Home / Romance / Entre Sombras e Promessas / Capítulo 3 - A Sala da Verdade

Share

Capítulo 3 - A Sala da Verdade

Author: Nayrad Darian
last update publish date: 2026-08-20 02:37:33

Isabela

A sala que Marta lhe apresentou era ampla, silenciosa e cercada por vidro, o que lhe permitia uma visão privilegiada do andar jurídico. Ela havia imaginado algo mais modesto, mas ali tudo parecia impecável — uma mesa de madeira escura com detalhes metálicos, um notebook de última geração, pastas organizadas por cor e um perfume sutil que parecia impregnar o ar: amadeirado, envolvente... masculino.

Ela se sentou e deixou-se por um instante relaxar. Os ombros, tensos desde o táxi, finalmente baixaram. A presença de Leonardo ainda reverberava em seus pensamentos, como um sussurro em sua nuca. O jeito como ele a olhou, como se fosse capaz de enxergar cada fresta da sua alma. Nenhum homem a havia encarado daquela maneira. Não com lascívia. Não com compaixão. Era algo diferente. Um domínio silencioso.

Isabela havia jurado para si mesma que não se envolveria mais com homens poderosos, controladores, emocionalmente indisponíveis. Sabia onde isso terminava. Mas também sabia que o desejo era uma coisa traiçoeira. Às vezes se infiltrava por entre as frestas mais protegidas, e o pior: fazia isso em silêncio.

Ligou o computador e começou a abrir os arquivos enviados pela equipe de TI. Havia algo reconfortante em mergulhar no trabalho. A objetividade dos contratos, o desafio de encontrar brechas, o raciocínio lógico. Era como um refúgio da sua bagunça emocional. Por duas horas, não pensou em nada além de cláusulas, litígios e prazos. E isso lhe fez bem.

Até que recebeu uma mensagem direta via sistema interno:

Leonardo Santoro:

"Precisa de ajuda com os contratos de fusão? Pode vir à minha sala às 15h."

Isabela mordeu o lábio. Não pela dúvida, mas pelo nervosismo que o simples nome dele causava. Ela olhou o relógio. 14h52. Respirou fundo. Precisava ser profissional. Era isso. Apenas isso.

O caminho até a sala dele pareceu mais longo. Bateu duas vezes. A voz dele respondeu do outro lado, grave e pausada:

— Entre.

Ao empurrar a porta, notou que o blazer dele estava sobre o encosto da cadeira. As mangas da camisa dobradas até os cotovelos revelavam antebraços fortes e tatuados — um detalhe que não esperava. Não havia nada no visual dele que gritasse rebeldia. Mas ali, nos traços marcados na pele, havia um grito silencioso. E sensual.

— Doutora Isabela — ele disse, sem levantar da poltrona. — Sente-se.

Ela se acomodou, mantendo a postura. Mas sua mente parecia flutuar.

— Estes documentos — ele começou, deslizando uma pasta em sua direção — exigem precisão. O contrato com a multinacional japonesa será o seu primeiro grande desafio aqui.

Isabela abriu o arquivo. Fingiu se concentrar. Mas sentia o olhar dele em si, queimando sua pele, mesmo quando ele não a olhava diretamente. A respiração dela ficou mais curta.

— Senhor Santoro... — ela começou, erguendo os olhos para os dele — posso ser sincera?

— Espero isso de você. Sempre. — Ele se inclinou, apoiando os antebraços sobre a mesa.

— Sua empresa exige excelência. Eu entendo isso. E estou aqui para entregar o melhor. Mas se essa... tensão que existe entre nós comprometer meu trabalho, peço que o senhor a elimine agora. — Ela mal acreditava que estava dizendo aquilo.

Leonardo ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram eternos. Então, inclinou-se ainda mais, a voz mais baixa do que antes:

— A tensão existe, Isabela. Negar seria mentir. Mas o controle... é algo que ambos vamos precisar cultivar. A pergunta é: você consegue?

O nome dela em sua boca parecia um convite proibido. Ela engoliu seco. Não respondeu.

Porque no fundo, ela sabia: conseguiria, sim.

Mas não sem se perder um pouco no processo.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Entre Sombras e Promessas    Capítulo 100 — Antes do Próximo Começo

    Na manhã em que partiria para a nova pauta, Isabela acordou antes que o despertador tocasse. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, olhando para o teto enquanto a claridade suave que atravessava a cortina avançava lentamente pelo quarto. Havia uma quietude diferente naquela manhã, uma espécie de silêncio que não vinha da ausência de sons, mas da sensação de que alguma coisa estava prestes a mudar. Ao lado da cama, a mala permanecia aberta, esperando as últimas peças de roupa. Sobre a mesa, o computador estava carregado, o gravador separado, os documentos da pauta organizados em uma pasta e o bloco de anotações repousava sobre tudo aquilo como se guardasse, ainda em branco, as primeiras linhas de uma história que ela sequer sabia como terminaria.A viagem seria curta, mas a importância daquela oportunidade ultrapassava os dias que passaria fora. A matéria poderia abrir novas portas dentro da redação, aproximá-la de fontes importantes, permitir que seu trabalho fosse visto por pess

