LOGINClara chegou no fim da tarde.Adrian estava esperando na entrada.Não no portão.Não ao lado do carro.Dentro da casa.Ela percebeu isso antes mesmo de desligar o motor.Nenhuma equipe adicional.Nenhum exagero.Nenhuma recepção grandiosa.Só Adrian.De pé perto da porta.Esperando.Clara sorriu.Quando saiu do carro, ele não correu na direção dela.Também não ficou parado demais.Encontrou um meio-termo.— Oi.— Oi.Ele pegou a mala.— Posso?Clara entregou.— Pode.— Viagem tranquila?— Sim.— Cansada?— Bastante.— Com fome?Ela começou a rir.— Você treinou perguntas neutras?— Passei a semana inteira.Clara beijou-o.Sem aviso.Adrian ficou imóvel por meio segundo.Depois segurou sua cintura.O beijo demorou.Quando se afastaram, Clara encostou a testa na dele.— Eu senti sua falta.— Também senti.— Muito.— Muito.Clara sorriu.— Melhor você admitir.— Eu estava considerando fingir dignidade.— Não combina.Entraram.Clara percebeu pequenas coisas.Nenhuma mudança grande.O vas
Clara chegou ao hotel pouco depois das sete da noite.O primeiro dia tinha sido mais cansativo do que esperava.Não pelo trabalho.Pelo ritmo.Reuniões longas.Apresentações.Discussões técnicas.Gente nova tentando entender um modelo que ela já conhecia por dentro.Quando entrou no quarto, largou a bolsa sobre a poltrona e tirou os sapatos.Silêncio.Muito silêncio.Clara ficou parada alguns segundos.Então olhou para o telefone.Nenhuma mensagem de Adrian.Ela franziu a testa.Ele sabia que ela chegaria naquele horário.Sabia que o dia seria longo.E nada.Clara colocou o celular sobre a cama.— Ótimo.Foi tomar banho.Quando saiu, havia uma mensagem.“Imagino que esteja chegando agora. Não quis atrapalhar. Me avisa quando tiver energia.”Clara ficou olhando.Sentiu a irritação desaparecer tão rápido que ficou com raiva de si mesma.Digitou:“Cheguei.”A resposta veio pouco depois.“Como foi?”Ela pensou em responder “bem”.Não queria.“Cansativo.”Adrian ligou.Clara atendeu.— Oi.
Clara recebeu o convite às dez e vinte da manhã.Helena entrou na sala com uma pasta fina.— Tenho uma proposta.Clara levantou os olhos.— Isso costuma vir acompanhado de trabalho extra.— Desta vez, sim.— Imaginei.Helena sentou.— O grupo que está desenvolvendo o protocolo nacional de acompanhamento integrado quer alguém da clínica participando de uma etapa presencial.Clara ficou atenta.— Quanto tempo?— Três semanas.— Onde?Helena disse a cidade.Clara imediatamente pensou em distância.Agenda.Gravidez.Adrian.O bebê.E se irritou consigo mesma por o nome dele ter aparecido tão rápido.Helena percebeu.— Não precisa responder hoje.— O que exatamente seria?— Revisão de protocolo, treinamento de equipes e desenho de indicadores.Clara abriu a pasta.— Quantos dias presenciais?— Segunda a quinta.— E sexta?— Remoto.— Então eu poderia voltar nos fins de semana.— Sim.Clara continuou lendo.Era bom.Muito bom.Não apenas para o currículo.Para o trabalho que estava construi
Clara saiu da clínica às seis e vinte.Adrian estava encostado no carro.Sem motorista.Sem segurança ao lado.Sem terno.Ela diminuiu o passo.— O que você está fazendo aqui?— Sequestro consensual.Clara ergueu uma sobrancelha.— Isso não faz sentido.— Você pode recusar.— Então é um convite.— Menos interessante.Ela sorriu.— Para onde?— Jantar.— Tenho roupa de trabalho.— Eu também já fui a restaurantes com gente vestida.— Impressionante.Adrian abriu a porta para ela.Clara entrou.— Você pediu autorização para a equipe de segurança?— Avisei que sairíamos.— “Sairíamos”?— Eu disse que você decidiria a rota depois que entrasse no carro.Clara virou o rosto.— Está aprendendo mesmo.— Eu tenho medo de avaliações negativas.Ela riu.O restaurante ficava longe dos lugares que costumavam frequentar durante o casamento.Pequeno.Discreto.Nenhum salão privado.Nenhuma reserva em nome Montenegro.Clara percebeu imediatamente.— Você escolheu isso de propósito.Adrian fingiu inocê
Clara percebeu que estava olhando para Adrian quando ele perguntou:— O quê?Ela piscou.— Nada.— Você está me encarando há uns trinta segundos.— Exagerado.— Vinte e oito, então.Clara sorriu.Estavam no quarto do bebê, sentados no chão, comparando dois orçamentos de pintura que já tinham lido tantas vezes que provavelmente sabiam de cor.Adrian estava com as mangas da camisa dobradas.Sem paletó.Sem telefone na mão.Sem reunião.Sem expressão preocupada.Só ele.Clara sentiu uma coisa estranha no peito.Familiar.Antiga.Mas diferente.— O que foi? — perguntou ele novamente.Ela apoiou a folha sobre o joelho.— Acho que estou cansada de falar de problema.Adrian ficou atento.— Quer parar?— Quero.Ele largou o próprio orçamento imediatamente.— Então paramos.Clara olhou.— Assim?— Assim.— Sem terminar de decidir o fornecedor?— Ele sobreviverá até amanhã.Ela sorriu.— Impressionante.— Estou amadurecendo.— Devagar.— Cruel.Desceram.Clara esperava que Adrian abrisse o comp
A reunião foi marcada para as nove.Clara chegou cinco minutos antes.Helena já estava na sala.Marta Vasconcelos também.Teresa, responsável pela parte jurídica da clínica, organizava alguns documentos no outro lado da mesa.Sérgio entrou por último.Sem atraso.Sem pasta.Sem o telefone na mão.Clara percebeu que ele sabia.A decisão estava pronta.Ninguém o tinha convocado para discutir mais fatos.Aquilo era encerramento.Sérgio sentou.— Podemos começar.Marta assentiu.— Vamos.Teresa abriu a reunião.— A apuração interna foi concluída ontem às dezoito horas.Sérgio permaneceu imóvel.Clara também.— A investigação analisou e-mails, mensagens corporativas, registros de acesso, depoimentos, anotações de Camila Duarte e as comunicações vinculadas ao levantamento extraordinário solicitado antes da reunião executiva.Teresa colocou uma página sobre a mesa.— A conclusão foi dividida em três pontos.Sérgio assentiu.— Primeiro: não há evidência suficiente para afirmar que você ordeno







