Masuk23
A hora da verdade!
Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias, queria se despedir de Sophie e daquele lugar para sempre. Ela estaria com ele, onde ele estivesse. Até depois de morto. Tirou o velho poncho úmido e largou na cadeira junto com seu chapéu. Andou pela casa inteira, entregue as recordações de amor vividas com ela naquela linda noite. Sophie na cama, nua, os cabelos espalhados pelo travesseiro, o sorriso claro e honesto. A escapada do quarto e a aventura na cozinha. Podia sentir o aroma delicioso do carreteiro de charque, do gosto do mate amargo enquanto a esperava para jantarem juntos. A música linda que ela tocou no piano que era para ser somente para ele, acordando a casa inteira.
Aquela imagem sentada ao piano. Parecia um anjo iluminada pela luz do Criador. Sua pele inteira se arrepiou. Estava emocionado com lágrimas pelas faces. Diogo não podia ver, mas podia sentir uma presença tão forte e intensa perto dele que fez seu coração bater mais acelerado.
─Nunca mais um dia de sol nesse rincão será o mesmo sem ti. Nunca mais uma noite estrelada terá o brilho real sem tua presença. Nunca mais serei um peão completo sem ti, minha prenda.
Ela sentiu as lágrimas brotarem de tristeza. Estava ali tão próxima e ele não podia vê-la. Ele cruzou os braços e se encostou à parede olhando pela porta da sala aberta. O frio entrava sem pedir licença. O dia nublado anunciava chuva. Um dia triste, como seriam todos os seus dias sem ela. Sophie esteve todo o tempo ao seu lado, o admirando, fazendo preces fervorosas para que chegassem nele. Talvez por isso ele demorou tanto a vestir o poncho, pegar o seu chapéu e dar adeus àquele lugar.
Lá fora, quando se ajeitava para subir em seu cavalo, um homem passou correndo em cima do seu animal e parou ao lado dele com um sorriso irônico e maldoso.
─Buenas! Temos visita! Mas tchê! - ele riu com escárnio. ─Vosmecê só pode ser o tal herói da minha falecida mulher, Sophie!
Espumando de ódio, Diogo se preparou para a batalha mais importante de toda sua vida.
─Sophie nunca foi tua mulher!
─Foi sim, cama, mesa e banho! Na cama então? Nossa! Garanto que com vosmecê ela nunca foi como era comigo, uma verdadeira... como vocês dizem aqui? Ah, sim, uma chinoca!
Diogo correu até o animal, deu um salto digno de um gato feroz o derrubando no chão. Os dois homens se atracaram numa luta de socos. Hora um acertava o rosto do outro, em igualdade de força e intensidade. Diogo estava sendo prejudicado com seu poncho. O que ele tirou assim que rolou para o lado e levantou num pulo.
─Quero saber o que tu que fez com ela, maldito? Pelo que andei ouvindo por aí, tu fizeste muito mal a ela!
─Intriga da oposição! - ele riu de pé, esfregando a boca cortada, com um filete de sangue escorrendo. ─Sophie nunca foi tão feliz como quando esteve aos meus cuidados.
─É mentira! Sei que ela sofreu contigo, sei que tu a forçaste a coisas que ela não queria.
─Sabe, como? A alma dela por acaso contou?
Dario puxou a espada, Diogo a dele e uma luta feroz de dois homens movidos por sentimentos como ódio, justiça, dor e sofrimento, amor insano, loucura, se iniciou para acabar somente quando um deles caísse para sempre. As espadas gritavam e soltavam faíscas.
─Tenho certeza de que tu a maltratou seu miserável, e agora tu vai morrer!
Dario riu debochado, estava machucado de apanhar, mas era um ótimo espadachim e não ia se deixar derrotar.
─Morrer? Não sou um borra botas, gaúcho de merda! Como dizem por aqui, peãozinho duma figa! Porque foi para essa guerra ridícula, e matou meia dúzia de homens, se acha um herói! Mas não estava aqui para proteger a vagabunda da Sophie!
Foi o suficiente para Diogo perder a cabeça, dar dois golpes de espada, um no lado direito na barriga o cortando, outro na coxa fazendo um rasgo, dando-lhe uma rasteira para que ele caísse de barriga para cima.
