Masuk20
Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.
Allan Kardec
Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava para as mãos e o curativo nos pulsos, cortados com uma faca de plástico. Ele fazia a ideia da força que ela usou para os cortes. Viu-o se aproximar da lateral da cama, mas não ergueu os olhos.
─Oi Diná. Como está?
─Com raiva por ainda tá aqui nesse mundo. Tenho vinte e um anos, não sei quem sou, de onde vim, e ainda por cima tive dois filhos que eu não posso cuidar! - ela o fitou nos olhos e ele viu muita raiva. ─Eu não queria que as coisas fossem assim. Eu não queria roubar! Não queria entrar pra esse mundo do crime, mas eu não tive escolha!
─A gente pode escolher sim, Diná.
─Não, nem sempre, doutor! Se te contaram isso, mentiram! Existem pessoas, como eu, que já nascem predestinadas a viverem na parte obscura do mundo. Elas não têm família, não tem amigos, não tem sorte, elas não têm nem uma casa decente pra morar! E, de quebra, ainda são perseguidas! - ela lançou um olhar ressentido se referindo a ele, o que o fez sorrir com carinho e um certo sentimento de culpa.
─Papel de vítima não combina contigo, guria.
─Eu sou vítima dessa sociedade mentirosa, hipócrita e desse governo corrupto! Vai vendo se esses políticos vão se dar mal na roubalheira na tal da Lava Jato? Agora eu, mãe, sou presa, porque roubei pra dar de comer aos meus filhos.
Daniel puxou a cadeira e se sentou ao lado dela na cama. Ela o fitou consternada.
─Por que não se sentou na beira da cama? Já somos íntimos, afinal tu me prendeste. Tu és meu carrasco!
Daniel gargalhou.
─Qualquer gesto meu pode ser interpretado erroneamente. Não quero parecer que estou assediando minha prisioneira.
─Hump! Como se fosse possível alguém como tu se interessar por alguém como eu. Sou capaz de julgar a mim mesma.
Daniel ficou sério, e preocupado. Falando assim, ele percebia a fragilidade dela sempre a um passo da depressão. E de como era grave essa doença que precisava de toda a atenção possível.
─Diná, tu és uma garota muito bonita. Qualquer pessoa pode se interessar por você. Mas a questão não é os outros se interessar, mas você, por si mesma. Não sou teu carrasco. Trabalho pra lei. Preciso fazer o meu trabalho. Mas só pra você saber, não costumo visitar quem eu prendo.
Ela o fitou nos olhos e ele viu lágrimas brilhando.
─E pode ter certeza de que essa cambada de políticos corruptos, vão ser punidos sim. Tu deves estar acompanhando as manifestações e as cobranças do povo que cansou desses ladrões! E roubar Diná, não é legal. Existem outros caminhos pra se ganhar a vida honestamente.
Ela suspirou ainda com os olhos fixos nas mãos.
─Quando volto pra cadeia?
─Não vai voltar. Só se tu quiseres.
Ela levantou o rosto com uma expressão de assombro.
─O... que aconteceu? Um milagre?
─Alguém pediu um bom advogado e tu vai responder ao processo em liberdade. Ele vai te procurar.
─Quem é esse anjo milagreiro?
─Um escritor chamado Diogo Dornelles, amigo de minha irmã.
Ela deu um sorriso tão iluminado e brilhante que o coração dele disparou. O que estaria acontecendo com ele?
─Mas Diná, comporte-se, ok?
─Bah! Não tenha dúvidas de que serei a mulher mais comportada da face da terra!
─Também não precisa exagerar. Mulher muito comportada costuma ser chata.
Ao sair do hospital, Daniel se lembrou de como conseguiu encontrar os filhos dela. Entrava na delegacia quando foi abordado por um padre idoso e de sorriso gentil.
─Delegado Daniel?
─Sim. Em que posso ajudar?
─Soube que procura duas crianças.
─Sim. - os olhos dele se iluminaram. Tinha uma equipe atrás dos filhos de Diná há dois dias sem nenhuma notícia. ─Sabe alguma coisa?
