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Capítulo final

Penulis: Emíliana Vaz
last update Tanggal publikasi: 2021-08-10 08:48:49

                                                       Epílogo 

Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.

Allan Kardec

      Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento que o viu, não percebera o pingente no pescoço da matriarca de sua família.

    ─Eu confesso que estou pasma! Lembro... que eu ouvi muitas histórias quando era pequena. Perdi minha mãe muito cedo. Ela foi atropelada por um ônibus depois de uma bebedeira daquelas. Era alcoólatra e quando estava bêbada, falava coisas sem nexo, mas por várias vezes ela comentou sobre sua trisavó que fora abandonada em frente da igreja Nossa Senhora da Conceição, aqui em Viamão, e fora encontrada pela família que a criou como empregada. Disse que ela fora muito judiada por ser linda, e foi batizada de Conceição em homenagem a igreja... e que dela veio esse coração, passado de geração em geração, até chegar em mim. É a única coisa que tenho como referência de uma família que eu nem sabia existir... E, agora, olhando o quadro lindo da minha, possível...hexavó? Nossa... com o mesmo pingente... –disse ela parada em frente a pintura, deslumbrada. ─Parece tudo tão irreal, mas tão certo!

     ─Mais um motivo para crer. Eu sou escritor, tenho a consultoria de um historiador, que chegou a esta conclusão. O bebê da dona desta estância, chamada Sophie, foi largada em frente a essa igreja, informação que bate com a sua versão. - e Diogo contou os fatos a ela, segundo o historiador. Uma boa explicação. Ou enrolação para não contar a verdade que a moça, jamais, acreditaria.

      ─Muito triste o que aconteceu com minha hexavó Sophie... Aliás, com as mulheres da nossa família que não tiveram muita sorte na vida... Morreram cedo e muito pobres. – Diná se lamentou. ─Então, eu tirei a sorte grande por elas, e meu único remédio, é aceitar o que estou recebendo, não é? - ela riu sem acreditar ainda. ─E mudar a sina das mulheres dessa família. Viver muito e prosperar!

       ─Sim, esta baita estância, como vocês dizem por aqui, pode render muito se for bem administrada. Vamos correr atrás das coisas burocráticas para legalizar a escritura.

       ─Eu disse desde o início que tu é um anjo que veio me salvar! - ela o abraçou e o beijou na face, agradecida.

Diogo sentiu todo o amor de seu ser pulsar por aquela mulher, mas sabia que deveria se conter. Acabou-se o tempo dos atos impensados. Sabia que vivera coisas sérias demais naquele lugar, e não deveria jamais duvidar do quanto era importante a sua vida e a do outro, e principalmente respeitar a escolha de cada um sem impor sua vontade ou o seu poder. E havia nele um novo sentimento, de renovação, de esperança, de uma ligação profunda e, agora, totalmente do bem, com todas as pessoas envolvidas naquela vida passada.

Depois daquela conversa com Diná e de largar a parte burocrática nas mãos de um bom advogado, Diogo arrumou suas coisas para partir de vez.

    Naquela noite, ele e Sophie se despediram.

    ─Vou terminar meu livro, e ver o que acontece.

    ─Siga a vida com tranquilidade. Esqueça o que houve aqui.

    ─Não dá. Como disse Eloy, foi preciso para curar feridas da alma. Jamais vou esquecer este lugar e você.

     ─Vá em paz!

     ─Você vai ficar bem, Sophie?

Ela abriu um lindo sorriso com toda a sua luz a brilhar.

     ─Vou sim. Vou para casa! Um dia nos reencontraremos, Dario!

E ele viu algo maravilhoso acontecer. Uma linda luz se abriu em pleno quarto, duas pessoas a esperavam. Ela assentiu e partiu com eles.

Sophie caminhou o longo túnel de luz no meio de irmão José e Afroline. Em certo momento no túnel, veio a escuridão total. Eles brilhavam como diamantes.

     ─Pronta, minha filha?

     ─Sim, irmão José.

