LOGINJasmim
O sol já havia se despedido completamente do litoral quando parei o carro na garagem do edifício da Costa & Lemes. As luzes da fachada iluminavam o logotipo da empresa com a imponência de sempre, mas o interior do prédio estava mergulhado no silêncio típico do fim de expediente.A conversa com a Vó Amália e o Vô Josué ainda ressoava em cada batida do meu coração, o sabor do vinho, a metáfora sobre o tempo e a constatação dolorosa de que eu estava construindo a minha própriMartinaO silêncio no corredor do segundo andar da casa dos Carvalho Lemes era um contraste bem-vindo depois da tempestade que tinha desabado na academia, o som abafado das conversas lá embaixo na cozinha mal chegava aqui em cima, eu segurava uma bolsa de gelo envolta numa toalha fina de rosto, sentindo o gelo esfriar a minha palma enquanto caminhava em direção ao quarto do Murilo.A cena no tatame ainda rodava na minha cabeça como um filme em alta velocidade, ver o Teodoro acertar aquele soco seco na lateral das costelas do Murilo tinha feito o meu sangue gelar na hora, eu sabia o motivo, todo mundo tinha entendido a provocação, mas ver o homem que eu aprendi a amar como mulher sentindo dor era algo que eu não conseguia ignorar.Cheguei à porta do quarto dele, a madeira estava apenas encostada, girei a maçaneta devagar e entrei sem bater. Afinal, desde aquele dia em que a venda caiu com a torta de limão e a conversa da manhã seguinte, não existiam mais barreiras fo
JasmimO silêncio do meu quarto na casa dos Carvalho Lemes parecia um refúgio abençoado e necessário. Lá fora, o terreno integrado começava a retomar a sua rotina de sábado, com o som suave da brisa da praia atravessando a Mata Atlântica e o farfalhar das folhas na varanda. A porta do quarto estava trancada, garantindo que o mundo exterior — com o bando de leões, a dupla italiana e a movimentação do condomínio — ficasse do lado de fora.Nikolas estava sentado na beirada da minha cama, ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, com o peito largo e definido exposto, o abdômen contraído pela dor sutil que ainda sentia dos socos, eu estava de pé, posicionada firmemente entre as pernas dele, segurando a pequena caixa de primeiros socorros que tinha pedido para a Conceição na cozinha.Umedeci uma gaze com antisséptico e apertei delicadamente contra o corte aberto na sobrancelha esquerda dele.— Argh... porra... — Nikolas soltou um rosnado baixo, os dentes travados
JasmimO ar na academia do condomínio ainda estava denso, saturado com o cheiro de suor, couro das luvas e o sangue estancado na lona do ringue. A emoção do meu abraço com o Kaio e o Logan tinha amenizado o choro, mas os leões nunca encerravam uma sessão de treino sem a palavra final.Nikolas aceitou o braço do Logan para se colocar de pé. Ele limpou o canto da boca com as costas do antebraço atado, ajustou a postura mesmo com o lado esquerdo do rosto visivelmente inchado e encarou o Kaio.Kaio deu um passo à frente com a mão estendida, num gesto de trégua e respeito velado entre os dois.— Sem rancor, Costa Marques — Kaio disse, a voz ainda um pouco rouca.Nikolas olhou para a mão estendida do meu irmão, deu um meio sorriso de canto e, com uma agilidade absurda para quem tinha acabado de levar dois socos limpos, esticou o pé por trás do calcanhar do Kaio e desferiu uma rasteira seca e precisa.O impacto das costas do Kaio contra o tatame fez o piso de b
JasmimA manhã de sábado no terreno integrado começou com um sol brando sobre a Mata Atlântica e o aroma de café recém-passado vindo da cozinha de Conceição e Marina. Na mesa da varanda, o clima parecia tranquilo, mas a tensão velada ainda pairava.Nikolas estava sentado ao meu lado, ele serviu um copo de suco para mim, puxou meu prato para perto do dele e colocou uma das mãos sobre a minha coxa por baixo da mesa, num gesto calmo, mas assumido e explícito na frente de todos. No canto oposto, Kaio e Logan observavam a cena em silêncio absoluto, Kaio mal tocou na comida, remoendo a conversa do gramado com a Lavínia e o peso de ver que o segredo entre mim e o Nikolas já era algo consolidado entre os mais velhos.Assim que terminamos o café, Kaio se levantou em um movimento brusco, empurrando a cadeira.— Vamos para a academia — Kaio disse, a voz grave e sem vestígio de piada. Ele encarou o Nikolas fixamente. — Treino de Muay Thai. Todo mundo.Logan se levantou
JasmimO dia amanheceu com aquele contraste único do nosso condomínio: o cheiro úmido e fechado da Mata Atlântica subindo de um lado e a brisa salgada da praia batendo de frente nas varandas integradas das nossas duas casas.Vó Lívia e Vô Maurício tinham alugado um iate sob o pretexto de "um passeio em família", mas a embarcação parecia um barril de pólvora flutuante. Do lado dos convidados, Francesca continuava jogando charme descarado para o Nikolas toda vez que ele passava pelo convés, enquanto Matteo tentava me rondar. O problema para eles era a parede invisível do Grupo dos Nove.Noah, com seu olhar observador de advogado, e Teodoro, com sua postura direta e centrada de médico, mantiam Matteo a uma distância segura apenas com a presença. Murilo, Logan e Noah não tiravam os olhos da Francesca, deixando claro no ar que qualquer movimento errado contra o casal da casa seria trucidado no ato. Eu mantinha a minha acidez e indiferença no grau máximo com Matteo, e o N
JasmimO retorno do passeio de barco foi marcado pelo silêncio sepulcral do Kaio e pelas alfinetadas contínuas do bando. Quando o iate finalmente atracou no píer do condomínio, a comitiva italiana — já ciente de que o clima na casa de praia não estava para brincadeiras de verão — preferiu se recolher cedo para o anexo dos hóspedes sob o pretexto do cansaço do sol.A casa principal, no entanto, continuava fervendo.Após o jantar, Noah, Murilo e Martina se acomodaram na varanda externa, perto da fogueira de chão, dividindo uma rodada de cerveja gelada. As gargalhadas sobre o "atropelamento marítimo" que Kaio sofrera à tarde ainda ecoavam na brisa úmida do mar, enquanto o próprio Kaio permanecia em silêncio, recostado contra uma das pilastras de madeira com o olhar fixo na linha do horizonte.Lavínia estava a poucos metros dali, sentada na espreguiçadeira da ponta com um casaco de lã leve sobre os ombros, entretida no celular com a calma de quem nem se lembrava do







