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Capítulo 4

Author: Ivy Crane
last update publish date: 2026-08-24 09:53:25

«Mãe, por favor… continua a andar.»

A minha voz saiu como um sussurro quebrado, quase inaudível até aos meus próprios ouvidos. A

mãozinha do Landon parecia incrivelmente frágil na minha, com os dedos pegajosos devido ao sangue

seco nos nós dos dedos. Mantive os olhos fixos à minha frente, recusando-me a cruzar novamente o

olhar com qualquer um deles, apesar de sentir o peso dos olhares de três alfas a queimar-me a pele

como marcas a ferro quente.

Durante um segundo aterrador, nenhum deles se mexeu. O corredor parecia encolher à nossa volta, o

ar pesado com o aroma combinado deles, cedro, tempestade e uísque fumado, ameaçando arrastar-me

para o fundo. O meu corpo traiu-me com um arrepio que começou na base da coluna e subiu pelo

corpo. O laço de companheirismo adormecido vibrava dolorosamente, como uma velha ferida

reaberta.

Ryker cerrou o maxilar. O habitual sorriso malicioso de Ronan tinha desaparecido completamente,

substituído por algo cru e perigoso. Os olhos escuros de Rafe voltaram-se mais uma vez para Landon,

estreitando-se com perguntas não ditas que me fizeram o estômago revirar-se violentamente.

Então, milagrosamente, eles afastaram-se.

Nem uma palavra. Apenas três olhares pesados e avaliadores que se demoraram demasiado tempo no

meu rosto, no meu filho, na forma como o protegia com o meu corpo. O Ryker acenou ligeiramente

com a cabeça aos irmãos, e eles continuaram pelo corredor em direção ao gabinete do diretor, como

se não fôssemos mais do que uma breve e inconveniente interrupção.

Não esperei para tentar a sorte. Puxei o Landon para a frente, com as pernas a moverem-se movidas

apenas pela adrenalina. O meu coração batia com tanta força que temi que pudesse partir-me as costelas.

Cada passo que me afastava deles parecia simultaneamente uma vitória e uma nova agonia. O laço gritava

em protesto, enviando dores fantasmas pelo meu peito e pela parte inferior da barriga — memórias das

mãos deles, dos corpos deles, da rejeição cruel deles a inundarem-me de novo com cores vivas.

«Mãe, quem eram aqueles tipos grandalhões?», perguntou o Landon novamente, a correr para

acompanhar o meu passo enquanto saíamos a correr pela saída lateral para a luz do sol da tarde. O parque

de estacionamento cheirava a terra húmida e a chuva distante. «Pareciam mesmo fortes. Como

guerreiros.»

«Ninguém importante», repeti, com a voz a tremer enquanto procurava às cegas as chaves do carro. As

minhas mãos tremiam tanto que as deixei cair uma vez antes de finalmente conseguir destrancar a porta.

«Entra, querido. Depressa.»

Ele obedeceu, sentando-se na sua cadeirinha com um ar confuso e franzindo o sobrolho. Apertei-lhe o

cinto com movimentos automáticos, com a mente ainda presa naquele corredor. A forma como o

Rafe tinha olhado para o Landon. O leve tremor das narinas do Ryker enquanto farejava o ar. A

expressão inquieta do Ronan. Eles sabiam. Ou, pelo menos, suspeitavam.

A viagem de regresso a casa passou num borrão de céu cinzento e pensamentos acelerados. Não

parava de olhar pelo espelho retrovisor, quase à espera de ver um SUV preto a seguir-nos. Quando

chegámos à casa de campo da minha avó, o céu tinha-se aberto, dando lugar a uma chuva fina. As gotas

batiam suavemente no telhado enquanto entrávamos a correr.

A mãe deu uma olhadela ao meu rosto e à bochecha magoada do Landon e entrou imediatamente

em ação. Conduziu-nos a ambos até à mesa da cozinha, já a tirar o seu kit de primeiros socorros

com movimentos eficientes e experientes.

«Meu Deus, o que aconteceu na escola?», perguntou ela, inclinando suavemente o rosto do Landon para

examinar a contusão. A sua voz manteve-se calma por causa dele, mas percebi o lampejo de preocupação

nos seus olhos quando ela olhou para mim.

Enquanto ela limpava os nós dos dedos do Landon e aplicava uma pomada anestésica com cheiro a

arnica e lavanda, eu andava de um lado para o outro na pequena cozinha. As tábuas de madeira do soalho

rangiam sob os meus pés. A chuva batia agora insistentemente nas janelas, obscurecendo a vista da

floresta lá fora. A cabana parecia mais pequena, subitamente vulnerável. Cada sombra nos cantos parecia

esconder olhos de alfa.

Depois de a mãe ter mandado o Landon subir com uma caneca quente de chocolate quente e

instruções rigorosas para descansar, a barragem dentro de mim finalmente rompeu-se.Deixei-me cair numa cadeira e enterrei o rosto nas mãos, com os ombros a tremerem de soluços

silenciosos. «Eles estavam lá, mãe. Os três. O Ryker, o Ronan, o Rafe. No corredor da escola.»

A mãe congelou a meio do movimento, torcendo com força o pano de cozinha que tinha nas mãos.

«Nightshade?»

Acenei com a cabeça, com as lágrimas a escorrerem-me por entre os dedos. «O diretor falou de uma

reunião da aliança ou algo do género. Deparámo-nos com eles logo a seguir a eu ter tirado o Landon

daquela reunião horrível com o Alpha Kane.» Deu-me uma risada amarga, com um toque de histeria.

