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Capítulo 4 — Santa Aurora

Auteur: Odete Uriah
last update Date de publication: 2026-09-01 02:26:45

Cinco anos depois, Lívia Duarte chegou à Universidade Santa Aurora carregando duas malas, uma mochila pesada e uma lista de preocupações que não cabia em nenhuma delas.

A primeira preocupação era o dinheiro. Embora tivesse conseguido uma bolsa integral para o curso de Fisioterapia, a bolsa não cobria tudo: transporte, livros, alimentação, material para as aulas práticas e o aluguel do quarto que dividiria com Júlia, uma estudante de Nutrição que conhecera em um grupo de mensagens.

A segunda era o medo de fracassar. Lívia havia estudado durante meses para o vestibular, fazendo exercícios entre um turno e outro na loja de tecidos, mas agora estava diante de um campus enorme, cheio de prédios modernos e estudantes que pareciam saber exatamente para onde ir.

A terceira preocupação era a mais antiga de todas: Caio.

Ela não pensava nele todos os dias. Isso seria uma mentira. Pensava em intervalos irregulares, às vezes quando passava por uma estação, às vezes ao sentir cheiro de chuva, às vezes quando abria a gaveta e via o relógio antigo guardado dentro da caixa de madeira. O relógio ainda funcionava, embora atrasasse quatro minutos por dia. Lívia nunca o consertou. Gostava daquela falha. Era como se o objeto carregasse uma parte do tempo que os dois haviam perdido.

Naquela manhã, porém, ela não permitiu que o passado ocupasse espaço. Tinha uma matrícula para confirmar, um mapa para entender e uma aula de Introdução à Saúde Coletiva que começaria em quinze minutos.

— Você está olhando o mapa de cabeça para baixo — disse uma voz ao lado.

Lívia virou o papel.

— Não estou.

— Agora não. Antes, sim.

O rapaz sorriu e apontou para o desenho dos blocos.

— O prédio de Saúde fica para lá. Se você continuar nessa direção, vai chegar à Faculdade de Direito.

— Talvez eu tenha mudado de curso no caminho.— Então está indo muito bem. A maioria só muda de curso depois de dois semestres.

Ele se apresentou como Daniel, aluno do terceiro ano de Enfermagem. Lívia agradeceu, guardou o mapa e começou a caminhar. Só percebeu que estava no caminho errado quando já havia atravessado metade do pátio.

— Você não ia para o prédio de Saúde? — Daniel perguntou, alcançando-a.

— Eu estava conferindo se você tinha razão.

— E?

— Ainda não decidi.

Foi assim que chegou atrasada à primeira aula.

O professor falava sobre a formação das profissões da área da saúde quando Lívia entrou no auditório. Havia quase duzentas pessoas. Ela procurou uma cadeira livre e encontrou uma na terceira fileira, ao lado de um rapaz que escrevia no caderno com concentração exagerada.

Sentou-se, tentando fazer o mínimo de barulho.

— Você continua chegando atrasada — disse ele.

A frase atingiu-a antes que a voz fosse reconhecida.

Lívia não se virou de imediato. Seus dedos apertaram a caneta. O som do auditório desapareceu, substituído pelo barulho distante dos trilhos, pelo vento na antiga plataforma e por uma promessa feita cinco anos antes.

Quando olhou para trás, Caio Valença estava ali.

Não era mais o adolescente que usava o uniforme impecável do Colégio Saint Martin. O rosto ainda possuía os mesmos traços, mas havia algo diferente no modo como ele sustentava o olhar. Os cabelos estavam mais curtos. A mandíbula parecia mais marcada. Vestia uma camisa azul-clara sob o jaleco branco, e no bolso havia um crachá: Caio Valença — Medicina.

Lívia sentiu o passado inteiro se levantar entre eles.

— Você está na faculdade — disse, porque não encontrou uma frase melhor.

— Você também.

— Fisioterapia.

— Medicina.

— Eu ouvi.

— Eu também.

O professor pediu silêncio. Caio voltou a olhar para a frente, mas não escreveu mais nada. Lívia tentou prestar atenção à aula. Anotou três palavras, riscou duas e passou o restante do tempo observando a própria mão para não olhar para ele.

Quando a palestra terminou, saiu rapidamente. O corredor estava cheio de alunos, cartazes de atléticas e grupos se formando ao redor dos veteranos. Ela caminhou até a área externa, perto de uma fonte, e respirou fundo.

— Lívia.

Caio não a segurou pelo braço. Apenas chamou seu nome.

Ela se virou.

— O que você quer?

— Perguntar como você está.

— Depois de cinco anos, essa é a primeira coisa que consegue dizer?

— Não. É a única que pareceu segura.

