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Capítulo 21

Author: Emíliana Vaz
last update Petsa ng paglalathala: 2021-08-10 08:43:35

                                                           21        

Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.

Allan Kardec

   Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia.  Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. Sensações tão boas que quase chegava a ter um orgasmo. Outras vezes lhe dava repulsa, queria impedir que a tocasse, mas não conseguia forças para lutar contra.

   Era Dario, pessoalmente, cuidando dela. Mudou-se para o quarto dela. Proibira qualquer outra pessoa de entrar. Como ela estava cada vez mais magra, a forçava a comer. Sophie vomitava dormindo. Ele a limpava, e a fazia comer de novo. A comida dela era liquida e pastosa para que pudesse engolir facilmente. Ele a lavava, e a acariciava pelo corpo até senti-la ter pequenos espasmos que o faziam se masturbar e gozar. Deitava-se ao seu lado, dormia abraçado a ela, imóvel, como se não tivesse vida pulsante naquele corpo perfeito voltando ao normal depois da gravidez.

      Uma das noites, não conseguindo se conter, Dario tomou posse do corpo dela, vivendo um dos momentos de maior loucura misturada com a luxúria.

      ─Me ama, meu amor... eu imploro, me ama! Quero que seja minha e eu seu para sempre. Eu preciso de seu amor Sophie!

    E ele chorava estocando seu pênis no fundo da vagina dela. Foi então que ele parou e olhou o rosto adormecido e sem reação. Naquele instante ele percebeu que mesmo rico, poderoso, pudesse ter tudo, comprar tudo, o amor daquela mulher não tinha preço. O amor era um sentimento que dinheiro nenhum no mundo compraria. Sentiu-se pequeno, impotente, inseguro. Pela primeira vez na vida sentiu medo, e soube como era o gosto da derrota.

   Insatisfeito com aquela certeza, sentindo-se ainda mais infeliz, a bolinou por horas, acariciou, penetrou-a pela vagina, pelo ânus, e só não fez sexo oral, porque ela não abria a boca. Gozou várias vezes dentro e em cima daquele corpo que ele se apossara, e que acreditava ser seu por direito. Ele pagou por ela! Ela era sua!

    Elísia assistia a tudo aquilo sem acreditar no que seu patrão se tornara. Morria de ciúmes, e sentia falta dele a noite em sua cama, ao mesmo tempo estava enojada com as coisas que o via fazer com uma mulher indefesa e prostrada na cama. Ele não a queria mais, já que passava enfiado naquele quarto dia e noite cuidando daquela cega, e ainda por cima usufruindo de um corpo inanimado. Era descarado e visível, que Dario desenvolvia uma loucura obsessiva por Sophie.

A escrava lembrou-se da noite do parto há mais de um mês.

   ─Leve este bebê para o mato, e se tiver coragem mate-a, senão deixe-a para que a natureza se encarregue de seu fim.

Ela pegara da mão da parteira o cordão com o pequeno coração e enrolara no pulso da menina. Sem coragem de obedecer às ordens dele, ela conversou com outra escrava em quem confiava: Malvina. Era uma mulher de idade e sábia, e disse:

    ─Elísia, mande um dos homens levarem a bebê para a cidade e deixar em qualquer lugar onde possa ser vista. Quem sabe alguém pegue essa cria. Uma judiação o que o patrão está fazendo com essa moça.

    Elísia sentiu um estranho prazer em desobedecê-lo. Uma sensação de poder a invadiu de forma tão intensa a ponto de fazê-la sentir-se feliz. Agasalhou a menina adormecida e alimentada por uma das escravas que tinha dado à luz há pouco tempo, e decidida partiu para cidade. Ela encontrou certa movimentação pelo caminho. Parou em frente à igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição (A segunda igreja mais antiga do Rio Grande do Sul, construída em Viamão entre os anos de 1766 a 1769) a porta estava aberta, havia pessoas rezando. Apeou do cavalo, olhou em volta e rapidamente largou seu “pacotinho” perto da porta. Fitou o rostinho claro da menina dormindo tranquila.

─Essa é a minha vingança, Dario! Pensa que é o senhor de tudo e das vontades alheias, inclusive de m****r matar um inocente? Covarde! Eu decidi que essa criança vai viver!

  Sessenta dias depois da noite do parto, Sophie acordou de vez. Sentia-se estranha, custou a perceber onde estava, quem era, e o que tinha acontecido. Dario estava ao lado dela e da sua maneira tentou colocá-la a par de tudo. Estranhou ao não a ver chorar quando contou do nascimento de sua filha morta. Ela virou o rosto para o lado, e continuou deitada na cama.

