LOGINEu nunca tinha imaginado que uma ida rápida à loja de conveniência poderia se transformar em uma das noites mais importantes da minha vida.
Na verdade, eu só queria comprar alguma coisa para comer. Yuki tinha outras prioridades. Ela queria explorar o mundo. Ou, pelo menos, explorar a calçada em frente ao meu prédio. Coloquei a coleirinha nela pela primeira vez naquela noite, tomando cuidado para não apertar demais. Yuki ficou parada por alguns segundos, olhando para mim com uma expressão de profunda indignação. — Não faz essa cara. Ela miou. — É só uma voltinha. Outro miado. — Você está muito dramática. Ela tentou morder a coleira. — Yuki! Peguei-a no colo. — Você não pode comer a própria coleira. Ela me encarou. — E não adianta fazer essa cara. Eu sei que você está brava comigo. Saímos do apartamento pouco depois. O ar da noite estava fresco. Yuki caminhava ao meu lado, ainda um pouco desajeitada com a coleira, parando a cada poucos passos para cheirar alguma coisa que, provavelmente, não tinha o menor interesse. Eu ria sozinha. — Você nunca saiu daqui, não é? Ela olhou para mim. — Eu também não sou muito aventureira. Continuamos andando até a loja de conveniência. Quando chegamos, Yuki imediatamente tentou entrar. Segurei a guia. — Não. Ela tentou novamente. — Yuki. Ela me olhou. — A loja não deixa animais entrarem. Ela sentou. — Não adianta me olhar assim. Entrei apenas alguns passos, mas logo percebi que não conseguiria deixá-la sozinha do lado de fora. Então voltei. — Vamos esperar aqui. Yuki se acomodou perto dos meus pés. Sentei em uma das mesas externas, segurando a guia enquanto ela observava o movimento da rua. Eu estava prestes a pegar o celular quando ouvi uma voz. — Você e sua companhia estão tendo problemas? Levantei os olhos. Meu coração fez aquela coisa irritante que vinha fazendo com frequência demais ultimamente. Ian. Ele estava parado na minha frente, com as mãos nos bolsos da calça e aquele sorriso discreto que parecia aparecer sempre que me encontrava desprevenida. Olhei para Yuki. Depois para ele. — Ela quer entrar. Ian olhou para a porta da loja. — E não pode. — Não. — Então vocês estão presas aqui fora. — Exatamente. Ele se abaixou devagar diante de Yuki. — Oi. Yuki inclinou a cabeça. Ian estendeu a mão para ela cheirar. — Posso? — Ela não morde. — Isso não foi o que perguntei. Sorri. — Pode. Ele passou os dedos delicadamente sobre a cabeça dela. Yuki imediatamente começou a ronronar. Fiquei olhando. — Traidora. Ian riu. — Ela parece gostar de mim. — Ela gosta de qualquer pessoa que faça carinho nela. — Então não é especial? — Não se empolga. Ele continuou acariciando Yuki. — Qual é o nome dela? — Yuki. Ele olhou para mim. — Yuki? — Significa neve. — Combina. Olhei para a gatinha. — Eu achei que combinava com ela. Ian se sentou na cadeira ao meu lado. — Como você a encontrou? Passei a mão pela guia. — Em um beco. O sorriso dele desapareceu um pouco. — Sério? Assenti. — Estava sozinha. Chovia muito naquela noite. Ela estava encolhida perto de uma caixa, completamente molhada e tremendo de frio. Olhei para Yuki. — Quando eu vi, não consegui simplesmente ir embora. Ian ficou em silêncio. — Você levou para casa? — Levei. — E decidiu ficar com ela? Sorri. — Acho que foi ela quem decidiu ficar comigo. Yuki se aproximou do meu pé. — Eu só pretendia ajudar por uma noite. — E agora? — Agora ela manda em tudo. Ian riu. — Percebi. Fiquei olhando para ele. — Você gosta de gatos? — Gosto. — Não parece. — Por quê? — Você tem cara de quem teria um cachorro enorme. — Isso