LOGIN
«Esta noite pertences-nos, pequeno ómega. Tenta não gritar muito alto.»
As palavras ainda me queimavam nos ouvidos enquanto empurrava a pesada porta de carvalho da nossa
pequena cabana, com o ar da noite a agarrar-se à minha pele como uma segunda camada imunda. As
minhas pernas tremiam a cada passo, as coxas doíam, o abdómen latejava com uma mistura nauseante de
prazer persistente e violação crua. Ainda conseguia sentir o cheiro deles em mim — cedro escuro, uísque
fumado e aquele aroma forte e elétrico de tempestade que gritava poder. Os seus aromas tinham-se
enrolado à minha volta como correntes enquanto se revezavam, rosnando promessas que nunca
tencionavam cumprir.
Bati com a porta atrás de mim e encostei-me a ela, com o peito a arfar. Um soluço entrecortado rasgoume a garganta antes que eu conseguisse contê-lo.
«Elara?» A voz da minha mãe cortou a luz fraca do corredor. Ela apareceu na porta da cozinha, a
enxugar as mãos num pano de cozinha, ainda com a bata de curandeira vestida após o longo turno na
clínica. Os seus olhos arregalaram-se no momento em que viu a minha cara. «Deusa, o que te
aconteceu?»
Tentei falar, mas a minha voz falhou. Em vez disso, deslizei pela porta abaixo até ficar sentada no
chão frio de madeira, com os joelhos encostados ao peito. O vestido que me tinham rasgado até
meio do corpo pendia em farrapos vergonhosos. Marcas de dentadas latejavam no meu pescoço e
ombros, marcas que deveriam ter sido sagradas. Marcas de acasalamento. Mas não eram. Não
para eles.
A mãe largou a toalha e correu na minha direção, ajoelhando-se à minha frente. As suas mãos suaves
e firmes, que todos os dias ajudavam a dar à luz cachorrinhos e confortavam omegas aterrorizados,
pairaram hesitantes antes de envolverem as minhas bochechas banhadas em lágrimas. «Fala comigo,
querida. Quem fez isto?»
Engoli em seco, sentindo o sabor do sal e da vergonha. «São os meus companheiros, mãe. A Deusa da
Lua juntou-me aos três.»
O rosto dela empalideceu. «Os trigémeos?»
Acenei com a cabeça, enquanto outro soluço me escapava. Ryker, Ronan e Rafe Blackthorn. Os alfas
dourados da Matilha Nightshade. Os machos mais poderosos, implacáveis e cobiçados de toda a região.
Todas as raparigas da Academia Blackthorn os desejavam. E, de alguma forma, a filha fraca e sem lobo
de uma mãe solteira tinha sido escolhida pela Deusa como a sua companheira predestinada.
Tudo tinha começado esta tarde.Senti aquela atração no momento em que passei por eles no corredor, depois do último sinal. Aquela
sensação inconfundível no peito, a forma como o meu corpo se aqueceu e o meu pulso disparou. Eles
também ficaram paralisados, com as narinas dilatadas e os olhos a escurecerem-se ao reconheceremme. Durante um segundo estúpido e cheio de esperança, pensei que aquilo poderia mudar tudo. Que o
bullying, o isolamento, os sussurros constantes sobre o meu pai desconhecido e o meu lobo
desaparecido iriam finalmente acabar.
Em vez disso, o Ryker — o mais velho, com o queixo bem definido e os olhos mais frios — esboçou
um sorriso malicioso e apontou com o queixo para a casa de campo abandonada atrás da academia.
«Encontra-te connosco lá às oito. Precisamos de… falar sobre o nosso futuro.»
Eu tinha ido. Como uma tola, tinha ido.
Eles já estavam à espera, com as namoradas visivelmente ausentes. O ar no interior do velho edifício
estava pesado com os seus cheiros misturados. Ronan, o irmão do meio, com o charme descontraído e o
sorriso malicioso, foi o primeiro a puxar-me para si, murmurando o quanto estavam surpreendidos por
a Deusa lhes ter oferecido alguém como eu. Rafe, o mais calado e intenso, observava com os olhos
semicerrados enquanto os irmãos lhe tiravam lentamente a dignidade, juntamente com as roupas.
Não tinham sido gentis. Na verdade, nem por isso. Mesmo quando o meu corpo me traiu e respondeu ao
laço de acasalamento, os seus toques transmitiam posse, não carinho. O Ryker tinha-me possuído
primeiro contra a parede, rosnando que uma ómega sem lobo devia estar grata pela atenção deles. O
Ronan riu-se baixinho quando eu gritei, sussurrando elogios obscenos ao meu ouvido. O Rafe foi o
último, silencioso, exceto pelo rugido baixo e possessivo no peito enquanto terminava dentro de mim.
