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Capitol 2

Author: Ivy Crane
last update publish date: 2026-08-24 09:44:14

Mãe… porque é que o meu pai não me quer?»

A pergunta atingiu-me como uma bala de prata no peito. Fiquei paralisada a meio de cortar legumes,

com a faca suspensa sobre a tábua de cortar, enquanto o meu filho de seis anos, Landon, estava à

porta da nossa acolhedora cozinha, com a sua pequena mochila ainda pendurada num ombro e a

camisa do uniforme por fora das calças. Os seus grandes olhos castanhos-claros — olhos que

revelavam vestígios ténues dos três monstros que o tinham gerado — fixaram-se nos meus com uma

inocência comovente.

Larguei a faca lentamente, ganhando um segundo para que as minhas mãos parassem de tremer. Seis

anos. Seis anos a construir muros, a aprender a respirar sem a dor constante de uma ligação de

companheiros desfeita, e uma simples pergunta do meu filho ameaçava derrubar tudo.

«Landon, querido…» A minha voz saiu mais rouca do que eu queria. Limpei as mãos no avental e

atravessei a pequena cozinha, agachando-me ao nível dele. A luz do sol do final da tarde filtrava-se

pelas cortinas de renda da velha casa de campo da minha avó, projetando padrões quentes sobre o

chão de madeira gasto. O aroma do guisado a cozinhar em lume brando e das ervas frescas enchia o

ar, mas não ajudava em nada a aliviar o nó na minha garganta.

Ele mexeu-se, arrastando um ténis pelo chão. «O professor disse que o Dia do Pai é na próxima semana.

Toda a gente está a fazer cartões. Mas eu não tenho pai a quem dar o meu.» O lábio inferior tremeu-lhe

ligeiramente antes de ele o controlar, esforçando-se tanto por parecer corajoso. «Fiz alguma coisa de mal?

Foi por isso que ele se foi embora?»

A sala inclinou-se e, por um segundo, voltei àquela casa abandonada no campo, encostada à

parede enquanto o Ryker, o Ronan e o Rafe levavam o que queriam e depois me descartavam

como se eu não fosse nada. O fantasma da rejeição deles voltou a cortar-me por dentro — afiado,

cruel, implacável.

Eles não merecem saber que existes, pensei com veemência, acariciando a bochecha macia do Landon. A

pele dele estava quente, o cabelo escuro ligeiramente despenteado de tanto brincar durante o dia. Às

vezes, ele parecia-se tanto com eles que até doía. A mandíbula forte já deixava entrever a futura

determinação de um alfa, a forma como os olhos dele podiam passar de calorosos a intensos em segundos.

«Não, querido. Não fizeste nada de errado», sussurrei, puxando-o para os meus braços. Ele enterrou o

rosto no meu ombro, as mãozinhas a agarrarem-se à minha camisa. Embalei-o suavemente, inspirando

o seu cheiro — cachorrinho inocente, floresta selvagem e aquela nota subjacente e ténue que sussurrava

de sangue poderoso. «O teu pai… ele não estava pronto para ser pai. Às vezes, os adultos tomam

decisões realmente egoístas.»

A mãe apareceu então na porta, ainda com a mala de curandeira na mão, depois do turno. Deu uma

olhadela para nós e a sua expressão suavizou-se, demonstrando compreensão. Pousou a mala

silenciosamente e juntou-se a nós no chão, envolvendo-nos a ambos nos seus braços.

«Há pessoas que não sabem valorizar os dons que a Deusa lhes concede», disse a mãe suavemente,

acariciando o cabelo do Landon. «Mas isso não significa que não sejas querido, pequeno lobo. A tua

mãe e eu amamos-te mais do que todas as estrelas do céu. És a nossa maior bênção.»

O Landon fungou, mas acenou com a cabeça, afastando-se o suficiente para olhar para nós os dois.

«Ainda posso fazer o cartão? Talvez… talvez um dia ele mude de ideias.»

O meu coração partiu-se em mil pedaços. Forçei um sorriso, a conter as lágrimas que me ardiam nos

olhos. «Claro que podes. Amanhã até vamos comprar canetas especiais à loja.»

Ele pareceu satisfeito com isso, por agora. As crianças eram resilientes de formas que os adultos só

podiam invejar. Depois de mais alguns abraços e promessas de sobremesa extra, o Landon correu para o

quarto para brincar com os seus lobos de brinquedo, a crise momentaneamente evitada. O som dos seus

passos nas escadas rangentes ecoou pela casa como um pequeno trovão.

Assim que ele se foi, o peso voltou a cair sobre mim. Deixei-me cair numa das cadeiras da cozinha,

escondendo o rosto entre as mãos. A mãe aproximou-se por trás de mim, com os seus dedos fortes a

massajar-me os ombros para aliviar a tensão.

«Estás a ir lindamente, Elara», murmurou ela. «Todos os dias.»