─Se forem os mesmos... estão na minha igreja. Venha comigo.
Quando Daniel os viu, suspirou aliviado. Olhou para cima e agradeceu a Deus.
─Como soube de mim, padre? - ele perguntou antes de conversar com as crianças.
─O garoto me disse o nome do delegado que prendeu a mãe dele. E parece não gostar muito de você...
Ele assentiu e se aproximou das crianças. O menino olhava alguns gibis antigos. A menina brincava com alguns brinquedos de legos sentadinha no chão. Daniel sorriu, e no instante que o garoto o viu, levantou-se da mesa indo em direção da irmã.
─Não tenha medo. Não vou te fazer mal.
─Tu já fez, prendeu a minha mãe!
─Sim, e não. - ele se abaixou e fitou o garoto que era muito parecido com ela nos traços, embora os cabelos e olhos escuros. ─Sua mãe voltará para casa logo. Ela não passou bem e foi para o hospital.
O garoto tomou um susto. Pegou a menina no colo e queria sair correndo atrás da mãe.
─Não pode Robson. Confie em mim. Vamos para casa da minha irmã. Vocês estarão seguros e assim que ela der alta, eu os levo até ela.
Ele estava irredutível, olhava para Daniel com desconfiança e pronto para lutar se fosse preciso. Confie! , disse aquela voz. Vá com ele.
No carro a caminho da casa de Vilma, ele pensava em como persuadi-la a ficar com as crianças por uns dias. E a imagem de Diná lhe sorrindo entre lágrimas não saia de sua cabeça. Estava cada vez mais preocupado com o que estava sentindo.
Diogo a viu perto da figueira olhando o horizonte como se fizesse uma prece. Foi até ela com passos lentos e receosos. Parou e ficou em silêncio ao lado dela fazendo o mesmo.
─Não é lindo?
─Tudo com você fica mais bonito.
Ela sorriu sem desviar o olhar do horizonte. O sol brilhando, as planícies muito verdes. O aroma das flores, o vento ora fresco, ora quente.
─Imagina o homem criando tudo isso?
Ele a fitou com um olhar surpreso. E se deu por vencido ao responder.
─Não... o homem, nem com toda a sua inteligência e tecnologia seria capaz de criar esse espetáculo que é a natureza.
─Tu já te sentiste grato por estar vivo?
Ele desviou os olhos e parou no perfil perfeito, desceu para os lábios. Daria tudo para poder beijá-la.
─Hoje mais do que nunca!
Ela o fitou nos olhos, e havia alegria no olhar dele, aos poucos Diogo se curava de suas feridas expostas e purulentas. Aos poucos ele se transformava, visivelmente.
─Pode me perdoar, Sophie? -ele percebeu a interrogação no olhar azul. ─Por não ter estado com você, não a ter protegido. Para mim está muito claro o quanto fui egoísta pensando em ajudar os escravos, dar prioridade para guerra e deixado você de lado.
─Era outra vida, Diogo.
─E o que estamos fazendo agora?
─Tentando acertar algumas coisas pendentes. Talvez não fosse preciso, se eu não estivesse insistindo em ficar aqui.
─Você foi corajosa até depois da morte! Sei que pagará um preço alto por ter ficado... não é?
Ela voltou o olhar para o horizonte. Sua aura ficou ainda mais brilhante.
─Não sou perfeita Diogo. Viemos a este mundo terreno para evoluir, aprender lições, reparar erros. Quando escolhi ficar, foi à raiva, o ressentimento, e principalmente o ódio e o desejo de vingança que me impulsionaram a essa decisão.
─Eu sei, e eu entendo. Agora eu posso compreender muitas coisas. - ele parou em frente a ela. ─Principalmente esse amor por você. Daria tudo para ter a oportunidade de ficarmos juntos mais uma vez. De sentir você, de poder te amar como sempre te amei.
Ela sorriu carinhosamente e levemente passou a mão na face dele.
─Posso sentir...
─Mas não é o mesmo que o toque carnal Diogo. Tu não está pronto para aceitar.