Depois veio a rejeição.
Fechei os olhos com força, lembrando-me da forma como se tinham colocado por cima de mim depois,
enquanto eu tentava cobrir-me com os restos do meu vestido.
«Rejeitamos-te, Elara Voss», disse Ryker, com a voz monótona e definitiva, as palavras a cortarem o
frágil laço de acasalamento como lâminas de prata. «Uma ómega fraca e sem pai não tem lugar como
Luna de Nightshade. Foste uma distração divertida, nada mais.»
Ronan acrescentou com uma risada cruel: «Não te preocupes, querida. Não vamos contar a ninguém o
quanto gemeste alto por nós.»O Rafe não disse nada. Limitou-se a olhar, com algo indecifrável a cintilar nos seus olhos escuros antes
de se virar.
O laço ainda não se tinha rompido por completo; a rejeição precisava dos três para se completar
devidamente, num conjunto de três — mas a dor tinha sido imediata. Como se alguém tivesse enfiado
a mão no meu peito e esmagado o meu coração.
«Elara.» A voz da minha mãe trouxe-me de volta ao presente. Ela estava agora a acariciar-me o cabelo,
com lágrimas a brilhar nos seus olhos. «Eles… forçaram-te?»
Ri-me, mas saiu-me um som abafado e horrível. «No início, eu queria. O laço fez-me querer. Mas eles
nunca me quiseram. Só queriam usar-me antes de me deitarem fora.» Novas lágrimas escorreram-me
pelas bochechas. «Eles têm namoradas, mãe. Toda a gente sabe disso. Eu era apenas… um jogo.»
A mãe puxou-me para os seus braços, apertando-me com força contra o peito. Conseguia sentir o
cheiro ténue de antisséptico da clínica nas suas roupas, misturado com o reconfortante aroma do
sabonete de lavanda que ela usava sempre. Durante um longo momento, os únicos sons eram os meus
soluços entrecortados e o piar distante de uma coruja lá fora.
«Odeio-os», sussurrei contra o ombro dela. «Odeio o que me fizeram sentir. Odeio que essa parte de
mim ainda os queira, mesmo agora.» Admiti-lo teve o sabor de veneno. O laço de companheirismo já
estava a tentar sarar, a tentar puxar-me de volta para eles, apesar de tudo. Isso deixava-me enjoada.
«Estás em choque, meu amor. O vínculo é cruel nesse aspeto.» A mãe embalou-me suavemente, tal como
fazia quando eu era uma cachorrinha e os pesadelos atormentavam o meu sono. «Mas não és fraca. Nunca
deixes que te convençam disso. Não ter um lobo não te torna inferior. Significa apenas que a Deusa tem
um caminho diferente para ti.»
Afastei-me ligeiramente, observando-lhe o rosto. As rugas de cansaço à volta dos olhos pareciam mais
profundas esta noite. Ela trabalhava tanto, longas horas na clínica, voltando para casa para cozinhar,
limpar e criar uma filha que a alcateia mal reconhecia. Tudo porque o meu pai tinha desaparecido antes
de eu nascer.
«Não posso ficar aqui», disse eu, com a voz a ganhar força, mesmo que tremesse. «Não consigo andar por
aqueles corredores sabendo que se estão a rir de mim. Não posso arriscar vê-los com as namoradas, a
fingirem que eu não existo. Por favor, mãe. Vamos embora. Sempre disseste que nos podias levar de volta
para a Matilha Silverveil, a tua antiga casa. A casa da avó ainda lá está, não está?»A mãe hesitou, o seu olhar a desviar-se para a janela, como se pudesse ver as terras da Matilha
Nightshade a estenderem-se para além da nossa rua tranquila. Esta matilha nunca tinha sido gentil
connosco, mas era-nos familiar. Partir significava recomeçar do zero.
«Elara… não é assim tão simples. Silverveil tem os seus próprios problemas. O Alfa Thorne…»
«Por favor, mãe, imploro-te, por favor…», interrompi, com o desespero a apertar-me a garganta.
«Qualquer lugar é melhor do que aqui. Vou arranjar um emprego. Vou ajudar na clínica, como tu. Faço
qualquer coisa, só… por favor. Não consigo enfrentá-los outra vez. A rejeição… sinto como se a minha
alma estivesse a despedaçar-se.»
Ela ficou em silêncio durante muito tempo, com os dedos a traçarem círculos reconfortantes nas minhas
costas. Concentrei-me na sensação, tentando acalmar-me. O chão de madeira estava frio sob as minhas
coxas nuas. Uma corrente de ar entrava por baixo da porta, trazendo o aroma distante de pinheiro da
floresta que fazia fronteira com o nosso bairro. Algures nas proximidades, um lobo da alcateia uivou,
provavelmente um dos guerreiros em patrulha. O som costumava confortar-me. Agora, apenas me
lembrava do poder que nunca teria.
