MasukCapítulo 4 — Eu não sou a minha irmã!
Narradora: Elena O relógio da loja marcava quase sete da noite quando finalmente terminei de organizar as últimas mercadorias. Meus pés estavam latejando dentro do tênis, minha cabeça pesava por causa das horas de estudo e tudo o que eu queria era chegar em casa, tomar um banho e dormir. — Elena, não esquece de conferir o caixa antes de sair! — minha chefe avisou do outro lado da loja. — Pode deixar. Já estou terminando. Conferi os valores, guardei os comprovantes e peguei minha bolsa. Mais um dia concluído. Mais um dia tentando dar conta de tudo sem deixar minhas responsabilidades acumularem. Assim que saí, peguei o celular para avisar à minha mãe que estava voltando. Havia duas mensagens dela. Não demora. E vê se traz alguma coisa para o jantar. Suspirei. Nem um boa noite, nem uma pergunta sobre como tinha sido meu dia. Mas eu já estava acostumada. Naquela casa, parecia que minhas obrigações nunca terminavam. Comecei a caminhar pela calçada, pensando no trabalho da faculdade que precisava entregar, quando um carro escuro parou perto de mim. Não dei muita atenção no primeiro momento. Continuei andando, até ouvir uma voz masculina. — Elena? Parei imediatamente. Dois homens tinham descido do veículo. Um deles era alto, forte e usava uma expressão fechada. O outro ficou próximo à porta do carro, olhando ao redor. — Sou eu. Aconteceu alguma coisa? O homem à minha frente me analisou por alguns segundos. — Entra no carro. O patrão quer trocar uma ideia contigo. Franzi a testa. — Que patrão? — Leonardo. Meu estômago revirou. Eu conhecia aquele nome. Todo mundo conhecia. Leonardo era o dono do morro, um homem que ninguém gostava de contrariar. Minha irmã vivia falando dele, dos bailes, das festas e de como tinha acesso ao camarote. Dei um passo para trás. — Olha, acho que vocês estão confundindo as pessoas. — Você é Elena, não é? — Sou, mas… — Então não tem confusão nenhuma. Entra. — Eu não vou entrar em carro de desconhecido! Se ele quer falar comigo, pode me ligar ou mandar alguém conversar comigo aqui. O homem soltou uma risada sem humor. — Tá achando que tá em posição de escolher alguma coisa? Meu coração começou a bater mais rápido. — Eu não fiz nada! — Então vai ser fácil explicar isso pro patrão. Tentei pegar o celular, mas o outro homem se aproximou. — Sem gracinha, garota. — Eu só quero ligar para minha mãe! — Depois você resolve isso. — Vocês não podem simplesmente me levar! O homem segurou meu braço. Tentei me soltar, mas ele apertou com mais força. — Para de dificultar, porra! — Me solta! Eu não sou a Eloísa! Ele parou por um instante e olhou para o companheiro. — Ela já começou. — Começou o quê? — perguntei, desesperada. — Eu sou Elena! Minha irmã é Eloísa! Somos parecidas, mas somos pessoas diferentes! — Vai explicar isso lá em cima. Fui colocada no banco de trás. O homem entrou ao meu lado, enquanto o outro assumiu o volante. Assim que o carro arrancou, comecei a tremer. — Para onde vocês estão me levando? Ninguém respondeu. — Por favor, eu preciso avisar minha família. Minha mãe vai ficar preocupada. O homem ao meu lado soltou uma gargalhada. — Agora tá preocupada com a família? — Eu não estou entendendo nada! — Então é melhor começar a lembrar. Encostei a cabeça no vidro, tentando controlar a respiração. Meu celular estava na minha bolsa, mas eu não tinha coragem de tentar pegá-lo com aquele homem ao meu lado. A cada rua que o carro subia, meu medo aumentava. Eu sabia que estava entrando em um lugar onde as regras eram diferentes. E, pior, não fazia ideia do que Leonardo queria comigo. Quando o veículo finalmente parou, vi homens armados espalhados pela rua. Alguns conversavam, outros observavam os carros que passavam. O homem abriu a porta e mandou que eu descesse. — Anda. Desci com as pernas bambas. — Por favor, eu não fiz nada. Vocês estão cometendo um erro. — Guarda essa conversa pro patrão. Fui conduzida por algumas vielas até uma construção onde havia vários homens entrando e saindo. O lugar parecia funcionar como um ponto de encontro. Meu coração estava tão acelerado que