LOGIN«Mãe, por favor… continua a andar.»
A minha voz saiu como um sussurro quebrado, quase inaudível até aos meus próprios ouvidos. A
mãozinha do Landon parecia incrivelmente frágil na minha, com os dedos pegajosos devido ao sangue
seco nos nós dos dedos. Mantive os olhos fixos à minha frente, recusando-me a cruzar novamente o
olhar com qualquer um deles, apesar de sentir o peso dos olhares de três alfas a queimar-me a pele
como marcas a ferro quente.
Durante um segundo aterrador, nenhum deles se mexeu. O corredor parecia encolher à nossa volta, o
ar pesado com o aroma combinado deles, cedro, tempestade e uísque fumado, ameaçando arrastar-me
para o fundo. O meu corpo traiu-me com um arrepio que começou na base da coluna e subiu pelo
corpo. O laço de companheirismo adormecido vibrava dolorosamente, como uma velha ferida
reaberta.
Ryker cerrou o maxilar. O habitual sorriso malicioso de Ronan tinha desaparecido completamente,
substituído por algo cru e perigoso. Os olhos escuros de Rafe voltaram-se mais uma vez para Landon,
estreitando-se com perguntas não ditas que me fizeram o estômago revirar-se violentamente.
Então, milagrosamente, eles afastaram-se.
Nem uma palavra. Apenas três olhares pesados e avaliadores que se demoraram demasiado tempo no
meu rosto, no meu filho, na forma como o protegia com o meu corpo. O Ryker acenou ligeiramente
com a cabeça aos irmãos, e eles continuaram pelo corredor em direção ao gabinete do diretor, como
se não fôssemos mais do que uma breve e inconveniente interrupção.
Não esperei para tentar a sorte. Puxei o Landon para a frente, com as pernas a moverem-se movidas
apenas pela adrenalina. O meu coração batia com tanta força que temi que pudesse partir-me as costelas.
Cada passo que me afastava deles parecia simultaneamente uma vitória e uma nova agonia. O laço gritava
em protesto, enviando dores fantasmas pelo meu peito e pela parte inferior da barriga — memórias das
mãos deles, dos corpos deles, da rejeição cruel deles a inundarem-me de novo com cores vivas.
«Mãe, quem eram aqueles tipos grandalhões?», perguntou o Landon novamente, a correr para
acompanhar o meu passo enquanto saíamos a correr pela saída lateral para a luz do sol da tarde. O parque
de estacionamento cheirava a terra húmida e a chuva distante. «Pareciam mesmo fortes. Como
guerreiros.»
«Ninguém importante», repeti, com a voz a tremer enquanto procurava às cegas as chaves do carro. As
minhas mãos tremiam tanto que as deixei cair uma vez antes de finalmente conseguir destrancar a porta.
«Entra, querido. Depressa.»
Ele obedeceu, sentando-se na sua cadeirinha com um ar confuso e franzindo o sobrolho. Apertei-lhe o
cinto com movimentos automáticos, com a mente ainda presa naquele corredor. A forma como o
Rafe tinha olhado para o Landon. O leve tremor das narinas do Ryker enquanto farejava o ar. A
expressão inquieta do Ronan. Eles sabiam. Ou, pelo menos, suspeitavam.
A viagem de regresso a casa passou num borrão de céu cinzento e pensamentos acelerados. Não
parava de olhar pelo espelho retrovisor, quase à espera de ver um SUV preto a seguir-nos. Quando
chegámos à casa de campo da minha avó, o céu tinha-se aberto, dando lugar a uma chuva fina. As gotas
batiam suavemente no telhado enquanto entrávamos a correr.
A mãe deu uma olhadela ao meu rosto e à bochecha magoada do Landon e entrou imediatamente
em ação. Conduziu-nos a ambos até à mesa da cozinha, já a tirar o seu kit de primeiros socorros
com movimentos eficientes e experientes.
«Meu Deus, o que aconteceu na escola?», perguntou ela, inclinando suavemente o rosto do Landon para
examinar a contusão. A sua voz manteve-se calma por causa dele, mas percebi o lampejo de preocupação
nos seus olhos quando ela olhou para mim.