foi um elogio? — Não sei. Ele sorriu. — Então vou considerar que foi. Ficamos alguns segundos em silêncio. Não era um silêncio estranho. Era confortável. Diferente dos primeiros dias em que qualquer pausa entre nós parecia uma disputa para ver quem desviaria o olhar primeiro. Agora era diferente. Eu conseguia ficar perto dele sem sentir que precisava me defender. Talvez porque, pouco a pouco, eu estivesse começando a conhecê-lo. E talvez ele estivesse começando a me conhecer também. — Você veio comprar o quê? — perguntei. Ian apontou para a loja. — Algumas coisas. — Tipo? — Comida. — Isso é muito específico. — Eu estava com fome. — Finalmente uma coisa normal sobre você. Ele riu. — Espera aqui. — O quê? Ele se levantou. — Já volto. — Ian... — Não vai embora. — Eu não ia. — Ótimo. Ele entrou na loja. Fiquei observando através do vidro enquanto ele caminhava pelos corredores. Yuki puxou a guia. — Não. Ela puxou novamente. — Você também não. Ela sentou. — Obrigada. Poucos minutos depois, Ian saiu carregando duas sacolas. Colocou-as sobre a mesa. — Pronto. — O que você comprou? — Coisas. — Você está ficando tão irritante quanto eu. — Eu aprendo rápido. Abriu uma das sacolas. Havia sanduíches, bebidas, alguns salgadinhos e... Meu chocolate. Olhei para ele. — Você comprou meu chocolate. — Comprei. — Por quê? Ele deu de ombros. — Porque você gosta. Meu coração apertou de um jeito estranho. — Você lembra? — Lembro de bastante coisa sobre você. Fiquei sem resposta. Ele abriu o chocolate e colocou na minha frente. — Come. — Você está me dando ordens? — Estou tentando garantir que você coma alguma coisa decente. — Isso é muito diferente. — Não para mim. Sorri. Peguei o chocolate. — Obrigada. — De nada. Comemos ali fora. Yuki ficou deitada perto dos nossos pés, vez ou outra levantando a cabeça para observar Ian. Ele continuava fazendo carinho nela entre uma conversa e outra. Falamos sobre coisas pequenas. Sobre comida. Filmes. Música. Lugares que gostaríamos de conhecer. Ele contou que não gostava de lugares muito barulhentos. Eu contei que gostava de caminhar quando precisava pensar. Descobrimos que ambos odiávamos acordar cedo. Eu ri quando ele admitiu que não sabia cozinhar absolutamente nada. — Nada? — Nada. — Nem macarrão? — Sei pedir. — Isso não conta. — Funciona. — Você é impossível. — E você continua aqui. Parei. Ele também. Nossos olhos se encontraram. O sorriso dele diminuiu. — É — falei baixo. — Continua aqui. Meu coração acelerou. Ian se inclinou um pouco para frente. Não muito. Só o suficiente para que eu percebesse. — Posso te fazer uma pergunta? — Pode. — Por que você sempre fica na defensiva comigo? Pensei antes de responder. — Porque você me deixa nervosa. Ele ficou quieto. — Eu deixo? Assenti. — Muito. — De um jeito ruim? Olhei para ele. — Não. A palavra saiu quase como um sussurro. Ele se aproximou um pouco mais. Dessa vez, eu não recuei. Sentia o cheiro do perfume dele. O calor do corpo dele tão perto do meu. O barulho distante dos carros. A respiração de Yuki. Tudo pareceu ficar mais lento. Ian olhou para meus olhos. Depois para minha boca. E voltou a me encarar. — Kiara... Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir. — O quê? Ele não respondeu. Apenas levantou a mão e afastou delicadamente uma mecha do meu cabelo que o vento havia levado para o rosto. O toque foi tão cuidadoso que eu quase fechei os olhos. Quase. Então ele se aproximou. Devagar. Como se estivesse me dando tempo para decidir. E eu decidi. Fechei os olhos. Os lábios dele tocaram os meus. Foi um beijo curto. Suave. Quase tímido. Nada parecido com a imagem que eu tinha criado dele na minha cabeça. Ian se afastou apenas alguns centímetros. Nossos olhos se encontraram novamente. Eu não disse nada. Ele também não. Então sorri. Um sorriso pequeno, involuntário. Ele sorriu de volta. — Isso foi um sim? — perguntou. — Você sempre precisa perguntar? — Quando é importante, sim. Olhei para ele. — Então sim. A mão dele encontrou a minha sobre a mesa. Entrelaçou nossos dedos. E, naquele momento, eu percebi que não havia mais como fingir. Ian Lee não era mais apenas o homem do café preto. Não era mais o homem sem nome. Não era apenas alguém que aparecia na minha rotina. Ele tinha se tornado alguém que eu queria por perto. E, pela primeira vez, a palavra que ele tanto gostava não parecia assustadora. Ainda. Ainda estávamos nos conhecendo. Ainda havia coisas que eu não sabia. Ainda existiam perguntas sem resposta. Mas, naquela noite, sentada do lado de fora de uma simples loja de conveniência, com Yuki aos nossos pés e a mão de Ian segurando a minha, eu não queria nenhuma resposta. Eu só queria ficar ali. Mais um pouco. Com ele. Ainda.Minha mãe quase sempre dizia que não precisava de nada. Ainda assim, quando perguntei o que ela queria fazer no aniversário, respondeu que gostaria de passar o dia com a família. — Só isso? — perguntei. Ela me olhou por cima da xícara de café. — “Só isso” parece pouco? — Não. Parece fácil. — Então você pode organizar. Eu devia ter desconfiado do sorriso dela. Minha mãe sabia transformar uma tarefa simples numa lista cheia de detalhes, mesmo quando garantia que não queria nada demais. Mas, dessa vez, a lista foi curta: um bolo, comida suficiente para todos e nenhum discurso longo. — E nada de presentes caros — acrescentou. — Certo. — Kiara. — Certo — repeti, dessa vez com mais sinceridade. Meu pai, sentado à outra ponta da mesa, levantou os olhos do jornal. — Posso fazer alguma coisa? — Você pode ficar responsável pela música — disse minha mãe. — Música de aniversário ou música que você gosta? — As duas coisas podem ser a mesma coisa. — Vou preparar uma seleção. — Uma
Minha mãe quase sempre dizia que não precisava de nada. Quando eu perguntava se queria sair, ela respondia que tinha roupa suficiente, sapatos suficientes e compromissos suficientes para encher a semana. Mas, depois do passeio de barco com meu pai, senti vontade de fazer algo parecido com ela: passar algumas horas juntas, sem documentos para organizar nem assuntos urgentes para resolver. — Vamos fazer compras? — perguntei naquela manhã. Ela ergueu os olhos do livro que lia à mesa. — Compras de quê? — Não sei. Roupas, talvez. Ou qualquer coisa que a gente encontre pelo caminho. — Você está me convidando para gastar dinheiro sem um plano? — Exatamente. Minha mãe fechou o livro. — Então preciso pensar. — Pense até o almoço. Ela fingiu considerar a proposta com seriedade. Depois, sorriu. — Está bem. Mas só porque quero ver o que você considera uma tarde sem plano. Saímos depois do almoço. Minha mãe dirigiu até o centro, enquanto eu escolhia as músicas no rádio. A
