LOGINLeonardo
Ela entrou com passos contidos, mas não hesitantes. Seus olhos, castanhos e curiosos, sondavam o ambiente como quem procura segurança. Leonardo a observava de onde estava, de frente para a janela, mas consciente de cada movimento que ela fazia desde o instante em que pisou no andar. Estava acostumado a avaliar pessoas — era parte de sua rotina como CEO. Mas com Isabela… havia algo diferente. O currículo dela era impressionante, sim, mas não era isso que o intrigava. Era a forma como carregava as cicatrizes invisíveis. Como se tivesse aprendido a andar com elas sem que se tornassem um fardo. Ele reconhecia esse tipo de dor. Ela não era frágil — era forjada. E por isso, o magnetismo era inevitável. Perigoso. Indesejável. — Doutora Isabela Vasconcelos — ele disse, voltando-se para encará-la diretamente. Ela o cumprimentou com um sorriso contido, a postura firme, mas os olhos revelavam um leve tremor. Medo, talvez? Ou apenas respeito? Difícil dizer. Ele notava os pequenos detalhes: a mão esquerda que tocava o punho da manga discretamente, a respiração contida, a tensão nos ombros. Ela tentava parecer inabalável. E estava quase conseguindo. Quando ela respondeu à sua provocação com aquele comentário — "Aprendi a sobreviver ao inferno" — algo dentro dele se contraiu. Não pela audácia, mas pela verdade contida ali. Palavras assim só podiam vir de alguém que tinha enfrentado mais do que gostaria. E ele sabia, mais do que ninguém, o que era sobreviver. O inferno, afinal, tinha muitos nomes. Ele só não esperava vê-lo refletido nos olhos de uma mulher que deveria ser apenas mais uma funcionária. Ele disfarçou o impacto com um leve sorriso. Não era o tipo de homem que deixava emoções transparecerem, e essa mulher não mudaria isso. Ou, pelo menos, não deveria. — Veremos, doutora. — respondeu, mantendo o tom neutro. Quando ela se acomodou à mesa, Leonardo sentou-se também. Apresentou-lhe os relatórios, as primeiras orientações e a equipe que estaria sob sua supervisão jurídica. Mas, enquanto falava, uma parte de sua mente insistia em analisá-la sob uma ótica diferente. Ela cruzava e descruzava as pernas com naturalidade, a saia justa mas elegante, os cabelos presos com um coque que teimava em soltar algumas mechas rebeldes. Havia algo quase provocante na forma como tentava ser discreta. Leonardo não se envolvia com funcionárias. Era uma regra. Inquebrável. Já havia quebrado tantas coisas dentro de si — essa regra era uma das poucas que mantinha intacta. Porque o envolvimento levava ao desequilíbrio. E o desequilíbrio… custava caro. Mas o instinto era traiçoeiro. E ao ver o jeito como ela mordia o lábio inferior ao concentrar-se no relatório, soube que teria problemas. Problemas deliciosos. Ou perigosos. Talvez ambos. Ele se levantou antes que perdesse o controle da própria respiração. Caminhou até a janela novamente, dessa vez de costas para ela. Precisava da distância, do tempo, da frieza. Ela não podia saber o que provocava. Ainda não. — Marta vai acompanhá-la até sua sala. Comece com os contratos em litígio. Quero um parecer completo até sexta-feira. — A voz saiu firme, impenetrável. — Perfeito. — ela respondeu, sem hesitação. Quando ela deixou a sala, Leonardo permaneceu ali, olhando a cidade através dos vidros. São Paulo era um organismo vivo, pulsante, cheio de esquinas escuras e segredos escondidos atrás de fachadas limpas. Exatamente como ele. E agora havia Isabela. Uma mulher que cheirava a recomeço, mas tinha a sombra de algo muito mais profundo em sua essência. Ele sabia reconhecer uma tempestade chegando. E algo lhe dizia que estava prestes a mergulhar nela.Dois anos depois O mar batia suave nas pedras, e o sol dourava a pele de Isabela enquanto ela caminhava descalça pela varanda da casa de pedra que agora chamava de lar. A brisa trazia o cheiro de sal e lavanda — e memórias que, embora cicatrizadas, ainda vibravam em sua pele de vez em quando. Ela usava um vestido leve, branco, quase transparente sob a luz do entardecer. Os cabelos soltos dançavam ao vento, e os olhos fixos no horizonte denunciavam que algo dentro dela ainda pulsava com uma intensidade silenciosa. Leonardo surgiu na porta, encostando no batente, observando-a. O tempo o fizera ainda mais bonito. As marcas da guerra haviam se transformado em traços de maturidade e força. Mas os olhos… aqueles olhos continuavam sendo lar. — Está pensando em fugir de novo, minha selvagem? — ele perguntou com um sorriso torto. Ela riu. — Nunca mais. Aqui é o lugar onde o mundo parou de me caçar. Ele caminhou até ela e passou os braços ao redor da sua cintura, colando seus corpos
