LOGINMãe… porque é que o meu pai não me quer?»
A pergunta atingiu-me como uma bala de prata no peito. Fiquei paralisada a meio de cortar legumes,
com a faca suspensa sobre a tábua de cortar, enquanto o meu filho de seis anos, Landon, estava à
porta da nossa acolhedora cozinha, com a sua pequena mochila ainda pendurada num ombro e a
camisa do uniforme por fora das calças. Os seus grandes olhos castanhos-claros — olhos que
revelavam vestígios ténues dos três monstros que o tinham gerado — fixaram-se nos meus com uma
inocência comovente.
Larguei a faca lentamente, ganhando um segundo para que as minhas mãos parassem de tremer. Seis
anos. Seis anos a construir muros, a aprender a respirar sem a dor constante de uma ligação de
companheiros desfeita, e uma simples pergunta do meu filho ameaçava derrubar tudo.
«Landon, querido…» A minha voz saiu mais rouca do que eu queria. Limpei as mãos no avental e
atravessei a pequena cozinha, agachando-me ao nível dele. A luz do sol do final da tarde filtrava-se
pelas cortinas de renda da velha casa de campo da minha avó, projetando padrões quentes sobre o
chão de madeira gasto. O aroma do guisado a cozinhar em lume brando e das ervas frescas enchia o
ar, mas não ajudava em nada a aliviar o nó na minha garganta.
Ele mexeu-se, arrastando um ténis pelo chão. «O professor disse que o Dia do Pai é na próxima semana.
Toda a gente está a fazer cartões. Mas eu não tenho pai a quem dar o meu.» O lábio inferior tremeu-lhe
ligeiramente antes de ele o controlar, esforçando-se tanto por parecer corajoso. «Fiz alguma coisa de mal?
Foi por isso que ele se foi embora?»
A sala inclinou-se e, por um segundo, voltei àquela casa abandonada no campo, encostada à
parede enquanto o Ryker, o Ronan e o Rafe levavam o que queriam e depois me descartavam
como se eu não fosse nada. O fantasma da rejeição deles voltou a cortar-me por dentro — afiado,
cruel, implacável.
Eles não merecem saber que existes, pensei com veemência, acariciando a bochecha macia do Landon. A
pele dele estava quente, o cabelo escuro ligeiramente despenteado de tanto brincar durante o dia. Às
vezes, ele parecia-se tanto com eles que até doía. A mandíbula forte já deixava entrever a futura
determinação de um alfa, a forma como os olhos dele podiam passar de calorosos a intensos em segundos.
«Não, querido. Não fizeste nada de errado», sussurrei, puxando-o para os meus braços. Ele enterrou o
rosto no meu ombro, as mãozinhas a agarrarem-se à minha camisa. Embalei-o suavemente, inspirando
o seu cheiro — cachorrinho inocente, floresta selvagem e aquela nota subjacente e ténue que sussurrava
de sangue poderoso. «O teu pai… ele não estava pronto para ser pai. Às vezes, os adultos tomam
decisões realmente egoístas.»
A mãe apareceu então na porta, ainda com a mala de curandeira na mão, depois do turno. Deu uma
olhadela para nós e a sua expressão suavizou-se, demonstrando compreensão. Pousou a mala
silenciosamente e juntou-se a nós no chão, envolvendo-nos a ambos nos seus braços.
«Há pessoas que não sabem valorizar os dons que a Deusa lhes concede», disse a mãe suavemente,
acariciando o cabelo do Landon. «Mas isso não significa que não sejas querido, pequeno lobo. A tua
mãe e eu amamos-te mais do que todas as estrelas do céu. És a nossa maior bênção.»
O Landon fungou, mas acenou com a cabeça, afastando-se o suficiente para olhar para nós os dois.
«Ainda posso fazer o cartão? Talvez… talvez um dia ele mude de ideias.»
O meu coração partiu-se em mil pedaços. Forçei um sorriso, a conter as lágrimas que me ardiam nos
olhos. «Claro que podes. Amanhã até vamos comprar canetas especiais à loja.»
