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A porta do apartamento da Sabrina se fechou atrás de mim com um clique abafado, mas para mim soou como um marco. Um ponto de virada. Eu estava ali com uma mala pequena e um coração ainda menor. Sabrina me olhou com estranhamento e preocupação imediata. – Tá… me explica isso direito – disse ela, cruzando os braços. – Você sai do nada, aparece aqui com a mala… e diz que precisa ficar uns dias comigo. O que aconteceu, Hanna? Meu peito apertou. Eu não estava pronta para contar. Não ainda. As imagens, as palavras, a dor… tudo ainda era uma ferida aberta demais para ser exposta. Eu sabia que uma hora teria que dizer a verdade. Mas hoje não. Não quando meu corpo ainda tremia. – Eu só… preciso de um tempo, Sabs. – minha voz saiu baixa, quase frágil. – Pra pensar. Pra respirar. O olhar dela suavizou. Ela se aproximou sem insistir. – Então fica. O tempo que você quiser. O abraço que ela me deu foi forte, seguro. Quase me desmanchou. Segurei o choro com todas as forças, mesmo sentindo a garganta ardendo. Quando ela se afastou, estudou meu rosto com atenção. – Vocês brigaram? – perguntou, cuidadosa. – Você tá com uma cara… diferente. Respirei fundo, desviando o olhar. – Não foi uma briga. Foi só… um limite. Eu precisava sair de casa. Só isso. Sabrina assentiu devagar. Ela não acreditou totalmente — eu sabia ler minha irmã — mas decidiu respeitar o meu silêncio. E eu a amei ainda mais por isso. – Tá. Sem pressão. – Ela passou o braço pelos meus ombros. – Vai tomar um banho, eu faço um chá. Depois a gente decide se choramos, assistimos série ou comemos chocolate até passar mal. Isso arrancou um pequeno sorriso de mim. – Obrigada, de verdade. Fui para o banheiro e, quando fechei a porta, finalmente deixei meus ombros caírem. Tirei a roupa devagar, cada movimento pesado como se eu tivesse corrido uma maratona emocional. A água quente caiu sobre minha pele, e tudo que eu havia segurado durante o dia ameaçou transbordar. Apertei os olhos. Respirei fundo. Não chorei. Ainda não. No meio daquele torvelinho interno… uma imagem insistente apareceu. Olhos verdes. Intensos. Atentos. O tipo de olhar que parece atravessar suas camadas e encontrar uma verdade que nem você mesma sabia que escondia. Ethan Clark. A entrevista. O momento em que ele me observou. O jeito como a voz dele tomou conta do ambiente. E como meu coração respondeu como se tivesse sido acordado depois de anos dormindo. Eu tentei afastar a sensação, como se pudesse mandá-la embora. Não era hora. Não era o momento. Eu tinha acabado de sair de uma história que implodiu. Mas meu corpo não sabia. Meu peito acelerou ao lembrar do modo como ele inclinou a cabeça para me ouvir. Da calma na postura. Da força contida. De como parecia… seguro. Você não pode sentir isso agora. Não devia. Mas sentiu. E reconhecer isso foi assustador. Quando saí do banho, Sabrina já me esperava com o chá e uma manta no sofá. Me sentei ao lado dela. Ela não fez perguntas. Só ficou ali, presente. E isso foi tudo que eu precisava. – Você quer conversar? – ela perguntou depois de alguns minutos. – Não hoje – respondi. Ela assentiu. – Tudo bem. Você fala quando quiser. Ou nunca, se não quiser. Sorri. E aí, como se meu coração ainda não tivesse passado emoção suficiente… Meu celular vibrou. Peguei. Olhei a tela. Ethan Clark. Meu coração deu um pulo. Sabrina percebeu na hora. – Quem é Ethan? – ela perguntou automaticamente. Eu gelei. – É… é o diretor que me entrevistou hoje – disse rápido, tentando