Mag-log inNa Sede da Costa & Lemes
(POV: Jasmim) A sede da Costa & Lemes Arquitetura e Engenharia era o reflexo exato da essência dos nossos pais: um prédio moderno e imponente de três andares, construído em concreto aparente, com grandes panos de vidro espelhado e emoldurado por um paisagismo tropical impecável. Assim que Nikolas estacionou o SUV na vaga reservada da diretoria e cruzamos as portas de vidro do saguão principal, o calor abafado da rua deu lugar ao ar fresco do sistema de climatização e ao aroma suave de café recém-passado que marcava aquele prédio. A recepção estava movimentada, mas Seu Vítor, o mestre de obras aposentado que agora cuidava da recepção e do controle de acesso, levantou-se da bancada de granito no mesmo segundo em que nos viu, com os olhos pequenos brilhando atrás das lentes grossas. — Minha garota doutora! — ele exclamou com a voz rouca, contornando o balcão e me envolvendo num abraço largo, que cheirava a sabão de coco e tabaco fraco. — Que orgulho ver você de volta ocupando a sua mesa nessa empresa! — Obrigada, Seu Vítor! Que saudade eu estava do senhor e dessa energia — respondi com carinho, beijando a bochecha do senhor de setenta anos. Nikolas passou o braço forte pelo pescoço do Seu Vítor, num abraço descontraído e carinhoso de lado, e deu dois tapinhas firmes no ombro dele. — O senhor cuidou bem da minha sala enquanto eu estava no canteiro de obras da rodovia, Seu Vítor, ou deixou o pessoal da arquitetura bagunçar minhas pranchas? — Nikolas provocou, rindo baixo. — Cuidei como se fosse minha, meu filho! Agora andem logo, que o seu pai e o Pietro estão esperando os dois na sala de reuniões principal desde que o Saulo ligou — avisou o idoso, piscando para nós. Subimos pelo elevador panorâmico de aço escovado. Conforme a cabine de vidro subia, dava para ver o pátio interno e as pranchetas dos estagiários nos andares inferiores. Nikolas ficou ao meu lado, as mãos nos bolsos da calça e o ombro roçando suavemente no meu blazer a cada solavanco suave do elevador. Ao abrirmos a porta de vidro fosco da sala de conferências do último andar, encontramos meu pai, e Tio Fernando debruçados sobre a mesa maciça de madeira de demolição, cercados por maquetes 3D, pranchas impressas e tablets ligados. — A bênção, pai. A bênção, Tio Fernando — disse, encurtando a distância para abraçar os dois. — A bênção, pai. A bênção, Tio Pietro — Nikolas acompanhou no mesmo instante, dando um abraço apertado no meu pai e depois no dele, beijando a bochecha de cada um com o respeito genuíno que aprendemos desde pequenos. — Deus abençoe vocês, meus filhos! — disse Tio Fernando, radiante, ajeitando a armação dos óculos enquanto olhava de mim para Nikolas. — E então? Como estão o Saulo e a Elizabeth? Como foi a vistoria de emergência na escola? Nikolas não perdeu tempo. Com a agilidade da convivência diária na empresa, tirou o tablet da pasta de couro e conectou-o por aproximação à grande tela de projeção da sala. — A trinca no ginásio da unidade três é superficial, pai — Nikolas começou, a postura mudando instantaneamente. O garoto provocador do carro deu lugar ao Diretor de Engenharia Civil seguro, de voz firme e autoridade técnica indiscutível. — Foi provocada pela umidade da calha entupida por folhas do flamboyant. A estrutura de concreto tá intacta, mas precisamos fazer o escoramento preventivo e impermeabilizar a base por garantia. Assumi a palavra no segundo seguinte, dando um passo à frente e abrindo o módulo financeiro e de custos no painel compartilhado. — E como a equipe de manutenção da Costa & Lemes já está mobilizada no bairro vizinho, renegociamos a compra da resina impermeabilizante direto com a distribuidora parceira do Tio Josué — expliquei, apontando os gráficos e a curva de insumos na tela. — Conseguimos doze por cento de desconto e o custo total da intervenção fechou em trinta e oito mil reais. Se aprovarmos a alocação de verba agora, a equipe entra hoje à tarde, o serviço termina na quinta e as aulas do ginásio não sofrem um único dia de atraso. Tio Fernando olhou para meu pai, deu uma risada baixa e abriu um sorriso largo de puro orgulho. — Olhe para isso, Pietro! Nem vinte e quatro horas que o mestrado foi concluído e essa garota já economizou doze por cento do orçamento emergencial sem burocracia