Dario sentiu que estava perdendo e feio, tentou levantar, mas Diogo chutou a espada do oponente para longe, pisou em cima das mãos dele, com um pé de cada lado, o impossibilitando de se levantar, e cravou a ponta da espada em seu peito de modo que ele pudesse sentir só a pontinha. Dario sentiu-a rasgando sua pele, e continuava rindo como se não estivesse acontecendo nada.
─O que tu fizeste com ela? Com nosso filho? Sei que tu fizeste algo com ela, maldito! Conte ou morrerá!
─Jamais! Levarei todos os momentos que estive com ela para o túmulo e vosmecê jamais saberá.
─Peça clemência, seu desgraçado! Quero ver “vosmecê” pedindo por tua vida!
Diogo acordou da regressão com o peito dolorido, ardendo, o coração batendo disparado como se fosse explodir. A sensação de morte latejando em todo o seu corpo. Com os olhos vidrados, ele olhava para Sophie que estava imóvel. Não podia acreditar! Não queria acreditar! Eloy estava estarrecido, pois o que já desconfiava, era verdade.
─Eu sou... o Dario...Eu sou ele! - fitou Sophie nos olhos com horror. ─Isso é uma vingança! Por isso, estou aqui. Era isto que você queria este tempo todo e me deixou acreditar que... Maldita! Maldita! - gritou saindo em desabalada porta a fora.
Eloy ia atrás dele, mas ela o parou.
─Deixe-o só! - ela ordenou.
─Você é um espírito obsessor, e neste tempo todo nos enganou!
─Talvez eu tenha sido por muito tempo, mas o que está acontecendo aqui, agora, é da vontade dele. Ele prometeu que voltaria. Ele foge, mas ele volta. Desde sempre foi assim! Não se preocupe, Dario ficará bem. Todos nós ficaremos bem.
No seu carro, Diogo corria velozmente pela faixa, sem prestar a atenção em nada. Sua cabeça estava em tudo que vira, ouvira, e principalmente fizera. Mas mais ainda no que descobrira sobre si mesmo. Desesperado e sem saber o que fazer, ele parou no acostamento, desceu do carro batendo a porta e vomitou. Tinha um esgoto sujo e podre fedendo a merda dentro de si, precisava colocar tudo aquilo para fora ou morreria engasgado com tanta sujeira.
Como podia não ser quem ele achava que era? Por que aquela infeliz o fez acreditar que ele era o Diogo dela? Ele sentou-se ao chão e encostou as costas no pneu do carro. Cobriu o rosto com as mãos e chorou ao relembrar tudo de ruim que fizera naquela vida, e nesta.
Algum tempo depois, ele atravessou o imenso portão e parou o carro ao lado da figueira sentindo o aroma das magnólias. Ela estava na janela. Diogo foi rapidamente para o quarto. Passou por Eloy que tentou pará-lo, mas ele não o ouviu.
Ao passar pela porta, ele foi logo perguntando.
─Por que tudo isso? Por que estou aqui? Eu quero respostas! Fazia parte de uma vingança, não é?
Ela se virou para ele. Havia tudo naquele olhar, afeto, carinho e compaixão.
─Você não sente ódio por mim? Por tudo que eu fiz, fui?
─Não. Senti, por muito tempo, mas tive uma pequena eternidade para me livrar desses sentimentos. Estamos aqui para aprender. Senta e fecha teus olhos.
Ele obedeceu com movimentos mecânicos. Sentiu a presença dela ao seu lado. E por mais estranho que pudesse parecer, estava se sentindo no lugar mais seguro do mundo, com a pessoa, ou a alma mais certa no momento.
Ele voltou ao dia de sua morte. Estava ao lado do seu corpo sem vida. Não conseguia acreditar. Diogo limpava sua espada suja de sangue, enquanto Dario estava ali, parado, num mundo cinzento, ouvindo sussurros e gritos ao longe.
Sentia um vento gelado a sua volta, e dores terríveis em seu peito, onde fora ferido. De repente a luz atrás de suas costas chamou sua atenção. E ficou horrorizado ao se defrontar com Sophie.
─Não... isto é um pesadelo! Eu desmaiei e estou vendo coisas...
─Não Dario. Tu está morto! Diogo te matou e confesso que foi pouco pelo que tu fizeste nesta vida contra os meus!
