente, Sabrina fez um escândalo, chorando sem parar e recusando qualquer comida.

— Luana, você só não quer que o Carlos plante essas flores para mim porque não gosta de mim. — Acusou ela na época, com os olhos cheios de lágrimas.

Naquela ocasião, Carlos a protegeu atrás de si e me lançou um sorriso cheio de deboche, dizendo que, se eu queria perseguir a garota, deveria inventar uma desculpa melhor.

— Uma coisa dessas, tão amarga, nunca seria engolida por engano, pois qualquer pessoa cuspiria no mesmo segundo em que colocasse na boca. — Justificou ele para defender os caprichos dela.

Quem diria que aquela mesma planta amarga se tornaria o meu bilhete de saída deste mundo. O gosto intragável tomou conta do meu paladar em uma fração de segundo, me causando fortes náuseas, mas forcei a garganta e engoli o pedaço de folha com toda a minha força de vontade. Faltava muito pouco para eu voltar para a minha verdadeira casa.

Desesperado, Carlos jogou a lanterna festiva no chão e avançou na minha direção, desferindo tapas pesados nas minhas costas. Com os dedos ásperos, ele forçou a abertura da minha mandíbula e vasculhou o interior da minha boca com brutalidade.

— Cospe isso agora! Você perdeu o juízo de vez? — Berrou ele, com a voz embargada pelo pânico.

Lutei contra o aperto dele com todas as minhas forças, sentindo metade do meu corpo começar a adormecer por causa do veneno. Travei os dentes com tanta força para não ceder que acabei mordendo os dedos do meu irmão até fazê-los sangrar. Carlos puxou o ar com dor e, movido pela raiva, acertou um tapa estalado no meu rosto.

— Só porque o príncipe herdeiro descartou você, agora acha que tem o direito de tentar se matar? Onde foi parar o orgulho da nossa família? — Esbravejou ele, com os olhos faiscando de fúria. — Sabrina e o príncipe nasceram um para o outro, e parece que nem mesmo quatro anos trancada naquele confinamento serviram para colocar isso na sua cabeça!

Ignorando o sangue que escorria de sua própria mão, ele ordenou aos gritos que os criados trouxessem um remédio para induzir o vômito e me forçou a engolir a mistura.

Meu estômago revirou de forma violenta, me fazendo colocar tudo para fora até eu desabar no chão de pedra, sem forças para me sustentar. Mesmo naquele estado deplorável, uma risada carregada de ironia escapou dos meus lábios.

— O orgulho da nossa família se resume a você me expulsar de casa sem sequer investigar a verdade, apenas porque decidiu que eu era a culpada por machucar a Sabrina? — Questionei, encarando-o com desprezo.

Diante das minhas palavras, o rosto de Carlos perdeu toda a cor, e ele não conseguiu formular uma única resposta.

O silêncio tenso foi quebrado pelo som estrondoso de cascos de cavalos se aproximando a toda velocidade do lado de fora dos portões. Um jovem mensageiro do palácio entrou correndo no pátio, com a respiração ofegante e o rosto banhado de suor, curvando-se diante do homem que me acompanhava.

— Senhor Henrique! O príncipe herdeiro ordenou que o senhor leve a ex-princesa Luana de volta ao palácio para um interrogatório de urgência. A senhora Sabrina desapareceu sem deixar rastros! — Anunciou o rapaz, com a voz trêmula.

Henrique e Carlos trocaram um olhar carregado de suspeita antes de voltarem suas atenções para mim, fuzilando-me com os olhos.

— Agora entendo o motivo de todo esse teatro de tentar se matar na nossa frente. Você só queria encobrir os seus rastros! — Acusou Henrique, apertando os punhos. — Onde você escondeu a Sabrina desta vez? O que está planejando fazer com ela?

Eu não fazia a menor ideia do buraco em que aquela garota havia se enfiado agora, mas aquela situação se apresentava como a oportunidade perfeita para o meu plano. Os dois amavam Sabrina mais do que a própria vida, o que significava que, tomados pelo desespero, poderiam perder a razão e acabar me matando com as próprias mãos. Como me recusei a dizer qualquer palavra em minha defesa, eles não pensaram duas vezes antes de me arrastar de volta para o palácio, coberta de sujeira e exausta.

