LOGINPonto de vista de Ryker
O cheiro dela ainda pairava no meu nariz como fumo após um incêndio florestal — mel silvestre doce,
baunilha suave e aquele leve traço de rebeldia que sempre me deixara louco. Seis anos, e um encontro
acidental num corredor da escola tinha reaberto todas as cicatrizes que eu tentara enterrar.
Estava junto à janela do chão ao teto da Suíte Alpha, no melhor hotel de Silverveil, a contemplar a
floresta açoitada pela chuva. Os meus irmãos estavam atrás de mim. A tensão na sala era tão densa que
quase se podia sufocar.
«Ela tem um filho», disse eu, com voz baixa e rouca. Os meus dedos apertaram o copo de cristal de
uísque até ouvir o vidro a ranger. «Um rapaz. Com cerca de seis anos.»
O Ronan andava de um lado para o outro junto à lareira de mármore, passando a mão pelo cabelo
despenteado. «Não é preciso ser um génio para fazer as contas, irmão. Ele cheirava como nós. Um
cheiro ténue, mas presente. Como uma tempestade diluída e cedro.» O seu tom brincalhão habitual
tinha desaparecido, substituído por algo cortante e inquieto.
Rafe estava sentado imóvel na poltrona de couro, com os cotovelos apoiados nos joelhos, a olhar
fixamente para o chão. Não tinha dito mais do que três palavras desde que estavam no corredor.
Típico. Quando algo era realmente importante, Rafe ficava calado e impenetrável.
Virei-me de costas para a chuva e olhei para eles. O laço de companheirismo que tínhamos rompido
brutalmente há seis anos voltava a pulsar, fraco mas insistente, como um batimento cardíaco sob a
pele ferida. Ver a Elara tinha sido um soco no estômago. Ela parecia… mais forte. Mais bonita, de
uma forma que nada tinha a ver com a rapariga inocente que tínhamos arruinado. Os seus olhos
revelavam uma nova determinação, e a forma como ela tinha protegido aquele rapaz com o próprio
corpo—
Meu. Nosso.
O pensamento primitivo invadiu-me com força antes que eu conseguisse impedi-lo.
Ouviu-se uma batida forte à porta. O nosso assistente beta, Elias, entrou com um tablet na mão,
com um ar cauteloso. Ele sabia que não devia interromper-nos quando estávamos assim.
«Alfas. O Alfa Victor Kane espera-nos para jantar daqui a vinte minutos, para discutir a aliança com a sua
filha. O vosso pai também enviou uma mensagem — a lembrar-vos de que o herdeiro escolhido deve
garantir esta união.»
Rosnei baixinho. A aliança matrimonial. A razão pela qual estávamos no território de Silverveil.
Nightshade precisava das rotas comerciais do sul e dos direitos de exploração mineira que Kane
controlava. Em troca, um de nós casaria com Vivian Kane e herdaria as matilhas unidas. Ordens do
pai. Sempre as ordens do pai.
«Diz-lhe que estamos a caminho», disse eu secamente. O Elias acenou com a cabeça e saiu
apressadamente.
O Ronan parou de andar de um lado para o outro. «Vamos mesmo ficar sentados durante o jantar a fingir
que não acabámos de ver a nossa companheira rejeitada com aquele que é quase de certeza o nosso
filho?»
Rafe finalmente ergueu a cabeça. Os seus olhos escuros ardiam. «Primeiro investigamos.
Discretamente. Desta vez, sem erros.»
Acenei com a cabeça. A memória daquela noite, há seis anos, ainda me assombrava nos momentos
mais sombrios. Éramos jovens, arrogantes, estúpidos. Playboys que não queriam que uma ómega sem
lobo nos prendesse, quando todas as fêmeas da alcateia se atiravam a nós. Tínhamos-a usado,
rejeitado-a cruelmente, pensando que podíamos quebrar o vínculo e seguir em frente.
Estávamos errados.
O primeiro ano após o seu desaparecimento tinha sido um inferno. A rejeição incompleta deixou-nos
instáveis, agressivos e angustiados. O pai tinha-se apercebido disso. Em vez de nos deixar procurá-la,
mandou-nos para os brutais campos de treino de Shadow Ridge durante três anos — isolamento
forçado, exercícios de combate até sangrarmos e lembranças constantes do nosso dever para com a
alcateia. Quando regressámos, ele já tinha marcado novos casamentos arranjados e enterrado
qualquer vestígio de Elara Voss.