Ele sorriu tristemente. Ela ficou comovida ao ver lágrimas brilhando nos olhos claros.
─Sou humano e necessito. Mas por você sou capaz de virar um padre celibatário se tiver certeza de que na eternidade estarei ao seu lado.
Ela baixou o rosto e o olhar. Precisava esconder suas emoções.
─O que foi?
─Tu tens muito que viver Diogo.
─Podemos abreviar isso...
─Não! - ela o encarou com firmeza. ─Não repita isso!
─Meu irmão decidiu morrer!
─Seu irmão decidiu errado e pagou um preço altíssimo por isso.
─Você não disse que temos o livre arbítrio? Que podemos escolher? E se eu quiser me matar para ficar com você?
─Podemos escolher o que nos faz bem ou como viver nossas vidas, mas não tirá-la! Só Deus pode!
─Afinal, me diga: o que existe do outro lado?
Ela sacudiu a cabeça desanimada.
─Tu sabe, já estivesse boa parte num desses lugares. É só uma questão de tempo para te lembrar.
─Droga! Que tantos mistérios Sophie! Afinal, com a morte seu amor por mim acabou?
Ela riu assombrada com a capacidade dele em distorcer as coisas.
─A morte precisa ser vista como a passagem para o conhecimento do próprio espírito. Alguns sentimentos são tão fortes e indestrutíveis que levamos conosco. E esses sentimentos precisam ser bons. Se forem ruins, irão nos fazer sofrer, também, na morte.
─E como se faz esse milagre? - ele zombou com sua velha e boa ironia.
─Precisamos perdoar cada ato que nos magoe, aqui, em vida, para poder partir em paz. Eu sei, exatamente, do que estou falando. E não duvide do meu amor. Foi por amor que eu optei por ficar.
Faltavam alguns dias para o natal, quando Diná saiu do hospital com cicatrizes nos pulsos da tentativa de suicídio. Robson e Mirela ficaram com Vilma na portaria, enquanto Daniel foi buscá-la no quarto. Ao vê-los, Diná se abaixou e esperou-os vir até ela. Mirela se jogou em seus braços, enquanto ela chorava de emoção. E acreditou que não veria mais os filhos. Robson as olhava timidamente, mas com certa satisfação nos olhinhos escuros. Diná soltou a filha e abriu os braços para ele, que chegou próximo dela e a abraçou. Tão pequeno e tão adulto, pensou ela.
Ela se afastou e o fitou nos olhos sérios e compenetrados.
─Quando eu crescer quero ser igual a ti. - ela disse os fazendo rir. Uma brincadeira que eles faziam um com outro. ─Zangado?
─Nunca me zango contigo. Preocupado. - ele passou a mão pela face pálida.
─Não fique. Isso tudo me serviu de lição. Enquanto eu viver, estaremos juntos. Vou procurar fazer a coisa certa, sempre. Pelo menos tentar, Rob. Com a ajuda de vocês, eu sei que consigo. Prometo!
─Vou te ajudar, mãe.
Ela assentiu e se levantou. Quando olhou para Daniel e Vilma percebeu no quanto eles estavam emocionados. Sorriu sem jeito.
─Bem... eu só posso agradecer. - ela se ajeitou para ir embora, mas Daniel a segurou.
─Vilma, minha irmã, vai te hospedar por uns dias na casa dela. Pelo menos até eu encontrar um bom lugar e um emprego pra você.
Ela sentiu uma dor tão grande de intensa felicidade que precisou se contrair para não ter espasmos. O rosto a denunciou.
─Por quê?
─Quero te ajudar.
─Eu também. – disse Vilma. ─Tô apaixonada pelos teus filhos!
─É, tenho orgulho deles! Eles saíram muito melhor do que a mãe. Graças a Deus!
─Não fale assim. – Daniel a repreendeu. ─Se eles são especiais é por tua causa. Tu só precisa enxergar e acreditar.
─Obrigada! Por tudo! - ela assentiu e lembrou. ─Gostaria muito de conhecer o tal escritor que me ajudou com o advogado.