─Não, eu não estou morto! – gritou apavorado. ─Isto não existe. Eu tenho dinheiro, eu posso negociar, eu...
─Aqui, deste lado, tu vai aprender que o teu dinheiro não vale nada. Aqui, dinheiro não existe.
─Está certo, então vosmecê me perdoa... e estará tudo bem, não é? -ele se sentiu arrastado, movendo-se sem vontade própria, o dia virou noite e ele partiu para um mundo escuro e feio chamado Umbral.
Depois de muito tempo naquele lugar…
─Você se saiu muito bem, Dario.
Ele sorriu olhando em volta, ainda sem acreditar. Um céu azul, um vasto campo tão verde, flores multicores, pessoas indo e vindo, todas elas com um sorriso no rosto e o semblante de paz. Ele fitou irmão José.
─Eu sei que preciso voltar. Preciso ajudá-la a sair de lá.
─Sim. Ajude-a. Nossa querida Sophie precisa se desligar daquele mundo para sempre. Ela se aprisionou em seus sentimentos negativos e ruins.
─Eu tenho como ajudá-la?
─Sim. Você saberá como. Sempre podemos ajudar alguém a evoluir. Não é uma obrigação, mas caridade.
─Preciso evoluir muito ainda, irmão José.
─Sim, Dario. Precisa sim. Todos nós precisamos. Com amor em Deus, tudo se renova, tudo se perdoa, tudo se cura. Vá em paz nesta nova jornada, e não se desvie do seu caminho.
Diogo abriu os olhos e a fitou. Entendeu tudo, e muito mais do que ele poderia imaginar.
─Eu fiz tudo errado, Dario. - disse ela num tom cansado. ─Eu deveria ter aceitado o teu amor, eu estava naquela vida para este propósito. Eu e Diogo não poderíamos ficar juntos. Eu precisava te mostrar o que era o amor, ser amado, e eu não podia e nem tinha o direito de ter matado nosso filho.
─Mas você estava certa! Pelas circunstâncias... eu violentei você!
─O meu retorno naquela vida era para te ensinar, te fazer evoluir e eu me desviei do meu caminho. Me deixei levar pelo grande amor que sinto por Diogo. Nós tínhamos uma dívida a ser resgatada de afeto e de amizade um pelo outro. Antes de chegarmos naquela vida, havíamos combinado que nos ajudaríamos. Tu entende? Eu errei muito! Peço que me perdoe...
─Não posso acreditar que me peça perdão depois de tudo que eu fiz...
─Já passou. Eu, tu e Diogo temos uma longa história de vidas passadas juntos, que um dia, quando tu retornar, irá te lembrar de todas elas e poderá entender o que está acontecendo aqui. Coisa que eu não quis fazer quando desencarnei. - ela passou a mão de leve pela face dele, que sentiu apenas o calor.
─Essas coisas são um tanto difíceis de compreender.
─Então, por hora, nem tente, apenas aceite.
─O que você quer, Sophie?
Ela sorriu carinhosamente ao ouvir seu nome de maneira tão suave.
─Que me ajude a encontrar minha família. Os descendentes da minha filha.
Ele se levantou da cama assustado. Era muita responsabilidade.
─Eu não sei nem por onde começar...
─Tu vai encontrar um jeito. - ela foi até o meio do quarto. ─É muito importante. A única coisa que eu sei, é que minha filha sofreu muito. Teve filhos que morreram de uma epidemia de varíola, mas uma menina sobreviveu e... não sei mais nada.
─E Diogo? O verdadeiro? - ele disse sem jeito.
─Eu perdi o direito de vê-lo e saber dele quando escolhi ficar aqui.
─Por minha culpa.
─Não. Tu escolheste o nome, Diogo, para poder ser encontrado. Tu escolheste ajudar. Tu foste nobre. Não se puna mais do que já foste. Tu te arrependeste de tudo, e pediu para voltar e me ajudar.
Ele ficou um tempo a olhando com atenção e receio de perguntar.
─Sim, eu já te perdoei. Tudo o que aconteceu naquela vida, ficou por lá. Mas minha família está aqui, e quero que este lugar seja devolvido para quem tem direito, já que passei uma pequena eternidade aqui te esperando, façamos valer a pena tudo isso.