Meu pai perguntou se eu queria sair no sábado de manhã. Não explicou para onde. Disse apenas que deveríamos levar um casaco e que voltaríamos antes do anoitecer. Eu aceitei sem perguntar muito. Depois de tantas semanas em que cada convite parecia esconder uma pista ou uma preocupação, havia algo reconfortante em não saber exatamente o que nos esperava. O dia amanheceu claro, com nuvens finas espalhadas pelo céu. Minha mãe nos entregou uma sacola com sanduíches, duas maçãs e uma garrafa térmica de café. — Vocês vão voltar com fome — disse ela, colocando a sacola no banco de trás. — Sempre voltamos com fome — respondeu meu pai. Ele dirigiu para fora do centro, seguindo uma estrada que acompanhava o rio. Eu conhecia aquele caminho, embora não soubesse de onde. As casas foram ficando para trás, depois vieram árvores altas, pequenas lojas e trechos de água que apareciam entre os galhos. — Onde estamos indo? — perguntei. — Para o lugar onde costumávamos passar os sábados, quando você
Na manhã em que as investigações terminaram, o ateliê estava quieto. Não era o silêncio tenso dos últimos dias, cheio de ruídos que pareciam esconder mensagens. Era um silêncio comum: o som distante de um ônibus passando, o vento mexendo nas folhas do jardim, a chaleira começando a ferver na cozinha. Ainda assim, ninguém conseguia agir como se fosse uma manhã qualquer. O medalhão de Amélia permanecia sobre a mesa, guardado num saco transparente. Ao lado dele, havia uma caixa de madeira, uma pilha de documentos e a fotografia da árvore plantada em 1987. O doutor Ramos chegaria a qualquer momento com o resultado da análise dos registros, das mensagens e dos objetos encontrados. Cecília estava sentada perto da janela, com o caderno da mãe aberto sobre os joelhos. Desde que voltáramos da porta azul, ela passava horas tentando encontrar outras anotações sobre a música. Não falava muito. Às vezes, cantarolava as quatro primeiras notas e parava, como se ainda tivesse medo de chamar alguém
Na manhã seguinte, a melodia ainda estava na minha cabeça. Quatro notas. Duas repetidas. Mais duas. Uma última, sustentada até desaparecer. Eu a cantarolava sem perceber enquanto meu pai preparava café no ateliê. Quando me dei conta, parei no meio da sequência. — Não precisa interromper — disse ele, sem tirar os olhos da chaleira. — É uma música bonita. — É uma pista. — Pode ser as duas coisas. A observação me fez pensar em Cecília. Na véspera, ela ouvira a gravação várias vezes, como se quisesse memorizar cada respiração da mãe e cada palavra do homem que talvez fosse seu pai. Não sei se conseguiu dormir. Eu também não dormira muito. O doutor Ramos chegou pouco depois das nove. Trazia uma pasta e notícias da equipe que examinava a porta azul. — Encontraram quatro pequenas placas metálicas na moldura — explicou. — Estão ligadas a um mecanismo antigo. Ainda não sabemos se respondem a som, pressão ou a uma sequência manual. Ian, que chegara comigo, apontou para a pasta. — E a
A frase ficou comigo durante toda a volta ao ateliê. "Ceci, eu tentei voltar." Eu a repetia em silêncio, como se a cada vez pudesse descobrir algo que não tinha visto. Uma despedida. Um pedido de perdão. Uma prova de que Marcelo estivera mesmo atrás daquela porta. Mas as palavras não mudavam, e nenhuma delas respondia à pergunta que mais importava: para onde ele tinha ido? Cecília permaneceu quieta no banco de trás. Tomás sentou-se ao lado dela, sem tentar preencher o silêncio. Ian dirigia devagar, atento ao trânsito e, pelo retrovisor, ao carro que nos seguia desde o prédio. — O carro atrás de nós está desde a rua paralela — disse ele. Ramos, no banco da frente, olhou pelo vidro traseiro. — Não mude de rota bruscamente. Continue até a avenida e entre no estacionamento da delegacia. Ian fez o que ele pediu. O carro escuro manteve a distância. Quando entramos no estacionamento, passou direto pela rua. Não pudemos ver quem dirigia. — Isso não prova que estava nos seguindo — diss