    ─Eu estive pensando. O que acha de viajarmos para Campinas? Assim vosmecê conhece minhas terras, minha mãe...

    ─Sou cega esqueceu? Estou aqui há vinte e um anos e levei boa parte da minha vida para conhecer, pelo menos, um terço dos lugares por onde ando sozinha.

    ─Eu terei paciência e a ensinarei a conhecer minha terra.

Ela riu com escárnio.

    ─É preciso muitas pessoas e muito tempo para ensinar uma cega a reconhecer os lugares que andará. Até lá, tu já morreste. Ou eu! Me deixe sozinha...Me deixe em paz!

Ele obedeceu, mas estava decidido a fazê-la mudar de ideia.

    ─Quem tomou conta de mim esse tempo todo?

    ─Eu. - disse ele num estranho tom cansado que a fez virar o rosto em sua direção. ─E não foi fácil pensar que vosmecê desistiria de viver.

    Aos poucos Sophie foi procurando uma nova maneira de se reerguer, de se fortalecer para seguir com um novo plano. Sair, desta vez sozinha, a procura de Diogo. Não teria mais as vivandeiras para ajudá-la. A primeira coisa que fez foi ter notícias do andamento do conflito. Garibaldi e Anita abandonaram a província e a revolução farroupilha e partiram. Os combates continuavam, mortes, presos, desertores. O que Sophie precisava agora era encontrar alguém disposto a sair com ela atrás dos pelotões dos farrapos.

Não podia se aventurar sozinha, Tosca era um bom guia, mas já estava velho, e sair a cavalo pelos pampas era pedir para ser assaltada e morta.  E ainda por cima se encontrava vigiada pelos homens de Dario. Sentia-se fraca, e mesmo assim tentou fugir. Esteve no vale das Sombras com a esperança de poder se refugiar naquele lugar que um dia fora tão seguro. Não encontrou ninguém. Tudo abandonado, em total silêncio. Sua tristeza e seu desânimo eram tão grandes, que ela se sentou embaixo de uma árvore e ficou ali, até a noite cair e ser resgatada pelo próprio Dario que a colocou em seu cavalo. Ela não protestou. Algo novo nela, e que ele não gostou nada.

    ─Preferia quando vosmecê era violenta, sabe?

 Levou-a nos braços para o quarto. Ela ficou de olhos fechados, estava cansada de tudo. Não tinha mais vontade de viver, não tinha mais forças. Pensar na morte era um bálsamo, e lembrou-se da irmã, dos pais, das tias, primas, e pensou como seria maravilhoso poder revê-los.  Mas então ela lembrou que tinha Diogo, e que ele estava vivo! Deu um pulo do colo de Dario o assustando.

    ─Sai do meu quarto!

Ele riu alegremente e aplaudiu-a com deboche.

    ─Agora sim! Enfim, minha Sophie de volta!

    ─Não sou tua e nem nunca serei!

    ─Pense o que quiser, criatura. Passou a ser minha enquanto esteve quase morta neste quarto.

    ─O... que quer dizer? - ela franziu o cenho desconfiada com algo que passou em sua cabeça. ─Tu me cuidaste... tu me tocaste não foi? ...como um homem toca numa mulher!

    ─Até que enfim!

    Furiosa, Sophie se botou nele de tapas, socos e chutes. Os cabelos agora passados dos ombros voavam pelo espaço o hipnotizando, o que o deixou à mercê total dos golpes dela. Foi quando recebeu um tapa em sua face que ele reagiu a segurando pelos braços e a jogando na cama.

     ─Isso gata selvagem! Vamos lá! Bate mais, gosto assim mesmo!

     ─Não faça isto! - ela gritou ao sentir que sua roupa era rasgada e a força do corpo dele sob o seu a subjugando.

     ─Vosmecê já está acostumada. Já a possuí várias vezes, e pelo tempo, e pelo que a tenho cuidado, está esperando um filho meu, nosso! - e arremeteu o pênis dentro da vagina úmida sem se importar com os gritos e a mordida que recebeu dela em sua face arrancando sangue de sua pele.

    Desta vez Sophie não era mais prisioneira no seu quarto. Ela optara por não sair, por dias a fio. Trancou a porta do quarto, escondeu uma faca embaixo do travesseiro para o caso de ter que usá-la, se Dario tentasse entrar, e pensava, incessantemente, numa maneira de abortar aquele filho.