Ela sorriu, se despediu, e partiu para o Umbral. Lá era sua missão. Lá, ela deveria ajudar seus irmãos, levando luz, e os trazendo para a luz.  E ela recitou baixinho, enquanto fazia seu caminho:

    ─O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias. (Salmos 23:1-6)

  Em fevereiro de 2017, Diogo já em São Paulo, sentia-se leve, afinal as coisas estavam melhores do que encomenda. Daniel se separou da loira Aline, e assumira Diná com seus dois filhos, e estavam fazendo muitos planos a respeito da estância.

    ─Gosto de plantar. Não sei de onde vem isso, mas... quero experimentar. Fincar as mãos na terra, literalmente! - dissera Diná feliz.

     ─E eu vou te dar todo o meu apoio. - prometera Daniel. ─Podemos até pensar na criação de alguns animais.

     ─Posso ter um cavalo, mãe? - perguntou Robson com os olhos brilhando.

     ─Claro! Já sei que vai voar por aí! – ela riu com gosto. ─Tudo que quiserem! Teremos uma vida nova! Uma família de verdade!

Eloy levou Vilma para conhecer o Rio de Janeiro, e já falavam na possibilidade de viverem juntos.

          E Rudi ficou muito feliz ao saber da notícia.

      ─Puta que pariu! O livro até o meio do ano? Maravilha!

      ─Sim, criatura! Segura a onda que o teu livro vem, tchê!

      ─Quem diria, hein? O Sul te fez um bem danado!

      ─Muito! – Diogo o fitou muito sério. ─Sou muito grato por você ter me exportado para lá.

Riram divertidos. Rudi estava emocionado com a aparência renovada e o novo comportamento dele. Diogo voltara outra pessoa!

     No lançamento do livro de Diogo Dornelles com o título, Enquanto Eu Dormia, centenas de pessoas estavam reunidas, curiosas, e sem acreditar que o escritor, polêmico, encrenqueiro, tivesse escrito algo tão diferente, como um romance com uma linha tão espiritual.  O próprio Rudi e os responsáveis pela editora custaram a acreditar naquela mudança radical de comportamento do escritor, e, principalmente, do homem.

       E os comentários eram:

    ─Eu não acreditei quando li o livro! - um jornalista.

    ─É uma linguagem totalmente diferente da dele. -um editor. ─ Mas é um livro magnífico!

    ─Depois que eu li, fiquei com a impressão de que ele fez uma viagem ao seu interior mais profundo. Na alma! - dono da editora que publicou seu livro.

    Sentado à mesa, Diogo autografava os livros, tirava fotos, respondia perguntas de alguns colegas jornalistas. A tranquilidade no seu olhar era visível e confortadora. Diogo, agora, se relacionava com muitas pessoas envolvidas com a doutrina espírita, assistira a palestras, filmes, peças de teatro. E naquele momento, essas mesmas pessoas estavam ali, para prestigiá-lo na sua nova empreitada. Sentia-se bem entre eles, curando seus males, e se recuperando do alcoolismo, além de se aprofundar no assunto espiritualidade, tão vasto e tão complexo.

        

         Dedicatória do livro de Diogo:

    

      “A vida ou o destino às vezes pode nos surpreender com um tapa na cara. Sempre fui cínico, ateu, e incrédulo para certas coisas, principalmente as questões espirituais. E foi com o perfume suave de magnólias que eu passei a acreditar nos mistérios da vida, da nossa existência, no amor, e nessa força maior chamada Deus!”

          Dedicado a uma flor chamada, Sophie.

Ele levantou os olhos e se deparou com aquela linda negra de voz melodiosa. Levantou-se lentamente, aparvalhado e com o coração batendo acelerado.

     ─Luzia...

     ─Rosário. - ela o corrigiu. ─Se você estivesse na cama comigo e trocasse o meu nome assim.... com certeza, seria um homem morto!

Um arrepio passou pelas costas dele, com as palavras dela, ao que se referia e o lembrava, e a beleza magnífica e única. Sabia que não era Luzia, mas a semelhança... era incrível!

     ─Isso é um convite?

 Ela riu e passou seu livro para que ele autografasse, mas ele continuou a olhá-la.

     ─Eu conheci uma mulher muito parecida com você numa outra vida.

 Agora ela gargalhou gostosamente.

     ─Essa é a cantada mais bizarra e sem imaginação que eu já ouvi nesta minha vida! Se é que existem outras, claro!