«Detesto que eles ainda nos afetem», sussurrei, com a voz abafada. «Seis anos, mãe. Deixei tudo para

trás. Construímos uma vida aqui em Silverveil. Tenho um emprego na clínica, o Landon está saudável e

feliz… Por que é que uma pergunta inocente ainda me faz sentir como se eles estivessem mesmo aqui, a

rir-se de mim?»

A mãe suspirou e sentou-se à minha frente, pegando-me nas mãos. A luz do entardecer refletia-se nos

fios prateados do seu cabelo. Ela tinha envelhecido com elegância na nossa nova alcateia, mas as

rugas de preocupação à volta dos olhos eram lembranças permanentes de tudo aquilo de que

tínhamos fugido.

«Porque o laço era real, mesmo que eles fossem cruéis», disse ela gentilmente. «E porque o Landon tem o

sangue deles. Mas tu és muito mais do que aquilo a que tentaram reduzir-te. És uma sobrevivente. Uma

mãe. Uma curandeira em formação. Está na hora de deixares de permitir que os fantasmas ditem a tua

felicidade.»Tracei uma cicatriz na mesa de madeira com o polegar — um corte antigo de quando tentei cozinhar

pela primeira vez nesta cozinha, com as mãos ainda a tremer devido a sintomas semelhantes aos de

abstinência após a rejeição parcial. O vínculo de companheirismo lutou arduamente para me trazer de

volta naqueles primeiros dois anos. Noites de febre, toques fantasmas, sonhos em que os trigémeos

sussurravam desculpas que nunca diriam na realidade. Mas eu tinha resistido. Tinha dado à luz

sozinha, com apenas a mãe e a parteira da alcateia ao meu lado. Tinha criado o nosso filho sem o

poder deles, sem a proteção deles, nem os nomes deles.

«Eu sei», sussurrei. «É que… prometi a mim mesma que nunca mais deixaria outro alfa aproximar-se. A

ideia de confiar em alguém depois do que eles fizeram…»

«Nem todos os alfas são como eles», interrompeu a mãe com firmeza. «E nem todos os homens querem

magoar-te.»

Como se tivesse sido invocado pelas palavras dela, o meu telemóvel vibrou em cima do balcão. Uma

mensagem do Dr. Marcus Reed.

Marcus: Olá, Elara, ainda estás a pensar naquele jantar de sábado? Sem pressão, mas adoraria ter a

oportunidade de te fazer sorrir de verdade, pelo menos uma vez.

Fiquei a olhar para o ecrã, com o polegar suspenso. O Marcus andava a cortejar-me discretamente há

meses. Era gentil, estável, um médico respeitado na Silverveil Medical que tratava toda a gente, desde o

ómega mais humilde até aos guerreiros beta, com o mesmo respeito gentil. Sem ar de playboy. Sem

jogos cruéis. Apenas olhos castanhos calorosos, um riso descontraído e uma paciência que parecia

infinita.A mãe olhou para o telemóvel e ergueu uma sobrancelha. «É o bom doutor outra vez?»

Acenei com a cabeça, sentindo as bochechas a aquecerem ligeiramente. «Ele convidou-me para sair na

semana passada. Continuo a recusar.»

«E esta noite?»

Lembrei-me da pergunta do Landon. Das noites solitárias em que a cabana parecia demasiado

silenciosa e o meu corpo ainda se lembrava da sensação de ser desejada — mesmo que esse desejo

tivesse sido uma mentira. Lembrei-me dos olhos cansados da mãe e de como ela merecia ver-me a tentar

viver de novo.

Respondi antes de poder pensar demais no assunto.

Eu: Sábado parece-me bem. Vens buscar-me às 7?

A resposta chegou quase instantaneamente, cheia de emojis entusiásticos que me fizeram sorrir apesar

de mim mesma.

O rosto da mãe iluminou-se quando lhe mostrei a mensagem. «Boa menina. Um encontro não te vai

matar. E o Marcus é um homem de bem. Estável. Honesto.»

«Eu sei.» Levantei-me e voltei a cortar legumes, precisando de manter as mãos ocupadas. «Só não sei se

ainda tenho alguma coisa para dar a alguém. O meu coração parece… magoado. Marcado. E se eu só

puder oferecer gratidão em vez de amor?»

«Então começa pela gratidão», disse a mãe, levantando-se para me ajudar. «O amor cresce em solo

seguro. E o Marcus dá-te segurança, não é?»

Sim, sentia-se. Era essa a parte assustadora.

************************

A noite de sábado chegou mais depressa do que eu esperava. Fiquei em frente ao pequeno espelho do

meu quarto, a alisar o vestido verde-esmeralda suave que tinha pedido emprestado a uma amiga. O

vestido realçava as minhas curvas — curvas que se tinham preenchido após a gravidez e anos de

recuperação. O meu cabelo escuro caía em ondas soltas e até tinha aplicado um pouco de rímel. A mulher

que me olhava de volta parecia… viva. Não apenas a sobreviver.

«Estás linda, mãe», disse o Landon da porta, sorrindo com um sorriso de dentes separados. A mãe estava

atrás dele, acenando-me com a cabeça em sinal de aprovação.

