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Isabela
A chuva fina descia sobre a cidade de São Paulo, pintando as janelas do táxi com pequenas trilhas líquidas que refletiam o brilho dos faróis e letreiros. Isabela observava em silêncio, as mãos apertadas no colo, tentando controlar o turbilhão que girava em seu peito. Mudança sempre vinha acompanhada de medo, e aquela não era diferente. Nova cidade. Novo emprego. Nova vida. Ela precisava disso. Mais do que tudo. O prédio da SantoroTech surgiu imponente diante dela — uma torre de vidro e aço que parecia tocar as nuvens. Isabela inspirou fundo. Ela repetia mentalmente o mantra que a terapeuta lhe ensinara: "Você não é o que viveu. Você é o que escolhe ser a partir de agora." Ainda assim, seu estômago se revirava. Não era só o emprego. Era o peso de estar, pela primeira vez, completamente sozinha depois de tanto tempo sendo controlada, diminuída… marcada. Ao atravessar as portas giratórias, foi recebida pelo silêncio elegante do saguão. Mármore branco, iluminação suave, recepcionistas impecáveis. Tudo ali exalava poder. Isabela ajeitou o blazer creme que vestia, sentindo-se menor do que gostaria. Mas seu currículo falava por ela — fluente em três idiomas, pós-graduada, recomendada diretamente por uma ex-colega de faculdade que hoje era gerente no setor jurídico da empresa. Ela merecia estar ali. A entrevista havia sido virtual. Na tela, o homem que agora era seu chefe soava cordial, porém distante. Leonardo Santoro. Um nome que rondava colunas de negócios e revistas de luxo, sempre envolto em uma aura de mistério. Jovem, bilionário e, segundo boatos, insuportavelmente exigente. Ela sabia pouco sobre ele, exceto que raramente aparecia em público e que não misturava negócios com emoções. Exatamente o tipo de pessoa que ela deveria evitar. Mas algo nela — talvez um instinto primitivo — sentia uma curiosidade que não sabia explicar. Foi conduzida até o 21º andar. A assistente, uma mulher eficiente chamada Marta, a orientou até uma sala de reuniões. Ao entrar, Isabela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O ar ali parecia mais denso. A iluminação era suave, as paredes em tons escuros e sóbrios, e uma mesa retangular de vidro dominava o centro. Do outro lado, de pé, observando a cidade pela janela, estava ele. Leonardo virou-se lentamente ao som da porta. Seus olhos encontraram os dela — profundos, escuros, e intensos demais para um simples bom-dia. Seu terno cinza parecia feito sob medida, e a maneira como mantinha as mãos nos bolsos transmitia controle absoluto. Havia algo na sua postura que exigia obediência. E o mais inquietante: Isabela não soube se isso a assustava ou atraía.Leonardo virou-se lentamente ao som da porta. Seus olhos encontraram os dela — profundos, escuros, e intensos demais para um simples bom-dia. Seu terno cinza parecia feito sob medida, e a maneira como mantinha as mãos nos bolsos transmitia controle absoluto. Havia algo na sua postura que exigia obediência. E o mais inquietante: Isabela não soube se isso a assustava ou atraía. — Doutora Isabela Vasconcelos — ele disse, com voz baixa e rouca. — Bem-vinda à SantoroTech. Ela tentou sorrir, mas seu coração batia forte demais. Estava preparada para um chefe arrogante, distante. Mas não para um homem que a olhava como se enxergasse além da sua aparência. Além da armadura. Como se soubesse dos cacos ainda soltos dentro dela. — Obrigada, senhor Santoro. É uma honra estar aqui. — Espero que saiba lidar com pressão. — A frase foi dita sem agressividade, mas com firmeza. — Aprendi a sobreviver ao inferno. A pressão não me assusta. — As palavras escaparam antes que ela pudesse filtrar. Um silêncio cortante se seguiu. Os olhos dele não se desviaram dos seus. Por um instante, Isabela pensou que tinha ido longe demais. Mas, então, um canto da boca dele se ergueu num quase-sorriso. — Veremos, doutora. Veremos.Dois anos depois O mar batia suave nas pedras, e o sol dourava a pele de Isabela enquanto ela caminhava descalça pela varanda da casa de pedra que agora chamava de lar. A brisa trazia o cheiro de sal e lavanda — e memórias que, embora cicatrizadas, ainda vibravam em sua pele de vez em quando. Ela usava um vestido leve, branco, quase transparente sob a luz do entardecer. Os cabelos soltos dançavam ao vento, e os olhos fixos no horizonte denunciavam que algo dentro dela ainda pulsava com uma intensidade silenciosa. Leonardo surgiu na porta, encostando no batente, observando-a. O tempo o fizera ainda mais bonito. As marcas da guerra haviam se transformado em traços de maturidade e força. Mas os olhos… aqueles olhos continuavam sendo lar. — Está pensando em fugir de novo, minha selvagem? — ele perguntou com um sorriso torto. Ela riu. — Nunca mais. Aqui é o lugar onde o mundo parou de me caçar. Ele caminhou até ela e passou os braços ao redor da sua cintura, colando seus corpos