nenhuma — elogiou Tio Fernando, dando um tapinha carinhoso nas minhas costas. — A nossa nova diretoria superou qualquer expectativa — meu pai concordou, olhando os relatórios com satisfação explícita. — O laudo tá impecável e a solução foi rápida. Nikolas, assine a ordem de serviço da engenharia. Jasmim, libere a alocação de recursos da conta corporativa. Assinamos os documentos digitais diretamente nas telas dos tablets. A sintonia técnica entre nós dois na mesa de reuniões era algo cirúrgico — uma precisão profissional tão afiada que fazia qualquer faísca pessoal ou provocação velada parecer subterrânea, embora o olhar atento e castanho de Nikolas continuasse preso em mim a cada gesto meu. Poucos minutos depois, a porta de vidro da sala de reuniões deslizou suavemente nos trilhos. Martina entrou no recinto. Vestindo um macacão de alfaiataria na cor terracota que destacava sua elegância, os cabelos cacheados volumosos caindo impecáveis até a cintura e com aquela aura de autoconfiança solar que lhe era tão natural, ela trazia uma pasta sanfonada repleta de mostruários sob o braço. — Licença, chefes! — Martina sorriu, indo direto abraçar o pai dela e, em seguida, o meu pai, pedindo a bênção a ambos com seu jeito afetuoso. — A bênção, pai! A bênção, Tio Pietro! — Deus te abençoe, minha filha! — responderam os dois quase em coro. — Jasmim! Niko! — ela cumprimentou, dando um beijo carinhoso na bochecha de cada um de nós. Em seguida, olhou ao redor da sala e perguntou: — O Murilo ainda tá no departamento de engenharia ambiental no segundo andar? — Tá sim, Tina — respondi, ajustando meus óculos. — Ele estava finalizando a análise de impacto da obra do condomínio verde mais cedo. Aconteceu alguma coisa? — Preciso urgente alinhar os materiais biodegradáveis e o revestimento sustentável daquela fachada com ele — Martina explicou, ajustando a pasta pesada nas mãos. Ela já estava no último semestre de Design de Interiores e cuidava da especificação de interiores ecológicos das novas obras. — O fornecedor enviou os painéis de fibra de bambu e eu quero que o Murilo cheque a durabilidade ambiental antes de eu fechar o detalhamento. — Ele tá na sala dele — Nikolas informou, sorrindo com carinho para a irmã caçula. — E você conhece o Murilo... se você não puxar ele pelo braço pra almoçar, ele esquece de comer conferindo laudo ambiental e tabela de impacto. — Deixa comigo! Vou descer lá agora e arrastar esse nerd pro restaurante — Martina disse, piscando para mim antes de sair em passos rápidos em direção aos elevadores. Olhei para o relógio de parede e depois para Nikolas. A nossa missão com a escola dos meus avós estava cumprida, os relatórios devidamente entregues e assinados, e a grande engrenagem da Costa & Lemes rodando perfeitamente.JasmimA manhã de sábado no terreno integrado começou com um sol brando sobre a Mata Atlântica e o aroma de café recém-passado vindo da cozinha de Conceição e Marina. Na mesa da varanda, o clima parecia tranquilo, mas a tensão velada ainda pairava.Nikolas estava sentado ao meu lado, ele serviu um copo de suco para mim, puxou meu prato para perto do dele e colocou uma das mãos sobre a minha coxa por baixo da mesa, num gesto calmo, mas assumido e explícito na frente de todos. No canto oposto, Kaio e Logan observavam a cena em silêncio absoluto, Kaio mal tocou na comida, remoendo a conversa do gramado com a Lavínia e o peso de ver que o segredo entre mim e o Nikolas já era algo consolidado entre os mais velhos.Assim que terminamos o café, Kaio se levantou em um movimento brusco, empurrando a cadeira.— Vamos para a academia — Kaio disse, a voz grave e sem vestígio de piada. Ele encarou o Nikolas fixamente. — Treino de Muay Thai. Todo mundo.Logan se levantou
JasmimO dia amanheceu com aquele contraste único do nosso condomínio: o cheiro úmido e fechado da Mata Atlântica subindo de um lado e a brisa salgada da praia batendo de frente nas varandas integradas das nossas duas casas.Vó Lívia e Vô Maurício tinham alugado um iate sob o pretexto de "um passeio em família", mas a embarcação parecia um barril de pólvora flutuante. Do lado dos convidados, Francesca continuava jogando charme descarado para o Nikolas toda vez que ele passava pelo convés, enquanto Matteo tentava me rondar. O problema para eles era a parede invisível do Grupo dos Nove.Noah, com seu olhar observador de advogado, e Teodoro, com sua postura direta e centrada de médico, mantiam Matteo a uma distância segura apenas com a presença. Murilo, Logan e Noah não tiravam os olhos da Francesca, deixando claro no ar que qualquer movimento errado contra o casal da casa seria trucidado no ato. Eu mantinha a minha acidez e indiferença no grau máximo com Matteo, e o N
