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Capítulo 5

Author: Ivy Crane
last update publish date: 2026-08-24 09:58:08

Ponto de vista de Ryker

O cheiro dela ainda pairava no meu nariz como fumo após um incêndio florestal — mel silvestre doce,

baunilha suave e aquele leve traço de rebeldia que sempre me deixara louco. Seis anos, e um encontro

acidental num corredor da escola tinha reaberto todas as cicatrizes que eu tentara enterrar.

Estava junto à janela do chão ao teto da Suíte Alpha, no melhor hotel de Silverveil, a contemplar a

floresta açoitada pela chuva. Os meus irmãos estavam atrás de mim. A tensão na sala era tão densa que

quase se podia sufocar.

«Ela tem um filho», disse eu, com voz baixa e rouca. Os meus dedos apertaram o copo de cristal de

uísque até ouvir o vidro a ranger. «Um rapaz. Com cerca de seis anos.»

O Ronan andava de um lado para o outro junto à lareira de mármore, passando a mão pelo cabelo

despenteado. «Não é preciso ser um génio para fazer as contas, irmão. Ele cheirava como nós. Um

cheiro ténue, mas presente. Como uma tempestade diluída e cedro.» O seu tom brincalhão habitual

tinha desaparecido, substituído por algo cortante e inquieto.

Rafe estava sentado imóvel na poltrona de couro, com os cotovelos apoiados nos joelhos, a olhar

fixamente para o chão. Não tinha dito mais do que três palavras desde que estavam no corredor.

Típico. Quando algo era realmente importante, Rafe ficava calado e impenetrável.

Virei-me de costas para a chuva e olhei para eles. O laço de companheirismo que tínhamos rompido

brutalmente há seis anos voltava a pulsar, fraco mas insistente, como um batimento cardíaco sob a

pele ferida. Ver a Elara tinha sido um soco no estômago. Ela parecia… mais forte. Mais bonita, de

uma forma que nada tinha a ver com a rapariga inocente que tínhamos arruinado. Os seus olhos

revelavam uma nova determinação, e a forma como ela tinha protegido aquele rapaz com o próprio

corpo—

Meu. Nosso.

O pensamento primitivo invadiu-me com força antes que eu conseguisse impedi-lo.

Ouviu-se uma batida forte à porta. O nosso assistente beta, Elias, entrou com um tablet na mão,

com um ar cauteloso. Ele sabia que não devia interromper-nos quando estávamos assim.

«Alfas. O Alfa Victor Kane espera-nos para jantar daqui a vinte minutos, para discutir a aliança com a sua

filha. O vosso pai também enviou uma mensagem — a lembrar-vos de que o herdeiro escolhido deve

garantir esta união.»

Rosnei baixinho. A aliança matrimonial. A razão pela qual estávamos no território de Silverveil.

Nightshade precisava das rotas comerciais do sul e dos direitos de exploração mineira que Kane

controlava. Em troca, um de nós casaria com Vivian Kane e herdaria as matilhas unidas. Ordens do

pai. Sempre as ordens do pai.

«Diz-lhe que estamos a caminho», disse eu secamente. O Elias acenou com a cabeça e saiu

apressadamente.

O Ronan parou de andar de um lado para o outro. «Vamos mesmo ficar sentados durante o jantar a fingir

que não acabámos de ver a nossa companheira rejeitada com aquele que é quase de certeza o nosso

filho?»

Rafe finalmente ergueu a cabeça. Os seus olhos escuros ardiam. «Primeiro investigamos.

Discretamente. Desta vez, sem erros.»

Acenei com a cabeça. A memória daquela noite, há seis anos, ainda me assombrava nos momentos

mais sombrios. Éramos jovens, arrogantes, estúpidos. Playboys que não queriam que uma ómega sem

lobo nos prendesse, quando todas as fêmeas da alcateia se atiravam a nós. Tínhamos-a usado,

rejeitado-a cruelmente, pensando que podíamos quebrar o vínculo e seguir em frente.