Mas nós tínhamos procurado. Em segredo. Durante anos.
E agora o destino tinha-a colocado mesmo à nossa frente.
**************
O jantar na propriedade dos Kane era sufocante.
A longa mesa de mogno brilhava sob lustres de cristal. Os talheres tilintavam contra a porcelana fina. O
Alfa Victor sentava-se à cabeceira como um rei, com a sua filha Vivian à sua direita, corando sempre
que algum de nós olhava na sua direção. Ela era bonita no sentido convencional — cabelo castanhoavermelhado comprido, olhos verdes brilhantes, curvas envoltas num vestido vermelho caro. Qualquer
outro alfa teria ficado satisfeito.
Nós não estávamos.
«Ryker, Ronan, Rafe», exclamou Victor em voz alta, erguendo o copo de vinho. «Fico contente por as
negociações da aliança estarem a decorrer sem problemas. A Vivian está ansiosa por esta união há meses.
Qualquer um de vocês que ela escolher será um excelente sucessor.»
As bochechas de Vivian ficaram ainda mais coradas. Ela sorriu timidamente, enrolando uma madeixa
de cabelo no dedo. «Vocês os três são… muito impressionantes», disse ela suavemente, com uma voz
doce e ensaiada. «Seria uma honra estar ao lado de qualquer um de vocês como Luna.»
Ronan ofereceu-lhe um dos seus sorrisos encantadores característicos, mas este não chegou aos olhos.
«És demasiado gentil, Vivian.»
Debaixo da mesa, cerrei os punhos. Sempre que ela falava, continuava a ver o rosto banhado em
lágrimas da Elara, de há seis anos. A forma como a voz dela se tinha quebrado quando lhe
comunicámos a rejeição. A forma como ela tinha fugido de nós depois disso.
Obriguei-me a responder. «A aliança beneficia ambas as matilhas. É isso que importa.»
O Victor não pareceu dar por conta da nossa falta de entusiasmo. Começou a falar de fronteiras
territoriais, lucros da mineração e exercícios de treino conjuntos. A Vivian não parava de lançar olhares
furtivos na nossa direção, claramente a tentar perceber qual dos irmãos preferia. Ria-se das observações
educadas que o Ronan fazia de vez em quando, corava quando o Rafe cruzava o olhar com o dela e
tentava envolver-me numa conversa sobre liderança.
Mal ouvi nada disso.
A minha mente continuava a vaguear de volta para o corredor da escola. Para os olhos castanhos-claros
daquele rapaz. Para a forma como o aroma da Elara me envolvia como uma corrente que eu outrora tentei
quebrar. Ela estava a trabalhar numa clínica aqui. A criar o nosso filho sozinha. O pensamento fez com
que algo sombrio e possessivo se desenrolasse no meu peito.
Ela devia ter estado connosco. Protegida. Amada.
Em vez disso, tínhamos-a abandonado.O jantar arrastou-se. A Vivian tornou-se mais ousada, tocando levemente no braço do Ronan enquanto
perguntava sobre as tradições dos Nightshade. O Ronan entrou no jogo, mas reparei na tensão no seu
queixo. O Rafe comeu em silêncio, com o olhar distante. Eu sabia exatamente onde estavam os seus
pensamentos — no rapaz. Na Elara.
Quando finalmente conseguimos escapar da propriedade e regressámos ao hotel, a chuva tinha-se
transformado numa garoa enevoada.
Assim que a porta da suíte se fechou atrás de nós, o Ronan deixou de fingir ser charmoso. Arrancou a
gravata e atirou-a para o outro lado do quarto. «Não conseguia respirar ali dentro. Sempre que ela
me tocava, apetecia-me rosnar.»
O Rafe serviu-se de uma bebida, mas não lhe tocou. «Ela não é a nossa companheira.»
Deixei-me cair no sofá, afrouxando o colarinho. «Não. Ela não é.»
Bateram à porta. Era o Elias outra vez. Desta vez, a sua expressão era de alerta.
«Alfas. Temos o relatório preliminar sobre a Elara Voss.»
Endireitei-me. «Fala.»Elias limpou a garganta. «Ela chegou a Silverveil há seis anos com a mãe, Mira. Mudaram-se para uma
velha casa de campo na extremidade oriental do território. A Elara trabalha como assistente de um
curandeiro na clínica local. Uma vida tranquila. Não há registo de parceiros românticos até
recentemente — um médico chamado Marcus Reed tem andado a cortejá-la. Tiveram um encontro no
fim de semana passado.»