Enquanto ela limpava os nós dos dedos do Landon e aplicava uma pomada anestésica com cheiro a
arnica e lavanda, eu andava de um lado para o outro na pequena cozinha. As tábuas de madeira do soalho
rangiam sob os meus pés. A chuva batia agora insistentemente nas janelas, obscurecendo a vista da
floresta lá fora. A cabana parecia mais pequena, subitamente vulnerável. Cada sombra nos cantos parecia
esconder olhos de alfa.
Depois de a mãe ter mandado o Landon subir com uma caneca quente de chocolate quente e
instruções rigorosas para descansar, a barragem dentro de mim finalmente rompeu-se.Deixei-me cair numa cadeira e enterrei o rosto nas mãos, com os ombros a tremerem de soluços
silenciosos. «Eles estavam lá, mãe. Os três. O Ryker, o Ronan, o Rafe. No corredor da escola.»
A mãe congelou a meio do movimento, torcendo com força o pano de cozinha que tinha nas mãos.
«Nightshade?»
Acenei com a cabeça, com as lágrimas a escorrerem-me por entre os dedos. «O diretor falou de uma
reunião da aliança ou algo do género. Deparámo-nos com eles logo a seguir a eu ter tirado o Landon
daquela reunião horrível com o Alpha Kane.» Deu-me uma risada amarga, com um toque de histeria.
«Eles olharam para nós. Viram-no, mãe. Olharam para o Landon e juro que sabiam. Ou, pelo menos…
sentiram alguma coisa.»
A mãe afundou-se na cadeira ao meu lado, puxando-me para junto dela. O braço dela envolveu-me
os ombros, quente e firme, mas eu conseguia sentir a tensão no corpo dela. «Disseram alguma
coisa? Tentaram impedir-vos?»
«Não», sussurrei, com a voz a falhar. «Eles apenas… ficaram a olhar. Depois deixaram-nos ir. Mas a
forma como me olharam — como se eu fosse algo que tinham perdido e de repente quisessem de volta.
Deu-me arrepios. A ligação…» Pressionei a mão contra o peito, onde a dor se tinha instalado profunda e
latejante. «Acordou no momento em que senti o cheiro deles. Após seis anos de silêncio, simplesmente…
voltou com toda a força.»
Novas lágrimas escorreram-me pelas bochechas. Limpei-as com raiva, mas surgiram mais. «Porque é
que agora? Porque é que aqueles três desastres têm de aparecer precisamente no momento em que
finalmente aceito um encontro?»
«Com o Marcus? No momento em que o Landon pergunta pelo pai dele e eu começo a pensar que
talvez possamos ter uma vida normal? É como se a Deusa me estivesse a castigar por me atrever a
seguir em frente.»
A mãe acariciou-me o cabelo, com um toque infinitamente suave. A chuva lá fora intensificou-se,
batendo num ritmo constante no telhado que se assemelhava ao caos no meu coração. O aroma de
pinheiro molhado entrava por uma janela rachada, misturando-se com o cheiro do unguento à base de
ervas que ainda pairava no ar.
«Talvez se tenham esquecido de ti», disse ela suavemente, embora a dúvida se refletisse no seu tom de
voz. «Seis anos é muito tempo. Alfas poderosos como eles provavelmente têm novas mulheres a atiraremse aos seus pés todas as semanas. E se voltarem a bisbilhotar por aqui…» Endireitou-se, com a voz a
ganhar firmeza. «Mudamo-nos. Outra vez. Silverveil era suposto ser o nosso novo começo, mas há outras
matilhas. Outros territórios neutros. Não vou deixar que destruam a vida que construímos aqui.»
Levantei a cabeça, procurando o seu rosto. O cansaço e um amor feroz travavam uma batalha na sua
expressão. Ela tinha abdicado de tanto por minha causa — o seu cargo na antiga clínica, os amigos, o
que lhe era familiar — tudo porque eu tinha voltado para casa destroçado naquela noite, há seis anos.
«Desculpa», consegui dizer com a voz embargada. «Continuo a arrastar-te para a minha confusão. Tu
também mereces paz.»
«Cala-te.» Ela segurou-me o rosto com as mãos, enxugando-me as lágrimas com os polegares. «Tu és a
minha paz, Elara. Tu e o Landon. Aqueles rapazes tiveram a sua oportunidade e deitaram-na fora como tolos. Não podem simplesmente voltar e exigir nada.»