Estávamos errados.

O primeiro ano após o seu desaparecimento tinha sido um inferno. A rejeição incompleta deixou-nos

instáveis, agressivos e angustiados. O pai tinha-se apercebido disso. Em vez de nos deixar procurá-la,

mandou-nos para os brutais campos de treino de Shadow Ridge durante três anos — isolamento

forçado, exercícios de combate até sangrarmos e lembranças constantes do nosso dever para com a

alcateia. Quando regressámos, ele já tinha marcado novos casamentos arranjados e enterrado

qualquer vestígio de Elara Voss.

Mas nós tínhamos procurado. Em segredo. Durante anos.

E agora o destino tinha-a colocado mesmo à nossa frente.

**************

O jantar na propriedade dos Kane era sufocante.

A longa mesa de mogno brilhava sob lustres de cristal. Os talheres tilintavam contra a porcelana fina. O

Alfa Victor sentava-se à cabeceira como um rei, com a sua filha Vivian à sua direita, corando sempre

que algum de nós olhava na sua direção. Ela era bonita no sentido convencional — cabelo castanhoavermelhado comprido, olhos verdes brilhantes, curvas envoltas num vestido vermelho caro. Qualquer

outro alfa teria ficado satisfeito.

Nós não estávamos.

«Ryker, Ronan, Rafe», exclamou Victor em voz alta, erguendo o copo de vinho. «Fico contente por as

negociações da aliança estarem a decorrer sem problemas. A Vivian está ansiosa por esta união há meses.

Qualquer um de vocês que ela escolher será um excelente sucessor.»

As bochechas de Vivian ficaram ainda mais coradas. Ela sorriu timidamente, enrolando uma madeixa

de cabelo no dedo. «Vocês os três são… muito impressionantes», disse ela suavemente, com uma voz

doce e ensaiada. «Seria uma honra estar ao lado de qualquer um de vocês como Luna.»

Ronan ofereceu-lhe um dos seus sorrisos encantadores característicos, mas este não chegou aos olhos.

«És demasiado gentil, Vivian.»

Debaixo da mesa, cerrei os punhos. Sempre que ela falava, continuava a ver o rosto banhado em

lágrimas da Elara, de há seis anos. A forma como a voz dela se tinha quebrado quando lhe

comunicámos a rejeição. A forma como ela tinha fugido de nós depois disso.

Obriguei-me a responder. «A aliança beneficia ambas as matilhas. É isso que importa.»

O Victor não pareceu dar por conta da nossa falta de entusiasmo. Começou a falar de fronteiras

territoriais, lucros da mineração e exercícios de treino conjuntos. A Vivian não parava de lançar olhares

furtivos na nossa direção, claramente a tentar perceber qual dos irmãos preferia. Ria-se das observações

educadas que o Ronan fazia de vez em quando, corava quando o Rafe cruzava o olhar com o dela e

tentava envolver-me numa conversa sobre liderança.

Mal ouvi nada disso.

A minha mente continuava a vaguear de volta para o corredor da escola. Para os olhos castanhos-claros

daquele rapaz. Para a forma como o aroma da Elara me envolvia como uma corrente que eu outrora tentei

quebrar. Ela estava a trabalhar numa clínica aqui. A criar o nosso filho sozinha. O pensamento fez com

que algo sombrio e possessivo se desenrolasse no meu peito.

Ela devia ter estado connosco. Protegida. Amada.

Em vez disso, tínhamos-a abandonado.O jantar arrastou-se. A Vivian tornou-se mais ousada, tocando levemente no braço do Ronan enquanto

perguntava sobre as tradições dos Nightshade. O Ronan entrou no jogo, mas reparei na tensão no seu

queixo. O Rafe comeu em silêncio, com o olhar distante. Eu sabia exatamente onde estavam os seus

pensamentos — no rapaz. Na Elara.