O Ronan rosnou audivelmente. O som ecoou a minha própria fúria crescente.
«E o rapaz?», perguntei, com uma voz perigosamente calma.
«Landon Voss. Seis anos. Nasceu sete meses depois de ela ter deixado Nightshade. Não há pai
registado. Ele tem sangue alfa forte — o teu, claramente. O incidente de hoje na escola foi ele a
defender-se do bullying por ser órfão de pai.»
A sala mergulhou num silêncio pesado.
Rafe levantou-se lentamente, com o poder a emanar dele. «Ela escondeu-o de nós.»
«Ela fugiu porque a destruímos», corrigi, embora as palavras tivessem o sabor de cinzas. O
arrependimento — algo que raramente me permitia sentir — apertou-me a garganta. «Rejeitámo-la da
pior maneira possível. Usámo-la, humilhámo-la e depois deitámo-la fora. Claro que ela fugiu.»
Ronan parou em frente à janela, a olhar para a noite. «E agora? Estamos presos nesta treta de aliança. O
pai vai enlouquecer se a pusermos em risco. A Vivian deve escolher um de nós até ao final da semana.»Levantei-me e juntei-me a ele junto à janela. O meu reflexo olhava-me de volta — mais velho, mais duro,
mas o mesmo sacana que tinha destruído a nossa companheira.
«Vamos investigar mais. A fundo», disse eu. «Vamos descobrir tudo sobre a vida dela aqui. E decidimos
como abordá-la. Porque, quer o laço esteja quebrado ou não…» Expirei lentamente. «Ela continua a ser
nossa. E aquele rapaz é o nosso herdeiro.»
O Rafe aproximou-se e ficou ao nosso lado, uma parede silenciosa de músculos e intensidade. «Ela não
vai perdoar facilmente.»
«Não», concordei. «Ela não o fará. Mas já não somos os rapazes imprudentes que éramos há seis anos.
E, desta vez, não vamos deixar que ela desapareça outra vez.»
O laço de companheirismo pulsava agora com mais força, como se concordasse. Algures naquela
noite chuvosa, a Elara devia estar a abraçar o filho dela, o nosso filho, com medo de que o passado
voltasse a invadir a sua vida.
Reforcei a minha determinação.
Já a tínhamos destruído uma vez.
Agora faríamos o que fosse preciso para a reconquistar.Mesmo que isso significasse romper alianças, desafiar o nosso pai e provar à mulher que tínhamos
rejeitado que merecíamos uma segunda oportunidade.
Que os deuses ajudem quem se atravessar no nosso caminho.
Capítulo 57: O ponto de vista de ElaraO processo clínico nas minhas mãos pertence a um doente que já atendi hoje.Apercebo-me disso quando já vou a meio da leitura: as notas com a minha própria letra, o plano de tratamento que registei há duas horas... depois, coloco-o sobre o balcão, apoio as duas mãos espalmadas na superfície e respiro fundo.Esta é a terceira vez esta semana que recebo o registo de saúde errado."Elara." A voz de Marcus vem da porta, muito baixa e alarmada; tem-me observado toda a semana com o cuidado específico de quem sabe que não deve fazer comentários directos. "Tem um paciente no quarto três.""Eu sei." Pego no prontuário correto. "Obrigada."Afasta-se para me deixar passar e não diz mais nada — o que é a atitude mais útil que poderia tomar e exatamente o que Marcus faz quando avalia a situação corretamente… dá-me o que preciso sem que eu tenha de pedir.Vou pa
Capítulo 56: O ponto de vista de RafeA luz da cozinha acende-se às onze e catorze.Não é a Elara... é a Mira. Reconheço pelo movimento, pelo ritmo da silhueta atrás da cortina. O Elara move-se mais rápido nas cozinhas, com mais determinação. Mira move-se como alguém que passou tempo suficiente em todas as cozinhas onde já esteve para saber onde fica tudo sem ter de olhar.Aprendi a ler a casa no escuro da mesma forma que aprendi a lê-la à luz do dia — com uma precisão que reconheço como devoção ou obsessão, e decidi que a diferença não importa agora.Onze e vinte e três. A porta dos fundos abre-se.Mira pisa a varanda.Tem vestido o seu casaco de malha grosso e roupa de dormir, com duas chávenas nas mãos, olhando para a linha das árvores com a expressão de quem está acordada há algum tempo, ocupada com coisas que não são dormir.Ela ergue uma das chávenas em direção às árvores.