  • Entre Sombras e Promessas    Capítulo 99 — O Peso de Sentir

    Nos dias que se seguiram à conversa com Valentina, Isabela começou a perceber que determinadas mudanças não chegavam acompanhadas de acontecimentos grandiosos. Algumas se instalavam devagar, quase em silêncio, modificando pequenas coisas na rotina até que, quando ela finalmente percebia, já não conseguia retornar ao modo como enxergava a própria vida antes. Leonardo continuava ao seu lado e, justamente por estar tão presente, tornava ainda mais evidente o quanto havia de verdadeiro entre eles. Miguel, por outro lado, continuava se aproximando sem pressa, ocupando espaços que Isabela não havia planejado oferecer a ninguém. Entre uma coisa e outra, havia o trabalho, as tarefas da casa, as conversas com Noemi, os compromissos que precisavam ser cumpridos e a tentativa cada vez mais consciente de não transformar cada pensamento em uma decisão. Ela começava a compreender que o coração não funcionava como uma pauta jornalística, em que bastava reunir informações suficientes para chegar a um

  • Entre Sombras e Promessas    Capítulo 98 — Entre Aquilo Que Fica e Aquilo Que Chega

    Na manhã seguinte, Isabela acordou antes do despertador, mas permaneceu imóvel por alguns minutos, deitada de lado, observando a claridade pálida que começava a atravessar a cortina. Havia noites em que o sono parecia levar embora tudo aquilo que pesava durante o dia, reorganizando as coisas dentro dela enquanto dormia. Aquela não tinha sido uma delas. As palavras de Valentina continuavam ali, intactas, misturadas às mensagens de Leonardo e Miguel, às lembranças da noite anterior e àquela sensação estranha de que sua vida havia chegado a um lugar onde já não era possível continuar fingindo que determinadas escolhas poderiam ser adiadas para sempre. Não precisava escolher naquele instante, ela sabia. Mas também sabia que não escolher imediatamente não significava que nada estivesse acontecendo. Algumas decisões começavam muito antes de serem pronunciadas. Começavam nos pequenos gestos, nos pensamentos que retornavam sem convite, nas pessoas que passavam a ocupar um espaço dentro de nós

  • Entre Sombras e Promessas    Capítulo 97 — O Que Ainda Nos Pertence

    Valentina estava sentada na ponta do sofá quando Isabela entrou na sala, mas não parecia confortável ali. Mantinha as mãos unidas sobre o colo, os dedos entrelaçados com uma força que denunciava a tensão que tentava esconder, e havia alguma coisa em seu olhar que fez Isabela entender imediatamente que aquela não seria uma conversa simples. Não havia raiva evidente, nem acusação, nem aquela necessidade de vencer uma discussão que tantas vezes contaminara as relações do passado. Havia apenas uma espécie de cansaço profundo, quase silencioso, como se Valentina tivesse carregado aquelas palavras durante tempo demais e, agora que finalmente estava diante dela, não soubesse mais por onde começar. Isabela fechou a porta atrás de si e permaneceu alguns instantes de pé, sentindo a estranheza daquela cena. Valentina fazia parte de uma versão de sua vida que já não existia da mesma maneira, mas ainda assim bastava vê-la ali para que lembranças antigas encontrassem frestas por onde retornar. Não

  • Entre Sombras e Promessas    Capítulo 96 — O Que Começa a Mudar

    Nos dias que se seguiram, Isabela percebeu que algumas mudanças não aconteciam de maneira suficientemente grande para serem percebidas por quem olhava de fora, mas eram impossíveis de ignorar por quem as vivia. Miguel começou a aparecer com mais frequência em seus pensamentos, não de uma maneira invasiva ou insistente, mas como aquelas pequenas lembranças que surgiam no meio de uma tarefa qualquer e faziam com que ela sorrisse antes mesmo de entender o motivo. Às vezes era uma frase que ele havia dito, outras vezes uma recomendação de livro, uma observação sobre alguma coisa que haviam conversado ou simplesmente a lembrança daquele silêncio confortável que existira entre os dois na livraria. Isabela não procurava essas lembranças, mas também já não fazia esforço para afastá-las. Talvez essa fosse a mudança mais significativa. Antes, quando percebia que estava pensando nele, sentia imediatamente a necessidade de se corrigir, como se o simples pensamento já fosse uma espécie de transgre

  • Entre Sombras e Promessas    Capítulo 95 — Entre o Conhecido e o Inesperado

    Na manhã seguinte, Isabela acordou com a sensação de que havia dormido menos do que realmente dormira. Não era exatamente ansiedade, embora houvesse uma inquietação difícil de ignorar. Era a expectativa de alguma coisa que ainda nem havia acontecido. Durante alguns segundos, permaneceu deitada olhando para o teto, lembrando da mensagem que havia enviado a Miguel na noite anterior e da facilidade com que aquelas duas palavras — “Eu quero” — haviam saído de seus dedos. Pareciam pequenas demais para carregar qualquer consequência, mas Isabela sabia que escolhas importantes raramente começavam com grandes declarações. Às vezes começavam assim, em uma resposta aparentemente simples, em um convite aceito sem planejamento, em uma curiosidade que alguém decide não sufocar. Virou o rosto e encontrou Leonardo ainda dormindo. Sentiu imediatamente aquela familiaridade que sempre vinha quando o observava daquela maneira. O homem que estava ali não era uma possibilidade. Era parte da sua história,

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status