LOGIN«Retira o que disseste!»
O grito furioso de Landon rasgou o ar no momento em que entrei no gabinete do diretor. O meu filho
estava rígido no centro da sala, com os punhos pequenos cerrados ao lado do corpo, sangue espalhado
pelos nós dos dedos e uma contusão recente a surgir na maçã do rosto. À sua frente, um rapaz mais alto
— talvez com oito ou nove anos — estava sentado a segurar o nariz a sangrar, enquanto o pai dele,
Alpha Victor Kane, se erguia como uma nuvem de tempestade num fato caro feito à medida.
O meu coração batia com força contra as costelas enquanto corria para a frente, caindo de joelhos à
frente do Landon. «Querido, o que aconteceu?» Toquei-lhe suavemente no queixo, inclinando-lhe o rosto
na direção da luz. O hematoma já estava a escurecer. Uma fúria protetora rugia nas minhas veias, quente e
primitiva, mesmo que o meu lobo nunca tivesse despertado.
«Foi ele que começou!» Landon apontou o dedo ao outro rapaz. «O Kit chamou-me de vira-lata
inútil e sem pai. Disse que somos tão pobres que a minha mãe tem de abrir as pernas pela comida na
clínica só para me alimentar. Disse que eu nem sequer devia existir!»
As palavras atingiram-me como golpes físicos. Senti o sangue a esvair-se do meu rosto, para depois
voltar a subir numa onda ardente. Lentamente, levantei-me, virando-me para o Alfa Victor e para o
diretor Hargrove, que suava atrás da sua secretária, apesar do zumbido do ar condicionado ao fundo.
«Alpha Kane», disse eu, mantendo a voz firme, mesmo com as mãos a tremer. «O seu filho provocou o
meu com insultos cruéis e pessoais. Certamente que a escola tem câmaras ou testemunhas…»
«Sra. Voss», interrompeu o diretor Hargrove, num tom bajulador e conciliador, «foi o Kit que ficou com
o nariz partido. Foi o seu filho que deu o primeiro soco. É compreensível que o Alfa Kane esteja
chateado. Este tipo de violência não será tolerado na Academia Silverveil.»
Fiquei a olhar para ele, com uma sensação de descrença a torcer-me as entranhas. Claro. Hargrove
sempre tinha procurado ganhar o favor dos poderosos. A minha família era apenas uma mãe solteira e o
seu filho meio órfão, fáceis de ignorar.
Victor Kane deu um passo em frente, a sua aura de alfa a pairar sobre a sala como fumo espesso. Era
um homem grande, de ombros largos, com fios prateados no cabelo escuro e olhos cinzentos e frios que
me lembravam demasiado os do Ryker. «O meu filho pode ter falado sem pensar, mas a agressão física
ultrapassa os limites. O rapaz precisa de disciplina. Espero um pedido de desculpas formal do seu filho
amanhã de manhã, perante toda a turma, ou ele será expulso.»
O Landon enrijeceu ao meu lado, mas coloquei uma mão no seu ombro, apertando-o suavemente. Por
dentro, a minha mente gritava. Pedir desculpa? Por se ter defendido contra a crueldade?
«Não», disse eu com firmeza, olhando o alfa nos olhos, apesar de todos os meus instintos me dizerem
para baixar o olhar. «O Landon não vai pedir desculpa por ter reagido a um assédio deliberado. O seu
filho insultou a família dele — insultou-me — da pior maneira possível. Se alguém deve um pedido de
desculpas, é o Kit.»
A temperatura na sala pareceu baixar. Os olhos de Victor estreitaram-se, os lábios a curvarem-se num
sorriso de escárnio. «Atreves-te a falar comigo dessa maneira, ómega? Uma ninguém sem lobo, a criar
um filhote bastardo, acha que pode negociar com um alfa?»
O insulto atingiu exatamente o alvo pretendido. Senti o Landon estremecer debaixo da minha mão.
A minha própria vergonha e raiva lutavam dentro de mim, enquanto memórias de outro grupo de
alfas a olharem para mim com o mesmo desprezo, há seis anos, passavam a piscar-me pela mente.
«Sou a mãe do Landon», disse eu, com voz baixa mas firme. «E não vou ensinar o meu filho a curvar-se
e a rebaixar-se quando lhe fazem injustiça. Podemos discutir consequências adequadas para ambos os
rapazes, mas uma humilhação pública está fora de questão.»
