INICIAR SESIÓNCinco anos depois, Lívia Duarte chegou à Universidade Santa Aurora carregando duas malas, uma mochila pesada e uma lista de preocupações que não cabia em nenhuma delas.
A primeira preocupação era o dinheiro. Embora tivesse conseguido uma bolsa integral para o curso de Fisioterapia, a bolsa não cobria tudo: transporte, livros, alimentação, material para as aulas práticas e o aluguel do quarto que dividiria com Júlia, uma estudante de Nutrição que conhecera em um grupo de mensagens. A segunda era o medo de fracassar. Lívia havia estudado durante meses para o vestibular, fazendo exercícios entre um turno e outro na loja de tecidos, mas agora estava diante de um campus enorme, cheio de prédios modernos e estudantes que pareciam saber exatamente para onde ir. A terceira preocupação era a mais antiga de todas: Caio. Ela não pensava nele todos os dias. Isso seria uma mentira. Pensava em intervalos irregulares, às vezes quando passava por uma estação, às vezes ao sentir cheiro de chuva, às vezes quando abria a gaveta e via o relógio antigo guardado dentro da caixa de madeira. O relógio ainda funcionava, embora atrasasse quatro minutos por dia. Lívia nunca o consertou. Gostava daquela falha. Era como se o objeto carregasse uma parte do tempo que os dois haviam perdido. Naquela manhã, porém, ela não permitiu que o passado ocupasse espaço. Tinha uma matrícula para confirmar, um mapa para entender e uma aula de Introdução à Saúde Coletiva que começaria em quinze minutos. — Você está olhando o mapa de cabeça para baixo — disse uma voz ao lado. Lívia virou o papel. — Não estou. — Agora não. Antes, sim. O rapaz sorriu e apontou para o desenho dos blocos. — O prédio de Saúde fica para lá. Se você continuar nessa direção, vai chegar à Faculdade de Direito. — Talvez eu tenha mudado de curso no caminho.— Então está indo muito bem. A maioria só muda de curso depois de dois semestres. Ele se apresentou como Daniel, aluno do terceiro ano de Enfermagem. Lívia agradeceu, guardou o mapa e começou a caminhar. Só percebeu que estava no caminho errado quando já havia atravessado metade do pátio. — Você não ia para o prédio de Saúde? — Daniel perguntou, alcançando-a. — Eu estava conferindo se você tinha razão. — E? — Ainda não decidi. Foi assim que chegou atrasada à primeira aula. O professor falava sobre a formação das profissões da área da saúde quando Lívia entrou no auditório. Havia quase duzentas pessoas. Ela procurou uma cadeira livre e encontrou uma na terceira fileira, ao lado de um rapaz que escrevia no caderno com concentração exagerada. Sentou-se, tentando fazer o mínimo de barulho. — Você continua chegando atrasada — disse ele. A frase atingiu-a antes que a voz fosse reconhecida. Lívia não se virou de imediato. Seus dedos apertaram a caneta. O som do auditório desapareceu, substituído pelo barulho distante dos trilhos, pelo vento na antiga plataforma e por uma promessa feita cinco anos antes. Quando olhou para trás, Caio Valença estava ali. Não era mais o adolescente que usava o uniforme impecável do Colégio Saint Martin. O rosto ainda possuía os mesmos traços, mas havia algo diferente no modo como ele sustentava o olhar. Os cabelos estavam mais curtos. A mandíbula parecia mais marcada. Vestia uma camisa azul-clara sob o jaleco branco, e no bolso havia um crachá: Caio Valença — Medicina. Lívia sentiu o passado inteiro se levantar entre eles. — Você está na faculdade — disse, porque não encontrou uma frase melhor. — Você também. — Fisioterapia. — Medicina. — Eu ouvi. — Eu também. O professor pediu silêncio. Caio voltou a olhar para a frente, mas não escreveu mais nada. Lívia tentou prestar atenção à aula. Anotou três palavras, riscou duas e passou o restante do tempo observando a própria mão para não olhar para ele. Quando a palestra terminou, saiu rapidamente. O corredor estava cheio de alunos, cartazes de atléticas e grupos se formando ao redor dos veteranos. Ela caminhou até a área externa, perto de uma fonte, e respirou fundo. — Lívia. Caio não a segurou pelo braço. Apenas chamou seu nome. Ela se virou. — O que você quer? — Perguntar como você está. — Depois de cinco anos, essa é a primeira coisa que consegue dizer? — Não. É a única que pareceu segura. A resposta quase a fez sorrir, mas Lívia conteve a reação. — Estou bem. — Eu também. — Ótimo. Ela se afastou. — Espere. — Por quê? — Porque eu não sabia que você viria para cá. — A universidade publicou a lista de bolsistas. — Você procurou? Caio desviou os olhos. — Talvez. — Então sabia. — Sabia seu nome. Não sabia se você aceitaria. — Eu não fiz isso por você. — Eu sei. — Nem estou aqui para recomeçar nada. Caio recebeu a frase como se tivesse levado um golpe, embora não demonstrasse. — Eu sei disso também. — Sabe? — Você sempre foi