Ele pareceu satisfeito com isso, por agora. As crianças eram resilientes de formas que os adultos só
podiam invejar. Depois de mais alguns abraços e promessas de sobremesa extra, o Landon correu para o
quarto para brincar com os seus lobos de brinquedo, a crise momentaneamente evitada. O som dos seus
passos nas escadas rangentes ecoou pela casa como um pequeno trovão.
Assim que ele se foi, o peso voltou a cair sobre mim. Deixei-me cair numa das cadeiras da cozinha,
escondendo o rosto entre as mãos. A mãe aproximou-se por trás de mim, com os seus dedos fortes a
massajar-me os ombros para aliviar a tensão.
«Estás a ir lindamente, Elara», murmurou ela. «Todos os dias.»
«Detesto que eles ainda nos afetem», sussurrei, com a voz abafada. «Seis anos, mãe. Deixei tudo para
trás. Construímos uma vida aqui em Silverveil. Tenho um emprego na clínica, o Landon está saudável e
feliz… Por que é que uma pergunta inocente ainda me faz sentir como se eles estivessem mesmo aqui, a
rir-se de mim?»
A mãe suspirou e sentou-se à minha frente, pegando-me nas mãos. A luz do entardecer refletia-se nos
fios prateados do seu cabelo. Ela tinha envelhecido com elegância na nossa nova alcateia, mas as
rugas de preocupação à volta dos olhos eram lembranças permanentes de tudo aquilo de que
tínhamos fugido.
«Porque o laço era real, mesmo que eles fossem cruéis», disse ela gentilmente. «E porque o Landon tem o
sangue deles. Mas tu és muito mais do que aquilo a que tentaram reduzir-te. És uma sobrevivente. Uma
mãe. Uma curandeira em formação. Está na hora de deixares de permitir que os fantasmas ditem a tua
felicidade.»Tracei uma cicatriz na mesa de madeira com o polegar — um corte antigo de quando tentei cozinhar
pela primeira vez nesta cozinha, com as mãos ainda a tremer devido a sintomas semelhantes aos de
abstinência após a rejeição parcial. O vínculo de companheirismo lutou arduamente para me trazer de
volta naqueles primeiros dois anos. Noites de febre, toques fantasmas, sonhos em que os trigémeos
sussurravam desculpas que nunca diriam na realidade. Mas eu tinha resistido. Tinha dado à luz
sozinha, com apenas a mãe e a parteira da alcateia ao meu lado. Tinha criado o nosso filho sem o
poder deles, sem a proteção deles, nem os nomes deles.
«Eu sei», sussurrei. «É que… prometi a mim mesma que nunca mais deixaria outro alfa aproximar-se. A
ideia de confiar em alguém depois do que eles fizeram…»
«Nem todos os alfas são como eles», interrompeu a mãe com firmeza. «E nem todos os homens querem
magoar-te.»
Como se tivesse sido invocado pelas palavras dela, o meu telemóvel vibrou em cima do balcão. Uma
mensagem do Dr. Marcus Reed.
Marcus: Olá, Elara, ainda estás a pensar naquele jantar de sábado? Sem pressão, mas adoraria ter a
oportunidade de te fazer sorrir de verdade, pelo menos uma vez.
Fiquei a olhar para o ecrã, com o polegar suspenso. O Marcus andava a cortejar-me discretamente há
meses. Era gentil, estável, um médico respeitado na Silverveil Medical que tratava toda a gente, desde o
ómega mais humilde até aos guerreiros beta, com o mesmo respeito gentil. Sem ar de playboy. Sem
jogos cruéis. Apenas olhos castanhos calorosos, um riso descontraído e uma paciência que parecia
infinita.A mãe olhou para o telemóvel e ergueu uma sobrancelha. «É o bom doutor outra vez?»
Acenei com a cabeça, sentindo as bochechas a aquecerem ligeiramente. «Ele convidou-me para sair na
semana passada. Continuo a recusar.»
«E esta noite?»
Lembrei-me da pergunta do Landon. Das noites solitárias em que a cabana parecia demasiado
silenciosa e o meu corpo ainda se lembrava da sensação de ser desejada — mesmo que esse desejo
tivesse sido uma mentira. Lembrei-me dos olhos cansados da mãe e de como ela merecia ver-me a tentar
viver de novo.
Respondi antes de poder pensar demais no assunto.