Por fim, a mãe suspirou e deu-me um beijo na testa. «Está bem. Vamos. Tenho algumas poupanças.
Podemos partir no final da semana, assim que eu terminar os meus casos na clínica. A casa de campo da
tua avó em Silverveil pode precisar de reparações, mas é nossa. Ninguém nos pode tirar isso.»
Senti um alívio tão forte que novas lágrimas brotaram-me dos olhos. «Obrigada», sussurrei. «Desculpa
por te estar a afastar de tudo.»
«Não te atrevas a pedir desculpa.» O tom dela tornou-se feroz, os olhos a brilhar com um fogo protetor.
«És a minha filha. A minha única prioridade. Aqueles rapazes podem ser alfas, mas são tolos se pensam
que podem partir-te e sair ilesos. A Deusa vê tudo.»
Eu queria acreditar nela. Mas à medida que a dor entre as minhas pernas voltava a pulsar, lembrando-me
da facilidade com que tinham usado o meu corpo, a dúvida insinuou-se como sombras. E se o laço nunca
se desfizesse completamente? E se eu passasse o resto da minha vida a sentir este vazio?
A mãe ajudou-me a levantar-me, suportando o meu peso enquanto nos dirigíamos para a pequena
casa de banho. Preparou um banho quente, adicionando sais curativos e ervas do seu stock pessoal.
Enquanto a água enchia a banheira, retirou delicadamente o que restava do meu vestido estragado,
com o maxilar a endurecer a cada marca que eles tinham deixado para trás.
«Um dia vão arrepender-se disto», murmurou ela, quase para si própria. «Sejam ou não alfas trigémeos,
a Deusa da Lua não vê com bons olhos a profanação de um laço de companheirismo.»
Mergulhei na água a vapor com um silvo, o calor a acalmar-me e, ao mesmo tempo, a arder na minha
pele sensível. A mãe sentou-se na borda da banheira, lavando-me o cabelo com dedos cuidadosos. O
ritual familiar aliviou algo que me apertava o peito.
«Fala-me de Silverveil», disse eu baixinho, precisando de me concentrar no futuro em vez do pesadelo
que ainda se repetia na minha mente. «Como era quando eras jovem?»
Um sorriso suave tocou-lhe os lábios. «Mais selvagem do que aqui. Mais próximo dos costumes antigos.
A tua avó também era uma curandeira respeitada por lá. A casa da matilha estava sempre cheia de risos e
caos. Mas depois de conhecer o teu pai…» A voz dela foi-se esmorecendo, com a dor a passar-lhe
rapidamente pelo rosto.
Nunca a pressionei sobre ele. A ferida era demasiado antiga, demasiado profunda.
Enquanto ela enxaguava o sabão do meu cabelo, fechei os olhos e tentei imaginar uma vida sem os
trigémeos Blackthorn a pairar sobre ela. Acabaram-se os olhares furtivos nos corredores da academia.
Acabou-se a dúvida sobre por que razão a Deusa me tinha amaldiçoado com três companheiros que não
me viam como nada.
Mas, mesmo enquanto a água arrefecia à minha volta, um sussurro traidor pairava no fundo da minha
mente — Eles também o sentiram. O laço não mente.
Reprimi-o com violência. Eles tinham-me rejeitado. Usaram-me. Humilharam-me. E
preferia morrer a deixá-los partir-me outra vez.
Capítulo 57: O ponto de vista de ElaraO processo clínico nas minhas mãos pertence a um doente que já atendi hoje.Apercebo-me disso quando já vou a meio da leitura: as notas com a minha própria letra, o plano de tratamento que registei há duas horas... depois, coloco-o sobre o balcão, apoio as duas mãos espalmadas na superfície e respiro fundo.Esta é a terceira vez esta semana que recebo o registo de saúde errado."Elara." A voz de Marcus vem da porta, muito baixa e alarmada; tem-me observado toda a semana com o cuidado específico de quem sabe que não deve fazer comentários directos. "Tem um paciente no quarto três.""Eu sei." Pego no prontuário correto. "Obrigada."Afasta-se para me deixar passar e não diz mais nada — o que é a atitude mais útil que poderia tomar e exatamente o que Marcus faz quando avalia a situação corretamente… dá-me o que preciso sem que eu tenha de pedir.Vou pa
Capítulo 56: O ponto de vista de RafeA luz da cozinha acende-se às onze e catorze.Não é a Elara... é a Mira. Reconheço pelo movimento, pelo ritmo da silhueta atrás da cortina. O Elara move-se mais rápido nas cozinhas, com mais determinação. Mira move-se como alguém que passou tempo suficiente em todas as cozinhas onde já esteve para saber onde fica tudo sem ter de olhar.Aprendi a ler a casa no escuro da mesma forma que aprendi a lê-la à luz do dia — com uma precisão que reconheço como devoção ou obsessão, e decidi que a diferença não importa agora.Onze e vinte e três. A porta dos fundos abre-se.Mira pisa a varanda.Tem vestido o seu casaco de malha grosso e roupa de dormir, com duas chávenas nas mãos, olhando para a linha das árvores com a expressão de quem está acordada há algum tempo, ocupada com coisas que não são dormir.Ela ergue uma das chávenas em direção às árvores.
