LOGINÀs vésperas do Natal, finalmente caiu a primeira neve em Cidade A.Nesses dias, o corpo de Luiza também já tinha se recuperado bastante.Quando Gustavo percebeu o brilho animado dela ao encarar o jardim todo branco pela janela, ele mesmo se adiantou:— Quer ir lá fora?— Quero.Luiza assentiu com seriedade, e o reflexo prateado da neve do lado de fora deixava os olhos dela ainda mais claros e vivos.Ela tinha passado dias trancada em casa, sem pôr o pé nem no portão. Ela já estava entediada ao extremo. Agora que ela tinha visto a neve, como é que ela ainda ia ficar quieta?O coração de Gustavo amoleceu. O sorriso que surgiu no canto da boca dele era puro mimo:— Então vai.Bem na hora, Jacarias estava subindo do salão de lazer do subsolo. Quando ele viu a cena, ele se arrepiou inteiro e fez uma careta na direção de Leonardo, que vinha logo atrás.Leonardo lançou um olhar de lado:— Que foi? Comeu muita ração de casal e tá passando mal?Nesses últimos dias, Gustavo praticamente não tinh
Amanda enrijeceu o corpo na hora e se levantou de supetão:— Eu vou. Eu dou um jeito!O olhar que ela lançou para Vinicius já estava cheio de desconfiança.Ela tinha esquecido por um instante que já não fazia parte da família Frota. Ela não tinha mais ficha, nem nome, nem capital nenhum pra negociar o que fosse com alguém.Se o homem à sua frente tinha tirado ela da delegacia com um objetivo tão claro, então, no dia em que ela não conseguisse entregar o que ele queria, ele também conseguiria mandá-la de volta com a mesma facilidade.Vinicius ergueu os olhos e mediu ela de cima a baixo antes de, finalmente, guardar o celular com calma:— Assim, sim. Quem entende o momento sobrevive.Amanda fechou a mão, sentindo as unhas cravarem na palma. Ela hesitou, mas acabou perguntando, fixa nele:— Você quer a vida da Luiza, não quer?— Você prefere que eu queira ou que eu não queira?Vinicius simplesmente devolveu a pergunta, como se ela não passasse de um detalhe na sala.Ela, claro, preferia q
Não era Cidade B. Por isso, era até natural que as notícias corressem mais devagar para os Frota do que para os Marques.Cauã respirou fundo e se controlou:— Não deixa a Amanda chegar de novo no seu pai.Os dois falavam “seu pai” pra cá, “seu pai” pra lá.Mas ninguém comentou nada.Edson, na verdade, concordou com ele:— Beleza. Isso é fácil de resolver.Do jeito que Durval sempre tinha passado a mão na cabeça da Amanda, não era exagero dizer que, se um dia ela matasse alguém e chorasse um pouco, ele ainda ajudaria a enterrar o corpo.Mesmo com o poder de Durval esvaziado, ele ainda carregava o sobrenome Frota. Muita gente, mesmo que não respeitasse o homem, respeitava a família. E isso já era o suficiente pra continuarem abrindo certas portas pra ele.Resultado: encontrar Amanda ficava ainda mais difícil.Enquanto isso, em um condomínio de casas discretas em Cidade A, Amanda estava sentada no sofá, num estado deplorável. Ela se agarrava a uma lixeira, vomitando até parecer que ia col
Aos olhos de qualquer um de fora, a diferença de origem e de posição social entre eles já tinha decretado, desde o começo, que aquele relacionamento jamais seria equilibrado — quanto mais ter um final feliz.Por isso, quando a família Frota procurou Lilian pela primeira vez e empurrou aquele cheque gordo na direção dela, ela até chegou a balançar um pouco por dentro.Mas foi só por alguns instantes.Ela sabia muito bem que, no mundo dos outros, sempre existiam degraus, castas invisíveis. Mesmo assim, ela não aceitava que, só porque ela tinha nascido com menos, o tempo e o sentimento dela valessem menos também.As palavras dela fizeram um espanto rápido passar pelos olhos de Cauã. Em seguida, ele puxou um sorriso torto, cheio de ironia com ele mesmo:— Você acha mesmo que é assim que eu penso?Ele tinha entendido direitinho o que ela queria dizer nas entrelinhas: que ele não precisava nem sonhar em brincar com o que ela sentia.Lilian não se deixou abalar pelo tom dele. Ela devolveu a p