Assim que fui jogada no salão principal, o príncipe Pedro Carvalho não perdeu tempo com formalidades. Ele caminhou a passos largos na minha direção e agarrou o meu queixo com uma força brutal, erguendo o meu rosto.

— Onde está a Sabrina? — Exigiu ele, com a voz fria e cortante.

Ergui o olhar para encarar o homem que um dia havia sido o meu marido neste mundo, sentindo uma onda de arrependimento amargo invadir o meu peito.

Anos atrás, quando encontrei Pedro ferido e fugindo de assassinos no fundo de um vale, fui eu quem o escondeu em uma caverna segura e arriscou a própria vida para despistar os perseguidores. Naquela mesma época, Sabrina havia acabado de roubar o meu noivo, um jovem general com quem eu cresci, e o rompimento do nosso compromisso me transformou na maior piada de toda a capital.

Ao descobrir a minha situação, Pedro ofereceu a própria vida em retribuição e me concedeu a posição de sua esposa oficial. Ele jurou, olhando nos meus olhos, que o seu sentimento ia muito além da gratidão, confessando que o seu coração batia mais forte por mim.

No entanto, bastou Sabrina cruzar o nosso caminho para que todo o brilho no olhar de Pedro fosse capturado por ela. Os dois passavam as noites admirando a lua, jogando xadrez e conversando sobre tudo, criando um mundo particular onde a minha presença não era mais bem-vinda.

Quando Sabrina desapareceu pela primeira vez, aquele homem que sempre me tratou com tanta delicadeza ordenou que eu fosse torturada. O golpe pesado da régua de punição atingiu o meu ventre com violência, e o chão ao meu redor foi pintado de vermelho em questão de segundos. Foi no meio daquela dor insuportável que descobri a existência de um bebê no meu ventre, uma vida que se apagou antes mesmo de completar o primeiro mês.

Diante do meu silêncio obstinado, um brilho assassino cruzou os olhos de Pedro.

— Pelo visto, você não vai abrir a boca até sentir o gosto da verdadeira dor. — Declarou ele, com um tom ameaçador.

Sem hesitar, o príncipe ordenou que os guardas trouxessem diversos instrumentos de tortura para arrancar a verdade de mim a qualquer custo.

Henrique se voluntariou para aplicar os golpes com as próprias mãos, enquanto Carlos me forçou a engolir uma pílula especial criada para manter a minha mente desperta e multiplicar a sensação de dor.

O pânico tomou conta do meu ser. Eu queria morrer para voltar para casa, mas não estava disposta a passar por um sofrimento tão atroz antes do meu fim.

Tentei me soltar das amarras com desespero, mas o primeiro estalo do chicote rasgou a pele das minhas costas sem piedade. Uma agonia dilacerante se espalhou por cada osso e músculo do meu corpo, me deixando com os lábios trêmulos e roubando até mesmo a força necessária para gritar.

— Me mata de uma vez... — Implorei, com a voz fraca e falha.

Vendo a minha recusa em ceder, Pedro curvou os lábios em um sorriso cruel.

— Você acha mesmo que vou ter pena de você? Vou perguntar só mais uma vez. Onde está a Sabrina? — Insistiu ele, apertando o cabo da espada.

Ergui o rosto pálido e suado, abrindo um sorriso carregado de provocação e triunfo.

— A Sabrina? Acabei com a vida dela! Vocês três não dizem que a amam mais do que tudo? Então venham, me matem e vinguem a morte da mulher de vocês! — Gritei, desafiando todos eles.

Cego pela fúria, Pedro sacou a espada da bainha em um movimento brusco e cravou a lâmina direto no meu peito. Enquanto a minha consciência começava a se apagar na escuridão, a voz doce e familiar de Sabrina ecoou do lado de fora do salão.

— Que bom que estão todos aqui, podemos passar a noite juntos em família! Ah! Por que tem tanto sangue no chão... — Exclamou ela, em choque.
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