eu mal conseguia prestar atenção ao caminho. Um rapaz passou por nós e me olhou com curiosidade. — Essa aí é a Eloísa? — É a que o patrão mandou buscar. Abri a boca para corrigir, mas o homem segurou meu braço novamente. — Fica quieta. Engoli o choro. Pouco depois, chegamos a uma sala. Havia uma mesa grande, algumas cadeiras e um sofá escuro. Dois homens estavam encostados na parede. E então eu o vi. Leonardo estava sentado atrás da mesa, com uma expressão fechada e um celular na mão. Era exatamente como minha irmã o descrevia: alto, forte, tatuado e com uma presença que fazia qualquer pessoa pensar duas vezes antes de abrir a boca. Ele levantou os olhos quando entrei. — Até que enfim. O homem que me trouxe respondeu: — Encontramos ela saindo do trabalho, patrão. Leonardo colocou o celular sobre a mesa e me encarou. — Pode deixar a gente. Os homens saíram, fechando a porta. Fiquei parada perto da entrada, sem saber o que fazer. — Senta. — Eu prefiro ficar em pé. Ele ergueu uma sobrancelha. — Não foi uma pergunta. Olhei para a cadeira e depois para ele. Minhas mãos estavam geladas, mas me obriguei a permanecer firme. — O que você quer comigo? Leonardo soltou uma risada curta. — Gostei. Nem sentou e já tá cheia de pergunta. — Eu não sei por que estou aqui. — Sabe, sim. Só tá querendo ganhar tempo. — Não estou! Ele se levantou devagar, contornou a mesa e parou na minha frente. — Cadê o dinheiro, Eloísa? Piscar algumas vezes foi a única coisa que consegui fazer. — Que dinheiro? — Não começa a me tirar do sério. — Eu não sei de dinheiro nenhum! Ele me observou com uma expressão dura. — Duzentos mil reais desapareceram do meu negócio. E você foi uma das últimas pessoas que esteve perto de mim. — Eu nunca estive perto do seu dinheiro! — Ah, não? — Não! Eu nem frequento os lugares que minha irmã frequenta! Leonardo estreitou os olhos. — Sua irmã? Respirei fundo. — Eu sou Elena. Elena! Minha irmã é Eloísa. Nós somos gêmeas, mas não somos a mesma pessoa. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Tá querendo me dizer que eu mandei buscar a pessoa errada? — Sim! É exatamente isso! Leonardo passou a mão pelo rosto, aparentemente irritado. — Que história é essa agora? — Não é história nenhuma. Você está confundindo a gente. — Vocês têm a mesma cara. — E daí? Isso não significa que temos a mesma vida! Ele se aproximou mais um pouco. — Então me explica por que sua irmã sumiu depois que meu dinheiro desapareceu. Senti um aperto no peito. A imagem de Eloísa chegando em casa com aquela bolsa voltou à minha cabeça. O jeito nervoso como ela tinha me pedido para não contar nada. A quantidade de dinheiro que eu tinha visto. Meu rosto deve ter mudado, porque Leonardo percebeu. — Opa. Agora parece que alguma coisa você sabe. — Eu… — Fala! — Eu não sei onde ela está! — Mas sabe que ela fez alguma coisa. — Eu não disse isso! — Então por que ficou nervosa? — Porque você está me acusando de um crime que eu não cometi! Ele soltou um palavrão e se afastou, andando de um lado para o outro. — Escuta aqui, garota. Eu não tenho paciência pra esse tipo de joguinho. — E eu não tenho nada para confessar! Leonardo virou o rosto na minha direção. — Você acha que eu sou idiota? — Não sei o que você é. Só sei que está olhando para mim e enxergando outra pessoa! Por um instante, ninguém falou nada. Eu estava apavorada, mas a raiva começava a ser maior que o medo. Minha irmã tinha feito alguma coisa, disso eu já desconfiava. Mas eu não tinha roubado aquele homem, não tinha pegado dinheiro nenhum e muito menos sabia onde ela estava. — Eu trabalho o dia inteiro, estudo à noite e ajudo a pagar as contas da minha casa — falei, tentando controlar a voz. — Não tenho tempo para festas, camarotes ou para ficar atrás de homem nenhum. Minha vida não tem nada a ver com a dela! Leonardo me olhou de cima a baixo. — Tá querendo me convencer de que é uma santa? — Não. Só quero que entenda que eu não sou a Eloísa! — Vocês duas são iguais. — Por fora! Porque, pelo visto, você não sabe enxergar mais nada além disso! Ele apertou a mandíbula. — Cuidado com a maneira que fala