─Logo. –disse Vilma sorrindo. ─Se Diogo tinha alguma dívida neste mundo, pagou ao te ajudar.
Preparado para a regressão, Diogo se concentrou na música suave e na voz de Eloy. O terapeuta o conduzia cada vez mais longe, até o ponto desejado. Percebeu que ele estava totalmente entregue e inconsciente. Procurou por Sophie que estivera ali o tempo todo, mas ela sumira. Não tinha controle algum nas vontades dela, assim como ela não respondia a nenhuma de suas perguntas. E algo o incomodava. Tinha algumas dúvidas que gostaria de respostas, mas tinha certeza de que só as teria quando ela quisesse dar. Ela comandava aquela situação. Ela tinha poderes, e pelo pouco que sabia, ela deveria ter licença para isso. Restava-lhe aguardar o desfecho daquela história, surreal, e ao mesmo tempo tão fascinante.
─Já disse que não te quero no meu quarto! - gritou Sophie ao sentir o cheiro de Elísia.
─O patrão me mandou trazer sua comida e ajudá-la com o seu banho. - disse ela com petulância. ─Coisa, que sinceramente, eu não tenho vontade alguma de fazer!
─Pois então, não faça! Suma daqui sua piolhenta! Não gosto do teu cheiro, da tua voz, de nada que eu sinto em ti! Sei que quer acabar comigo e meu filho, mas tu não vai conseguir, e se chegar perto da porta na hora em que eu estiver parindo, eu juro... eu te mato!
Elísia riu entre divertida e debochada. Mas tinha muito respeito pela habilidade impressionante de Sophie sentir as coisas em volta. Resolveu provocar.
─Não sei por que não gosta de mim. Nunca fiz nada para sinhá.
─A questão não sou eu, e sim tu! Te sente ameaçada por mim, porque tu é amante do teu patrão. E por causa dessa ligação, tentou matar meu bebê. Sai daqui miserável e leva esta comida agora!
Elísia se arrepiou com a força das palavras daquela mulher. Pegou a bandeja e foi até a porta.
─Terá que dar satisfação ao meu patrão.
─Vai tu e ele para o inferno!
Assim que a escrava saiu do quarto e trancou a chave, Sophie se pôs a chorar. O que está acontecendo comigo? Por que estou assim com tanto ódio? Deus, eu não quero esse sentimento..., pensava ela. Lembrou-se, certa vez, das palavras de sua tia Yolanda que, ela sentia tanta saudade.
─Quando engravidamos ficamos uma manteiga derretida. Choramos à toa, temos desejo, e brigamos com todo mundo! - ela rira divertida. ─Das duas gravidezes fiquei assim. Coitado do seu tio Janor, que Deus o tenha. Passou muito mal comigo. Fazia todas as minhas vontades. Acredita que até doce de cocada o coitado aprendeu a fazer só para matar minha vontade? Everaldo quase teve um troço quando o viu na cozinha fazendo aquele doce. - e ela chorara baixinho. ─Sinto muito a falta dele. Ficamos pouco tempo casados, ele morreu muito jovem. E ao mesmo tempo... hoje dou graças, só assim Janor não foi para essa guerra maldita!
Sophie chorou ainda mais, sentia saudade de cada uma delas, e para ter um pouco de paz, passou a relembrar momentos vividos com elas. As brincadeiras com as primas Vânia, Verona, com a irmã Ticiana, Luzia, seus primos Roberto, Paulo, e Leônidas, os três morando fora do país. Não tiveram nem tempo de vir para o enterro da mãe, sua tia Clotilde.
Dos cuidados que todos eles tinham com ela para não se machucar quando pequena, a ensinando a reconhecer os lugares e memorizá-los contando ou sentindo o toque.
─Guriazita, nós vamos te ensinar a andar por esses pampas melhor do que quem enxerga. Tu não vai precisar da ajuda de ninguém!
Ela apreendera com eles, a reconhecer cada palmo daquela terra. Tudo estudado, elaborado, para uma cega viver com o mínimo de dignidade, mas mais ainda...