Um pequeno rangido nas escadas fez-nos virar-nos aos dois. O Landon estava ali, com o seu pijama
favorito de dinossauros, a apertar contra o peito um lobo de peluche gasto. Tinha os olhos arregalados e a
contusão na bochecha destacava-se nitidamente contra a sua pele pálida.
«Porque é que temos de nos mudar outra vez?», perguntou ele baixinho, com uma voz fraca mas firme.
«Gosto de estar aqui. Gosto da minha escola… na maior parte das vezes. E do jardim da avó. E do meu
forte na floresta.»
O meu coração partiu-se mais uma vez. Abri os braços e ele subiu diretamente para o meu colo,
enterrando o rosto no meu pescoço. Cheirava a chocolate quente que a mãe lhe tinha dado, a infância e
àquele leve traço de sangue alfa que um dia o tornaria forte.
«Ninguém se vai mudar, querido», prometi, envolvendo-o com força. A minha voz firmou-se enquanto
proferia as palavras, tirando força do seu calor. «A avó e eu estávamos apenas a falar de… velhos amigos
que talvez venham visitar-nos. Mas esta é a nossa casa. Vamos ficar mesmo aqui.»
Ele afastou-se o suficiente para olhar para mim, os seus olhos castanhos-claros — tão parecidos com os
do Ronan quando este era sincero — a procurarem os meus. «Aqueles tipos grandes no corredor… eram
os velhos amigos?»
Hesitei. Mentir parecia errado, mas a verdade era demasiado pesada para uma criança de seis anos.
«Eram pessoas do nosso passado. Pessoas que magoaram a mamã há muito tempo.»Landon franziu a pequena testa. Tocou pensativamente no hematoma na sua própria bochecha e, em
seguida, esticou o braço para enxugar uma lágrima da minha. «Então não gosto deles. Se vierem aqui
e tentarem magoar-te outra vez, vou proteger-te, mãe. Sou forte. Hoje dei uma sova ao Kit, mesmo
ele sendo maior.»
Apesar de tudo, escapou-me um riso abafado. Abracei-o com mais força, dando-lhe beijos no topo da
cabeça. «Meu pequeno lobo corajoso. Não precisas de lutar as minhas batalhas, está bem? Mas
obrigada.
Saber que estás do meu lado faz de mim a mãe mais forte do mundo.»
A mãe observava-nos com um olhar terno, um sorriso triste a desenhar-se nos seus lábios. Estendeu a
mão e apertou-me o ombro. «Vamos enfrentar isto juntos. Como uma família.»
O Landon acenou com a cabeça solenemente, encostado ao meu peito. «Sim. Juntos. Aconteça o que
acontecer.»
Capítulo 57: O ponto de vista de ElaraO processo clínico nas minhas mãos pertence a um doente que já atendi hoje.Apercebo-me disso quando já vou a meio da leitura: as notas com a minha própria letra, o plano de tratamento que registei há duas horas... depois, coloco-o sobre o balcão, apoio as duas mãos espalmadas na superfície e respiro fundo.Esta é a terceira vez esta semana que recebo o registo de saúde errado."Elara." A voz de Marcus vem da porta, muito baixa e alarmada; tem-me observado toda a semana com o cuidado específico de quem sabe que não deve fazer comentários directos. "Tem um paciente no quarto três.""Eu sei." Pego no prontuário correto. "Obrigada."Afasta-se para me deixar passar e não diz mais nada — o que é a atitude mais útil que poderia tomar e exatamente o que Marcus faz quando avalia a situação corretamente… dá-me o que preciso sem que eu tenha de pedir.Vou pa
Capítulo 56: O ponto de vista de RafeA luz da cozinha acende-se às onze e catorze.Não é a Elara... é a Mira. Reconheço pelo movimento, pelo ritmo da silhueta atrás da cortina. O Elara move-se mais rápido nas cozinhas, com mais determinação. Mira move-se como alguém que passou tempo suficiente em todas as cozinhas onde já esteve para saber onde fica tudo sem ter de olhar.Aprendi a ler a casa no escuro da mesma forma que aprendi a lê-la à luz do dia — com uma precisão que reconheço como devoção ou obsessão, e decidi que a diferença não importa agora.Onze e vinte e três. A porta dos fundos abre-se.Mira pisa a varanda.Tem vestido o seu casaco de malha grosso e roupa de dormir, com duas chávenas nas mãos, olhando para a linha das árvores com a expressão de quem está acordada há algum tempo, ocupada com coisas que não são dormir.Ela ergue uma das chávenas em direção às árvores.