Quando finalmente conseguimos escapar da propriedade e regressámos ao hotel, a chuva tinha-se

transformado numa garoa enevoada.

Assim que a porta da suíte se fechou atrás de nós, o Ronan deixou de fingir ser charmoso. Arrancou a

gravata e atirou-a para o outro lado do quarto. «Não conseguia respirar ali dentro. Sempre que ela

me tocava, apetecia-me rosnar.»

O Rafe serviu-se de uma bebida, mas não lhe tocou. «Ela não é a nossa companheira.»

Deixei-me cair no sofá, afrouxando o colarinho. «Não. Ela não é.»

Bateram à porta. Era o Elias outra vez. Desta vez, a sua expressão era de alerta.

«Alfas. Temos o relatório preliminar sobre a Elara Voss.»

Endireitei-me. «Fala.»Elias limpou a garganta. «Ela chegou a Silverveil há seis anos com a mãe, Mira. Mudaram-se para uma

velha casa de campo na extremidade oriental do território. A Elara trabalha como assistente de um

curandeiro na clínica local. Uma vida tranquila. Não há registo de parceiros românticos até

recentemente — um médico chamado Marcus Reed tem andado a cortejá-la. Tiveram um encontro no

fim de semana passado.»

O Ronan rosnou audivelmente. O som ecoou a minha própria fúria crescente.

«E o rapaz?», perguntei, com uma voz perigosamente calma.

«Landon Voss. Seis anos. Nasceu sete meses depois de ela ter deixado Nightshade. Não há pai

registado. Ele tem sangue alfa forte — o teu, claramente. O incidente de hoje na escola foi ele a

defender-se do bullying por ser órfão de pai.»

A sala mergulhou num silêncio pesado.

Rafe levantou-se lentamente, com o poder a emanar dele. «Ela escondeu-o de nós.»

«Ela fugiu porque a destruímos», corrigi, embora as palavras tivessem o sabor de cinzas. O

arrependimento — algo que raramente me permitia sentir — apertou-me a garganta. «Rejeitámo-la da

pior maneira possível. Usámo-la, humilhámo-la e depois deitámo-la fora. Claro que ela fugiu.»

Ronan parou em frente à janela, a olhar para a noite. «E agora? Estamos presos nesta treta de aliança. O

pai vai enlouquecer se a pusermos em risco. A Vivian deve escolher um de nós até ao final da semana.»Levantei-me e juntei-me a ele junto à janela. O meu reflexo olhava-me de volta — mais velho, mais duro,

mas o mesmo sacana que tinha destruído a nossa companheira.

«Vamos investigar mais. A fundo», disse eu. «Vamos descobrir tudo sobre a vida dela aqui. E decidimos

como abordá-la. Porque, quer o laço esteja quebrado ou não…» Expirei lentamente. «Ela continua a ser

nossa. E aquele rapaz é o nosso herdeiro.»

O Rafe aproximou-se e ficou ao nosso lado, uma parede silenciosa de músculos e intensidade. «Ela não

vai perdoar facilmente.»

«Não», concordei. «Ela não o fará. Mas já não somos os rapazes imprudentes que éramos há seis anos.

E, desta vez, não vamos deixar que ela desapareça outra vez.»

O laço de companheirismo pulsava agora com mais força, como se concordasse. Algures naquela

noite chuvosa, a Elara devia estar a abraçar o filho dela, o nosso filho, com medo de que o passado

voltasse a invadir a sua vida.

Reforcei a minha determinação.

Já a tínhamos destruído uma vez.

Agora faríamos o que fosse preciso para a reconquistar.Mesmo que isso significasse romper alianças, desafiar o nosso pai e provar à mulher que tínhamos

rejeitado que merecíamos uma segunda oportunidade.

Que os deuses ajudem quem se atravessar no nosso caminho.

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