     ─Posso melhorar minhas cantadas se você me der uma oportunidade, e tentar dissuadi-la a pelo menos aceitar a ideia de outras existências.

     ─Interessante! Como é um assunto muito extenso... com certeza vamos demorar.  Se quiser tentar, pode começar depois da minha peça teatral esta noite. Te dou um convite cortesia. Mas, vou te avisando; sou um tanto difícil.

     ─Gosto do grau de dificuldade máximo! Não perderia por nada essa chance! Como já ouvi por aí, a oportunidade faz o ladrão.

“Em verdade vos digo que se alguém não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus.”

(Jesus, João 3:3)

     Ela tocava o piano com um sorriso, observando alguns casais dançando, outros sentados em volta do lago de água cristalina, as crianças correndo felizes pelo gramado. Tinha uma plateia e tanto. Ao longe avistou Afroline e o irmão José conversando. Ele lhe fez um sinal. Ela assentiu e deu final a sua apresentação, aplaudida de pé. Foi até eles com passos rápidos.

        ─Alguma nova tarefa?

        ─Sempre disposta! Não se cansa nunca! - disse José sorrindo. Sophie fizera um excelente trabalho no umbral, ajudando na recuperação de muitos irmãos com sua força de vontade e compaixão. Era uma alma iluminada!

       ─Obrigada, irmão José. Gosto de ser útil. Amo esse lugar, meus irmãos! Amo vocês! Amo o senhor meu Deus!

Afroline sorriu e passou a mão na face dela.

       ─Temos irmãos que precisam ser recebidos. Precisamos de todo o apoio.

       ─Claro! Estou indo para o vale.

Ela se virou e saiu apressada com passos graciosos, os cabelos prateados ao vento, o vestido branco comprido leve no mesmo ritmo. Era uma visão magnífica!

       ─O que o senhor acha? Há tanto tempo que não se encontram, aqui, na nossa casa.

       ─Vai ser um lindo momento! Mais um reencontro inesquecível para ambos. Eles merecem a felicidade plena das almas que se completam!

Sophie caminhava em campo aberto. Uma leve brisa perfumada acariciava seu rosto. Era uma tarde tão linda, e tão perfeita, como tudo naquele lugar. A Nossa Casa! Um lugar onde dores, sentimentos ruins, sofrimento, não eram mais permitidos. Somente a alegria, a paz, e o amor. De repente ela parou. Ao longe vinha um homem caminhando com os passos seguros, olhando para os lados. Cabelos nos ombros, barba cerrada, vestido de branco. Aos poucos ele ia recobrando suas lembranças, e a cada passo tinha mais certeza de que estava no lugar que ele sempre sonhara. Ela sentiu suas emoções e as dele aflorarem, em total sincronia. Acelerou os passos. Ele avistou aquela mulher indo até ele. Era tudo que ele desejava! Estar com ela novamente!

Ambos quase correndo um ao encontro do outro. Enquanto tiravam a grande distância de um campo florido e perfumado entre eles, imagens flutuavam em frente aos seus olhos, como um filme em 3D. Um casal apaixonado passando por muitas vidas. Conhecendo outros mundos, vivendo muitas histórias, entre elas, de lutas, guerras, união, paz e sempre com muito amor. Um casal que passou e viu muitas coisas acontecerem no mundo terreno e espiritual. Um casal que conheceu o paraíso e o inferno. Um casal de guerreiros sempre prontos a lutarem pelos mais fracos, e principalmente contra si mesmos. Com um sentimento de amor tão intenso que superara a distância, o afastamento, o tempo e a morte.

      Quando pararam um de frente para o outro, eles sorriam com os olhos brilhando de felicidade.

     ─É um sonho... minha Sophie!

     ─Não, não é, meu Diogo! Era uma questão de tempo. Nós sempre soubemos, no fundo da nossa alma!

     ─Sim! Sempre! Não preciso mais voltar? - perguntou ele a abraçando com força.

     ─Não, se não quiser!

Ele riu alegremente, aspirando o ar maravilhoso, girando com ela nos braços.

     ─Pode apostar que eu não quero! Finalmente em casa com minha guria! Obrigado, Senhor!

Eles trocaram o beijo que selava àquele amor forte, intenso e imortal, abençoado por Deus!

                                                   THE END

                              

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