─Liberdade! - dissera Ticiana. ─O que nós queremos é que tu ande com liberdade na tua escuridão.
Chorou, chorou muito. E ao pensar em Diogo, ela soluçou sem se importar com quem ou se alguém a ouvisse.
Lembrou de cada detalhe daqueles sete dias ao lado dele e de sua tropa, conhecendo seus amigos, dividindo o pó que Afroline lhe dera para alimentá-los e aplacar a fome. Ouvindo as experiências em combate. As vitórias, as derrotas, as perdas dos amigos. Os detalhes dos lugares onde estavam para que ela pudesse ter um vislumbre em sua mente. Os banhos rápidos para não serem surpreendidos pelos companheiros ou pelo inimigo. As conversas ora sérias, ora animadas com as vivandeiras, algumas delas, engraçadas que os faziam rir muito juntos. A bebedeira de cachaça que tomaram juntos e depois ela passou mal para ser cuidada e mimada por ele. Das noites escondidos de tudo e de todos naquela gruta secreta. Dos momentos da mais pura intimidade e de prazer. Ela podia sentir as mãos, e os lábios dele por todo o seu corpo. Ela podia sentir seu pênis dentro dela, enquanto ela subia e descia sussurrando pedindo mais, ouvindo aquelas palavras ora doces, ora obscenas, as mordidas em seu pescoço, a língua em sua orelha, o toque dos lábios exigentes nos seus mamilos, por vezes sugando, outras simplesmente lambendo. A boca sedenta na parte mais intima de seu corpo. O poder da língua em seu clitóris, o abocanhando, levando-a a implorar por mais, e mais... Se não fosse ele, nem saberia daquele pequeno órgão tão escondido e prazeroso em seu corpo.
Excitada ao extremo, Sophie tirou a roupa e passou a se acariciar num ritmo e na mesma sincronia de quando esteve com ele. Os seios cheios e empinados, a pele branca, a barriga grande, as pernas entre abertas enquanto ela se tocava. Não tinha noção de sua beleza estonteante. Perdida naquele momento que deveria ser somente seu, ela não perceberá que Dario ouvira seus soluços, e abrira a porta para ver o que estava acontecendo.
Quando vira a cena, ficara enlouquecido de desejo. Precisou se segurar para não ir até ela e se apossar daquele corpo cheirando a sexo e prazer. Descontrolado ele se masturbou ali mesmo, observando-a com os dedos delicados dar alento ao desejo alisando sua vulva vermelha e carnuda e chegar num orgasmo intenso chamando por Diogo.
Sentindo muita raiva, ele decidiu:
─Diogo nunca mais tocará em vosmecê! - pensou. ─Você é minha, Sophie!
Deitado na relva, tapado com um fino cobertor, Diogo olhava para o céu sem estrelas. Até quando resistiria sem ela? Precisava ter notícias dela. Em suas andanças, nunca encontrava com mascate Simão, mas lhe disseram que ele estaria a caminho da rota deles, mas até ali nada. As coisas estavam ficando confusas. Às vezes pensava em desertar e voltar para Sophie, mas não podia faltar com seus companheiros. Precisava achar um jeito de ter notícias. Os parentes dela na guerra estavam todos mortos. Ele mesmo nem sabia como ainda se mantinha vivo. Sabia sim, era o seu amor por ela que o mantinha, que o alimentava. Mas algo, bem lá no fundo de seu coração, lhe dizia que ele não estava sendo justo com ela ao deixá-la sozinha daquela maneira. Passara o último natal e o ano novo no acampamento com os homens e as vivandeiras.
Bebeu muito para esquecer que poderia estar com ela, mas não sabia o que raios estava fazendo, naquele fim de mundo, no meio de nada, longe do seu amor. Um novo ano se iniciara, precisava ter esperanças de que aquela guerra estava perto do fim, e se não estivesse, daria um jeito de ir até ela.
Numa noite quente de fevereiro de 1841, Sophie entrou em trabalho de parto. Proibiu a presença das escravas e empregadas pessoais de Dario no quarto dela.