parecer natural. Sabrina franziu a testa e abriu um sorriso lento. – Diretor que manda mensagem fora do horário… interessante. – Sabs! – reclamei, corando. Ela ergueu as mãos. – Tá bom, tá bom. Mas abre isso logo antes que seu telefone exploda de energia sexual reprimida. Revirei os olhos, mas minhas mãos tremiam quando abri a mensagem. “Hanna, desculpe enviar mensagem à noite. Surgiu uma questão importante sobre o seu treinamento. Poderia falar comigo por telefone?” Meu estômago se revirou. Era profissional, claro. Mas havia algo ali que eu não conseguia explicar. Algo no modo como ele escrevia. Na formalidade precisa. No cuidado. Tomei ar. “Claro. Pode ligar.” Sabrina arregalou os olhos como se estivesse prestes a sair correndo pela sala. – Ele vai ligar, né? Ele vai ligar agora, meu Deus— Meu celular começou a tocar. Eu congelei. O nome dele brilhava na tela. Atendi. A voz dele veio firme, profunda, quase quente. – Boa noite, Hanna. Espero não estar incomodando. O mundo inteiro ficou em silêncio. Porque mesmo sem saber exatamente por quê… eu senti que tudo estava prestes a mudar.HannaO cheiro de querosene e plástico frio do avião é o meu novo perfume para a madrugada. Estou sentada na poltrona da janela, o celular no modo avião, o bilhete na mão — prova física da loucura que acabamos de cometer. O relógio marca pouco mais de meia-noite. Porter só apareceria de manhã, e eu tinha que chegar antes.A ansiedade é um motor vibrando em meu peito, fazendo minhas mãos tremerem. Eu fecho os olhos e recito o plano de Ethan: chegar antes de Porter e contar a verdade primeiro.— Mãe, eu preciso ser honesta. Eu não estou mais casada com Porter. — Ensaio baixinho, sentindo o nó na garganta.Não é só dizer sobre o divórcio. É sobre a traição, sobre Porter ser um mentiroso, sobre como ele me quebrou e sobre como ele está manipulando tudo para me fazer parecer a vilã.— Ele me traiu. Ele tinha um caso com a assistente dele. E é por isso que ele está tentando manipular você agora.A voz da minha mãe, a decepção em seu rosto, o medo de ela me julgar em vez de Porter… tudo isso
HannaEthan me afasta, mas ainda segura meus braços, e o brilho em seus olhos é a única coisa que me impede de desabar. Não é mais apenas o meu chefe; é o homem que decide ir para a guerra por mim.— Que plano? — Minha voz é pura ansiedade, misturada com uma ponta de esperança desesperada.— Eu não vou deixar ele controlar a narrativa. Ele está voltando com os papéis do divórcio e com uma história manipulada. Ele quer que sua mãe pense que você é a traidora que fugiu para os braços do chefe rico.— Ele faria isso — murmuro, fechando os olhos. O medo de decepcionar minha mãe, de ter minha vida reescrita por Porter, é paralisante.— E nós vamos impedi-lo.Ethan pega o meu celular novamente. Eu já sabia que ele havia acionado o advogado no Brasil na noite anterior para uma notificação legal, mas agora o jogo havia mudado.— Eu já enviei um Cessa e Desista através do meu advogado para Porter. Ele sabe que estou de olho. Mas a próxima jogada dele será amanhã de manhã, na casa da sua mãe, p