Capítulo 55: O ponto de vista de Elara— Mãe. Deixou-o cair outra vez.Olho para baixo. A ficha está no chão. Não me lembro de a ter deixado cair.— Eu levo. — Agacho-me, pego no papel e levanto-me; Penda observa-me com a expressão que tem mantido durante toda a semana — não a de curiosidade de antes, mas algo mais cauteloso, o olhar de quem decidiu não perguntar por achar que não iria receber uma resposta sincera.Ela tem razão quanto a isso.— Vá fazer a sua pausa mais cedo — diz ela. — Tapo os próximos vinte minutos.— Estou bem...— Elara. — A voz dela é gentil, mas firme. — Vá sentar-se um pouco. Por favor.******A sala de descanso está vazia; Sento-me à secretária, apoio os cotovelos na superfície, pressiono as mãos contra o rosto e respiro — lentamente, da mesma forma que respirava nos primeiros meses em Silverveil, quando a doença da rejeição surgia
Capítulo 54: O ponto de vista de Ryker Chegou a hora da chamada do Kane — são sete da manhã e já estou acordado; estou de pé desde as cinco, analisando a estrutura de resposta jurídica que a Adanna enviou durante a noite, aquela que detalha o que Kane tem permissão legal para fazer em resposta à queixa que apresentei ao Conselho e o que ultrapassa o limite, configurando retaliação passível de ação. Vejo o nome dele no ecrã e deixo-o tocar duas vezes antes de atender, pois atender de imediato revelaria algo que não quero que ele saiba. "Ryker." A sua voz é agradável, daquela forma como as coisas muito perigosas são agradáveis... uma superfície suave, mas com uma pressão latente por baixo. "Recebi a queixa que enviou ao Conselho." "Eu imaginava que receberia." "É minuciosa. Tenho de admitir." Uma pausa — daquelas que não são apenas uma pausa, mas um momento de calibração. "Embora ache a descrição das ações da minha filha um pouco dramática. Uma fotografia, Ryker. Levaste o caso ao C
Capítulo 53: Ponto de vista de Ronan — Verificou o telemóvel quatro vezes nos últimos dez minutos. Levanto o olhar. Rafe está do outro lado da suite do hotel, imóvel na poltrona, a observar-me com aquela paciência específica que usa quando decide que preciso de ouvir algo que não quero ouvir. — Estou à espera da confirmação de um fornecedor — digo. — Sobre os materiais da torre de observação. — Já passaram cinco dias. Não existe pedido nenhum de materiais para torre de observação. Coloco o telemóvel em cima da mesa, com o ecrã virado para baixo, com mais força do que o necessário. — Tudo bem. Estou a verificar se ela mandou mensagem. — Eu sei. — Não precisava de me fazer dizer isso. — Acho que precisavas de dizer — diz Rafe. — Anda a fingir estar ocupado há cinco dias. Isso não está a convencer ninguém. Deixo-me cair na poltrona à sua frente, encosto a cabeça na almofada e olho para o teto. Cinco dias. Sem forte, sem formação, sem jantares, sem mensagens de boa-noite
Capítulo 52: Ponto de vista de Mira Quatro dias. Tenho contado os dias porque contar é algo que posso fazer com as mãos quando não consigo fazer nada com o resto do meu corpo. Quatro dias desde que a fotografia chegou. Quatro dias desde que Elara deixou de verificar o telemóvel abertamente e passou a verificá-lo na casa de banho, com a porta fechada — onde ela acha que não consigo ouvir o tipo específico de silêncio desapontado que se segue. Ela não mencionou Ronan, Ryker ou Rafe pelo nome nem uma única vez durante estes quatro dias. Essa é a parte que mais me preocupa. Não o silêncio em si; o silêncio compreendo, o silêncio tem as suas utilidades, o silêncio pode ser um lugar para reunir forças em vez de um lugar para se esconder. Mas a forma específica deste silêncio, a exclusão deliberada dos seus nomes do seu vocabulário, a forma como ela se refere a "a situação" ou "tudo o que aconteceu" em vez de dizer quem fez o quê... isso não é reunir forças. Isto é uma retração. Já vi es