Diogo sorriu comovido. Parou em frente a ela.
─Meu amor por você...
─Amor de amigos, irmãos, que por algumas vidas se transformou em ódio. Teu amor por mim foi uma ilusão terrena. Tu vai encontrar teu grande amor. Vai poder se lembrar, pois nos foi dada essa benção. Não posso dizer mais nada.
Ele assentiu, sorriu, e ela sumiu como mágica. Mais tarde, reunido com Eloy, ele contou tudo, e quando ela surgiu, Eloy aproveitou para perguntar.
─Tenho duas dúvidas.
─Eu sei doutor. A primeira é sim, enquanto estive aqui, trabalhei muito no mundo espiritual, e quando voltar terei mais trabalho ainda para realizar.
─E o que aconteceu com Diogo?
Ela foi até uma das janelas da sala e fitou o horizonte.
─Diogo voltou para a guerra...
Em novembro de 1844, a revolução encontrava-se em pleno armistício, e seu fim já começava a ser negociado entre os líderes de ambos os lados.
Diogo corria para chegar a tempo de poder evitar a maior tragédia e massacre que estava para acontecer.
Os lanceiros negros estavam acampados no cerro de Porongos sob comando do general David Canabarro, entre eles Tião, que sorria satisfeito, embora a profunda tristeza após a descoberta da perda de sua amada Dulce no incêndio na casa de Deusa, e Barnabé comemorando numa festa sua “libertação” e a volta para casa, e, momento este, de muita euforia e bebedeira.
Dançavam, cantavam, pulavam alegremente a liberdade e o retorno, vivos, para casa, quando foram atacados de surpresa por forças sob o comando de Francisco Pedro de Abreu, o Moringue. O Corpo de Lanceiros Negros, cerca de 800 homens de mãos livres, tentaram resistir ao ataque, mas foram quase todos mortos.
Diogo chegou tarde demais, e morreu lutando, decepcionado com a grande traição que ele e seus amigos sofreram no final daquela guerra. Também foram presos mais de 300 republicanos, entre brancos e negros, e 35 oficiais farroupilhas.
Teixeira Nunes, principal líder dos lanceiros negros, foi ferido durante o confronto e, logo após, foi morto por Manduca Rodrigues, que lutava pelos imperiais.
Em Poncho Verde, no final de fevereiro de 1845, foram examinados pelos republicanos os termos do documento, já assinado pelo barão de Caxias, intitulado Convenção de paz entre o Brasil e os republicanos. O general David Canabarro, comandante em chefe do exército republicano, investido de poderes para representar a presidência da República, aceitou as condições. Farrapos e imperiais se reuniram no Acampamento Imperial de Carolina, em Ponche Verde, região do atual município de Dom Pedrito, para decretar a pacificação da província.
Nas mãos de um jornalista, da época, foram parar novas charges de Diogo, entregue por um guerreiro anônimo, momentos da guerra, momentos no acampamento, momentos de um casal apaixonados vivendo muitas aventuras em uma semana pelos pampas. Momentos das vivandeiras, trabalhando, ajudando os feridos, cozinhando, amando, lutando, profanando os corpos, ato necessário para os homens esfarrapados pela guerra. E alguns desenhos que chamaram a atenção do jornalista. Um duelo de Titãs numa estância de Viamão que acabou na morte de um deles, e na partida do sobrevivente de volta para a guerra. E mais ainda, uma dedicatória no final das charges.
Em memória de minha guria, Sophie.
─Como se sente, Diogo? - perguntou Eloy preocupado ao vê-lo com o olhar apagado e distante depois de ouvir o relato de Sophie.
─Bem. Sinto que um grande peso foi tirado de minhas costas.
─Eu confesso que jamais pensei em viver nada igual assim...
─Mas o senhor era esperado, e era para estar aqui. - disse Sophie de maneira simples.
─Não devo saber por quê?
─Não, nem tudo devemos saber. Mas sei do teu conhecimento sobre o mundo espiritual, e sei que se preparou para viver este momento conosco.
Eles riram com cumplicidade.
─Eu fico muito feliz em poder ter participado de tudo isto. Sei que foi muito importante para todos nós e nossa evolução e passagem nesta encarnação.