Hanna Acordo com o braço de Ethan me envolvendo com firmeza, a luz do sol lutando contra as cortinas fechadas. O peso dele sobre mim não é sufocante; é uma âncora que me impede de flutuar de volta para o caos que Porter tentou impor ontem. O Dia 2 começa com uma sensação de trégua. Uma trégua forçada, talvez, mas que eu aceito de bom grado. Eu me viro devagar para olhar para ele. Ethan já está acordado, me observando com aqueles olhos verdes profundos que sempre parecem ler minha alma. Havia uma sombra de cansaço em sua expressão, mas a determinação da noite anterior — de que ele cuidaria de tudo — ainda estava lá. — Dormiu? — pergunto, a voz rouca. — Sim. Depois de enviar algumas mensagens. Eu sei exatamente para quem. Para o advogado no Brasil, acionando o contra-ataque contra Porter. A simples ideia de Ethan usando todo o poder dele para me proteger acalma os demônios que Porter cria. — Obrigada — digo, e a voz falha um pouco. Não só pelo que ele fez, mas pelo que ele é para
Ethan O beijo termina, mas a fúria não. Não é minha. É um instinto protetor primitivo que me consome. A maneira como ele a ameaçou, como ele tenta arrastá-la de volta para o pântano que criou… isso me faz querer atravessar a cidade e arrancar aquele sorriso cínico da cara dele. Hanna ainda está nos meus braços, o coração dela batendo rápido contra o meu peito, mas eu sinto a tensão retornando. — O que foi, amor? — pergunto, segurando o rosto dela, forçando-a a olhar para mim. — O que sua irmã disse na mensagem? Ela balança a cabeça, tentando se desvencilhar do pensamento, mas eu não deixo. Porter não vai estragar isso. — Ele a ameaçou — Hanna murmura, os olhos arregalados de indignação. — A Sabrina. Ele disse que se ele "cair", arrasta as duas. Ele está controlando tudo, Ethan. Ele está jogando. Minha mandíbula trava, um músculo pulsando perto da têmpora. — Jogando? Ele não está jogando. Está se afogando — rosno. — E quando se afoga, agarra qualquer coisa para tentar subir. El
PorterEu pratico o sorriso no retrovisor antes de tocar a campainha.Relaxo a postura. Ombros abertos. Expressão calma. O marido perfeito.A campainha ecoa, e três segundos depois a porta se escancara.— Porter! — A mãe de Hanna diz, surpresa, mas feliz. — Meu Deus, quanto tempo! Entra!Entro como se nada tivesse mudado.Como se a minha vida não estivesse desmoronando pelas mãos de uma garota que tomou decisões precipitadas e influenciada pela pessoa errada.Como se eu ainda pertencesse àquele lugar.— Senti falta de vocês — digo, com o tom exato de saudade doce.Ela abre espaço, mas o olhar dela demora meio segundo a mais no meu rosto.Um detalhe mínimo, mas eu percebo tudo.Talvez ela tenha ouvido algo.Talvez esteja começando a juntar as peças.Não importa.Eu controlo a narrativa.— Sabrina está aí? — pergunto, casual.A resposta vem antes da mãe abrir a boca.— Tô aqui. — Sabrina aparece no corredor com os braços cruzados.Aí está a insolência.— Sabrina — digo, sorrindo. — Semp
HannaA tarde está ensolarada, mas há um frio constante no meu peito — daquele tipo que não importa a temperatura, nunca vai embora.E, mesmo assim, estou feliz.Quase flutuando.Ethan caminha ao meu lado, segurando minha mão como se tivesse medo de me perder de vista. O polegar dele faz círculos lentos na minha pele, e aquilo sozinho já me desmonta.— Parece que estou sonhando — murmuro.Ele me olha por cima dos óculos escuros, com aquele sorriso que bagunça tudo dentro de mim.— Pode tocar pra conferir. Eu sou real.— E é isso que eu tô fazendo — respondo, apertando a mão dele.Ele ri, aquele riso baixo que arrepia minha espinha.No restaurante, ele puxa minha cadeira antes de se sentar — um gesto pequeno, mas que sempre me pega desprevenida.O garçom mal se afasta, e Ethan já me encara como se tivesse esperado dois meses por isso.— Que foi? — pergunto, rindo.— Nada. — Ele passa o dedo pela minha mão devagar. — Eu só… tinha esquecido como você fica bonita na luz do dia.Meu rosto