   ─Não é meu filho... -socou a barriga. ─Não é meu filho!

   Sophie desenvolvia uma loucura assassina que poderia chegar ao ponto de matar ou matar-se. Mandara chamar uma das escravas de Dario e sem rodeios pediu a ela.

    ─Sinhá, eu não posso....

    ─Pode sim! Me diz o que fazer para abortar essa cria!

    Nervosa e com medo das consequências a velha Malvina lhe disse num tom baixo.

     ─A arruda, a mesma que é usada para mau olhado, se a sinhá tomar o chá e comer muita salada evita os bebês, mas quando se está grávida... provoca dor, sangramento e pode levar até a morte. - ela disse com a voz embargada de medo.

     ─Não vou morrer! Mas essa cria vai!

     ─Como assim? -perguntou ele horrorizado.

     ─Ela está... perdendo o bebê patrão...- disse a escrava que acabava de sair do quarto dela. ─Está com muita dor e sangrando bastante...

Dario ficou desesperado, e se preparava para entrar no quarto, quando Elísia apareceu no corredor com seu andar provocativo, e seu olhar irônico.

     ─Diga ao patrão o que ela fez para perder o bebê, com a sua ajuda...

 Dario parou, fitou Elísia e por fim Malvina, a velha cozinheira que trouxera de Campinas para cuidar de sua alimentação, em quem confiava a sua boca e o seu estômago. Uma escrava que estava com sua família desde que ele nascera.

     ─O que ela fez?

A velha senhora começou a tremer, suar, e apertou as mãos com força. Podia ver no olhar do patrão o brilho assassino, a maldade que ele trazia dentro de seu coração.

     ─Ela fez o uso da arruda patrão...

Ela não terminou, ele a esbofeteou e gritou para que alguém viesse buscá-la para o seu fim. A velha chorava e pedia clemência.

     ─Chicotadas até a morte! – ordenou e entrou no quarto batendo a porta.

A velha olhou para Elísia enquanto era puxada por dois homens e gritou:

     ─Como pôde trair sua própria raça, sua infeliz? Vai pagar caro por essas traições! Não esqueça!

     Sophie gemia de dor sentindo cólicas horríveis. Tinha a impressão de que alguém raspava seu útero com uma pá. Ela queria gritar, mas não deu um gemido. Estava satisfeita com o andamento de seu plano, mas ao sentir a presença de Dario no quarto e se acavalar sobre ela, começou a gritar.

    ─Vai embora! Me deixa em paz!

    ─Vosmecê matou o meu filho! O nosso filho! - ele sibilava furiosamente a segurando pelos ombros. ─Por quê? Eu te amava, Sophie!

    ─Tu é um monstro! Não sabe nada sobre o amor! Tu me violentou enquanto eu... dormia!

   ─Não! Eu a amei como nunca amei ninguém! Eu dei carinho, afeto, devoção a você! Eu queria dar um mundo de perfeição para uma cega egoísta, assassina!

   ─Assassina como tu! Provaste do próprio veneno! Tua criação está morta!

Furioso, Dario colocou as mãos no pescoço dela, e passou a sufocá-la. Sophie tentava reagir, o empurrando, socando, mas começava a perder as forças. Sentia a dificuldade de respirar, o ar lhe faltando, seu rosto inchando, seus olhos dilatando.

    ─Maldita! Meu prazer é que vosmecê vai morrer sabendo, agora, que sua filha nasceu viva. Viva!

Sophie sentiu seu corpo todo se enrijecer, tentou forças para lutar e reverter àquela situação. Precisava viver! Sua filha estava viva! Não podia se deixar matar daquela maneira!

Diogo me ajuda! Nossa filha... - Ela pensou com toda a força do seu ser. No último resquício de ar, ela conseguiu vislumbrar pela primeira vez o rosto de Dario. Por um momento achou ser um milagre, mas não. Ela estava morrendo, ele a matando, e chorando por sua morte.

  Sophie estava no meio do quarto, e olhava a estranha cena.  Ela deitada e Dario em cima de seu corpo chorando.

   ─Por que vosmecê fez isso? - ele repetia com o rosto colado ao pescoço dela. ─Por que me obrigou a isso? Eu não queria matá-la! Eu não quero ficar sem vosmecê...

Ela não estava entendendo nada. Ela conseguia ver! Pela primeira vez, ela conseguia ver cada detalhe do seu corpo, do seu rosto ali inerte, do rosto de Dario, a colcha de retalho embaixo do corpo dela, costurada por ela com a ajuda das primas e de Luzia. Os detalhes de seu quarto! Foi até a janela e olhou para o mundo. Sorriu entre as lágrimas, mas ficou séria ao sentir a leveza de seu corpo... corpo? Como assim? Ela se voltou para a cena na cama.