No alto da escada, Afroline chorou de emoção. O seu Everaldo, o seu amor de existência, era Eloy.
Véspera de natal de 2016, e Diná estava empolgadíssima em seu novo trabalho. Andava exausta, mas feliz. Sua única preocupação era o fato de ainda estar na casa de Vilma, uma boa pessoa, mas percebia-se que estava cansada do barulho das crianças, e às vezes ela perdia a paciência e gritava com eles. Mirela se assustava, Robson ficava chateado, e o resultado, era que os dois fugiam. Ela chegou ao apartamento da amiga apavorada depois de ser chamada às pressas.
─Eu sinto muito, mas não se pode falar com eles num tom duro, que teu filho foge.
Daniel chegou quando Diná abria a boca para protestar.
─Vilma e sua boa paciência. - disse ele zangado.
─Tudo bem, Vilma... - se lamentou Diná. ─Eu deveria ter voltado pra ilha dos Marinheiros e assim...
Daniel a calou.
─Não diga bobagens! Aquilo lá não é lugar pra vocês.
Diná o fitou agradecida, e sorriu sem graça. Ficava assim perto dele. Além de bonito, aquele homem tinha um coração de ouro. Pena ser casado, ela pensava. Se bem que... casado não era atestado de morto.
De repente Vilma teve um lampejo.
─Eles se afeiçoaram muito ao Diogo. Quando ele vinha aqui ficavam muito tempo conversando sobre a estância, e as crianças com os olhos brilhando de curiosidade. Ele até tinha prometido de levá-los até lá. Quem sabe se...
─É possível. – disse Diná. ─Se conheço bem o meu filho, deve ter ido atrás dele. Pra Robson, não existe caminho difícil! Não sabe os riscos que corre por aí. Se eu deixar vai virar um mochileiro viajando por esse mundão! E tomara que ele tenha ido atrás desse cara.
Daniel assentiu e pegou-a pelo braço, partindo os três para a estância.
Diogo fechava a mala absorto em seus pensamentos. Havia combinado com Sophie que iria até São Paulo com Eloy, se desfazer de algumas coisas para arranjar algum dinheiro, falar com seu editor e voltaria para contratar um investigador, e juntos, procurariam a prole de Sophie e Diogo. Sentia-se melhor, estava escrevendo muito, e logo teria um bom livro para apresentar a Rudi. De repente ouviu o barulho de carro, batidas de porta e foi até a janela.
Viu três pessoas saltarem. Reconheceu duas, Vilma e o irmão, mas a terceira ele não conhecia. Foi recebê-los, e assim que abriu a porta e ficou cara a cara com aquela garota alta, magra, de cabelos curtos na cor loiro prateado, e que seus olhares se depararam, ele soube.
Luzia...
Flash de cenas vividas com ela em muitas outras vidas veio a sua mente. Vidas carregadas de paixões, traições, assassinatos, vícios, mortes...
Diná ficou parada o olhando, fascinada pela sensualidade e beleza daquele homem. Enquanto ele revia uma conversa em outro lugar e tempo.
─Vamos crescer, evoluir. E um dia poderemos ficar juntos. - dissera ela com um sorriso.
─Para sempre, meu amor!
Ainda não é desta vez, ele ouviu a voz ao seu lado. Era de Sophie. Ela olhava a moça com interesse e a examinava com atenção. Os traços, o corpo, o rosto.
─Eu sou Diná. – se apresentou. ─Queria muito te conhecer e agradecer o que fez por mim.
─O que?
─O advogado.
─Ah, sim! Não foi nada!
─Obrigada! De coração! - ela deu a mão para ele que aceitou apertando com delicadeza.
Diogo sentiu uma profunda tristeza. Como pudera matá-la em sua outra vida? Como pudera fazer tanta maldade?
─Não se atormente. - lembrou Sophie. ─Tem alguma coisa nela, Diogo...
Ele sabia que ninguém mais a via, e se falasse com Sophie, o chamariam de louco. Foi então que Sophie desceu o olhar para o pescoço de Diná. Um lampejo veio à sua mente. Diogo a olhou rapidamente e voltou o olhar para o mesmo lugar.
─O pingente, o coração da minha trisavó Sophie, que Everaldo me dera quando fui batizada com o mesmo nome dela... É ela! É ela Diogo! Ela é minha descendente! - ela exclamou eufórica.
