INICIAR SESIÓNLívia decidiu que encontraria Caio apenas quando fosse inevitável.
A universidade, contudo, parecia empenhada em contrariá-la. Na segunda semana de aula, ela o viu na fila do restaurante universitário. Na terceira, cruzou com ele na biblioteca. Na quarta, descobriu que os cursos de Medicina e Fisioterapia participariam juntos de um projeto interdisciplinar sobre reabilitação após acidentes. A professora responsável dividiu os estudantes em grupos de quatro. Lívia ficou com Júlia, um aluno de Medicina chamado Rafael e Caio. — Há uma lógica no universo — Júlia sussurrou. — Há uma falha no sistema de matrícula. Caio ouviu e sorriu. — Posso pedir para trocar de grupo. — Não — disse a professora, antes que Lívia respondesse. — A proposta é justamente aprender a trabalhar com pessoas de formações diferentes. Eles receberam o caso de uma paciente de vinte e seis anos que sofrera um acidente de moto e precisava retomar os movimentos da perna esquerda. A tarefa consistia em elaborar um plano de cuidado integrado, incluindo avaliação clínica, tratamento, fisioterapia e acompanhamento psicológico. Lívia mergulhou no trabalho. Era mais fácil falar sobre uma paciente fictícia do que sobre qualquer coisa real. No laboratório, explicou a importância de respeitar o tempo de recuperação, o medo e a autonomia da pessoa. Caio apresentou os dados médicos com precisão. Não havia arrogância em sua forma de falar. Ele conhecia o assunto, mas não usava o conhecimento para diminuir os outros. Quando Rafael questionou uma de suas conclusões, Caio ouviu e reformulou o argumento. Lívia percebeu que ele havia mudado. A percepção a irritou. — Você está olhando para mim — Caio comentou, certa tarde. — Estou olhando para o quadro. — Eu estou na frente do quadro. — Então saia. — Posso ficar aqui? — Você já ficou por cinco anos. Não vejo por que pedir permissão agora. Caio não respondeu, pegou o marcador e escreveu no quadro os pontos que precisavam ser revisados. Aos poucos, a convivência tornou-se menos insuportável. Caio não insistia em conversas pessoais. Levava as reuniões a sério, compartilhava artigos e perguntava a opinião de Lívia antes de tomar decisões. Quando descobriu que ela trabalhava à noite em uma farmácia, não ofereceu dinheiro. Apenas reorganizou os horários do grupo para que ela pudesse participar sem perder o turno. - Foi você quem pediu essa mudança? — ela perguntou. — Foi uma decisão coletiva. — Você convenceu os outros. — Expliquei que o seu horário era um dado do problema, não uma inconveniência. Lívia não soube o que responder. Na sexta-feira, apresentou o projeto. O trabalho recebeu a maior nota da turma. O professor elogiou a integração entre as áreas e convidou o grupo para participar de uma atividade no hospital-escola. Depois da apresentação, Rafael sugeriu que comemorassem em um café próximo ao campus. Lívia tentou recusar, mas Júlia já havia aceitado por todos.O café era caro demais. Lívia percebeu ao olhar o cardápio. — Vou querer apenas água — disse. Caio ouviu. — O sanduíche daqui é bom. — Eu não estou com fome. — Você não almoçou. — Como sabe? — Porque está segurando o estômago desde o intervalo. — Você se tornou observador. — Medicina. — Não use seu curso para justificar tudo. Caio retirou a carteira, mas Lívia o impediu. — Não pague para mim. — Não ia pagar. — Ia, sim. — Ia pagar o meu. Você poderia pedir o que quisesse e dividiríamos a conta. — Eu não tenho dinheiro para dividir uma conta nesse lugar. A mesa ficou em silêncio. Júlia olhou para o cardápio. Rafael fingiu responder a uma mensagem. Caio guardou a carteira. — Então vamos embora. — Você quer ir embora porque eu não posso pagar. — Quero ir embora porque agora sei que você está desconfortável. — Você não sabe nada sobre mim. — Sei que você trabalha até meia-noite, estuda entre os turnos, pega dois ônibus e ainda foi a melhor pessoa daquele projeto. — Isso não significa que você me conheça. — Não. Mas significa que estou tentando. Lívia levantou-se. — Tentativas não são suficientes. Saiu para a rua. Caio a alcançou depois de alguns segundos, mantendo distância. — Você sempre faz isso — disse. — O quê? — Foge quando alguém tenta chegar perto. — E você sempre confunde aproximação com direito de entrar. Caio parou. — Você tem razão. A concordância inesperada a desarmou. — Eu não quero que tenha pena de mim — Lívia disse. — Eu não tenho. — Nem