─Vou parir sozinha, mas não as quero aqui!
Dario, preocupado que ela tivesse complicações, e sedento por concretizar seu plano, chamou uma das parteiras conhecidas de Viamão sem uma boa reputação, principalmente no que dizia respeito ao dinheiro. E antes que ela entrasse no quarto, lhe deu um saquinho com moedas de ouro.
─Cuide bem dela, faça o que tem de fazer como nós combinamos.
A mulher, uma senhora de idade avançada, de corpo robusto e rosto marcado pelo tempo, pegou o saco e guardou-o no bolso da velha saia com certa satisfação, mas muito medo no olhar.
─Que Deus nos perdoe! Vamos arder no fogo do inferno!
─Deixe de bobagens mulher! Faça o que eu mandei.
Sophie teve complicações. Foram horas de dor intensa e nada da criança nascer.
─Tu tem pouca dilatação rapariga! - disse a parteira suando, apertando a barriga dela de maneira delicada para que a criança viesse logo ao mundo.
─Se Afroline estivesse aqui...
Dario olhava a cena pela porta entre aberta. Ela sabia que ele estava ali, e gritou:
─Culpa tua, assassino!
Ele fechou a porta e ficou no corredor a espera. O dia amanheceu e nada. Sophie desmaiara duas vezes. Foi preciso chamar uma das escravas de Dario que tinha algumas porções que a reanimaram e a colocaram em trabalho de parto mais acelerado. A parteira angustiada e cansada, com um punhal pequeno fez um rasgo puxando para o lado da coxa. Sophie já havia sentido tanta dor, que aquele corte era o de menos. Os ossos de sua lombar pareciam inflamados e latejantes deixando sua pele fervendo. Sentia uma estranha febre que vinha das entranhas, mas tudo que ela desejava era que aquela criança nascesse para terminar sua agonia.
E, finalmente, ao entardecer ela fez uma força descomunal e sentiu a passagem de algo grande e volumoso. Tentou sorrir, mas não conseguiu. Sentia seu coração acelerado. Sentia coisas estranhas. O mundo rodava, via algumas sombras que jamais percebera. Ela não tinha noção do que, mas sabia que uma grande ação acontecia no quarto. O bebê de Sophie foi tirado do quarto às pressas por uma das escravas de Dario, e outra entrou com um recém-nascido sem vida.
─O que... está acontecendo? Meu filho? - ela tentou sentar-se, mas sentia o sangue escorrendo, e a parteira a limpando.
─Fique quieta, rapariga. Tu não está ajudando assim...
─Meu bebê... o que é?
─É uma menina.
A mulher viu-a sorrir debilmente entre as lágrimas.
─Uma menina... me deixe tocar nela...
─Não pode...
─Como não? O que está acontecendo aqui? Vamos, me diga agora! - ela gritou.
─Tua menina... nasceu sem vida...
─Não... não pode ser...me dá ela aqui agora! Eu quero senti-la!
A contragosto a parteira pegou o recém-nascido morto. Um bebê de uma das negras escravas da região que nascera há dois dias. Colocou em cima dela. Sophie se arrepiou ao sentir a pele fria, e a dureza dos ossinhos. Tinha algo errado.
─Não... - ela se pôs a chorar. ─Meu bebê não... ela estava bem...ela estava se movendo, ela estava ...viva...quando saiu de mim!
─Não, não estava rapariga. - disse a parteira com dó. ─Ela já saiu sem vida. – e a mulher se arrepiou quando a viu ir com a mão em direção ao sexo do bebê, um menino, e rapidamente tirou a criança de cima dela. ─Chega deste sofrimento!
─Espera... - gritou. ─... me deixe colocar este pingente nela. - arrancou de seu pescoço, chorando muito. Quero que seja enterrada com ele... Era da minha trisavó Sophie, que eu carrego o mesmo nome...
Ela deu um grito da mais profunda dor, e desmaiou desta vez dando um susto em todos, principalmente em Dario que achou tê-la perdido para sempre.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,