    De repente, algo brilhante ao lado dela a fez virar-se. Uma luz muito forte e alguém saia dela ao seu encontro. Não sabia quem era. Mas era incrível o fato de poder enxergar. Eram duas pessoas. E pararam a sua frente. Uma mulher e um homem vestidos de branco.

    A mulher era negra, e Sophie não teve nenhuma dificuldade para descobrir quem era ela.

    ─Afroline...

    ─Sim.

    ─O. .. o que está acontecendo?

    ─Tu está morta Sophie. Viemos te buscar. Tu precisa de atendimento...

    ─Não! Não pode ser... Estou doente, bebi muito chá de arruda e... minha filha está viva! Preciso avisar Diogo! - exclamou −Dario vai ter que me dizer onde ela está e...

    ─Tu precisa vir conosco, Sophie. - disse Afroline num tom doce e suave.

O homem ao lado, um senhor de idade com rosto bondoso falou pela primeira vez.

    ─Você precisa de tratamento filha. Vamos para casa.

    ─Não! Minha casa é aqui! Eu vou esperar Diogo, ou melhor, eu vou atrás dele e...

     ─Olhe aquela cena novamente. - disse ele. Sophie se voltou para a cama. Dario a sacudia com força pedindo que ela acordasse. Ele urrava como um animal ferido.

Foi então que ela se convenceu de que, realmente, estava morta. O desespero se apossou de suas emoções.

    ─Não posso... não pode ser... Ainda não!

Afroline se aproximou ainda mais. A luz que a rodeava era tão brilhante que formava um arco íris com lindas cores a sua volta.

    ─Tu pode escolher. Tu é livre para ir ou ficar. Mas suas escolhas trarão consequências. Tu entende? Agora, tu pode escolher ir para nossa casa.

    ─Não! Não posso, e nem quero ir. Diogo vai voltar. Eu vou atrás dele e... vamos encontrar nossa filha que esse monstro...

  Afroline a interrompeu.

    ─Tu não pode ir atrás de Diogo. Ficará presa aqui, neste lugar. Venha conosco. Escolha a luz, a nossa verdadeira casa. Acabou Sophie! Deste momento em diante se inicia uma nova etapa.

Ela olhou em volta, foi até a janela. A luz do dia sumia aos poucos anunciando a noite. Uma longa noite.

    ─Eu quero ficar! Deixem-me na minha escuridão! Eu sei que Diogo voltará e com ele a minha luz! Eu vou encontrar uma maneira de achar minha filha. - ela se voltou para fitar Dario que saiu do quarto com passos rápidos. Era incrível o fato dele não os ver! Ouvi-los! ─Ele vai me contar para onde levou minha filha! Dario não terá um segundo de paz!

     Diogo acordou da regressão aos poucos. Sentou-se no sofá, totalmente desnorteado e se pôs a chorar. Eloy já estava com um copo de água pronto para ele. Sophie estava um pouco afastada, mas perto o suficiente para apoiá-lo se fosse preciso.

     ─Nunca pensei que veria... sua morte. - disse ele desorientado. ─Por que não me avisou? Por que não me impediu?

     ─Não poderia... eu sinto muito.

     ─Dario era um monstro!

Eloy antevendo uma crise que poderia ter sérias consequências argumentou.

     ─Eu creio que você já viu tudo, é bom encerrar com essas regressões, assim preservando sua sanidade mental.

     ─Não! - disse o casal juntos e se olharam no mesmo instante.

     ─Precisamos ir até o fim! - exclamou ela, decidida.

     ─Eu quero saber o que eu fiz! Por que eu não estava com ela? Por que eu não vejo o que estava fazendo? Que raio de homem eu era que a deixei sozinha nas mãos daquele assassino maldito?

     ─Diogo... - ela começou com suavidade. ─... está tudo bem. Já aconteceu, acabou. Nós só precisamos de algumas respostas.

     ─Eu já tenho as minhas. Fui relapso e descuidado com a pessoa que eu mais amava no mundo! Não posso me perdoar!

     ─Mas eu o perdoei...

     ─Preciso de ar! - ele saiu como uma rajada no vento.

Eloy que ouvia a tudo com atenção, disse rapidamente.

     ─Eu vejo você porque tenho essa capacidade ou isso é um efeito que você consegue?