«Eles olharam para nós. Viram-no, mãe. Olharam para o Landon e juro que sabiam. Ou, pelo menos…

sentiram alguma coisa.»

A mãe afundou-se na cadeira ao meu lado, puxando-me para junto dela. O braço dela envolveu-me

os ombros, quente e firme, mas eu conseguia sentir a tensão no corpo dela. «Disseram alguma

coisa? Tentaram impedir-vos?»

«Não», sussurrei, com a voz a falhar. «Eles apenas… ficaram a olhar. Depois deixaram-nos ir. Mas a

forma como me olharam — como se eu fosse algo que tinham perdido e de repente quisessem de volta.

Deu-me arrepios. A ligação…» Pressionei a mão contra o peito, onde a dor se tinha instalado profunda e

latejante. «Acordou no momento em que senti o cheiro deles. Após seis anos de silêncio, simplesmente…

voltou com toda a força.»

Novas lágrimas escorreram-me pelas bochechas. Limpei-as com raiva, mas surgiram mais. «Porque é

que agora? Porque é que aqueles três desastres têm de aparecer precisamente no momento em que

finalmente aceito um encontro?»

«Com o Marcus? No momento em que o Landon pergunta pelo pai dele e eu começo a pensar que

talvez possamos ter uma vida normal? É como se a Deusa me estivesse a castigar por me atrever a

seguir em frente.»

A mãe acariciou-me o cabelo, com um toque infinitamente suave. A chuva lá fora intensificou-se,

batendo num ritmo constante no telhado que se assemelhava ao caos no meu coração. O aroma de

pinheiro molhado entrava por uma janela rachada, misturando-se com o cheiro do unguento à base de

ervas que ainda pairava no ar.

«Talvez se tenham esquecido de ti», disse ela suavemente, embora a dúvida se refletisse no seu tom de

voz. «Seis anos é muito tempo. Alfas poderosos como eles provavelmente têm novas mulheres a atiraremse aos seus pés todas as semanas. E se voltarem a bisbilhotar por aqui…» Endireitou-se, com a voz a

ganhar firmeza. «Mudamo-nos. Outra vez. Silverveil era suposto ser o nosso novo começo, mas há outras

matilhas. Outros territórios neutros. Não vou deixar que destruam a vida que construímos aqui.»

Levantei a cabeça, procurando o seu rosto. O cansaço e um amor feroz travavam uma batalha na sua

expressão. Ela tinha abdicado de tanto por minha causa — o seu cargo na antiga clínica, os amigos, o

que lhe era familiar — tudo porque eu tinha voltado para casa destroçado naquela noite, há seis anos.

«Desculpa», consegui dizer com a voz embargada. «Continuo a arrastar-te para a minha confusão. Tu

também mereces paz.»

«Cala-te.» Ela segurou-me o rosto com as mãos, enxugando-me as lágrimas com os polegares. «Tu és a

minha paz, Elara. Tu e o Landon. Aqueles rapazes tiveram a sua oportunidade e deitaram-na fora como tolos. Não podem simplesmente voltar e exigir nada.»

Um pequeno rangido nas escadas fez-nos virar-nos aos dois. O Landon estava ali, com o seu pijama

favorito de dinossauros, a apertar contra o peito um lobo de peluche gasto. Tinha os olhos arregalados e a

contusão na bochecha destacava-se nitidamente contra a sua pele pálida.

«Porque é que temos de nos mudar outra vez?», perguntou ele baixinho, com uma voz fraca mas firme.

«Gosto de estar aqui. Gosto da minha escola… na maior parte das vezes. E do jardim da avó. E do meu

forte na floresta.»

O meu coração partiu-se mais uma vez. Abri os braços e ele subiu diretamente para o meu colo,

enterrando o rosto no meu pescoço. Cheirava a chocolate quente que a mãe lhe tinha dado, a infância e

àquele leve traço de sangue alfa que um dia o tornaria forte.

«Ninguém se vai mudar, querido», prometi, envolvendo-o com força. A minha voz firmou-se enquanto

proferia as palavras, tirando força do seu calor. «A avó e eu estávamos apenas a falar de… velhos amigos

que talvez venham visitar-nos. Mas esta é a nossa casa. Vamos ficar mesmo aqui.»

Ele afastou-se o suficiente para olhar para mim, os seus olhos castanhos-claros — tão parecidos com os

do Ronan quando este era sincero — a procurarem os meus. «Aqueles tipos grandes no corredor… eram

os velhos amigos?»

Hesitei. Mentir parecia errado, mas a verdade era demasiado pesada para uma criança de seis anos.

«Eram pessoas do nosso passado. Pessoas que magoaram a mamã há muito tempo.»Landon franziu a pequena testa. Tocou pensativamente no hematoma na sua própria bochecha e, em

seguida, esticou o braço para enxugar uma lágrima da minha. «Então não gosto deles. Se vierem aqui

e tentarem magoar-te outra vez, vou proteger-te, mãe. Sou forte. Hoje dei uma sova ao Kit, mesmo

ele sendo maior.»

Apesar de tudo, escapou-me um riso abafado. Abracei-o com mais força, dando-lhe beijos no topo da

cabeça. «Meu pequeno lobo corajoso. Não precisas de lutar as minhas batalhas, está bem? Mas

obrigada.

Saber que estás do meu lado faz de mim a mãe mais forte do mundo.»

A mãe observava-nos com um olhar terno, um sorriso triste a desenhar-se nos seus lábios. Estendeu a

mão e apertou-me o ombro. «Vamos enfrentar isto juntos. Como uma família.»

O Landon acenou com a cabeça solenemente, encostado ao meu peito. «Sim. Juntos. Aconteça o que

acontecer.»

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