Capítulo 55: O ponto de vista de Elara— Mãe. Deixou-o cair outra vez.Olho para baixo. A ficha está no chão. Não me lembro de a ter deixado cair.— Eu levo. — Agacho-me, pego no papel e levanto-me; Penda observa-me com a expressão que tem mantido durante toda a semana — não a de curiosidade de antes, mas algo mais cauteloso, o olhar de quem decidiu não perguntar por achar que não iria receber uma resposta sincera.Ela tem razão quanto a isso.— Vá fazer a sua pausa mais cedo — diz ela. — Tapo os próximos vinte minutos.— Estou bem...— Elara. — A voz dela é gentil, mas firme. — Vá sentar-se um pouco. Por favor.******A sala de descanso está vazia; Sento-me à secretária, apoio os cotovelos na superfície, pressiono as mãos contra o rosto e respiro — lentamente, da mesma forma que respirava nos primeiros meses em Silverveil, quando a doença da rejeição surgia
Capítulo 54: O ponto de vista de Ryker Chegou a hora da chamada do Kane — são sete da manhã e já estou acordado; estou de pé desde as cinco, analisando a estrutura de resposta jurídica que a Adanna enviou durante a noite, aquela que detalha o que Kane tem permissão legal para fazer em resposta à queixa que apresentei ao Conselho e o que ultrapassa o limite, configurando retaliação passível de ação. Vejo o nome dele no ecrã e deixo-o tocar duas vezes antes de atender, pois atender de imediato revelaria algo que não quero que ele saiba. "Ryker." A sua voz é agradável, daquela forma como as coisas muito perigosas são agradáveis... uma superfície suave, mas com uma pressão latente por baixo. "Recebi a queixa que enviou ao Conselho." "Eu imaginava que receberia." "É minuciosa. Tenho de admitir." Uma pausa — daquelas que não são apenas uma pausa, mas um momento de calibração. "Embora ache a descrição das ações da minha filha um pouco dramática. Uma fotografia, Ryker. Levaste o caso ao C
Capítulo 53: Ponto de vista de Ronan — Verificou o telemóvel quatro vezes nos últimos dez minutos. Levanto o olhar. Rafe está do outro lado da suite do hotel, imóvel na poltrona, a observar-me com aquela paciência específica que usa quando decide que preciso de ouvir algo que não quero ouvir. — Estou à espera da confirmação de um fornecedor — digo. — Sobre os materiais da torre de observação. — Já passaram cinco dias. Não existe pedido nenhum de materiais para torre de observação. Coloco o telemóvel em cima da mesa, com o ecrã virado para baixo, com mais força do que o necessário. — Tudo bem. Estou a verificar se ela mandou mensagem. — Eu sei. — Não precisava de me fazer dizer isso. — Acho que precisavas de dizer — diz Rafe. — Anda a fingir estar ocupado há cinco dias. Isso não está a convencer ninguém. Deixo-me cair na poltrona à sua frente, encosto a cabeça na almofada e olho para o teto. Cinco dias. Sem forte, sem formação, sem jantares, sem mensagens de boa-noite
Capítulo 52: Ponto de vista de Mira Quatro dias. Tenho contado os dias porque contar é algo que posso fazer com as mãos quando não consigo fazer nada com o resto do meu corpo. Quatro dias desde que a fotografia chegou. Quatro dias desde que Elara deixou de verificar o telemóvel abertamente e passou a verificá-lo na casa de banho, com a porta fechada — onde ela acha que não consigo ouvir o tipo específico de silêncio desapontado que se segue. Ela não mencionou Ronan, Ryker ou Rafe pelo nome nem uma única vez durante estes quatro dias. Essa é a parte que mais me preocupa. Não o silêncio em si; o silêncio compreendo, o silêncio tem as suas utilidades, o silêncio pode ser um lugar para reunir forças em vez de um lugar para se esconder. Mas a forma específica deste silêncio, a exclusão deliberada dos seus nomes do seu vocabulário, a forma como ela se refere a "a situação" ou "tudo o que aconteceu" em vez de dizer quem fez o quê... isso não é reunir forças. Isto é uma retração. Já vi es







