FAZER LOGINA chuva começou antes do amanhecer. Lívia observava as gotas escorrerem pela janela enquanto segurava Aurora nos braços. Não conseguira dormir. A frase daquele homem continuava martelando em sua cabeça.
A descendente dos Caçadores está aqui.
Durante trinta e dois anos, acreditara conhecer sua própria história. Agora, tudo parecia uma mentira. Sua mãe. Seu pai. A pequena cicatriz em seu pulso. A caixa escondida no antigo armário. Nada parecia ser uma coincidência.
— Vamos descobrir a verdade — sussurrou para Aurora.
A menina abriu os olhos dourados. Lívia sorriu.
— Nós duas.
Atrás dela, uma voz masculina respondeu:
— Não vão sozinhas.
Lívia se virou. Dante estava parado junto à porta.
— Você não dorme?
— Não quando minha filha está em perigo.
Lívia ficou em silêncio. Ainda era estranho ouvi-lo dizer aquelas palavras. Minha filha. Dante se aproximou.
— Está pronta?
— Não.
— Ótimo.
Ela franziu a testa.
— Ótimo?
— Pessoas que acreditam estar preparadas geralmente não percebem os perigos.
Lívia quase sorriu.
— Você sempre fala desse jeito?
— Desse jeito como?
— Como se estivesse dando ordens.
— Normalmente funciona.
— Comigo não.
Dante sustentou o olhar dela.
— Eu já percebi.
***
Horas depois, os três chegaram à antiga casa onde Lívia havia crescido. O lugar estava exatamente como ela se lembrava. Pequeno. Silencioso. Cercado por árvores. Mas havia alguma coisa diferente. Dante parou assim que desceu do carro. Seu olhar percorreu a propriedade.
— O que foi? — perguntou Lívia.
— Nada.
Era mentira. Ele sentira um cheiro. Fraco. Antigo. Mas familiar. Sangue de lobo. Lívia abriu a porta. Tudo estava coberto por uma fina camada de poeira. Ela entrou devagar. As lembranças vieram de uma vez. O sofá onde assistia televisão com a mãe. A mesa onde fazia os deveres. A cozinha onde sua mãe preparava o café todas as manhãs. Por um momento, sentiu vontade de chorar.
— Minha mãe nunca deixou ninguém mexer nas coisas dela.
Dante observou o ambiente.
— Onde ficava o quarto dela?
— No andar de cima.
Subiram. O quarto permanecia intacto. Lívia abriu o antigo armário. As roupas ainda estavam lá. Ela afastou alguns vestidos. Nada.
— Não está aqui.
Dante aproximou-se.
— Procure melhor.
— Eu procurei durante anos.
— Você procurou como filha.
Lívia o encarou.
— E como deveria procurar?
— Como alguém que está tentando esconder um segredo.
Ela ficou em silêncio. Começou a observar o armário. As divisórias. As gavetas. As paredes. Então percebeu algo. Uma pequena diferença na madeira.
— Aqui.
Dante se aproximou. Lívia passou os dedos pela parte interna do armário. Havia uma pequena abertura. Ela pressionou. Um compartimento secreto se abriu. Dentro dele estava uma caixa. A mesma caixa que vira tantas vezes na infância. Lívia segurou a respiração.
— É ela.
Dante observou. A caixa era feita de madeira escura e tinha o mesmo símbolo da marca em seu pulso gravado na tampa. Ele ficou sério.
— Não toque ainda.
Lívia parou.
— Por quê?
— Porque não sabemos o que existe dentro.
— É uma caixa, Dante.
— E você não é apenas uma mulher comum.
Ela o encarou.
— Ainda não sabemos disso.
Dante respondeu calmamente:
— Eu sei.
Lívia abriu a caixa. Dentro havia três objetos. Uma fotografia antiga. Um medalhão. E um envelope. Ela pegou a fotografia primeiro. Era sua mãe. Mas não estava sozinha. Ao lado dela havia um homem que Lívia nunca tinha visto. E atrás dos dois havia várias pessoas vestidas de preto. No centro da fotografia, estava o símbolo dos Caçadores. Lívia sentiu as mãos tremerem.
— Quem são essas pessoas?
Dante pegou a fotografia. Seu olhar mudou imediatamente.
— Onde encontrou isso?
— Estava aqui.
Ele virou a fotografia. No verso havia uma data. 1978. E uma frase escrita à mão:
"Se minha filha algum dia encontrar esta fotografia, significa que eles voltaram."
Lívia sentiu o sangue gelar.
— Minha mãe sabia que isso aconteceria?
Dante não respondeu.
Ela pegou o envelope. Seu nome estava escrito nele. Lívia. As mãos dela tremiam.
— É para mim.
— Abra.
Ela rompeu o selo. Dentro havia apenas uma folha. Lívia começou a ler. A primeira frase fez seu coração parar.
"Minha filha, se você está lendo isto, significa que eu falhei em manter você longe deles."