Isabela O silêncio era estranho. Depois de tantos tiros, gritos e explosões, o som da brisa leve entrando pelas janelas do bunker parecia um sussurro irreal. Ela estava sentada no chão de concreto frio, as pernas ainda trêmulas. O sangue seco nos dedos era a lembrança de que havia sobrevivido. De novo. Mas agora… ela não sabia o que fazer com o silêncio. Leonardo surgiu do corredor, as roupas sujas, o olhar cansado — mas vivo. — O último carro bateu em retirada — ele disse, sentando-se ao lado dela. — Eles desistiram. — Tarde demais — ela respondeu, apoiando a cabeça no ombro dele. — Já não tinham nada para levar. Ele passou o braço ao redor dela, puxando-a para perto. — Nós ainda temos um ao outro. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Era verdade. Depois de tudo, ainda estavam ali. Inteiros. Ou pelo menos… juntos. Leonardo Ele a olhava como se ela fosse o milagre que ele nunca ousou pedir. Depois de tudo que fizeram — que precisaram fazer — o fato de ela ainda estar
Isabela O som dos motores se aproximando era um aviso claro: o inferno estava à porta. Ela apertou o coldre na coxa, o metal frio da arma trazendo a sensação familiar de controle. — Eles estão vindo em três SUVs — Leonardo anunciou, os olhos no monitor de vigilância. — Eduardo veio com tudo — ela respondeu, sem vacilar. Mas havia algo em seu peito que queimava além do medo. Uma convicção inabalável: ninguém tomaria o que ela construiu. Nem ele. Nem ninguém. Leonardo Preparou as armadilhas. Posicionou os explosivos no perímetro externo. — Vamos fazer isso contar — murmurou. Caminhou até Isabela, que ajustava a mira de um rifle de longo alcance. Parou por um segundo só para observá-la. A força. A precisão. A mulher que ele nunca sonhou merecer… mas que agora lutava ao lado dele. — Eu amo você, Isabela. Não importa o que acontecer lá fora. Ela virou o rosto, o olhar firme, e respondeu: — Então lute como quem tem algo a perder. Eduardo Saltou do carro com elegância cruel
Isabela A estrada parecia infinita. A chuva batia no vidro com força, como se o céu também estivesse em guerra. Dentro do carro, o silêncio era denso. Não por falta de palavras — mas porque tudo que podiam dizer agora não mudaria o que estava prestes a acontecer. Valentina tinha se sacrificado por eles. E aquilo doía mais do que Isabela imaginava. Sentia o peso de cada escolha, cada mentira, cada corpo que deixou no caminho. — Estamos a quanto tempo do bunker? — perguntou, a voz rouca. — Quarenta minutos — Leonardo respondeu, os olhos fixos na estrada. — Se Eduardo não antecipar os passos, a gente chega antes. Mas Isabela sabia: Eduardo sempre estava um passo à frente. Leonardo Ele queria acreditar que ainda tinha controle. Que aquele plano, traçado com sangue e suor, ainda estava de pé. Mas algo dentro dele gritava que o fim estava mais próximo do que jamais esteve. — Quando chegarmos, temos que separar os arquivos. Criar cópias falsas. Se ele invadir, vai atrás disso —
Isabela Havia algo errado. Nos olhos de Valentina. No jeito como ela olhava cada canto da casa, como quem decora rotas de fuga. Como quem espera… o momento certo para agir. — Está com fome? — Isabela perguntou, fingindo leveza. — Aceito um café, se tiver — ela respondeu, sentando-se à mesa com um sorriso forçado demais. Isabela foi até a cozinha, mas não tirou os olhos dela. Colocou a água pra ferver, os movimentos lentos, controlados. Na mente, mil possibilidades. E apenas uma certeza: ela precisava confirmar a traição antes que fosse tarde. Leonardo Estava no quarto, reconfigurando o sinal do celular e escaneando ondas próximas. Quando viu o número piscando na tela, paralisou. Sinal externo ativo. Emissor a 3 metros. Arregalou os olhos. Foi até o canto da estante, onde Valentina havia deixado a mochila. Começou a vasculhar. E ali estava: um pequeno rastreador, acoplado dentro de uma carteira. — Filha da puta… — ele murmurou, sentindo o sangue ferver. Desceu as esc
Isabela O silêncio da casa era estranho demais. Depois da noite em que se entregaram ao desejo e aos planos, algo no ar havia mudado. Leonardo dormia profundamente, o peito subindo e descendo em um ritmo calmo. Mas Isabela não conseguia. Algo dentro dela alertava — um frio estranho na espinha, como se alguém a observasse. Ela se levantou em silêncio, vestiu uma camiseta larga e saiu do quarto, os pés descalços sobre o chão de madeira. Passou pela sala, pela cozinha, e parou diante da porta dos fundos, entreaberta. Um calafrio percorreu sua pele. Ela tinha certeza de que Leonardo a havia trancado na noite anterior. Seu coração disparou. Pegou uma faca da gaveta e se escondeu atrás da porta. Nada. Somente o barulho da floresta lá fora. Ela se virou para voltar ao quarto, mas foi interrompida por um ruído — algo leve, quase imperceptível — vindo do andar de cima. A casa deveria estar vazia. Leonardo O barulho de passos o despertou. Isabela não estava ao seu lado. Ele se







