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Na Casa de Pedra

Author: Pah
last update publish date: 2026-09-14 13:27:51

(POV: Jasmim)

O portão de ferro trabalhado da Escola Novo Horizonte se abria devagar assim que o SUV preto de Nikolas aproximou-se da guarita. A unidade principal parecia um refúgio arborizado cravado no meio da cidade: prédios de tijolos à vista, jardins impecáveis de buxinhos aparados e corredores amplos, pensados para a circulação leve das crianças.

Assim que ele estacionou sob a sombra densa de um flamboyant em flor, avistei a figura elegante da minha avó Elizabeth na varanda do bloco administrativo, acenando para nós com um livro na mão e um sorriso que iluminava o rosto marcado pelo tempo. Vô Saulo estava ao lado dela, vestindo seu tradicional colete de lã sobre a camisa social e segurando uma prancheta de madeira.

Saímos do carro e o contraste pesado da nossa discussão durante o trajeto simplesmente evaporou diante do carinho absoluto daquela recepção.

Nikolas foi o primeiro a se aproximar, com aquele jeito espontâneo, grandão e afetuoso que lhe era tão natural. Ele abriu um sorriso largo, curvou o corpo alto por causa da diferença de altura e abraçou Vó Elizabeth de lado, erguendo-a levemente do chão antes de beijar-lhe a bochecha com respeito e carinho.

— A bênção, Vó Elizabeth — a voz dele soou suave, profunda.

— Deus te abençoe, meu filho! — ela respondeu radiante, acariciando o rosto bronzeado dele com a mão fina antes de voltar os olhos brilhantes para mim. — Venha cá, minha neta!

— A bênção, vó. A bênção, vô — pedi, encurtando a distância para me afundar no abraço acolhedor dos dois.

— Deus te abençoe, minha princesinha mestre! — Vô Saulo nos envolveu num abraço forte, dando um tapinha ruidoso nas costas de Nikolas. — Que alegria ver vocês dois chegando juntos. O Pietro e o Fernando acertaram em cheio mandando a nossa dupla de diretores para resolver esse pepino.

— É sempre um privilégio cuidar das coisas de vocês, Vô Saulo — Nikolas respondeu, passando o braço com uma naturalidade avassaladora sobre os meus ombros por meio segundo — um gesto territorial e afetuoso que fez meu estômago dar uma volta —, antes de se voltar para a prancheta do meu avô. — Me mostra onde fica o acesso principal ao ginásio e ao auditório pra eu dar uma primeira olhada na estrutura.

— Nem pensar em ir pra estrutura sem antes tomar um café e comer um pedaço do bolo de fubá com goiabada que a dona Neide acabou de assar! — decretou Vó Elizabeth, segurando a minha mão de um lado e puxando Nikolas pelo braço do outro, ignorando qualquer contestação profissional.

Entramos na sala da diretoria, um espaço acolhedor e nostálgico, repleto de prateleiras de madeira de lei, plantas pendentes e fotos da nossa grande família espalhadas pelos porta-retratos. Quando a dona Neide, secretária e colaboradora de longa data da escola, entrou trazendo a garrafa térmica de café fresco, Nikolas se levantou na hora, esbanjando charme.

— Dona Neide, a senhora continua cada dia mais jovem! Qual é o segredo? — ele brincou, dando um beijo carinhoso na bochecha dela e pegando a bandeja pesada das mãos da idosa para colocar sobre a mesa.

— Ah, Nikolas! Você não muda, menino carinhoso — ela sorriu, corando e ajeitando os óculos no nariz. — Seja bem-vinda de volta, Jasmim querida! Que orgulho ver você toda doutora!

— Obrigada, dona Neide! Que saudade da senhora — respondi, abraçando-a com afeto verdadeiro.

Sentamos ao redor da mesa de apoio. Enquanto comíamos as fatias generosas do bolo fumegante, o clima era de puro refúgio. O modo como Nikolas conversava com meus avós — atencioso, calmo, rindo das piadas antigas do Vô Saulo e escutando cada detalhe da queixa técnica com um respeito absoluto — sempre fora algo que mexia comigo em segredo. Ele podia ser um provocador insuportável no carro ou na adega, mas no meio da família e com as pessoas que amava, sua generosidade e presença transbordavam em cada gesto.

Vó Elizabeth, enquanto servia mais café, lançou um olhar atento entre o meu rosto e o de Nikolas, um sorriso de canto de boca surgindo no rosto sábio.

— Vocês dois continuam faiscando do mesmo jeito — ela comentou despretensiosamente, dando um gole na xícara. — Essa faísca entre vocês dois nunca apagou desde os doze anos. É bonito de ver que nem o tempo e nem São Paulo mudaram isso.

Apertei a xícara de porcelana entre os dedos, sentindo minhas bochechas esquentarem, enquanto Nikolas dava um sorriso lento, tomando um gole do café sem tirar os olhos de mim.

— A Jasmim tenta disfarçar, Vó Elizabeth, mas no fundo ela gosta do barulho — ele provocou baixo.

— Ajuste de contas corporativo, vó, só isso — corrigi rapidamente, ajustando meus óculos.

Após o café, seguimos para a vistoria técnica.