comigo. — E você deveria tomar cuidado antes de sair sequestrando pessoas inocentes! A expressão dele mudou imediatamente. — Repete. Meu corpo inteiro gelou. Eu sabia que tinha passado dos limites, mas não consegui retirar o que havia dito. — Eu não roubei você — falei mais baixo. — Não sei onde está o dinheiro e não sei onde minha irmã está. É só isso que tenho para dizer. Leonardo ficou me encarando por um longo momento. Depois, chamou: — Darlan! A porta se abriu e o homem que havia me buscado entrou. — Fala, patrão. — Leva ela pra dentro. Olhei de um para o outro. — Pra dentro de onde? Leonardo nem sequer desviou os olhos de mim. — Ela vai ficar aqui até resolver contar o que sabe. — Não! Você não pode fazer isso comigo! — Posso, sim. — Eu preciso voltar pra casa! — Sua irmã deixou um problema comigo. Até eu descobrir onde ela está e recuperar meu dinheiro, você vai continuar aqui. Senti as lágrimas se acumularem nos meus olhos. — Mas eu não tenho culpa do que ela fez! Ele pegou o celular novamente, encerrando a conversa como se minha vida não tivesse importância. — Isso é o que você diz. Darlan segurou meu braço para me conduzir para fora. — Por favor… — implorei, olhando uma última vez para Leonardo. — Eu estou falando a verdade. Ele sequer respondeu. A porta se fechou atrás de mim. Darlan me levou por um corredor até uma pequena sala nos fundos. Havia um colchão velho encostado na parede e uma cadeira de plástico. Não parecia um lugar onde alguém pudesse ficar por muito tempo. — Você vai ficar aqui por enquanto — ele avisou. — Por quanto tempo? — Até o patrão decidir. — Mas eu não fiz nada! Ele suspirou, sem demonstrar muita paciência. — Então torce pra ele descobrir isso logo. A porta foi fechada. Fiquei sozinha, abraçando meu próprio corpo. As lágrimas finalmente escorreram pelo meu rosto. Naquela noite, entendi que ser parecida com minha irmã poderia custar muito mais do que algumas comparações dentro de casa. Poderia me custar a liberdade. E, enquanto Eloísa estava em algum lugar, livre para fugir das consequências do que tinha feito, eu estava presa pagando por um crime que não era meu. Mensagem da autora: Elena está pagando por um erro que não cometeu! Mas o pior ainda está por vir… O que vocês acham que Leonardo fará agora? Comentem! ❤️Capítulo 10 — O preço de ser irmã de EloísaNarradora: ElenaAcordei com a enfermeira entrando no quarto para verificar meus sinais vitais. Eu já me sentia melhor, mas ainda estava fraca e com uma vontade enorme de sair daquele hospital.Não queria continuar dependendo de Leonardo para decidir o que aconteceria comigo. Muito menos voltar para aquele lugar onde fui mantida presa sem ter cometido crime algum.— Bom dia! Como passou a noite? — a enfermeira perguntou.— Melhor. Estou me sentindo mais forte.— Que bom. O médico vai passar daqui a pouco para avaliar você. Se continuar assim, talvez consiga receber alta hoje.Sorri discretamente.— Tomara.Ela conferiu meu acesso e anotou algumas informações.— Seu acompanhante está lá fora?Revirei os olhos.— Infelizmente.A enfermeira segurou uma risada.— Ele parece bastante preocupado.Olhei para ela, sem acreditar.— Preocupado?— Ontem veio perguntar sobre seu estado duas vezes.Balancei a cabeça.— Ele é o motivo de eu ter vindo para
Capítulo 9 — Sua irmã deixou você na merdaNarrador: LeonardoEu estava sentado no escritório quando Darlan entrou com uma pasta nas mãos.— Conseguiu alguma coisa? — perguntei, sem tirar os olhos do celular.— Consegui algumas informações sobre as movimentações de Eloísa antes de desaparecer.Larguei o aparelho sobre a mesa.— Desembucha.Darlan colocou a pasta na minha frente.— Ela esteve no camarote naquela noite, saiu pouco depois de você e foi vista entrando em um carro. Depois disso, não apareceu mais nos lugares que costuma frequentar.— Quem estava dirigindo?— Ainda estamos tentando identificar. O carro não estava registrado no nome dela.Folheei os papéis.— E a família?— A mãe continua dizendo que não sabe onde Eloísa está. Mas tem uma coisa…Levantei os olhos.— Fala.— Elena não tinha acesso ao dinheiro. Conversei com a dona da loja, conferi algumas informações e também descobri que ela não frequenta os mesmos lugares da irmã. A garota realmente passa o dia trabalhando