Ela levou a mão à boca. Continuou.
"Você cresceu acreditando que era uma mulher comum. Eu fiz isso para protegê-la."
Lívia olhou para Dante. Ele permanecia imóvel.
Ela voltou ao texto.
"Seu pai não morreu em um acidente."
O mundo pareceu desaparecer.
— Não...
Dante percebeu sua expressão.
— Lívia.
Ela continuou lendo.
"Seu pai era um Caçador."
As lágrimas começaram a cair.
— Minha mãe mentiu para mim...
Dante se aproximou.
— Ela tentou mantê-la viva.
Lívia levantou os olhos.
— Como você sabe?
Ele não respondeu. Porque havia algo ainda mais importante. A última frase da carta. Lívia leu em voz alta:
— "Se um dia um Alfa descobrir quem você é, não confie nele."
O silêncio tomou conta do quarto. Devagar, Lívia levantou os olhos para Dante. Ele não se mexeu.
— Sua mãe sabia que isso poderia acontecer — disse ele.
— Ela sabia que eu encontraria um Alfa?
— Talvez.
— E disse para eu não confiar em você.
Dante sustentou o olhar dela.
— Então não confie.
Lívia franziu a testa.
— O quê?
— Não confie em mim cegamente.
Ele devolveu a carta.
— Descubra a verdade primeiro.
Antes que Lívia pudesse responder, Aurora começou a chorar no andar de baixo. Ela correu. Dante foi atrás.
Quando chegaram ao quarto, encontraram algo impossível. O medalhão que estava dentro da caixa havia sido deixado sobre a menina. Ninguém o colocara ali. Lívia pegou o objeto. No instante em que seus dedos tocaram o medalhão, Aurora parou de chorar. E seus olhos dourados começaram a brilhar.
Dante sentiu seu lobo despertar violentamente. Então ouviu uma voz dentro da própria mente. Não era seu lobo. Era algo mais antigo. Mais profundo. Uma lembrança que não era dele.
"O sangue do Caçador e o sangue do Alfa gerarão a criança capaz de unir os dois mundos."
Dante ficou pálido. Lívia percebeu.
— O que aconteceu?
Ele olhou para Aurora. Depois para Lívia. E finalmente para o medalhão.
— Sua mãe sabia.
— Sabia o quê?
Dante levantou os olhos.
— Que você e minha filha estavam destinadas a se encontrar.
Lívia balançou a cabeça.
— Isso não faz sentido.
Dante se aproximou lentamente.
— Ainda não.
Então um ruído veio da janela. Os dois olharam. Uma flecha atravessou o vidro e se cravou na parede. Preso à flecha havia um pequeno pedaço de papel. Dante o retirou. Leu. Seu rosto ficou sombrio. Lívia percebeu.
— O que está escrito?
Dante entregou o papel. Havia apenas uma frase:
"Entregue a descendente dos Caçadores ou Aurora será a primeira a morrer."
Lívia sentiu o mundo desabar. Dante fechou a mão. Seu lobo rugiu. Dessa vez, não havia espaço para dúvidas. A guerra havia começado.
De volta à cidade, Elara acordou durante a madrugada.Sentou-se na cama.Sentia alguém chamando por ela.Não era Aurora.Não era Lyra.Não era Lívia.Era outra coisa.Uma presença.Ela levantou-se e caminhou até a janela.No vidro apareceu lentamente uma marca negra.Elara tocou.Uma voz sussurrou:— Você não deveria ter sobrevivido.Elara recuou.— Quem está aí?A voz respondeu:— Aquele que nasceu antes de vocês.Elara ficou imóvel.— Antes?A marca desapareceu.Então outra frase apareceu no vidro:“A quarta herdeira não é uma criança.”Elara arregalou os olhos.— Então quem é?Nenhuma resposta.Apenas uma última palavra surgiu no vidro.“Procure.”Elara correu até a porta.Mas antes que pudesse sair, Aurora apareceu no corredor.— Elara?Lyra veio logo atrás.— O que aconteceu?Elara olhou para as duas.Seu rosto estava pálido.— Nós não somos as primeiras.Lyra ficou imóvel.— O que você quer dizer?Elara apontou para a janela.A marca negra havia desaparecido.— Existe alguém ant
Três meses haviam se passado desde a abertura do Santuário Original.Pela primeira vez em muitos anos, a cidade dos Caçadores estava em paz.Os muros haviam sido reconstruídos.As antigas diferenças entre lobos e humanos começavam, lentamente, a desaparecer.E, no centro de tudo, três meninas cresciam juntas.Aurora.Lyra.E Elara.Elara.Esse havia sido o nome escolhido pela própria menina.Um nome que, segundo Gabriel, significava algo próximo de luz e mistério.Ela gostava.Talvez porque sua vida inteira tivesse sido cercada pelos dois.Mistério.E escuridão.Agora, porém, ela finalmente tinha uma família.***Lívia observava as três brincando no jardim.Aurora corria atrás de Lyra, enquanto Elara permanecia alguns passos atrás, rindo.Era estranho pensar que, meses antes, nenhuma delas sabia da existência das outras.Aurora crescera acreditando que era filha única.Lyra passara anos acreditando que estava sozinha.E Elara sequer possuía um nome.Agora eram inseparáveis.Dante apro