O ginásio e o auditório ficavam no bloco posterior. O silêncio no local era quase absoluto, quebrado apenas pelo eco abafado das vozes das crianças nas salas de aula distantes. Nikolas tirou uma trena a laser e uma lanterna tática de alta potência da mochila, caminhando passos firmes em direção ao pilar comprometido.

Ele se ajoelhou no piso de quadra para verificar a trinca na alvenaria. O tecido da camisa azul-marinho esticou nas costas largas quando ele se curvou, revelando a musculatura trabalhada pelo tempo e pelo canteiro de obras. Eu fiquei em pé a dois passos dele, o iPad firme entre os braços, tentando focar estritamente na função técnica.

— A trinca é superficial na camada de reboco, Vô Saulo, mas a umidade veio da calha superior por conta do acúmulo de folhas do flamboyant — Nikolas analisou em voz alta, a postura mudando instantaneamente para a de um engenheiro impecável e dominador do assunto. Ele mediu a altura com o feixe de luz vermelha do laser e virou o rosto para mim, subindo o olhar pelas minhas pernas até encontrar meus olhos: — Jasmim, a gente precisa de escoramento preventivo, calhas de alumínio novas com vazão ampliada e impermeabilização química na base.

Aproximei-me, digitando rapidamente no iPad e abrindo a planilha de insumos e orçamentos da Costa & Lemes.

— Se usarmos a equipe de manutenção própria da empresa e comprarmos a resina com a distribuidora parceira do Tio Josué, conseguimos doze por cento de desconto e fechamos o serviço em quarenta e oito horas — disse, mostrando os números organizados na tela. — Não vai impactar nem três por cento do fundo de reserva da escola.

Nikolas levantou-se num movimento fluido, limpou a poeira das mãos no jeans e deu um passo para trás de mim. Ele leu a planilha por cima do meu ombro, ficando perto o suficiente para que seu peito roçasse levemente nas minhas costas e sua respiração morna atingisse a curva da minha orelha.

— Impecável, diretora — ele murmurou baixinho, a voz caindo para aquela Frequência grave e rouca que só eu ouvia. — Rápida, precisa e implacável com os números.

— Trabalho em equipe, engenheiro — respondi com a voz firme, embora meu peito tivesse dado um salto, ajustando os óculos e me afastando um passo para quebrar a proximidade. — Mas o seu diagnóstico da calha foi certeiro.

Seguimos para o auditório. O espaço estava na penumbra, com as persianas fechadas. Nikolas subiu nos degraus do palco para examinar o teto onde a infiltração começava a manchar a pintura.

— Me dá uma mão aqui com a lanterna, Jasmim — ele pediu da margem do palco.

Subi os três degraus de madeira, a calça de alfaiataria marcando meus movimentos. Segurei a lanterna tática direcionada para o forro enquanto ele se esticava para pressionar a estrutura. Por um segundo, seu pé deslizou levemente na madeira polida e a mão grande dele reagiu rápido, segurando na minha cintura para firmar o equilíbrio.

O toque da mão dele na minha cintura foi quente, pesado e firme. Fiquei paralisada por dois segundos no escuro do auditório, com o feixe da lanterna tremendo ligeiramente na minha mão enquanto o peito dele subia e descia a centímetros da minha testa.

— Cuidado, Costa Marques — sussurrei, com o pulso disparado.

— Estou perfeitamente firme, Carvalho Lemes — ele respondeu baixo, sem soltar minha cintura de imediato. Os olhos dele brilharam na penumbra do auditório com um perigo silencioso. — Principalmente quando tenho onde me segurar.

Ele me soltou devagar, como se testasse meu autocontrole, e desceu do palco com a agilidade de sempre. Em menos de duas horas, o laudo técnico estava concluído, os insumos cotados e o cronograma traçado para ser apresentado ao meu pai e ao Tio Fernando.

— Vocês dois formam uma dupla extraordinária! — elogiou Vô Saulo, assinando a cópia do relatório prévio na recepção da escola. — Seus pais vão ficar orgulhosos quando virem esse levantamento técnico tão rápido.

— Cuidar de vocês é a nossa obrigação e o nosso maior orgulho, Vô Saulo — Nikolas disse com sinceridade genuína, abraçando o meu avô com força e depositando um beijo no topo da cabeça do idoso.

— A bênção, vó. A bênção, vô — pedimos juntos antes de sair para o pátio.

— Deus abençoe vocês dois, meus netos lindos! Vão com Deus e voltem no almoço de domingo! — Vó Elizabeth acenou da varanda.

Quando entramos de volta no SUV, o clima dentro do veículo já não tinha a agressividade crua do início da manhã. A missão cumprida juntos, o eco da provocação da Vó Elizabeth e a proximidade no auditório tinham transformado a raiva em uma tensão palpável e carregada de expectativa.

Nikolas ligou o motor, mas antes de engatar a marcha, virou o corpo na minha direção no banco do motorista. O sorriso dele era calmo, mas o olhar continuava fundo, voraz.

— Viu só? A gente consegue trabalhar juntaço sem destruir a empresa — ele provocou num tom suave, estendendo a mão para tocar na ponta do meu queixo com o polegar quente antes de puxar o cinto.

— Desde que você mantenha as mãos no volante e o foco na obra, Costa Marques, a gente se entende — retruquei, sustentando o olhar dele enquanto ajeitava meu blazer.

Ele deu uma risada baixa, rouca, engatou a marcha e acelerou o SUV em direção à sede da Costa & Lemes.

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