Eu: Sábado parece-me bem. Vens buscar-me às 7?
A resposta chegou quase instantaneamente, cheia de emojis entusiásticos que me fizeram sorrir apesar
de mim mesma.
O rosto da mãe iluminou-se quando lhe mostrei a mensagem. «Boa menina. Um encontro não te vai
matar. E o Marcus é um homem de bem. Estável. Honesto.»
«Eu sei.» Levantei-me e voltei a cortar legumes, precisando de manter as mãos ocupadas. «Só não sei se
ainda tenho alguma coisa para dar a alguém. O meu coração parece… magoado. Marcado. E se eu só
puder oferecer gratidão em vez de amor?»
«Então começa pela gratidão», disse a mãe, levantando-se para me ajudar. «O amor cresce em solo
seguro. E o Marcus dá-te segurança, não é?»
Sim, sentia-se. Era essa a parte assustadora.
************************
A noite de sábado chegou mais depressa do que eu esperava. Fiquei em frente ao pequeno espelho do
meu quarto, a alisar o vestido verde-esmeralda suave que tinha pedido emprestado a uma amiga. O
vestido realçava as minhas curvas — curvas que se tinham preenchido após a gravidez e anos de
recuperação. O meu cabelo escuro caía em ondas soltas e até tinha aplicado um pouco de rímel. A mulher
que me olhava de volta parecia… viva. Não apenas a sobreviver.
«Estás linda, mãe», disse o Landon da porta, sorrindo com um sorriso de dentes separados. A mãe estava
atrás dele, acenando-me com a cabeça em sinal de aprovação.
«Porta-te bem com a avó», disse-lhe eu, beijando-lhe a testa. «Não vou demorar muito.»O Marcus chegou mesmo a horas, com um ar elegante numa camisa de botões e calças de ganga
escuras. O seu aroma, que era a chuva fresca e a madeira de sândalo, envolveu-me de forma
reconfortante quando ele me abriu a porta do carro. Sem qualquer domínio alfa avassalador. Apenas
uma força tranquila.
O restaurante de luxo, situado no território neutro entre as matilhas, era elegante sem ser ostentoso. A
luz das velas cintilava sobre as toalhas de linho, uma música suave tocava de fundo e o aroma a alho
e ervas assadas fez o meu estômago roncar. Conversámos descontraidamente sobre o trabalho, sobre a
mais recente obsessão do Landon por construir fortalezas e sobre as intrigas políticas das matilhas
que pareciam não ter fim.
A meio da sobremesa, o Marcus pousou a colher e olhou para mim com seriedade, os seus dedos a
roçarem os meus por cima da mesa.
«Preciso que saibas uma coisa, Elara», disse ele, com voz baixa e sincera. «Gosto de ti há muito tempo.
Não só porque és bonita, mas porque és forte. A forma como amas o teu filho, a forma como lutas para
seres melhor a cada dia… Não me importo que ele não seja biologicamente meu. Seria uma honra ajudar
a criá-lo. Ser o que quer que vocês os dois precisem.»
Fiquei sem fôlego. A sinceridade nos seus olhos fez com que algo quente florescesse no meu peito
— gratidão, sem dúvida. Afeto, talvez. Mas aquela atração profunda e comovente que senti outrora?
Isso faltava. E talvez não fizesse mal. Talvez a segurança fosse melhor do que o destino.
«Eu… não sei o que dizer», admiti, apertando-lhe a mão com mais força. «És um homem incrível,
Marcus. O Landon já gosta de ti. Só preciso de tempo para pensar. Para ter a certeza de que não estou a
apressar as coisas por ter medo de ficar sozinha para sempre.»
Ele sorriu suavemente, apertando-me a mão. «Toma todo o tempo que precisares. Não vou a lado
nenhum.»A viagem de regresso a casa foi agradável, repleta de conversa leve. Ele acompanhou-me até à porta
como um cavalheiro perfeito e despediu-se com um beijo suave na minha bochecha.
A mãe estava acordada à minha espera, como sempre, com uma chávena de chá de ervas pronta na mesa.
O Landon estava a dormir profundamente lá em cima.
«Então?», perguntou ela, com os olhos a brilhar de curiosidade enquanto eu tirava os sapatos de salto alto.