muito clara quando queria que eu entendesse alguma coisa. — E você sempre demorou para entender. — Eu era um idiota. — Era. Pela primeira vez, ele riu. Um riso curto, quase triste. — Você continua honesta. — Continuo pobre também. Algumas características permanecem. O rosto de Caio mudou. Lívia percebeu que havia atingido algo sensível, mas não voltou atrás. Ela não queria que ele a visse como uma lembrança delicada, preservada fora do tempo. Tinha trabalhado, estudado e sobrevivido. A menina da estação existia, mas não era tudo o que ela se tornara. — Eu não quis dizer que você... — ele começou. — Eu sei o que você quis dizer. — Não sabe. — Então explique. Caio abriu a boca e fechou. Ainda fazia isso quando estava nervoso: parecia reunir várias respostas e descobrir que nenhuma era suficiente. — Eu senti sua falta — disse enfim. Lívia ficou imóvel. Não queria ouvir aquilo. Não naquele corredor, entre cartazes de festas universitárias e estudantes carregando apostilas. Não depois de passar cinco anos tentando transformar saudade em uma coisa administrável. — Você não pode dizer isso como se fosse simples. — Não é simples. — Para mim foi muito difícil. — Para mim também. — Você foi embora. — Eu fui mandado embora. — Mas não voltou. Caio abaixou a cabeça. — Eu tentei. A frase provocou uma raiva antiga. — Tentou como? — Escrevi. — Eu nunca recebi nada. — Eu escrevi durante meses. — Então escreveu para o endereço errado. — Meu pai confiscou meu telefone. Minha mãe... — Ele parou. — Eu não sabia que você não recebia. — E eu não sabia que você escrevia. As pessoas passavam ao redor deles, obrigando ambos a falar baixo. O mundo continuava, indiferente àquela conversa que havia esperado cinco anos. — Podemos conversar com calma? — Caio perguntou. — Não. — Quando? — Não sei. — Eu posso esperar. A resposta era idêntica à que ele deu na adolescência. Na época, Lívia achou bonito. Agora, achou perigoso. — Não espere por mim — disse. — Você já fez isso uma vez e não deu certo. Ela saiu antes que ele pudesse responder. No fim da tarde, encontrou Júlia no apartamento. A colega era baixa, falante e tinha o hábito de narrar a própria vida como se estivesse apresentando um programa de rádio. — Você sumiu no campus e voltou com cara de quem viu um fantasma. Lívia deixou a mochila sobre a cama. — Vi alguém do passado. — Um ex? — Não exatamente. — Um quase ex? — Também não. — Um homem misterioso que aparece em um corredor com o cabelo molhado e uma história triste? — Ele estava de jaleco. Júlia arregalou os olhos. — Médico? — Estudante de Medicina. — Bonito? Lívia tirou os sapatos — Isso não importa. — Se você respondeu sem negar, importa. — Júlia. — Está bem. Quem é ele? Lívia demorou para responder. — O filho da família que destruiu a minha. A brincadeira desapareceu do rosto da amiga. Lívia contou apenas o suficiente. Falou da antiga amizade entre os pais, da acusação contra Renato, da separação e dos cinco anos de silêncio. Não mencionou o beijo na estação. Nem o relógio. Nem a promessa. — E você ainda gosta dele? — Júlia perguntou. — Eu não sei. — Essa é uma resposta perigosa. — Eu sei. Naquela noite, Lívia abriu a caixa de madeira. O relógio marcava oito e vinte e quatro, embora fossem oito e vinte e oito. Ela o pegou, deu corda e colocou-o sobre a mesa. No mesmo instante, em outro prédio da universidade, Caio tirou da carteira a pequena estrela de metal. O cordão havia desaparecido há anos, mas ele conservara o pingente. Passou o polegar pela superfície arranhada e pensou que algumas lembranças não desapareciam, apenas aprendiam a esperar.O beijo aconteceu por acidente, embora Lívia soubesse que acidentes raramente eram tão simples.Naquela semana, o hospital escola recebeu uma nova paciente, uma mulher chamada Teresa, que precisava de acompanhamento depois de uma cirurgia no joelho. Ela chegava sempre acompanhada da filha, uma menina de oito anos que corria pelos corredores e fazia perguntas sobre todos os aparelhos.Lívia gostava da menina. Explicava os exercícios com desenhos e deixava que ela contasse as repetições. Caio ajudava na avaliação clínica e passava mais tempo do que o necessário conversando com Teresa sobre os receios que ela tinha de voltar ao trabalho.— Você fala com as pessoas como se estivesse tentando convencê-las de que o medo não é vergonhoso — Lívia comentou.— Talvez porque eu saiba que é.— Você tem medo de quê?— De falhar.— Isso é muito genérico.— De falhar com meu pai, com meus pacientes, Comigo mesmo.— E comigo?Caio ficou em silêncio. Eles estavam no laboratório, revisando as anotaçõe
