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Capítulo 5

Author: DhaSantana
last update publish date: 2026-01-28 09:02:23

Júlia Cavalcante

Os três meses seguintes foram o teste de resistência mais brutal que já enfrentei na vida. Se Lian Bianchi queria me quebrar, ele descobriu que a Júlia que sobreviveu aos destroços de um carro e aos abusos psicológicos de Logan não era feita de cristal, mas de titânio.

Minha rotina era uma sucessão de madrugadas frias em Porto Alegre e noites que se fundiam com o dia seguinte dentro daquele escritório de vidro. Lian era implacável. Ele me sobrecarregava com relatórios complexos, agendas internacionais que mudavam a cada cinco minutos e reuniões que exigiam que eu soubesse de cor cada número do faturamento trimestral da empresa.

— Srta. Cavalcante, este relatório de investimentos na Ásia deveria estar na minha mesa há dez minutos — ele dizia, sem sequer desviar os olhos do monitor, a voz gélida e autoritária.

— Está na sua caixa de entrada há quinze, Sr. Bianchi — eu respondia, mantendo o tom profissional, embora por dentro eu quisesse gritar.

Ele não facilitava. Em cada interação, eu sentia o peso do seu olhar sobre mim. Não era mais aquele olhar de predador da boate, mas algo mais analítico, como se ele estivesse esperando eu cometer um erro, um deslize, uma lágrima. Mas eu não dava esse prazer a ele. Eu me tornei uma máquina.

Curiosamente, a tensão sexual que quase implodiu aquela sala no primeiro dia tinha sido guardada em uma gaveta trancada. Não houve toques, não houve convites para jantares, não houve mais menções explícitas à nossa noite no hotel — embora as "provocações" estivessem nos detalhes. Ele pedia que eu me aproximasse para ajustar a gravata dele antes de uma coletiva, ou deixava que sua mão roçasse a minha ao pegar um café, apenas para observar minha reação. Eu permanecia como uma estátua de mármore. Ele deixava um copo de café na minha mesa, ou um recado de duplo sentindo que eu nunca respondia.

Eu tinha provado o meu valor. Eu não era apenas a "mulher daquela noite". Eu era a espinha dorsal da operação dele. E, conforme os números da Bianchi Investimentos subiam, a minha confiança também crescia.

Eu ainda morava com a Sabrina. Na verdade, o apartamento dela servia apenas como um porto para eu desmaiar por algumas horas antes do despertador tocar às cinco da manhã. Eu vivia para a Bianchi Investimentos. Minha mesa era meu santuário, e Lian Bianchi era o meu sol — brilhante, necessário, mas capaz de me queimar se eu chegasse perto demais.

No entanto, enquanto eu subia os degraus da minha liberdade, o passado tentava me puxar pelos calcanhares. Logan nunca desistiu. Ele era como uma infecção que não cede ao antibiótico. Mesmo eu tendo bloqueado seu número e mudado minha rotina, ele encontrava brechas. Sabrina me contava, com ódio nos olhos, as mentiras que ele espalhava para nossos amigos em comum.

— Ele está dizendo para todo mundo que você é uma ingrata, Ju — ela desabafou um dia, enquanto eu tentava apenas fechar os olhos por dez minutos. — Diz que você o abandonou no momento em que ele mais precisava, que você não deu valor ao "amor puro" que ele te ofereceu quando você não tinha nada. Ele se faz de vítima, de homem traído pela ambição da mulher que ele "resgatou".

Eu sentia náuseas só de ouvir o nome dele. Logan não queria meu amor; ele queria meu público reconhecimento de que eu era inferior. Ele tentou marcar encontros através de conhecidos, mandou flores para o prédio da empresa que eu fiz questão de jogar no lixo da recepção antes mesmo de ler o cartão. A rotina exaustiva do trabalho era meu escudo; eu estava ocupada demais servindo ao império de Lian Bianchi para dar a Logan o palco que ele tanto desejava. Para mim, não havia conversa. Não havia "fechar ciclos". O ciclo tinha acabado no momento em que ouvi a voz dele me chamando de "órfã encostada".

A semana tinha sido um verdadeiro pesadelo, além da demanda crescente. Em alguns momentos do dia me sentia fraca e estranha. No entanto, logo Logan me enchia de trabalho e tinha prazer em dizer que eu estava fazendo corpo mole.