O diretor Hargrove parecia querer que o chão o engolisse. O Victor deu mais um passo para a frente, a
sua presença sufocante. O cheiro ténue da sua matilha — metálico e cortante como sangue em aço —
encheu-me as narinas.
«Pareces esquecer-te do teu lugar, rapariga. A minha família contribuiu mais para esta matilha do que…»
Uma batida forte à porta interrompeu-o. Um beta, vestido com uniforme formal, espreitou para dentro,
com um ar nervoso. «Desculpem a interrupção, Alfa Kane, Diretor. Mas os alfas da Matilha Nightshade
chegaram para as discussões sobre a aliança. Estão à espera no salão principal e pediram uma visita
guiada às instalações.»
Nightshade.
A palavra fez-me soar um sino na cabeça. O chão inclinou-se debaixo dos meus pés. O meu estômago
começou a roncar e, durante um segundo aterrador, não consegui respirar. Nightshade. Ryker. Ronan.
Rafe. Aqui. Neste edifício. A apenas alguns corredores de distância do meu filho — do filho deles.
Não. Não, não, não.
Agarrei na mão do Landon, com a palma da mão molhada de suor repentino. «Vamos-nos embora»,
sussurrei com urgência, puxando-o na direção da porta lateral que dava para o parque de estacionamento
dos funcionários. «Agora mesmo.»
«Sra. Voss!», gritou o diretor Hargrove atrás de mim, mas eu não parei. O meu coração batia com tanta
força que conseguia ouvi-lo nos ouvidos. O Landon tropeçou ligeiramente, confuso, mas acompanhou o
meu ritmo enquanto eu
quase o arrastava pelo corredor estreito, ladeado por desenhos coloridos das crianças e vitrines com
troféus.
«Mãe, o que se passa?», perguntou ele, com voz fraca. «Porque é que estamos a correr?»
Não consegui responder. A garganta tinha-se fechado. As luzes fluorescentes no teto pareciam demasiado
brilhantes, o chão de linóleo demasiado barulhento sob os meus passos apressados. Cada sombra parecia
ser um deles.
Cada voz grave que ecoava de salas distantes fazia-me sentir um arrepio na espinha. Seis anos de paz
cuidadosamente construída desmoronaram-se num único momento.
Contornámos a esquina em direção à saída e esbarrámos de frente numa parede de músculos sólidos e
num aroma alfa avassalador.
Tropecei para trás, segurando o Landon contra mim. Três pares de olhos fixaram-se em nós. O tempo
parou.
Ryker estava no centro, mais alto e mais largo do que eu me lembrava, com o cabelo escuro cortado
curto e o queixo mais definido. O poder emanava dele em ondas, controlado mas letal. O Ronan estava
encostado à parede à sua esquerda, com aquele mesmo sorriso malicioso e encantador já a formar-se
nos lábios, embora tivesse vacilado no instante em que me reconheceu. O Rafe estava à direita,
silencioso e intenso como sempre, os seus olhos tempestuosos a arregalarem-se ligeiramente ao
deslocarem-se do meu rosto para o do Landon.
O laço de companheirismo estava adormecido, mas nunca verdadeiramente morto; despertou dentro
de mim como um fio elétrico sob tensão. Senti um calor a espalhar-se pela minha pele. O meu lobo,
silencioso há tanto tempo, agitou-se com um gemido que quase me fez cair de joelhos. Meu. Nosso.
Não. Nunca mais.
Pus-me instintivamente à frente do Landon, protegendo-o com o meu corpo, apesar de saber que era
inútil contra três predadores de topo. A minha respiração era entrecortada e superficial. Conseguia
cheirá-los, com um aroma a cedro, tempestade e uísque fumado — a combinação exata que ainda
assombrava os meus sonhos. Os seus aromas tinham mudado ligeiramente com a maturidade, tornaramse mais ricos, mais potentes, mas inconfundíveis.
«Elara», disse Ryker primeiro, a sua voz um murmúrio grave que vibrava nos meus ossos. Não era uma
pergunta. Era uma afirmação.
Levantei o queixo, forçando-me a manter a coluna firme, mesmo com os joelhos a ameaçarem ceder.
