LOGINQuando ele disse que adiaríamos o casamento civil, eu ainda segurava a colher de sopa. — Vamos deixar para a próxima. Alexandre Machado pousou os talheres com a mesma naturalidade de quem apenas comentava que o dia estava bonito. Tomei uma colherada de sopa, dei uma mordida no pão e continuei comendo em silêncio. — Tudo bem. Ele me lançou um olhar, baixou a cabeça para se servir e estendeu os talheres em direção à travessa. Depois, tornou a olhar para mim. — Você não está brava? Comi mais um pouco de sopa e respondi com tranquilidade: — Não estou. Já fazia seis meses desde a cerimônia de casamento, e aquela era a décima sétima vez que adiávamos o casamento civil. Ele já estava acostumado com aquilo. Eu também. Comi devagar, sem pressa, e terminei a sopa aos poucos. Ele não voltou a tocar nos talheres. Depois da última colherada, me levantei para recolher tudo. Quando passei ao lado dele, Alexandre segurou meu pulso. — Margarida, segunda-feira que vem. Na próxima semana estarei livre, pode confiar. Afinal, nós já fizemos a cerimônia, então alguns dias não fazem diferença. Pode ficar tranquila, desta vez eu não vou faltar. Baixei os olhos para a mão dele, depois ergui o rosto e sorri. — Tudo bem. Nos últimos seis meses, ele disse "na semana que vem" nove vezes, "com certeza" treze e "pode ficar tranquila" dezesseis. Mesmo assim, nunca chegamos a assinar os papéis do casamento civil. E também não íamos assinar na semana seguinte, porque, desta vez, quem faltaria ao compromisso seria eu.
View MoreNão respondi.— Eu sei que nada do que eu disser agora vai adiantar. — Ele enxugou as lágrimas com a mão. — Mas eu realmente mudei. Transferi Alice para outro lugar e cortei todo e qualquer contato com ela. Todos os dias, meus pensamentos acabam voltando para você. Penso se você está se alimentando bem, se está dormindo direito, como está o seu trabalho. Tenho vontade de ligar, mas fico com medo de incomodar. Tenho vontade de ver você, mas receio que a minha presença a irrite.Ele ergueu a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos.— Mas eu não aguento mais. Eu não sei viver sem você.Olhei nos olhos dele. Havia medo, súplica, sinceridade e culpa.— Mas eu já não amo você.Um silêncio sepulcral tomou conta do apartamento.Muito tempo depois, ele falou, com a voz rouca e áspera:— Eu... Não tenho mais nenhuma chance?Não respondi.Ele sustentou meu olhar, como se tentasse encontrar nele uma resposta. Por fim, baixou a cabeça e terminou de comer o macarrão.Pousou os talheres e se levantou.—
Ergui a cabeça.— Mas, naquele dia, foi só isso que você disse.Ele ficou atônito.— Você não disse que queria se casar comigo.A expressão dele mudou de imediato.— Você disse que me protegeria por toda a vida e que me amaria para sempre. Disse muitas coisas, mas não disse: "Quero me casar com você". — Retirei minha mão da dele. — Na época, não dei importância. Achei que você estivesse nervoso e tivesse se esquecido. Mas depois comecei a pensar que talvez você nunca tivesse sequer cogitado se casar comigo.— Eu cogitei! — A voz dele se elevou de repente. — Eu queria! Passei tanto tempo preparando tudo para nós...— Então, por que você não foi ao cartório oficializar nosso casamento civil?Ele abriu a boca, mas não conseguiu responder.— Porque, para você, eu já fazia parte da sua vida. Oficializar ou não o casamento civil não mudaria isso. Mas você se esqueceu de que, perante a lei, nós não somos marido e mulher.O rosto dele perdeu toda a cor.— Alexandre, volte para casa.Me virei e
Meu francês estava cada vez mais fluente, e eu me sentia cada vez mais à vontade no trabalho.Pierre disse que, na primavera do ano seguinte, me deixaria assumir um caso sozinha.Naquela noite, depois de trabalhar até mais tarde, voltei para o apartamento e avistei uma silhueta familiar diante do prédio.Envolto em um sobretudo preto, ele estava parado sob a luz de um poste, segurando um buquê.Assim que me viu, se apressou em minha direção.— Margarida.Era ele: Alexandre. Estava tão magro que parecia outra pessoa. Seus olhos estavam fundos, as maçãs do rosto salientes e os lábios ressecados, como se não comesse nem dormisse direito havia um mês.Fiquei parada onde estava.— O que você está fazendo aqui?— Vim procurar você. — Respondeu, com a voz rouca. — Não consegui esperar mais.— Esperar o quê?— Você voltar. — Disse ele. — Mas você não responde às minhas mensagens nem atende às minhas ligações. Não tive outra escolha senão vir atrás de você.Olhei para as flores em suas mãos. Er
— Margarida!— Alexandre, me deixe em paz. — Encerrei a ligação e desliguei o celular.O colega que viera me buscar correu até mim, se desculpando em francês pelo atraso.Sorri e balancei a cabeça, o seguindo para fora do terminal.A noite em Paris era mais fria do que em meu país, e o vento trazia consigo um aroma desconhecido.Respirei fundo, como se pudesse deixar para trás aqueles cinco anos.Um mês depois, em um pequeno estabelecimento chamado Café de Lumière, perto do 9º arrondissement de Paris. Eu estava sentada junto à janela, com um croissant e um latte diante de mim.Do lado de fora, os pedestres caminhavam apressados pela rua. Alguns passeavam com seus cães, outros empurravam carrinhos de bebê, e havia ainda quem parasse diante das bancas de livros na calçada.— Margarida?Ergui os olhos. Um francês loiro, de olhos azuis, estava parado diante da mesa, com um documento nas mãos.— Pierre. — Cumprimentei em francês fluente, enquanto me levantava. — Pode se sentar, por favor.P












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