Lívia decidiu que encontraria Caio apenas quando fosse inevitável.A universidade, contudo, parecia empenhada em contrariá-la.Na segunda semana de aula, ela o viu na fila do restaurante universitário. Na terceira, cruzou com ele na biblioteca. Na quarta, descobriu que os cursos de Medicina e Fisioterapia participariam juntos de um projeto interdisciplinar sobre reabilitação após acidentes.A professora responsável dividiu os estudantes em grupos de quatro. Lívia ficou com Júlia, um aluno de Medicina chamado Rafael e Caio.— Há uma lógica no universo — Júlia sussurrou.— Há uma falha no sistema de matrícula. Caio ouviu e sorriu.— Posso pedir para trocar de grupo.— Não — disse a professora, antes que Lívia respondesse. — A proposta é justamente aprender a trabalhar com pessoas de formações diferentes.Eles receberam o caso de uma paciente de vinte e seis anos que sofrera um acidente de moto e precisava retomar os movimentos da perna esquerda. A tarefa consistia em elaborar um plano
Cinco anos depois, Lívia Duarte chegou à Universidade Santa Aurora carregando duas malas, uma mochila pesada e uma lista de preocupações que não cabia em nenhuma delas.A primeira preocupação era o dinheiro. Embora tivesse conseguido uma bolsa integral para o curso de Fisioterapia, a bolsa não cobria tudo: transporte, livros, alimentação, material para as aulas práticas e o aluguel do quarto que dividiria com Júlia, uma estudante de Nutrição que conhecera em um grupo de mensagens. A segunda era o medo de fracassar. Lívia havia estudado durante meses para o vestibular, fazendo exercícios entre um turno e outro na loja de tecidos, mas agora estava diante de um campus enorme, cheio de prédios modernos e estudantes que pareciam saber exatamente para onde ir.A terceira preocupação era a mais antiga de todas: Caio.Ela não pensava nele todos os dias. Isso seria uma mentira. Pensava em intervalos irregulares, às vezes quando passava por uma estação, às vezes ao sentir cheiro de chuva, às v
Os sete dias seguintes foram uma sucessão de pequenos segredos.Caio passou a descer do carro duas quadras antes da escola para caminhar até a biblioteca. Lívia inventava motivos para sair de casa depois do trabalho. Às vezes, encontravam-se por meia hora; outras, ficavam juntos até o céu escurecer.Não havia grandes declarações. Havia cafés divididos, mensagens escritas de madrugada e a descoberta cuidadosa de detalhes.Caio odiava mamão, não sabia cozinhar arroz e tinha medo de decepcionar o pai mais do que admitia. Lívia gostava de filmes antigos, guardava ingressos de ônibus dentro dos livros e chorava quando estava com raiva, algo que detestava porque as pessoas confundiam suas lágrimas com fraqueza.— Você sempre chora quando discute? — Caio perguntou certa tarde.— Só quando estou furiosa.— Isso parece contraditório.— Meu corpo não tem obrigação de obedecer à lógica.— É por isso que você quer fazer Fisioterapia?— Em parte. Eu gosto da ideia de ajudar alguém a recuperar o con
A família Valença morava em uma casa grande demais para três pessoas.Havia quartos vazios, salas que quase nunca eram usadas e um jardim projetado por alguém que nunca precisara varrer folhas. Caio crescera ali aprendendo a reconhecer o som das portas fechadas e o modo como seu pai transformava preocupação em ordens.Augusto Valença não gritava com frequência, não precisava. Bastava-lhe uma pausa antes de responder ou um olhar demorado para fazer todos ao redor calcularem as próprias palavras.Na manhã seguinte ao encontro na estação, Caio chegou à mesa do café atrasado.— O carro sai em dez minutos — disse Augusto.— Vou de ônibus.O pai ergueu os olhos do jornal.— Não vai.— Eu tenho aula às sete e meia. Se esperar o motorista, chegarei atrasado.— O motorista está esperando.— Então ele pode esperar mais.A mãe de Caio, Beatriz, pousou a xícara com cuidado. Ela tinha o mesmo sobrenome do marido, mas pouca voz dentro daquela casa.— Caio, não comece o dia assim.— Eu só disse que v
Lívia Duarte tinha aprendido a medir as tardes pelo som da máquina de costura de sua mãe.Quando o pedal diminuía, significava que Helena estava cansada. Quando parava de repente, significava que havia algum problema com a linha, com o tecido ou com as contas da casa. Quando continuava, até depois das dez da noite, Lívia sabia que o dinheiro daquele mês não seria suficiente e que, no dia seguinte, sua mãe aceitaria mais encomendas do que deveria.Naquela quinta-feira, porém, a máquina parou antes do jantar.— Vai sair? — Helena perguntou, sem erguer os olhos da barra de um vestido azul-marinho.Lívia, que estava sentada no chão da sala separando botões por tamanho, tentou parecer casual.— Vou devolver uns livros na biblioteca.— A biblioteca fecha às seis.— Eu sei.Helena finalmente olhou para a filha. Não havia acusação em seu rosto, apenas aquela atenção silenciosa que fazia Lívia se sentir transparente.— E depois?— Depois eu volto.— Lívia.Ela respirou fundo. Mentir para a mãe