«Não», avisei, com a voz a falhar. «Não te atrevas a dizer o meu nome.»
Ronan afastou-se da parede, os olhos a alternarem entre mim e o Landon com intensidade crescente.
«Pequena ómega… tens-te andado a esconder.»
O Rafe não disse nada, mas o seu olhar fixava-se no Landon com uma concentração de laser. Vi o
momento exato em que o cálculo deu lugar à compreensão — o ligeiro dilatar das narinas, a forma
como as mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo.
O Landon espreitou por cima de mim, curioso apesar da tensão. «Mãe? Quem são estes tipos?»
A pergunta pairou no ar como uma guilhotina. Senti a atenção dos trigémeos aguçar-se, o ar a tornarse denso com a sua dominância combinada. O peito doía-me. O laço parcial puxava e torcia-se,
sussurrando coisas traiçoeiras sobre a plenitude, sobre o pertencer, sobre a família que poderíamos ter
sido.
Queria gritar.
Em vez disso, apertei com mais força a mão do Landon e dei um passo cauteloso para trás. «Ninguém de
importante», menti, com a voz pouco mais do que um sussurro. «Vamos-nos embora.»
O Ryker moveu-se primeiro, um único passo que o aproximou, os olhos dele sem nunca se desviarem
dos meus. Havia choque ali, sim, mas algo mais sombrio por baixo: fome, arrependimento, possessão.
Todas as coisas que outrora tinha rezado para ver e que agora temia mais do que a morte
Não vais a lado nenhum», disse ele baixinho. O tom de comando na sua voz era subtil, mas
inconfundível. Alfa. «Não até conversarmos.»
O sorriso de Ronan tinha desaparecido por completo, substituído por algo cru e inquieto. Rafe ainda não
tinha falado, mas mudou de posição, bloqueando subtilmente o corredor como uma sentinela silenciosa.
A minha mente disparou. A saída ficava atrás deles. As portas laterais estavam demasiado longe. O
diretor Hargrove e o Alfa Victor iriam chegar por ali a qualquer momento. Estava presa entre o meu
passado e o meu presente, com o meu maior segredo ao meu lado, a segurar-me a mão.
As lágrimas ardiam-me nos cantos dos olhos, mas recusei-me a deixá-las cair. Não na frente deles.
Nunca mais na frente deles.
Há seis anos, tinham-me destruído naquela casa de campo.
Não os deixaria destruir o meu filho.
Capítulo 57: O ponto de vista de ElaraO processo clínico nas minhas mãos pertence a um doente que já atendi hoje.Apercebo-me disso quando já vou a meio da leitura: as notas com a minha própria letra, o plano de tratamento que registei há duas horas... depois, coloco-o sobre o balcão, apoio as duas mãos espalmadas na superfície e respiro fundo.Esta é a terceira vez esta semana que recebo o registo de saúde errado."Elara." A voz de Marcus vem da porta, muito baixa e alarmada; tem-me observado toda a semana com o cuidado específico de quem sabe que não deve fazer comentários directos. "Tem um paciente no quarto três.""Eu sei." Pego no prontuário correto. "Obrigada."Afasta-se para me deixar passar e não diz mais nada — o que é a atitude mais útil que poderia tomar e exatamente o que Marcus faz quando avalia a situação corretamente… dá-me o que preciso sem que eu tenha de pedir.Vou pa
Capítulo 56: O ponto de vista de RafeA luz da cozinha acende-se às onze e catorze.Não é a Elara... é a Mira. Reconheço pelo movimento, pelo ritmo da silhueta atrás da cortina. O Elara move-se mais rápido nas cozinhas, com mais determinação. Mira move-se como alguém que passou tempo suficiente em todas as cozinhas onde já esteve para saber onde fica tudo sem ter de olhar.Aprendi a ler a casa no escuro da mesma forma que aprendi a lê-la à luz do dia — com uma precisão que reconheço como devoção ou obsessão, e decidi que a diferença não importa agora.Onze e vinte e três. A porta dos fundos abre-se.Mira pisa a varanda.Tem vestido o seu casaco de malha grosso e roupa de dormir, com duas chávenas nas mãos, olhando para a linha das árvores com a expressão de quem está acordada há algum tempo, ocupada com coisas que não são dormir.Ela ergue uma das chávenas em direção às árvores.