Diogo tremia de antecipação, emoção, e ao mesmo tempo não conseguia falar o que queria ou os deixaria assustados. Lembrou da visão do pingente que Sophie entregara a parteira para colocar na menina. Aquele pequeno coração era muito mais do que um teste de DNA. Diogo disse a primeira coisa que veio em sua cabeça para segurá-los e ganhar tempo pensando no que fazer.
─Em que posso ajudá-los? Vilma?
─As crianças sumiram. Achamos que tivessem vindo para cá, já que estão tão ligados em ti nesses últimos tempos.
Ele se preocupou e pensava em responder, quando percebeu que Sophie a pouco ao seu lado, no momento seguinte estava lá fora, olhando para o horizonte. Ele saiu porta a fora e viu as crianças correndo numa distância boa, brincando alegremente. Robson e Mirela riam e corriam um atrás do outro com um pequeno cachorrinho se embolando nos pés deles. Como chegaram ali, só o menino poderia responder, pensou Diogo rindo aliviado.
Diná e Daniel correram até eles. Vilma foi caminhando devagar, e Diogo ficou para trás, impressionado com o pranto de Sophie.
─O. ..o que aconteceu?
Ao lado de Sophie estavam Afroline e o irmão José, que Diogo não podia ver. Irmão José explicou:
─O menino Rob é o seu Diogo, Sophie. A menina Mirela é o Dirceu, irmão de Dario (Diogo), e foi tua irmã, Ticiana. Diná é a Luzia, e ela, realmente, é descendente de tua filha. Daniel é o Tião, sempre ao lado do amigo Diogo. Luzia e Tião, de alguma maneira estão sempre ligados em vocês e nessa amizade que ultrapassa vidas e vidas. E finalmente, Vilma, é a Deusa. Ela foi sua mãe em uma vida passada, minha filha. Os laços de família não são destruídos pela reencarnação, como pensam certas pessoas. Pelo contrário, são fortalecidos e reapertados. O princípio oposto é que os destrói. Os Espíritos formam, no espaço, grupos ou famílias, unidos pela afeição, pela simpatia e a semelhança de inclinações. Esses Espíritos, felizes de estarem juntos, procuram-se. A encarnação só os separa momentaneamente, pois que, uma vez retornando a erraticidade, eles se reencontram como amigos na volta de uma viagem. Muitas vezes eles seguem juntos na encarnação, reunindo-se numa mesma família ou num mesmo círculo, e trabalham juntos para o seu progresso comum. Se uns estão encarnados e outros não, continuarão unidos pelo pensamento. Os que estão livres velam pelos que estão cativos, os mais adiantados procurando fazer progredir os retardatários. Após cada existência terão dado mais um passo na senda da perfeição. (O Livro dos Espíritos). Revele apenas o suficiente para Dario, Sophie.
Sophie assentiu em estado de graça! Nunca imaginara um desfecho tão maravilhoso! Muito menos, ser merecedora de um presente tão abençoado como aquele.
─Você quer me dizer o que está acontecendo, Sophie?
Ela o fitou chorando emocionada e feliz.
─O menino é o Diogo e a menina... é o teu irmão, Dirceu.
Sem acreditar, Diogo voltou os olhos para eles que brincavam mais distante. Então ele pôde entender o porquê daquele carinho imenso pela menininha quando a viu. Eloy mais atrás, que ouvia a conversa, confirmou com uma certeza que não sabia de onde vinha.
─Isso é possível, Eloy?
─Você ainda tem dúvidas depois de tudo que viveu aqui?
Diogo estava emocionado, encantado, e muito feliz!
─Entende agora por que não podem ficar juntos? Luzia está numa missão, algo que se escolhe, ou se propõe antes de vir para cá. Estamos todos. - explicou Sophie. ─Precisamos aceitar.
─Sim. Eu entendi. Era para ser, exatamente, assim. Cada um de nós fez a sua escolha.
Irmão José sorriu, fitou Sophie e ao lado de Afroline sumiram.
─E agora?
─Agora tu precisa contar a verdadeira história dela e de sua descendência, e passar a estância para o nome dela. Ela saberá o que fazer.
