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Quando ela entrou em sua sala pela segunda vez naquele dia, Leonardo já sabia que o simples som dos saltos ecoando no piso era suficiente para alterar o ritmo de sua respiração. Havia mulheres bonitas por toda parte — em eventos, festas, até mesmo em cargos altos na empresa. Mas Isabela não era apenas bonita. Ela era... intrigante. Ele a observava enquanto fingia revisar um relatório, embora estivesse mais concentrado na maneira como o perfume dela se misturava ao ambiente. Era discreto, floral, com um toque adocicado. Um contraste quase poético com a força silenciosa que ela exalava. Quando ela falou com firmeza, confrontando-o sobre a tensão entre eles, Leonardo sentiu um calor subir pelo corpo. Poucas mulheres ousavam falar com ele daquele jeito. E nenhuma — absolutamente nenhuma — havia provocado sua curiosidade de forma tão intensa e tão rápida. Ela não fazia ideia do que despertava nele. Ou fazia? Aquela ousadia... aquela coragem de chamá-lo para um confronto... Talvez soubesse mais do que deixava transparecer. O autocontrole sempre foi sua armadura. Leonardo aprendeu a sufocar impulsos desde muito jovem. O lar onde cresceu não permitia falhas. E quando falava, seu pai o ensinava com gritos, ameaças e ausências. A dor se tornou seu idioma. O controle, sua redenção. Mas agora, diante dela, sentia a estrutura trincar. — A pergunta é: você consegue? — dissera ele, olhando-a nos olhos, testando sua coragem. Ela não respondeu. Mas o silêncio dela falou mais alto do que qualquer palavra. Ele viu o brilho nos olhos dela, o leve estremecer da clavícula, a respiração presa. Sim, ela sentia. Ela queria. E isso era perigoso. Leonardo se recostou, forçando-se a manter distância física e emocional. Mas a mente já trabalhava em outra direção. Imaginava como seria vê-la soltar o cabelo. Ver aquele coque desfazer-se e os fios escorrerem pelos ombros. Imaginava o som que ela faria ao ser tocada. A forma como reagiria se ele a puxasse para si e a colocasse contra aquela mesa. Interrompeu os próprios pensamentos. Aquilo era inaceitável. Mas e se...? Não. Ele não podia cruzar essa linha. Não com ela. Isabela parecia frágil por dentro, apesar da armadura. E ele... ele era um labirinto de sombras. Não poderia arrastá-la para dentro disso. Não ainda. — Isso é tudo por hoje — disse, com a voz mais firme do que sentia. — Pode voltar à sua sala. Ela hesitou um segundo. Depois assentiu e saiu, sem mais palavras. Mas a tensão ficou. Como se o ar entre eles tivesse sido eletrificado e, ao se afastarem, algo permanecesse em suspensão. Incompleto. Inacabado. Leonardo se levantou, caminhou até o bar discreto no canto da sala e serviu-se de um whisky. Não costumava beber durante o expediente, mas agora precisava de algo que o trouxesse de volta à realidade. Bebeu em silêncio, olhando para a porta que ela acabara de fechar. Sim, havia cruzado muitas linhas na vida. Mas nenhuma tão fina e tão perigosa quanto a que separava o desejo da ruína. E Isabela... estava exatamente no meio desse caminho.Dois anos depois O mar batia suave nas pedras, e o sol dourava a pele de Isabela enquanto ela caminhava descalça pela varanda da casa de pedra que agora chamava de lar. A brisa trazia o cheiro de sal e lavanda — e memórias que, embora cicatrizadas, ainda vibravam em sua pele de vez em quando. Ela usava um vestido leve, branco, quase transparente sob a luz do entardecer. Os cabelos soltos dançavam ao vento, e os olhos fixos no horizonte denunciavam que algo dentro dela ainda pulsava com uma intensidade silenciosa. Leonardo surgiu na porta, encostando no batente, observando-a. O tempo o fizera ainda mais bonito. As marcas da guerra haviam se transformado em traços de maturidade e força. Mas os olhos… aqueles olhos continuavam sendo lar. — Está pensando em fugir de novo, minha selvagem? — ele perguntou com um sorriso torto. Ela riu. — Nunca mais. Aqui é o lugar onde o mundo parou de me caçar. Ele caminhou até ela e passou os braços ao redor da sua cintura, colando seus corpos