Lilian sempre tinha sido boa em virar o jogo. Assumir o controle da conversa, inverter quem estava por cima e por baixo, já era um vício profissional que ela tinha lapidado em anos de tribunal.Mas Cauã sabia disso fazia tempo.Lá atrás, quando os dois namoravam, isso já aparecia. Ela sempre foi ótima em segurar as rédeas: avançar ou recuar tinha que ser do jeito dela, na hora em que ela quisesse.Do mesmo jeito que, para eles ficarem juntos, tinha sido ela quem deu o primeiro passo e partiu pra cima dele. E, quando terminou, tinha sido ela também que largou uma frase seca e sumiu da vida dele.Naquele momento, Cauã não demonstrou nem um pouco de constrangimento por ter ouvido a conversa dela no celular. A voz dele saiu fria:— Eu tô na porta da minha própria casa. Que tipo de “ouvir escondido” é esse? Você é que não me viu.Na última frase, Lilian não soube dizer se era impressão dela, mas ela jurou ter escutado um fiapo de mágoa ali no meio.Ela decidiu que só podia ser imaginação.U
Lilian estava saindo quando Samuel a acompanhou até lá embaixo.Antes que ele dissesse qualquer coisa, ela já apontou para o próprio carro:— Sobe logo.— Espera um pouco. — Samuel a chamou de repente. Ele deu mais alguns passos na direção dela, pensou nas palavras e só então falou, num tom baixo. — Sobre o que a minha mãe falou agora há pouco…— A gente é amigo. — Lilian curvou levemente os lábios, sorrindo como se nada fosse. — Tem coisa que a sua mãe fala mais pra brincar. Eu não vou levar isso a sério, muito menos deixar que isso atrapalhe essa parceria de guerra de tantos anos que a gente tem.Ela tinha falado sem deixar brecha.Mas, justamente por isso, não tinha sobrado uma única fresta para Samuel se segurar.O subtexto era claro.Se fosse só a Helena falando, ela engolia como piada e seguia em frente, continuando amiga de sempre. Agora, se ele repetisse o assunto, aí, sim, nem amizade ia sobrar.Enquanto ele ouvia, a boca de Samuel foi se esticando até virar uma linha reta. De
Lilian estava com febre, e Luiza, preocupada, decidiu não ir ao laboratório. Ela preferiu trabalhar de casa para ficar de olho em Lilian. No dia seguinte, ao meio-dia, Lilian finalmente estava melhor e sem febre, então Luiza saiu de casa para trabalhar. Assim que abriu a porta do apartamento, Lu
Os lóbulos das orelhas de Luiza ficaram tão vermelhos que pareciam prestes a pingar sangue. Ela, nervosa, murmurou apressadamente: — Eu… Eu vou ao banheiro sozinha. — Espera. — Gustavo segurou o pulso dela com firmeza e a puxou para mais perto. Então, com um movimento rápido e preciso, ele amarr
Mas Miguel não era fã de socializar. Todo ano, no aniversário dele, ele só convidava Luiza, e, nos últimos dois anos, Raul também passou a ser incluído. Com o filho de Miguel e Noemi morando no exterior, Luiza era praticamente como uma filha para eles. — O professor vai ficar muito feliz de ouvi
— Quem foi que disse que isso era infalível? — Ronaldo rosnou entre os dentes. Se não fosse pela garantia cheia de confiança que Gabriela havia dado, ele jamais teria embarcado naquele plano. Agora, estava pagando um preço alto por isso. Ao ouvir aquilo, Gabriela sentiu-se um pouco culpada. Ela sa