tente me salvar. — Não quero salvar você. — Então o que quer? Ele olhou para o movimento da avenida, para os ônibus passando e para a luz dourada refletida nas janelas dos prédios. — Quero descobrir se ainda existe alguma coisa entre nós que não seja feita de medo. Lívia sentiu a garganta apertar. — E se não existir? — Então eu vou aceitar. — Você diz isso agora. — Eu não sei fazer muita coisa bem. Mas aprendi a aceitar quando não posso controlar alguém. Ela quis perguntar quando ele havia aprendido, quem o ensinara e por que não aprendera antes. Em vez disso, disse: — O projeto ainda não acabou. — Eu sei. — Podemos conversar sobre o trabalho. — Podemos. — Apenas sobre o trabalho. — Por enquanto. A palavra ficou no ar. Lívia deveria tê-la contestado. Não o fez. Nas semanas seguintes, os dois passaram a trabalhar juntos no hospital escola. A paciente do projeto fictício deu lugar a pessoas reais: idosos se recuperando de quedas, crianças com limitações motoras, trabalhadores que precisavam reaprender movimentos depois de acidentes. Lívia viu Caio diante de uma mulher que tinha medo de receber alta. Ele explicou a medicação três vezes, usando palavras diferentes até que ela entendesse. Depois chamou a equipe de Fisioterapia e perguntou como poderiam adaptar o plano para a rotina da paciente. — Você é bom — Lívia disse, quando ficaram sozinhos no corredor. — Isso foi um elogio? — Não se acostume. — Vou anotar a data. — Você continua fazendo piadas ruins. — Essa é uma das poucas coisas que não mudaram. Ela sorriu antes de conseguir impedir. Caio viu, mas não comentou. A primeira prova de que ele pretendia cumprir o que dissera aconteceu numa noite de chuva. Lívia saiu da farmácia depois das onze, cansada, com os pés doloridos e o uniforme cheirando a álcool e desinfetante. Encontrou Caio encostado no muro do outro lado da rua. — O que você está fazendo aqui? — Esperando. — Eu disse para não fazer isso. — Você disse para não esperar por você. Estou esperando o ônibus. — Seu carro está ali. — Meu carro está com Rafael. — Por quê? — Porque pedi que ele levasse. Eu vim de ônibus. Lívia olhou para o ponto. Caio segurava um guarda-chuva grande, mas não o abriu. — Você não precisava vir. — Eu sei. — Minha mãe costumava dizer que os Valença sempre achavam que podiam decidir por todo mundo. — Talvez ela estivesse certa sobre a minha família. Não precisa estar certa sobre mim. O ônibus chegou e Lívia subiu. Caio ficou na calçada. — Você não vai? — ela perguntou. — É o seu ônibus. — E você?— O próximo serve. Ela sentou-se perto da janela. Quando o ônibus partiu, Caio continuou parado sob a chuva, sem tentar fazê-la voltar. Na manhã seguinte, Lívia encontrou um café sobre sua mesa na biblioteca. Não havia bilhete, apenas o pedido exato que ela costumava fazer: pouco açúcar, leite separado. Ela tomou o café inteiro.O beijo aconteceu por acidente, embora Lívia soubesse que acidentes raramente eram tão simples.Naquela semana, o hospital escola recebeu uma nova paciente, uma mulher chamada Teresa, que precisava de acompanhamento depois de uma cirurgia no joelho. Ela chegava sempre acompanhada da filha, uma menina de oito anos que corria pelos corredores e fazia perguntas sobre todos os aparelhos.Lívia gostava da menina. Explicava os exercícios com desenhos e deixava que ela contasse as repetições. Caio ajudava na avaliação clínica e passava mais tempo do que o necessário conversando com Teresa sobre os receios que ela tinha de voltar ao trabalho.— Você fala com as pessoas como se estivesse tentando convencê-las de que o medo não é vergonhoso — Lívia comentou.— Talvez porque eu saiba que é.— Você tem medo de quê?— De falhar.— Isso é muito genérico.— De falhar com meu pai, com meus pacientes, Comigo mesmo.— E comigo?Caio ficou em silêncio. Eles estavam no laboratório, revisando as anotaçõe
Lívia decidiu que encontraria Caio apenas quando fosse inevitável.A universidade, contudo, parecia empenhada em contrariá-la.Na segunda semana de aula, ela o viu na fila do restaurante universitário. Na terceira, cruzou com ele na biblioteca. Na quarta, descobriu que os cursos de Medicina e Fisioterapia participariam juntos de um projeto interdisciplinar sobre reabilitação após acidentes.A professora responsável dividiu os estudantes em grupos de quatro. Lívia ficou com Júlia, um aluno de Medicina chamado Rafael e Caio.— Há uma lógica no universo — Júlia sussurrou.— Há uma falha no sistema de matrícula. Caio ouviu e sorriu.— Posso pedir para trocar de grupo.— Não — disse a professora, antes que Lívia respondesse. — A proposta é justamente aprender a trabalhar com pessoas de formações diferentes.Eles receberam o caso de uma paciente de vinte e seis anos que sofrera um acidente de moto e precisava retomar os movimentos da perna esquerda. A tarefa consistia em elaborar um plano