Isabela O silêncio era estranho. Depois de tantos tiros, gritos e explosões, o som da brisa leve entrando pelas janelas do bunker parecia um sussurro irreal. Ela estava sentada no chão de concreto frio, as pernas ainda trêmulas. O sangue seco nos dedos era a lembrança de que havia sobrevivido. De novo. Mas agora… ela não sabia o que fazer com o silêncio. Leonardo surgiu do corredor, as roupas sujas, o olhar cansado — mas vivo. — O último carro bateu em retirada — ele disse, sentando-se ao lado dela. — Eles desistiram. — Tarde demais — ela respondeu, apoiando a cabeça no ombro dele. — Já não tinham nada para levar. Ele passou o braço ao redor dela, puxando-a para perto. — Nós ainda temos um ao outro. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Era verdade. Depois de tudo, ainda estavam ali. Inteiros. Ou pelo menos… juntos. Leonardo Ele a olhava como se ela fosse o milagre que ele nunca ousou pedir. Depois de tudo que fizeram — que precisaram fazer — o fato de ela ainda estar
Isabela O som dos motores se aproximando era um aviso claro: o inferno estava à porta. Ela apertou o coldre na coxa, o metal frio da arma trazendo a sensação familiar de controle. — Eles estão vindo em três SUVs — Leonardo anunciou, os olhos no monitor de vigilância. — Eduardo veio com tudo — ela respondeu, sem vacilar. Mas havia algo em seu peito que queimava além do medo. Uma convicção inabalável: ninguém tomaria o que ela construiu. Nem ele. Nem ninguém. Leonardo Preparou as armadilhas. Posicionou os explosivos no perímetro externo. — Vamos fazer isso contar — murmurou. Caminhou até Isabela, que ajustava a mira de um rifle de longo alcance. Parou por um segundo só para observá-la. A força. A precisão. A mulher que ele nunca sonhou merecer… mas que agora lutava ao lado dele. — Eu amo você, Isabela. Não importa o que acontecer lá fora. Ela virou o rosto, o olhar firme, e respondeu: — Então lute como quem tem algo a perder. Eduardo Saltou do carro com elegância cruel
Isabela A estrada parecia infinita. A chuva batia no vidro com força, como se o céu também estivesse em guerra. Dentro do carro, o silêncio era denso. Não por falta de palavras — mas porque tudo que podiam dizer agora não mudaria o que estava prestes a acontecer. Valentina tinha se sacrificado por eles. E aquilo doía mais do que Isabela imaginava. Sentia o peso de cada escolha, cada mentira, cada corpo que deixou no caminho. — Estamos a quanto tempo do bunker? — perguntou, a voz rouca. — Quarenta minutos — Leonardo respondeu, os olhos fixos na estrada. — Se Eduardo não antecipar os passos, a gente chega antes. Mas Isabela sabia: Eduardo sempre estava um passo à frente. Leonardo Ele queria acreditar que ainda tinha controle. Que aquele plano, traçado com sangue e suor, ainda estava de pé. Mas algo dentro dele gritava que o fim estava mais próximo do que jamais esteve. — Quando chegarmos, temos que separar os arquivos. Criar cópias falsas. Se ele invadir, vai atrás disso —
Isabela Havia algo errado. Nos olhos de Valentina. No jeito como ela olhava cada canto da casa, como quem decora rotas de fuga. Como quem espera… o momento certo para agir. — Está com fome? — Isabela perguntou, fingindo leveza. — Aceito um café, se tiver — ela respondeu, sentando-se à mesa com um sorriso forçado demais. Isabela foi até a cozinha, mas não tirou os olhos dela. Colocou a água pra ferver, os movimentos lentos, controlados. Na mente, mil possibilidades. E apenas uma certeza: ela precisava confirmar a traição antes que fosse tarde. Leonardo Estava no quarto, reconfigurando o sinal do celular e escaneando ondas próximas. Quando viu o número piscando na tela, paralisou. Sinal externo ativo. Emissor a 3 metros. Arregalou os olhos. Foi até o canto da estante, onde Valentina havia deixado a mochila. Começou a vasculhar. E ali estava: um pequeno rastreador, acoplado dentro de uma carteira. — Filha da puta… — ele murmurou, sentindo o sangue ferver. Desceu as esc
Isabela O silêncio da casa era estranho demais. Depois da noite em que se entregaram ao desejo e aos planos, algo no ar havia mudado. Leonardo dormia profundamente, o peito subindo e descendo em um ritmo calmo. Mas Isabela não conseguia. Algo dentro dela alertava — um frio estranho na espinha, como se alguém a observasse. Ela se levantou em silêncio, vestiu uma camiseta larga e saiu do quarto, os pés descalços sobre o chão de madeira. Passou pela sala, pela cozinha, e parou diante da porta dos fundos, entreaberta. Um calafrio percorreu sua pele. Ela tinha certeza de que Leonardo a havia trancado na noite anterior. Seu coração disparou. Pegou uma faca da gaveta e se escondeu atrás da porta. Nada. Somente o barulho da floresta lá fora. Ela se virou para voltar ao quarto, mas foi interrompida por um ruído — algo leve, quase imperceptível — vindo do andar de cima. A casa deveria estar vazia. Leonardo O barulho de passos o despertou. Isabela não estava ao seu lado. Ele se