     ─As duas coisas.

     ─Me conte o quê, realmente, você quer Sophie.

     ─Tudo no seu tempo. Para mim, onde estou, tempo não existe. Aguarde doutor. - e ela sumiu o deixando com novas dúvidas.

 Vilma abriu a porta e o viu ali parado com uma expressão abatida e desolada. Diogo a abraçou com força e ficou assim algum tempo. Ela estava assustada e surpresa. Tudo que ele queria, e precisava, era daquela sensação, calor humano, vida, pele se roçando, cheiro.

   ─Tu pareces mais carente do que um bezerro desmamado.

Eles riram com graça. Ele a soltou e entrou no apartamento se deparando com duas crianças na sala. O menino folheava um caderno e a pequena menina assistia um desenho na televisão. No instante que ele colocou os olhos na menina sentiu uma grande compaixão dentro de si. Um sentimento tão forte que o fez sentar-se ao lado dela. Ela levantou os olhinhos claros e sorriu. Pegou a mão dele e apertou com carinho. Diogo se sentiu em êxtase total! Era como se algo muito sublime o tivesse tocado naquele instante.

   Vilma ficou emocionada e Robson parou o que estava fazendo e ficou em alerta.

    ─Está tudo bem, Rob! É um amigo.

    ─Quem são?

    ─Uma longa história...

    ─Esqueceu que sou um escritor?

Diogo sorriu para a menina e acompanhou Vilma até a cozinha enquanto ela contava em detalhes sobre eles.

Robson, mais tranquilo, fitou a irmã sentadinha compenetrada na televisão, e voltou aos seus incríveis desenhos.

    ─Vamos embora, Sophie. – Afroline pediu mais uma vez. As duas andavam pela frente da casa, na noite brilhante de lua cheia.

    ─Não! Falta muito pouco. Preciso de Diogo!

    ─Tu tem muito trabalho a fazer Sophie.

    ─Eu sei. Eu não vou fugir! Tenho a eternidade inteira para me penitenciar por ter ficado aqui. Vá embora se quiser.

    ─Não. Disse que ficaria para te cuidar.

    ─Como tu sempre fez! Eu sou tão grata por isso!

 Ambas sorriram com olhos amorosos.

  Diogo jantou na casa de Vilma e se divertiu com as crianças. O menino era mais reservado, mas inteligente e depois que se acostumou com a presença dele se soltou. Falaram de seus times de futebol. A menina era um encanto e tomou a atenção fazendo perguntas e rindo à toa.

    ─Então a mãe deles quer me conhecer?

    ─Quer agradecer o advogado que tu arrumaste. Dan conseguiu um trabalho para ela a noite num posto de gasolina, e um de meio turno três horas por dia. Assim a mantém ocupada para não cair no mundo do crime novamente.

     ─Não creio que ela vá se deixar levar depois do que houve. Não a conheço, mas...

     ─Como saber o que se passa na cabeça de alguém?

Depois de acomodarem as crianças, Vilma bem que tentou fazê-lo ficar. Beijou-o sedutoramente, roçando o corpo no dele, mas desta vez, Diogo não correspondeu, o que a deixou abalada.

     ─Não fique chateada. Estou tentando parar de beber e isso mexe até com minha libido, entende? Está sendo bem difícil... como sempre!

     ─Tenho certeza de que tu conseguirás. - disse ela conformada reparando nas mãos másculas, trêmulas. Efeito da falta do álcool.  ─Conte comigo!

Ele a beijou mais uma vez, agradeceu o jantar e voltou para a estância.

    Eloy já havia se retirado, Sophie estava no quarto, na janela, como sempre. Ele sorriu carinhosamente ao entrar e vê-la na mesma posição.

    ─Fez... amor com ela?

    ─Com ciúme? - ele riu surpreso da percepção dela. Não podia esquecer que ela vivia em outro plano. ─Não consegue ler no meu pensamento?

    ─Tem coisas que eu não quero. - ela se virou para fitá-lo e ele estranhou ao ver o sofrimento no olhar azul.

    ─Eu daria minha vida para voltar naquele tempo e mudar toda nossa história.

Ela chorou de emoção. Diogo foi até ela, e se lamentou de não poder abraçá-la e confortá-la.

    ─Não se preocupe... esses pensamentos amorosos são um bálsamo para mim Diogo.

  ─Eu a amo tanto! Poderia ficar pela eternidade inteira ao seu lado, sem tocá-la, simplesmente por ficar.

  ─Eu sei. O amor pode tudo, Diogo!

                      

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