A resposta quase a fez sorrir, mas Lívia conteve a reação.

— Estou bem.

— Eu também.

— Ótimo.

Ela se afastou.

— Espere.

— Por quê?

— Porque eu não sabia que você viria para cá.

— A universidade publicou a lista de bolsistas.

— Você procurou?

Caio desviou os olhos.

— Talvez.

— Então sabia.

— Sabia seu nome. Não sabia se você aceitaria.

— Eu não fiz isso por você.

— Eu sei.

— Nem estou aqui para recomeçar nada.

Caio recebeu a frase como se tivesse levado um golpe, embora não demonstrasse.

— Eu sei disso também.

— Sabe?

— Você sempre foi muito clara quando queria que eu entendesse alguma coisa.

— E você sempre demorou para entender.

— Eu era um idiota.

— Era.

Pela primeira vez, ele riu. Um riso curto, quase triste.

— Você continua honesta.

— Continuo pobre também. Algumas características permanecem.

O rosto de Caio mudou. Lívia percebeu que havia atingido algo sensível, mas não voltou atrás. Ela não queria que ele a visse como uma lembrança delicada, preservada fora do tempo. Tinha trabalhado, estudado e sobrevivido. A menina da estação existia, mas não era tudo o que ela se tornara.

— Eu não quis dizer que você... — ele começou.

— Eu sei o que você quis dizer.

— Não sabe.

— Então explique.

Caio abriu a boca e fechou. Ainda fazia isso quando estava nervoso: parecia reunir várias respostas e descobrir que nenhuma era suficiente.

— Eu senti sua falta — disse enfim.

Lívia ficou imóvel.

Não queria ouvir aquilo. Não naquele corredor, entre cartazes de festas universitárias e estudantes carregando apostilas. Não depois de passar cinco anos tentando transformar saudade em uma coisa administrável.

— Você não pode dizer isso como se fosse simples.

— Não é simples.

— Para mim foi muito difícil.

— Para mim também.

— Você foi embora.

— Eu fui mandado embora.

— Mas não voltou.

Caio abaixou a cabeça.

— Eu tentei.

A frase provocou uma raiva antiga.

— Tentou como?

— Escrevi.

— Eu nunca recebi nada.

— Eu escrevi durante meses.

— Então escreveu para o endereço errado.

— Meu pai confiscou meu telefone. Minha mãe...

— Ele parou.

— Eu não sabia que você não recebia.

— E eu não sabia que você escrevia.

As pessoas passavam ao redor deles, obrigando ambos a falar baixo. O mundo continuava, indiferente àquela conversa que havia esperado cinco anos.

— Podemos conversar com calma? — Caio perguntou.

— Não.

— Quando?

— Não sei.

— Eu posso esperar.

A resposta era idêntica à que ele deu na adolescência. Na época, Lívia achou bonito. Agora, achou perigoso.

— Não espere por mim — disse. — Você já fez isso uma vez e não deu certo.

Ela saiu antes que ele pudesse responder.

No fim da tarde, encontrou Júlia no apartamento. A colega era baixa, falante e tinha o hábito de narrar a própria vida como se estivesse apresentando um programa de rádio.

— Você sumiu no campus e voltou com cara de quem viu um fantasma.

Lívia deixou a mochila sobre a cama.

— Vi alguém do passado.

— Um ex?

— Não exatamente.

— Um quase ex?

— Também não.

— Um homem misterioso que aparece em um corredor com o cabelo molhado e uma história triste?

— Ele estava de jaleco.

Júlia arregalou os olhos.

— Médico?

— Estudante de Medicina.

— Bonito?

Lívia tirou os sapatos

— Isso não importa.

— Se você respondeu sem negar, importa.

— Júlia.

— Está bem. Quem é ele?

Lívia demorou para responder.

— O filho da família que destruiu a minha.

A brincadeira desapareceu do rosto da amiga.

Lívia contou apenas o suficiente. Falou da antiga amizade entre os pais, da acusação contra Renato, da separação e dos cinco anos de silêncio. Não mencionou o beijo na estação. Nem o relógio. Nem a promessa.

— E você ainda gosta dele? — Júlia perguntou.

— Eu não sei.

— Essa é uma resposta perigosa.

— Eu sei.

Naquela noite, Lívia abriu a caixa de madeira. O relógio marcava oito e vinte e quatro, embora fossem oito e vinte e oito. Ela o pegou, deu corda e colocou-o sobre a mesa.

No mesmo instante, em outro prédio da universidade, Caio tirou da carteira a pequena estrela de metal. O cordão havia desaparecido há anos, mas ele conservara o pingente. Passou o polegar pela superfície arranhada e pensou que algumas lembranças não desapareciam, apenas aprendiam a esperar.

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