«Porta-te bem com a avó», disse-lhe eu, beijando-lhe a testa. «Não vou demorar muito.»O Marcus chegou mesmo a horas, com um ar elegante numa camisa de botões e calças de ganga

escuras. O seu aroma, que era a chuva fresca e a madeira de sândalo, envolveu-me de forma

reconfortante quando ele me abriu a porta do carro. Sem qualquer domínio alfa avassalador. Apenas

uma força tranquila.

O restaurante de luxo, situado no território neutro entre as matilhas, era elegante sem ser ostentoso. A

luz das velas cintilava sobre as toalhas de linho, uma música suave tocava de fundo e o aroma a alho

e ervas assadas fez o meu estômago roncar. Conversámos descontraidamente sobre o trabalho, sobre a

mais recente obsessão do Landon por construir fortalezas e sobre as intrigas políticas das matilhas

que pareciam não ter fim.

A meio da sobremesa, o Marcus pousou a colher e olhou para mim com seriedade, os seus dedos a

roçarem os meus por cima da mesa.

«Preciso que saibas uma coisa, Elara», disse ele, com voz baixa e sincera. «Gosto de ti há muito tempo.

Não só porque és bonita, mas porque és forte. A forma como amas o teu filho, a forma como lutas para

seres melhor a cada dia… Não me importo que ele não seja biologicamente meu. Seria uma honra ajudar

a criá-lo. Ser o que quer que vocês os dois precisem.»

Fiquei sem fôlego. A sinceridade nos seus olhos fez com que algo quente florescesse no meu peito

— gratidão, sem dúvida. Afeto, talvez. Mas aquela atração profunda e comovente que senti outrora?

Isso faltava. E talvez não fizesse mal. Talvez a segurança fosse melhor do que o destino.

«Eu… não sei o que dizer», admiti, apertando-lhe a mão com mais força. «És um homem incrível,

Marcus. O Landon já gosta de ti. Só preciso de tempo para pensar. Para ter a certeza de que não estou a

apressar as coisas por ter medo de ficar sozinha para sempre.»

Ele sorriu suavemente, apertando-me a mão. «Toma todo o tempo que precisares. Não vou a lado

nenhum.»A viagem de regresso a casa foi agradável, repleta de conversa leve. Ele acompanhou-me até à porta

como um cavalheiro perfeito e despediu-se com um beijo suave na minha bochecha.

A mãe estava acordada à minha espera, como sempre, com uma chávena de chá de ervas pronta na mesa.

O Landon estava a dormir profundamente lá em cima.

«Então?», perguntou ela, com os olhos a brilhar de curiosidade enquanto eu tirava os sapatos de salto alto.

«Ele é… maravilhoso», disse eu, afundando-me na poltrona com um suspiro. «Ele disse que não se

importaria de ser pai do Landon. Ele falava a sério, mãe. Consegui ver isso nos olhos dele.»

«Mas?»

Fiquei a olhar para o meu chá. «Mas sinto mais gratidão do que qualquer outra coisa. Será que isso

basta? Será que o amor pode nascer disso?»

A mãe estendeu a mão e colocou-me uma madeixa de cabelo atrás da orelha. «O amor nem sempre é

fogos de artifício e laços de companheirismo, minha querida. Às vezes é silencioso. Constante. Curativo.

Permite-te ser amada.

Aquelas feridas que os trigémeos Blackthorn deixaram… só o amor verdadeiro as pode realmente sarar.»

As suas palavras envolveram-me como um cobertor quente. Acenei com a cabeça lentamente. «Vou

tentar. Pelo Landon. Por mim.»

**************

Na manhã seguinte, na clínica, não consegui evitar o leve rubor que me subiu às bochechas quando o

Marcus me cumprimentou no corredor. Ele sorriu calorosamente, mas manteve uma atitude

profissional, o que eu apreciei. O dia decorreu sem problemas — tratar um jovem ómega com enjoos

matinais, ajudar um idoso com dores nas articulações, o ritmo habitual do trabalho de cura que me dava

estabilidade.

Por volta do meio-dia, enquanto atualizava os registos dos doentes, o meu telemóvel tocou. O número

da escola apareceu no ecrã. O meu coração deu um salto.

«Sra. Voss? Fala o diretor Hargrove. Ocorreu um incidente com o Landon. Ele envolveu-se numa briga

com outro aluno. Precisamos que venha imediatamente.»

Já estava a pegar na minha mala. «Estou a caminho.»

A preocupação atormentou-me durante todo o trajeto. O Landon não era uma criança violenta. Algo grave

devia ter acontecido. Ao chegar à escola, o familiar edifício de tijolo erguia-se sob um céu cinzento. Os

alunos cochichavam em grupos perto da entrada.

Entrei apressadamente, com o coração a bater forte, já a imaginar o pior.Mal sabia eu que isto era apenas o início da tempestade que voltava para destruir a minha vida

cuidadosamente reconstruída.

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