«Ele é… maravilhoso», disse eu, afundando-me na poltrona com um suspiro. «Ele disse que não se
importaria de ser pai do Landon. Ele falava a sério, mãe. Consegui ver isso nos olhos dele.»
«Mas?»
Fiquei a olhar para o meu chá. «Mas sinto mais gratidão do que qualquer outra coisa. Será que isso
basta? Será que o amor pode nascer disso?»
A mãe estendeu a mão e colocou-me uma madeixa de cabelo atrás da orelha. «O amor nem sempre é
fogos de artifício e laços de companheirismo, minha querida. Às vezes é silencioso. Constante. Curativo.
Permite-te ser amada.
Aquelas feridas que os trigémeos Blackthorn deixaram… só o amor verdadeiro as pode realmente sarar.»
As suas palavras envolveram-me como um cobertor quente. Acenei com a cabeça lentamente. «Vou
tentar. Pelo Landon. Por mim.»
**************
Na manhã seguinte, na clínica, não consegui evitar o leve rubor que me subiu às bochechas quando o
Marcus me cumprimentou no corredor. Ele sorriu calorosamente, mas manteve uma atitude
profissional, o que eu apreciei. O dia decorreu sem problemas — tratar um jovem ómega com enjoos
matinais, ajudar um idoso com dores nas articulações, o ritmo habitual do trabalho de cura que me dava
estabilidade.
Por volta do meio-dia, enquanto atualizava os registos dos doentes, o meu telemóvel tocou. O número
da escola apareceu no ecrã. O meu coração deu um salto.
«Sra. Voss? Fala o diretor Hargrove. Ocorreu um incidente com o Landon. Ele envolveu-se numa briga
com outro aluno. Precisamos que venha imediatamente.»
Já estava a pegar na minha mala. «Estou a caminho.»
A preocupação atormentou-me durante todo o trajeto. O Landon não era uma criança violenta. Algo grave
devia ter acontecido. Ao chegar à escola, o familiar edifício de tijolo erguia-se sob um céu cinzento. Os
alunos cochichavam em grupos perto da entrada.
Entrei apressadamente, com o coração a bater forte, já a imaginar o pior.Mal sabia eu que isto era apenas o início da tempestade que voltava para destruir a minha vida
cuidadosamente reconstruída.
Capítulo 57: O ponto de vista de ElaraO processo clínico nas minhas mãos pertence a um doente que já atendi hoje.Apercebo-me disso quando já vou a meio da leitura: as notas com a minha própria letra, o plano de tratamento que registei há duas horas... depois, coloco-o sobre o balcão, apoio as duas mãos espalmadas na superfície e respiro fundo.Esta é a terceira vez esta semana que recebo o registo de saúde errado."Elara." A voz de Marcus vem da porta, muito baixa e alarmada; tem-me observado toda a semana com o cuidado específico de quem sabe que não deve fazer comentários directos. "Tem um paciente no quarto três.""Eu sei." Pego no prontuário correto. "Obrigada."Afasta-se para me deixar passar e não diz mais nada — o que é a atitude mais útil que poderia tomar e exatamente o que Marcus faz quando avalia a situação corretamente… dá-me o que preciso sem que eu tenha de pedir.Vou pa
Capítulo 56: O ponto de vista de RafeA luz da cozinha acende-se às onze e catorze.Não é a Elara... é a Mira. Reconheço pelo movimento, pelo ritmo da silhueta atrás da cortina. O Elara move-se mais rápido nas cozinhas, com mais determinação. Mira move-se como alguém que passou tempo suficiente em todas as cozinhas onde já esteve para saber onde fica tudo sem ter de olhar.Aprendi a ler a casa no escuro da mesma forma que aprendi a lê-la à luz do dia — com uma precisão que reconheço como devoção ou obsessão, e decidi que a diferença não importa agora.Onze e vinte e três. A porta dos fundos abre-se.Mira pisa a varanda.Tem vestido o seu casaco de malha grosso e roupa de dormir, com duas chávenas nas mãos, olhando para a linha das árvores com a expressão de quem está acordada há algum tempo, ocupada com coisas que não são dormir.Ela ergue uma das chávenas em direção às árvores.