As meninas se olharam.— Aurora — disse Lyra.— Lyra — respondeu Aurora.A terceira menina respirou fundo.— Eu não quero perder nenhuma de vocês.Lívia se ajoelhou diante delas.— Então não escolham entre vocês.As três olharam para ela.— Escolham umas às outras.Dante percebeu primeiro.— Lívia...Ela se levantou.— A magia quer que elas escolham um lado.Gabriel assentiu.— Porque é assim que a guerra continua.Lívia segurou as mãos das três.— Então elas não vão escolher um lado.Os três símbolos começaram a se unir.Serena recuou.— Não!Uma enorme luz tomou o templo.Lyra gritou.Aurora fechou os olhos.A terceira menina segurou as mãos das irmãs.A energia percorreu o templo.As correntes de Gabriel começaram a desaparecer.A marca da Lua Negra que estava gravada nas paredes começou a rachar.Serena caiu de joelhos.— Vocês não entendem!Lívia respondeu:— Talvez não.Olhou para as três meninas.— Mas entendemos que ninguém deve ser obrigado a escolher entre aqueles que ama.*
A porta se abriu completamente.Do outro lado não havia apenas escuridão.Havia silêncio.Um silêncio tão profundo que parecia engolir até mesmo o som da respiração.Lívia permaneceu parada diante da entrada.A voz de seu pai ainda ecoava em sua mente.“Se você abrir essa porta, a guerra que começou há vinte anos finalmente terminará.”Ela olhou para Aurora.Depois para Lyra.E finalmente para a terceira menina.As três estavam juntas.Pela primeira vez.Depois de tantos anos de separação.— Eu vou entrar — disse Lívia.Dante segurou sua mão.— Então eu vou com você.Lívia olhou para ele.— Pode ser perigoso.— Depois de tudo que enfrentamos, você realmente acha que vou deixar você entrar sozinha?Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.— Não.Dante apertou sua mão.— Nunca.As três meninas atravessaram a porta.E a escuridão as envolveu.***Quando Lívia abriu os olhos, não estava mais na montanha.Estava em um lugar impossível.O céu era prateado.Não havia sol.Nem lua.Ao redor
Do lado de fora, uma voz ecoou.— Helena!Ela fechou os olhos.— Eles chegaram.A voz continuou:— Entregue as crianças e ninguém precisará morrer.Dante respondeu:— Venha buscá-las.Um silêncio.Então uma mulher entrou na caverna.Ela usava um longo manto negro.No pescoço carregava um símbolo de lua.Seus olhos estavam fixos na terceira herdeira.A menina recuou.— Não...A mulher sorriu.— Minha pequena.— Não chega perto de mim.— Depois de tantos anos, ainda tem medo?Lívia se colocou entre as duas.— Quem é você?A mulher olhou para ela.— Você deve ser Lívia.— Como sabe meu nome?— Eu conheci seu pai.Lívia ficou imóvel.— Quem é você?A mulher sorriu.— Meu nome é Serena.Clara deu um passo para trás.— Serena Valen...Dante olhou para Clara.— Você conhece esse nome?Clara respondeu:— Todos acreditavam que ela estava morta.Serena riu.— Todos acreditavam errado.***Lívia não tirava os olhos dela.— O que você quer?Serena respondeu:— Quero recuperar aquilo que pertence
A risada ecoou pela caverna.Lenta.Baixa.Assustadoramente tranquila.A terceira herdeira apertou a mão de Lívia.— É ela.Lívia olhou para a passagem.— Quem?A menina engoliu em seco.— A mulher que me criou.Dante levantou a espada.— Todos para trás.Rafael posicionou-se ao lado dele.Lyra puxou Aurora para perto.Elias permaneceu imóvel.Clara, porém, parecia ter visto um fantasma.— Não...Lívia olhou para a mãe.— Você conhece essa mulher.Clara não respondeu.— Mãe!— Conheço.A voz de Clara saiu quase sem força.— Quem é ela?Clara respirou fundo.— Helena.Todos olharam para a mulher que estava atrás deles.A mesma Helena que os havia recebido na cidade.A mesma mulher que havia dito esperar pelas três herdeiras durante vinte anos.Lívia virou-se lentamente.— Helena?A mulher não respondeu.Apenas fechou os olhos.Quando os abriu novamente, não havia mais medo em seu rosto.Havia determinação.— Eu sinto muito.Dante avançou.— Você nos enganou.Helena recuou.— Eu precisa