Isabela O silêncio era estranho. Depois de tantos tiros, gritos e explosões, o som da brisa leve entrando pelas janelas do bunker parecia um sussurro irreal. Ela estava sentada no chão de concreto frio, as pernas ainda trêmulas. O sangue seco nos dedos era a lembrança de que havia sobrevivido. De novo. Mas agora… ela não sabia o que fazer com o silêncio. Leonardo surgiu do corredor, as roupas sujas, o olhar cansado — mas vivo. — O último carro bateu em retirada — ele disse, sentando-se ao lado dela. — Eles desistiram. — Tarde demais — ela respondeu, apoiando a cabeça no ombro dele. — Já não tinham nada para levar. Ele passou o braço ao redor dela, puxando-a para perto. — Nós ainda temos um ao outro. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Era verdade. Depois de tudo, ainda estavam ali. Inteiros. Ou pelo menos… juntos. Leonardo Ele a olhava como se ela fosse o milagre que ele nunca ousou pedir. Depois de tudo que fizeram — que precisaram fazer — o fato de ela ainda estar
Isabela O som dos motores se aproximando era um aviso claro: o inferno estava à porta. Ela apertou o coldre na coxa, o metal frio da arma trazendo a sensação familiar de controle. — Eles estão vindo em três SUVs — Leonardo anunciou, os olhos no monitor de vigilância. — Eduardo veio com tudo — ela respondeu, sem vacilar. Mas havia algo em seu peito que queimava além do medo. Uma convicção inabalável: ninguém tomaria o que ela construiu. Nem ele. Nem ninguém. Leonardo Preparou as armadilhas. Posicionou os explosivos no perímetro externo. — Vamos fazer isso contar — murmurou. Caminhou até Isabela, que ajustava a mira de um rifle de longo alcance. Parou por um segundo só para observá-la. A força. A precisão. A mulher que ele nunca sonhou merecer… mas que agora lutava ao lado dele. — Eu amo você, Isabela. Não importa o que acontecer lá fora. Ela virou o rosto, o olhar firme, e respondeu: — Então lute como quem tem algo a perder. Eduardo Saltou do carro com elegância cruel
Isabela A estrada parecia infinita. A chuva batia no vidro com força, como se o céu também estivesse em guerra. Dentro do carro, o silêncio era denso. Não por falta de palavras — mas porque tudo que podiam dizer agora não mudaria o que estava prestes a acontecer. Valentina tinha se sacrificado por eles. E aquilo doía mais do que Isabela imaginava. Sentia o peso de cada escolha, cada mentira, cada corpo que deixou no caminho. — Estamos a quanto tempo do bunker? — perguntou, a voz rouca. — Quarenta minutos — Leonardo respondeu, os olhos fixos na estrada. — Se Eduardo não antecipar os passos, a gente chega antes. Mas Isabela sabia: Eduardo sempre estava um passo à frente. Leonardo Ele queria acreditar que ainda tinha controle. Que aquele plano, traçado com sangue e suor, ainda estava de pé. Mas algo dentro dele gritava que o fim estava mais próximo do que jamais esteve. — Quando chegarmos, temos que separar os arquivos. Criar cópias falsas. Se ele invadir, vai atrás disso —
Isabela Havia algo errado. Nos olhos de Valentina. No jeito como ela olhava cada canto da casa, como quem decora rotas de fuga. Como quem espera… o momento certo para agir. — Está com fome? — Isabela perguntou, fingindo leveza. — Aceito um café, se tiver — ela respondeu, sentando-se à mesa com um sorriso forçado demais. Isabela foi até a cozinha, mas não tirou os olhos dela. Colocou a água pra ferver, os movimentos lentos, controlados. Na mente, mil possibilidades. E apenas uma certeza: ela precisava confirmar a traição antes que fosse tarde. Leonardo Estava no quarto, reconfigurando o sinal do celular e escaneando ondas próximas. Quando viu o número piscando na tela, paralisou. Sinal externo ativo. Emissor a 3 metros. Arregalou os olhos. Foi até o canto da estante, onde Valentina havia deixado a mochila. Começou a vasculhar. E ali estava: um pequeno rastreador, acoplado dentro de uma carteira. — Filha da puta… — ele murmurou, sentindo o sangue ferver. Desceu as esc
Isabela O silêncio da casa era estranho demais. Depois da noite em que se entregaram ao desejo e aos planos, algo no ar havia mudado. Leonardo dormia profundamente, o peito subindo e descendo em um ritmo calmo. Mas Isabela não conseguia. Algo dentro dela alertava — um frio estranho na espinha, como se alguém a observasse. Ela se levantou em silêncio, vestiu uma camiseta larga e saiu do quarto, os pés descalços sobre o chão de madeira. Passou pela sala, pela cozinha, e parou diante da porta dos fundos, entreaberta. Um calafrio percorreu sua pele. Ela tinha certeza de que Leonardo a havia trancado na noite anterior. Seu coração disparou. Pegou uma faca da gaveta e se escondeu atrás da porta. Nada. Somente o barulho da floresta lá fora. Ela se virou para voltar ao quarto, mas foi interrompida por um ruído — algo leve, quase imperceptível — vindo do andar de cima. A casa deveria estar vazia. Leonardo O barulho de passos o despertou. Isabela não estava ao seu lado. Ele se