Capítulo 55: O ponto de vista de Elara— Mãe. Deixou-o cair outra vez.Olho para baixo. A ficha está no chão. Não me lembro de a ter deixado cair.— Eu levo. — Agacho-me, pego no papel e levanto-me; Penda observa-me com a expressão que tem mantido durante toda a semana — não a de curiosidade de antes, mas algo mais cauteloso, o olhar de quem decidiu não perguntar por achar que não iria receber uma resposta sincera.Ela tem razão quanto a isso.— Vá fazer a sua pausa mais cedo — diz ela. — Tapo os próximos vinte minutos.— Estou bem...— Elara. — A voz dela é gentil, mas firme. — Vá sentar-se um pouco. Por favor.******A sala de descanso está vazia; Sento-me à secretária, apoio os cotovelos na superfície, pressiono as mãos contra o rosto e respiro — lentamente, da mesma forma que respirava nos primeiros meses em Silverveil, quando a doença da rejeição surgia
Capítulo 54: O ponto de vista de Ryker Chegou a hora da chamada do Kane — são sete da manhã e já estou acordado; estou de pé desde as cinco, analisando a estrutura de resposta jurídica que a Adanna enviou durante a noite, aquela que detalha o que Kane tem permissão legal para fazer em resposta à queixa que apresentei ao Conselho e o que ultrapassa o limite, configurando retaliação passível de ação. Vejo o nome dele no ecrã e deixo-o tocar duas vezes antes de atender, pois atender de imediato revelaria algo que não quero que ele saiba. "Ryker." A sua voz é agradável, daquela forma como as coisas muito perigosas são agradáveis... uma superfície suave, mas com uma pressão latente por baixo. "Recebi a queixa que enviou ao Conselho." "Eu imaginava que receberia." "É minuciosa. Tenho de admitir." Uma pausa — daquelas que não são apenas uma pausa, mas um momento de calibração. "Embora ache a descrição das ações da minha filha um pouco dramática. Uma fotografia, Ryker. Levaste o caso ao C
Capítulo 53: Ponto de vista de Ronan — Verificou o telemóvel quatro vezes nos últimos dez minutos. Levanto o olhar. Rafe está do outro lado da suite do hotel, imóvel na poltrona, a observar-me com aquela paciência específica que usa quando decide que preciso de ouvir algo que não quero ouvir. — Estou à espera da confirmação de um fornecedor — digo. — Sobre os materiais da torre de observação. — Já passaram cinco dias. Não existe pedido nenhum de materiais para torre de observação. Coloco o telemóvel em cima da mesa, com o ecrã virado para baixo, com mais força do que o necessário. — Tudo bem. Estou a verificar se ela mandou mensagem. — Eu sei. — Não precisava de me fazer dizer isso. — Acho que precisavas de dizer — diz Rafe. — Anda a fingir estar ocupado há cinco dias. Isso não está a convencer ninguém. Deixo-me cair na poltrona à sua frente, encosto a cabeça na almofada e olho para o teto. Cinco dias. Sem forte, sem formação, sem jantares, sem mensagens de boa-noite
Capítulo 52: Ponto de vista de Mira Quatro dias. Tenho contado os dias porque contar é algo que posso fazer com as mãos quando não consigo fazer nada com o resto do meu corpo. Quatro dias desde que a fotografia chegou. Quatro dias desde que Elara deixou de verificar o telemóvel abertamente e passou a verificá-lo na casa de banho, com a porta fechada — onde ela acha que não consigo ouvir o tipo específico de silêncio desapontado que se segue. Ela não mencionou Ronan, Ryker ou Rafe pelo nome nem uma única vez durante estes quatro dias. Essa é a parte que mais me preocupa. Não o silêncio em si; o silêncio compreendo, o silêncio tem as suas utilidades, o silêncio pode ser um lugar para reunir forças em vez de um lugar para se esconder. Mas a forma específica deste silêncio, a exclusão deliberada dos seus nomes do seu vocabulário, a forma como ela se refere a "a situação" ou "tudo o que aconteceu" em vez de dizer quem fez o quê... isso não é reunir forças. Isto é uma retração. Já vi es