JasmimO retorno do passeio de barco foi marcado pelo silêncio sepulcral do Kaio e pelas alfinetadas contínuas do bando. Quando o iate finalmente atracou no píer do condomínio, a comitiva italiana — já ciente de que o clima na casa de praia não estava para brincadeiras de verão — preferiu se recolher cedo para o anexo dos hóspedes sob o pretexto do cansaço do sol.A casa principal, no entanto, continuava fervendo.Após o jantar, Noah, Murilo e Martina se acomodaram na varanda externa, perto da fogueira de chão, dividindo uma rodada de cerveja gelada. As gargalhadas sobre o "atropelamento marítimo" que Kaio sofrera à tarde ainda ecoavam na brisa úmida do mar, enquanto o próprio Kaio permanecia em silêncio, recostado contra uma das pilastras de madeira com o olhar fixo na linha do horizonte.Lavínia estava a poucos metros dali, sentada na espreguiçadeira da ponta com um casaco de lã leve sobre os ombros, entretida no celular com a calma de quem nem se lembrava do
JasmimO sol causticante do litoral paulista batia no convés de madeira do iate, refletindo na água cristalina com um brilho quase cego. Vó Lívia e Vô Maurício tinham alugado a embarcação sob o pretexto de "nos proporcionar um dia leve", mas a verdade era que o ar cheirava a maresia, suor e pólvora.A presença de Matteo e Francesca continuava sendo uma pedra no sapato de todos nós. Matteo tentou se aproximar de mim logo na primeira hora de navegação, puxando papo sobre a arquitetura dos iates, mas a minha resposta foi tão curta, seca e desprovida de vida que o italiano percebeu a barreira e recuou para a área do bar, fingindo focar na taça de espumante. Francesca, por sua vez, tentava jogar charme descarado toda vez que o Nikolas passava pelo convés. O problema é que o Nikolas nem sequer olhava no rosto dela — ele a tratava com uma educação fria, quase mecânica, como quem fala com uma estranha no trânsito, o que deixava a italiana visivelmente possessa.A tensão que
JasmimA mesa de jantar da casa dos Carvalho Lemes parecia um campo de minado prestes a explodir a qualquer movimento em falso.O cheiro do assado preparado pela dona Conceição para celebrar a chegada da Vó Lívia e do Vô Maurício preenchia o ambiente, mas para mim, o ar parecia rarefeito. Os pratos de porcelana e as taças de cristal reluziam sob o lustre central, enquanto o bando se acomodava ao redor da mesa. No entanto, o meu foco estava inteiramente concentrado na italiana sentada exatamente do outro lado da mesa.Francesca.Ela vestia um vestido justo de seda verde, o cabelo castanho perfeitamente modelado caindo sobre os ombros e um sorriso sutilmente ensaiado nos lábios. Mas o que realmente fazia o meu sangue ferver em fogo brando era o destino fixo do olhar dela: o Nikolas.Nikolas estava sentado ao meu lado, ele trajava apenas uma camisa de linho escura com os primeiros botões abertos, o cabelo levemente bagunçado e aquele ar rústico e imponente de e
NikolasO silêncio do escritório da Costa & Lemes agora tinha um tom completamente diferente. Não era mais a quietude fria e pesada do tempo de afastamento, mas uma atmosfera calma, quente e acolhedora.Jasmim estava sentada no meu colo, com a cabeça apoiada no meu ombro e uma das mãos brincando distraidamente com os botões da minha camisa, eu mantinha meus braços firmes ao redor da cintura dela, inalando o perfume suave que parecia ter o poder imediato de desacelerar o meu pulso. Depois de tanto tempo nos destruindo em silêncio, a sensação de finalmente tê-la nos meus braços sem nenhuma armadura entre nós beirava o inacreditável.— A gente precisa ir para casa, Nick — ela murmurou com uma risada baixa, descolando o rosto do meu pescoço para me encarar. — Já passa das oito da noite. Daqui a pouco o pessoal começa a ligar achando que fomos sequestrados.— Deixa ligarem — respondi com um sorriso de canto, roubando um selinho demorado dos seus lábios. — Se soubess