Capítulo 8 — Eu tenho medo de vocêNarradora: ElenaA primeira coisa que senti quando abri os olhos foi uma dor de cabeça insuportável. Minha boca estava seca, meu corpo parecia pesar uma tonelada e havia um aparelho apitando baixinho ao meu lado.Demorei alguns segundos para entender onde estava.Hospital.Olhei para o acesso preso ao meu braço e tentei me ajeitar na cama. Foi quando percebi que não estava sozinha.Leonardo estava sentado numa cadeira perto da janela, mexendo no celular.Meu corpo enrijeceu imediatamente.Ele levantou os olhos.— Até que enfim acordou.Puxei o lençol até o peito e me afastei o máximo que consegui.— O que você está fazendo aqui?Ele guardou o celular.— Vim ver como você estava.Soltei uma risada fraca, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.— Não precisa.— Como assim?— Não quero você aqui.Leonardo levantou da cadeira e se aproximou da cama. Meu coração acelerou, e instintivamente tentei me afastar mais.Ele percebeu.— Calma, porra. Não vou
Capítulo 7 — Não morre na minha frente, porra!Narrador: Leonardo— Anda logo, caralho! — gritei para o motorista, olhando pelo retrovisor.Elena estava desacordada no banco de trás, com a cabeça apoiada no meu braço. Sua pele estava gelada e o rosto pálido. Eu chamava por ela, mas a garota mal reagia.— Darlan, ela não está acordando!— Calma, patrão. Já estamos chegando.— Calma é o caralho! Acelera!Eu não entendia o que estava acontecendo comigo. Já tinha visto gente ferida, já tinha acompanhado situações muito piores e nunca havia perdido a cabeça daquele jeito. Mas, naquele momento, só conseguia olhar para aquela garota e pensar que ela poderia morrer.E eu não ia permitir isso.— Elena! — chamei novamente, tocando de leve seu rosto. — Abre essa porra desses olhos!Nada.Apertei os dentes.— Não morre na minha frente, porra!Finalmente, o carro parou em frente ao hospital da comunidade. Abri a porta antes mesmo de o motorista desligar o veículo.— Preciso de ajuda! — gritei.Doi
Capítulo 6 — Patrão, você pegou a irmã erradaNarrador: DarlanEu já tinha visto muita coisa naquela boca, mas confesso que aquela situação estava começando a me incomodar.Elena estava presa havia dias e, desde que chegou, não tinha feito outra coisa além de negar envolvimento com o roubo. No começo, achei que fosse conversa. Afinal, quem é que confessaria um crime logo de cara?Mas havia algo estranho naquela garota.E não era só o jeito quieto ou a aparência diferente da irmã. Era a maneira como reagia quando alguém mencionava Leonardo. Eloísa costumava aparecer nos bailes toda produzida, sorridente, fazendo questão de chamar atenção e entrar no camarote. Elena, por outro lado, parecia querer desaparecer toda vez que alguém se aproximava.Naquela manhã, passei pela sala onde ela estava sendo mantida e encontrei a comida praticamente intocada.— De novo não comeu? — perguntei ao segurança.— Quase nada, Darlan. Só bebeu um pouco de água.Olhei para dentro. Elena estava sentada no co
Capítulo 5 — Na minha frente, ninguém é inocenteNarrador: LeonardoAquela garota estava começando a testar a minha paciência.Desde que Darlan a colocou naquela sala, eu não conseguia tirar da cabeça a possibilidade de Eloísa estar tentando me fazer de otário. Primeiro, o dinheiro desapareceu. Depois, a mulher sumiu. E, quando mandei buscá-la, apareceu uma cópia dela jurando que não sabia de porra nenhuma.Gêmeas.Era muita coincidência para o meu gosto.— Patrão, quer que eu traga ela de novo? — Darlan perguntou, parado perto da porta.— Quero. E dessa vez vou fazer algumas perguntas sem ela ficar inventando desculpa.Darlan assentiu e saiu.Peguei o celular e conferi as mensagens. Nenhuma notícia de Eloísa. Nenhuma pista concreta sobre o dinheiro. Aquela situação estava me deixando puto.Poucos minutos depois, Elena entrou acompanhada de Darlan. Estava com o mesmo rosto da irmã, mas havia diferenças que eu começava a perceber. A roupa simples, o cabelo preso de qualquer jeito, a au