Cinco anos depois, Lívia Duarte chegou à Universidade Santa Aurora carregando duas malas, uma mochila pesada e uma lista de preocupações que não cabia em nenhuma delas.A primeira preocupação era o dinheiro. Embora tivesse conseguido uma bolsa integral para o curso de Fisioterapia, a bolsa não cobria tudo: transporte, livros, alimentação, material para as aulas práticas e o aluguel do quarto que dividiria com Júlia, uma estudante de Nutrição que conhecera em um grupo de mensagens. A segunda era o medo de fracassar. Lívia havia estudado durante meses para o vestibular, fazendo exercícios entre um turno e outro na loja de tecidos, mas agora estava diante de um campus enorme, cheio de prédios modernos e estudantes que pareciam saber exatamente para onde ir.A terceira preocupação era a mais antiga de todas: Caio.Ela não pensava nele todos os dias. Isso seria uma mentira. Pensava em intervalos irregulares, às vezes quando passava por uma estação, às vezes ao sentir cheiro de chuva, às v
Os sete dias seguintes foram uma sucessão de pequenos segredos.Caio passou a descer do carro duas quadras antes da escola para caminhar até a biblioteca. Lívia inventava motivos para sair de casa depois do trabalho. Às vezes, encontravam-se por meia hora; outras, ficavam juntos até o céu escurecer.Não havia grandes declarações. Havia cafés divididos, mensagens escritas de madrugada e a descoberta cuidadosa de detalhes.Caio odiava mamão, não sabia cozinhar arroz e tinha medo de decepcionar o pai mais do que admitia. Lívia gostava de filmes antigos, guardava ingressos de ônibus dentro dos livros e chorava quando estava com raiva, algo que detestava porque as pessoas confundiam suas lágrimas com fraqueza.— Você sempre chora quando discute? — Caio perguntou certa tarde.— Só quando estou furiosa.— Isso parece contraditório.— Meu corpo não tem obrigação de obedecer à lógica.— É por isso que você quer fazer Fisioterapia?— Em parte. Eu gosto da ideia de ajudar alguém a recuperar o con
A família Valença morava em uma casa grande demais para três pessoas.Havia quartos vazios, salas que quase nunca eram usadas e um jardim projetado por alguém que nunca precisara varrer folhas. Caio crescera ali aprendendo a reconhecer o som das portas fechadas e o modo como seu pai transformava preocupação em ordens.Augusto Valença não gritava com frequência, não precisava. Bastava-lhe uma pausa antes de responder ou um olhar demorado para fazer todos ao redor calcularem as próprias palavras.Na manhã seguinte ao encontro na estação, Caio chegou à mesa do café atrasado.— O carro sai em dez minutos — disse Augusto.— Vou de ônibus.O pai ergueu os olhos do jornal.— Não vai.— Eu tenho aula às sete e meia. Se esperar o motorista, chegarei atrasado.— O motorista está esperando.— Então ele pode esperar mais.A mãe de Caio, Beatriz, pousou a xícara com cuidado. Ela tinha o mesmo sobrenome do marido, mas pouca voz dentro daquela casa.— Caio, não comece o dia assim.— Eu só disse que v
Lívia Duarte tinha aprendido a medir as tardes pelo som da máquina de costura de sua mãe.Quando o pedal diminuía, significava que Helena estava cansada. Quando parava de repente, significava que havia algum problema com a linha, com o tecido ou com as contas da casa. Quando continuava, até depois das dez da noite, Lívia sabia que o dinheiro daquele mês não seria suficiente e que, no dia seguinte, sua mãe aceitaria mais encomendas do que deveria.Naquela quinta-feira, porém, a máquina parou antes do jantar.— Vai sair? — Helena perguntou, sem erguer os olhos da barra de um vestido azul-marinho.Lívia, que estava sentada no chão da sala separando botões por tamanho, tentou parecer casual.— Vou devolver uns livros na biblioteca.— A biblioteca fecha às seis.— Eu sei.Helena finalmente olhou para a filha. Não havia acusação em seu rosto, apenas aquela atenção silenciosa que fazia Lívia se sentir transparente.— E depois?— Depois eu volto.— Lívia.Ela respirou fundo. Mentir para a mãe