Capítulo 55: O ponto de vista de Elara— Mãe. Deixou-o cair outra vez.Olho para baixo. A ficha está no chão. Não me lembro de a ter deixado cair.— Eu levo. — Agacho-me, pego no papel e levanto-me; Penda observa-me com a expressão que tem mantido durante toda a semana — não a de curiosidade de antes, mas algo mais cauteloso, o olhar de quem decidiu não perguntar por achar que não iria receber uma resposta sincera.Ela tem razão quanto a isso.— Vá fazer a sua pausa mais cedo — diz ela. — Tapo os próximos vinte minutos.— Estou bem...— Elara. — A voz dela é gentil, mas firme. — Vá sentar-se um pouco. Por favor.******A sala de descanso está vazia; Sento-me à secretária, apoio os cotovelos na superfície, pressiono as mãos contra o rosto e respiro — lentamente, da mesma forma que respirava nos primeiros meses em Silverveil, quando a doença da rejeição surgia
Capítulo 54: O ponto de vista de Ryker Chegou a hora da chamada do Kane — são sete da manhã e já estou acordado; estou de pé desde as cinco, analisando a estrutura de resposta jurídica que a Adanna enviou durante a noite, aquela que detalha o que Kane tem permissão legal para fazer em resposta à queixa que apresentei ao Conselho e o que ultrapassa o limite, configurando retaliação passível de ação. Vejo o nome dele no ecrã e deixo-o tocar duas vezes antes de atender, pois atender de imediato revelaria algo que não quero que ele saiba. "Ryker." A sua voz é agradável, daquela forma como as coisas muito perigosas são agradáveis... uma superfície suave, mas com uma pressão latente por baixo. "Recebi a queixa que enviou ao Conselho." "Eu imaginava que receberia." "É minuciosa. Tenho de admitir." Uma pausa — daquelas que não são apenas uma pausa, mas um momento de calibração. "Embora ache a descrição das ações da minha filha um pouco dramática. Uma fotografia, Ryker. Levaste o caso ao C
Capítulo 53: Ponto de vista de Ronan — Verificou o telemóvel quatro vezes nos últimos dez minutos. Levanto o olhar. Rafe está do outro lado da suite do hotel, imóvel na poltrona, a observar-me com aquela paciência específica que usa quando decide que preciso de ouvir algo que não quero ouvir. — Estou à espera da confirmação de um fornecedor — digo. — Sobre os materiais da torre de observação. — Já passaram cinco dias. Não existe pedido nenhum de materiais para torre de observação. Coloco o telemóvel em cima da mesa, com o ecrã virado para baixo, com mais força do que o necessário. — Tudo bem. Estou a verificar se ela mandou mensagem. — Eu sei. — Não precisava de me fazer dizer isso. — Acho que precisavas de dizer — diz Rafe. — Anda a fingir estar ocupado há cinco dias. Isso não está a convencer ninguém. Deixo-me cair na poltrona à sua frente, encosto a cabeça na almofada e olho para o teto. Cinco dias. Sem forte, sem formação, sem jantares, sem mensagens de boa-noite
Capítulo 52: Ponto de vista de Mira Quatro dias. Tenho contado os dias porque contar é algo que posso fazer com as mãos quando não consigo fazer nada com o resto do meu corpo. Quatro dias desde que a fotografia chegou. Quatro dias desde que Elara deixou de verificar o telemóvel abertamente e passou a verificá-lo na casa de banho, com a porta fechada — onde ela acha que não consigo ouvir o tipo específico de silêncio desapontado que se segue. Ela não mencionou Ronan, Ryker ou Rafe pelo nome nem uma única vez durante estes quatro dias. Essa é a parte que mais me preocupa. Não o silêncio em si; o silêncio compreendo, o silêncio tem as suas utilidades, o silêncio pode ser um lugar para reunir forças em vez de um lugar para se esconder. Mas a forma específica deste silêncio, a exclusão deliberada dos seus nomes do seu vocabulário, a forma como ela se refere a "a situação" ou "tudo o que aconteceu" em vez de dizer quem fez o quê... isso não é reunir forças. Isto é uma retração. Já vi es