Capítulo 55: O ponto de vista de Elara— Mãe. Deixou-o cair outra vez.Olho para baixo. A ficha está no chão. Não me lembro de a ter deixado cair.— Eu levo. — Agacho-me, pego no papel e levanto-me; Penda observa-me com a expressão que tem mantido durante toda a semana — não a de curiosidade de antes, mas algo mais cauteloso, o olhar de quem decidiu não perguntar por achar que não iria receber uma resposta sincera.Ela tem razão quanto a isso.— Vá fazer a sua pausa mais cedo — diz ela. — Tapo os próximos vinte minutos.— Estou bem...— Elara. — A voz dela é gentil, mas firme. — Vá sentar-se um pouco. Por favor.******A sala de descanso está vazia; Sento-me à secretária, apoio os cotovelos na superfície, pressiono as mãos contra o rosto e respiro — lentamente, da mesma forma que respirava nos primeiros meses em Silverveil, quando a doença da rejeição surgia
Capítulo 54: O ponto de vista de Ryker Chegou a hora da chamada do Kane — são sete da manhã e já estou acordado; estou de pé desde as cinco, analisando a estrutura de resposta jurídica que a Adanna enviou durante a noite, aquela que detalha o que Kane tem permissão legal para fazer em resposta à queixa que apresentei ao Conselho e o que ultrapassa o limite, configurando retaliação passível de ação. Vejo o nome dele no ecrã e deixo-o tocar duas vezes antes de atender, pois atender de imediato revelaria algo que não quero que ele saiba. "Ryker." A sua voz é agradável, daquela forma como as coisas muito perigosas são agradáveis... uma superfície suave, mas com uma pressão latente por baixo. "Recebi a queixa que enviou ao Conselho." "Eu imaginava que receberia." "É minuciosa. Tenho de admitir." Uma pausa — daquelas que não são apenas uma pausa, mas um momento de calibração. "Embora ache a descrição das ações da minha filha um pouco dramática. Uma fotografia, Ryker. Levaste o caso ao C
Capítulo 53: Ponto de vista de Ronan — Verificou o telemóvel quatro vezes nos últimos dez minutos. Levanto o olhar. Rafe está do outro lado da suite do hotel, imóvel na poltrona, a observar-me com aquela paciência específica que usa quando decide que preciso de ouvir algo que não quero ouvir. — Estou à espera da confirmação de um fornecedor — digo. — Sobre os materiais da torre de observação. — Já passaram cinco dias. Não existe pedido nenhum de materiais para torre de observação. Coloco o telemóvel em cima da mesa, com o ecrã virado para baixo, com mais força do que o necessário. — Tudo bem. Estou a verificar se ela mandou mensagem. — Eu sei. — Não precisava de me fazer dizer isso. — Acho que precisavas de dizer — diz Rafe. — Anda a fingir estar ocupado há cinco dias. Isso não está a convencer ninguém. Deixo-me cair na poltrona à sua frente, encosto a cabeça na almofada e olho para o teto. Cinco dias. Sem forte, sem formação, sem jantares, sem mensagens de boa-noite
Capítulo 52: Ponto de vista de Mira Quatro dias. Tenho contado os dias porque contar é algo que posso fazer com as mãos quando não consigo fazer nada com o resto do meu corpo. Quatro dias desde que a fotografia chegou. Quatro dias desde que Elara deixou de verificar o telemóvel abertamente e passou a verificá-lo na casa de banho, com a porta fechada — onde ela acha que não consigo ouvir o tipo específico de silêncio desapontado que se segue. Ela não mencionou Ronan, Ryker ou Rafe pelo nome nem uma única vez durante estes quatro dias. Essa é a parte que mais me preocupa. Não o silêncio em si; o silêncio compreendo, o silêncio tem as suas utilidades, o silêncio pode ser um lugar para reunir forças em vez de um lugar para se esconder. Mas a forma específica deste silêncio, a exclusão deliberada dos seus nomes do seu vocabulário, a forma como ela se refere a "a situação" ou "tudo o que aconteceu" em vez de dizer quem fez o quê... isso não é reunir forças. Isto é uma retração. Já vi es