Naquela sexta-feira, o clima no escritório estava pesado devido ao fechamento de um contrato de fusão. Eu esperava sair depois da meia-noite, como de costume. Mas, às 18h, Lian saiu de sua sala, vestindo o paletó com uma lentidão calculada.

— Srta. Cavalcante, pode ir — ele disse, parando em frente à minha mesa.

Eu franzi o cenho, as mãos paradas sobre o teclado.

— Mas, senhor, ainda faltam os anexos do contrato da...

— Eu disse que pode ir, Júlia — ele me interrompeu, sua voz baixando uma oitava, carregada daquela eletricidade que ele insistia em usar como arma. — Vá descansar. Você parece... pálida. É uma ordem.

A estranheza daquela "gentileza" me deixou alerta, mas eu estava exausta demais para questionar. Juntei minhas coisas e saí.

Sabrina me buscou e, ignorando meus protestos de que eu só queria dormir, me arrastou para o supermercado.

— Precisamos de comida de verdade, Ju. Você está vivendo de café e barrinha de cereal. Olha o seu rosto! — ela reclamava enquanto eu empurrava o carrinho.

O corredor de limpeza do supermercado tinha um cheiro que eu costumava ignorar, mas que hoje parecia uma arma química. O aroma de lavanda sintética subia pelas minhas narinas, revirando tudo o que havia dentro de mim. Eu segurava o metal gelado do carrinho com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos.

— Ju? O sabão em pó está com um preço ótimo, vamos levar dois? — A voz da Sabrina parecia vir de quilômetros de distância, abafada, como se eu estivesse debaixo d'água.

Eu tentei responder. Tentei dizer que o preço era bom, que poderíamos levar três, mas as palavras ficaram presas em uma garganta subitamente seca. O mundo decidiu girar para o lado errado. O teto branco e as luzes fluorescentes do supermercado se misturaram em um borrão ofuscante, e os pontos pretos começaram a devorar minha visão.

A última coisa que senti antes da escuridão total foi o impacto suave do meu corpo contra algo, e o grito de susto da Sabrina.

Acordei com o som rítmico do ventilador de teto da nossa sala. O conforto do meu sofá de veludo não ajudava a dissipar a névoa na minha cabeça.

— Bebe isso. Agora. - a voz da Bia era firme. Ela me entregou uma caneca de chá morno.

— O que aconteceu? — murmurei, sentindo minha pressão ainda oscilar. — Por que não estamos no mercado?

Bia soltou uma risada curta e se sentou no braço do sofá, cruzando as pernas.

— Pedi ajuda ao vizinho para te trazer até em casa. Você desmaiou como um jaca podre caindo do pé. - Ela parou de rir. - Nós duas sabemos muito bem o que acontece quando a mulher desmaia sem explicação.

Minha mente demorou para entender o que ela queria dizer, e quando o fez, a negação era minha melhor aliada.

— Não viaja, Sabrina. — minha voz saiu mais fraca do que eu pretendia. — Deve ter sido o calor. Ou o café que eu não tomei. Qualquer coisa.

— Amiga, faz um favor para mim... - Ela pegou uma sacolinha de farmácia. - Vai lá e faz o teste.

- Sabrina... - Eu já estava em pânico.

- Por favor amiga. - E eu fui, porque no fundo eu sabia que ela poderia estar certa.

O silêncio do banheiro era interrompido apenas pelo tique-tique metálico do relógio no meu pulso. Eu encarava aquele bastão de plástico branco sobre a pia como se ele fosse uma granada prestes a detonar.

— Júlia? Você caiu aí dentro ou está fabricando o próprio sabonete? — A voz de Sabrina veio acompanhada de duas batidas leves na porta. — Anda logo, a comida que eu pedi chegou.

Eu não conseguia responder. Meus olhos estavam fixos na pequena tela de cristal líquido. Um traço. Dois traços.

Positivo.

O mundo não girou desta vez; ele simplesmente parou. A cor sumiu do meu rosto, deixando apenas um rastro de terror gelado. Eu levei a mão à boca para abafar um soluço que nasceu no fundo da minha alma.

Eu estava grávida.

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