─E como vou fazer isso? Dizer que conheço a... - ele parou para pensar um pouco e encontrar o grau de parentesco. ─...talvez a hexavó dela de outra vida?
Eles riram divertidos.
─Sim! Minha família floresceu! Tu encontrará um jeito. Tenho certeza!
Diogo cancelou a viagem, e em poucas horas, organizaram um natal maravilhoso na estância. Eloy ficou encantado por Vilma. Daniel com certo ciúme de Diná com Diogo. O que era muito estranho, já que ele era casado. Sophie tratou de tranquilizá-lo.
─Daniel é o homem certo para ela.
─Como você pode ter certeza?
─Não faça perguntas difíceis.
Diogo a olhou com muita ternura.
─Custo a acreditar que depois de tudo... você tenha me perdoado, Sophie.
Ela se voltou para ele e acariciou-o com um doce olhar.
─A chave para a evolução humana e espiritual é o amor e o perdão. Deus quer apenas isso de seus filhos, amor e união. Padeci muito para entender essa verdade.
─E vai pagar um preço alto por ter ficado aqui.
─Nada que eu não possa pagar.
À noite, a festa foi tão bonita, e tão cheia de encanto, que Diogo não podia estar mais feliz. Não bebeu uma gota de álcool. Não sentia vontade de beber. O vício desaparecera como que por encanto. Cura surpreendente! Ficou o tempo todo com as crianças contando histórias divertidas, enquanto observava Eloy “praticando a conquista” com Vilma. Daniel e Diná em certo momento fugiram, deixando os convidados, inclusive a mulher dele para trás.
─Tudo bem para você eu... e ela? - perguntou Eloy um tanto sem graça.
─Por mim está tudo certo. - ele sacudiu os ombros. ─Estou preocupado é com aqueles dois que acabaram de fugir para o andar de cima.
Eloy percebeu e procurou com o olhar a esposa de Daniel que conversava com alguns amigos, distraída.
─Quem sabe você dá uma força?
Diogo riu divertido.
─Faço esse sacrifício. Confesso que estou precisando de um pouco de ação viva! - e ele foi em direção a loira gostosa que também o olhava com grande interesse.
Sophie assistia a tudo com uma felicidade imensa. Robson estava atento ao quadro em cima da lareira. Emocionada ela se aproximou dele, seu grande amor, fazia parte de sua descendência! Era seu hexaneto! Viu o caderno de desenhos na mãozinha e chorou. Um dom que ele carregava desde sempre! Ele fazia um esboço da imagem dela. Ela se ajoelhou e sussurrou em seu ouvido.
─Eu te amo!
O garoto continuou o desenho com um sorriso nos lábios.
Daniel beijou-a com sofreguidão. Diná tirou a roupa rapidamente, o fazendo rir.
─Por que a pressa?
─Tua mulher...
─Ela não nos viu. - ele a admirou com atenção. Ela era magra, um corpo sem tantas curvas como sua esposa, mas suave, delicada e feminina.
─Não quero ser pega por uma louca ciumenta, e depois... quero aproveitar essa oportunidade. Como dizia minha mãe, a oportunidade faz o ladrão.
Ele a enlaçou pela cintura, também nu, peles se roçando.
─Então isso é um roubo?
─Sim! Gostaria de roubar teu coração!
─Não tem medo de ser presa?
─Se for presa a ti, não. - ela o olhou tristemente. ─Não me importo de ser tua amante, desde que esteja contigo.
─E quem disse que tu vais ser somente minha amante? Te prepara, será muito mais!
Rindo feliz, ela olhou para o lado, e viu os corpos de ambos, no espelho da pequena penteadeira.
─Somos bonitos juntos.
─Muito!
─De quem terá sido este quarto? Quem será que dormiu aqui? Quem fez amor nesta cama? Este lugar deve ter tantas histórias, né?
─Seja de quem for, esse perfume de magnólias e aquela colcha de retalhos são muito convidativos. Deixemos essas perguntas para depois. Eu te quero, minha guria.
Ele a colocou acavalada em seu quadril e ela soltou uma gargalhada.
─Nunca pensei que eu pudesse me sentir tão feliz!
─É? Vou te fazer muito mais feliz ainda.
No espelho, Sophie sorriu entre lágrimas.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,