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2 - ALEC, 16 ANOS

Author: S.R. Oliveira
last update publish date: 2026-02-20 12:46:30

O sol da tarde deixava tudo meio dourado, como se o mundo tivesse passado por um filtro velho de fotografia. A água da piscina refletia uns feixes de luz que dançavam na pele clara da Sadie, deitada ali do meu lado, com os pés dentro d’água e os olhos perdidos no céu. O cabelo dela, ainda úmido, colava de leve nas têmporas. Castanho com uns reflexos avermelhados que só apareciam quando ela tomava sol. Eu tentei não encarar por muito tempo. Tentei mesmo.

Mas ela estava crescendo. E isso me confundia mais do que eu estava pronto para admitir.

Ela soltou uma risadinha do nada e apontou pro céu.

— Aquela nuvem parece um coelho, olha — disse, como se tivesse descoberto um segredo genial.

Eu sorri também. Não pela nuvem, mas porque ver a Sadie feliz era um alívio. Um lembrete de que o mundo ainda podia ser simples.

— O que você quer ser quando crescer, Alec? — ela perguntou, sem nem olhar pra mim.

Deitei com os braços atrás da cabeça, tentando parecer relaxado. Aquele tipo de confiança que só garotos de dezesseis anos acham que têm de verdade.

— Piloto de caça. Da Força Aérea — respondi, já me vendo no alto, fardado, voando como se fosse dono do céu. — Vou voar acima das nuvens, quebrar a barreira do som…

Sadie virou o rosto pra mim. Tinha um brilho nos olhos que me desarmou na hora.

— E quando você passar com seu avião aqui por cima… — ela apontou pra casa dos pais dela, logo atrás da gente — ...eu vou estar na varanda. De vestido florido e um lenço colorido na mão, acenando pra você, igual aquelas moças dos filmes antigos.

Eu ri, mas a imagem grudou na minha cabeça. Sadie de vestido, cabelos ao vento, sorriso largo, me esperando.

— Promete? — perguntei, sem saber por que a pergunta tinha saído tão séria.

— Prometo — respondeu, esticando o mindinho pra mim.

Cruzei o meu com o dela. Um toque rápido, inocente. Mas que quase me fez prender a respiração.

Ficamos quietos depois disso. Só ouvindo o barulho das folhas com o vento e o som distante de algum avião cruzando o céu.

Fechei os olhos e tentei imaginar o futuro. Eu no cockpit, girando o manche com uma mão só, sorrindo por trás da viseira só porque sabia que ela estaria lá embaixo, me olhando. Sadie, linda, acenando como se fosse a única pessoa no mundo.

Mas o que eu não dizia em voz alta — nem pra ela, nem pra mim mesmo — era que, no fundo, eu não queria só voar.

Eu queria voltar.

E pousar nela.

Porque talvez, só talvez… a Sadie fosse o meu pouso seguro.

***

O vento mudou um pouco de direção e bagunçou o cabelo dela, jogando algumas mechas no rosto. Ela soprou de leve, irritada, e depois me olhou com aquela curiosidade sem filtro que só a Sadie tinha aos doze anos.

— Como é a sua escola nova? — perguntou, desenhando círculos distraídos com o pé na água. — Tipo… é muito diferente?

Eu soltei o ar devagar. Diferente era pouco.

Eu agora era senior. Último ano. Corredores cheios de gente tentando parecer mais velha do que realmente era. Armários batendo, cheiro de desodorante barato misturado com perfume forte, conversas altas demais sobre festas e jogos de sexta à noite.

— É grande — respondi. — Bem maior que a sua. Tem três prédios. E um campo enorme. E todo mundo anda com cara de que sabe exatamente o que vai fazer da vida.

Ela fez uma careta.

— E sabe?

Eu dei de ombros.

— Não. A maioria só finge bem.

Ela riu baixinho, satisfeita com a resposta.

— E você? — insistiu. — Você já sabe tudo?

Eu olhei para o céu por um segundo antes de responder.

— Eu sei que quero voar. O resto… eu descubro.

Ela ficou em silêncio, pensativa. Depois virou o rosto pra mim de novo.

— Você sente falta daqui?

Eu não pensei muito antes de responder.

— Sinto.

Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.

— Da piscina?

— Também.

— Do seu quarto?

— Às vezes.

Ela estreitou os olhos, como se estivesse esperando a resposta certa.

Eu suspirei.

— Sinto falta de você no almoço.

Ela congelou por meio segundo, depois tentou fingir que não era nada demais.

— De mim?

— É — falei, tentando manter o tom leve. — Era mais fácil quando você sentava do meu lado, roubava metade do meu sanduíche e ficava contando histórias malucas.

Ela sorriu, orgulhosa.

— Eu ainda roubo seu sanduíche.

— Eu sei.

Ela apoiou os cotovelos na beira da piscina e me encarou.

— Aposto que agora você deve sentar rodeado de líderes de torcida, né?

Revirei os olhos.

— O quê?

— Ah, vai — ela insistiu, com aquele sorriso travesso. — Você é alto, j**a no time, é todo sério… deve ter um monte de menina grande na sua cola.

Eu ri, mas senti um calor estranho subir pelo pescoço.

— “Menina grande” foi ótimo.

Ela deu de ombros.

— Tipo aquelas que usam rímel e falam com voz diferente quando passam por você.

Eu olhei para ela com falsa indignação.

— Eu não fico reparando nessas coisas.

— Fica sim — ela retrucou na hora. — Todo mundo repara.

Eu balancei a cabeça, negando.

— Não é como você tá pensando.

Ela inclinou a cabeça.

— Então como é?

Eu pensei por um instante. Nos corredores cheios. Nas risadas altas. Nos convites pra festas que eu quase nunca aceitava.

— É barulhento — falei por fim. — Muita gente. Muita conversa que não significa nada.

Ela ficou quieta, absorvendo aquilo.

— Então você prefere almoçar comigo?

Eu sorri de lado.

— Sempre preferi.

Ela pareceu satisfeita com a resposta. Voltou a olhar para o céu, como se tivesse vencido alguma disputa invisível.

Ficamos ali mais um tempo, em silêncio confortável. Ela ainda era pequena demais para entender o peso de certas coisas. E eu era velho demais para fingir que não sentia nada.

Mas, mesmo com quatro anos de diferença entre a gente, mesmo com a escola nova, os corredores lotados, as líderes de torcida imaginárias…

Quando eu pensava em casa, era ali que minha cabeça voltava.

Na piscina.

No sol dourado.

Na Sadie de doze anos, fazendo perguntas demais e rindo alto demais.

E eu sabia, mesmo sem saber explicar, que enquanto ela estivesse me esperando do outro lado da cerca branca…

Eu nunca estaria realmente sozinho.

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