MasukNaquela noite, eu demorei a dormir.
Muito mais do que gostaria de admitir. Fiquei deitada, olhando para o teto, enquanto a minha gata dormia enrolada perto dos meus pés como se nada no mundo pudesse incomodá-la. Eu, infelizmente, não tinha o mesmo privilégio. Porque toda vez que fechava os olhos, uma imagem voltava. Ian sentado à minha frente. Sem terno. Sem aquela postura impecável que ele costumava carregar dentro do Atelier. Só ele. Mais descontraído. Mais humano. E, de algum jeito, muito mais difícil de ignorar. — Ainda — murmurei para mim mesma. Aquela palavra tinha ficado presa na minha cabeça. Ele gostava dela. Eu não. Ou talvez gostasse um pouco. O problema era exatamente esse. Virei para o lado e puxei o cobertor até o queixo. — Você é um idiota, Ian Lee. Minha gata abriu um olho. — Não estou falando com você. Ela fechou o olho novamente. Ótimo. Pelo menos alguém naquela casa sabia quando ignorar uma conversa. --- Na manhã seguinte, cheguei ao Atelier alguns minutos mais cedo. Não porque estivesse animada para trabalhar. Muito menos porque estivesse esperando alguém. Eu só queria evitar perguntas de Melissa. Principalmente aquelas que envolvessem por que eu havia chegado em casa mais tarde do que o normal e por que estava com aquela expressão estranha no rosto. Eu não tinha uma explicação convincente. Então era melhor não dar nenhuma. Assim que entrei, o cheiro de café tomou conta do ambiente. Acendi algumas luzes, organizei a bancada e comecei a separar os copos. Tudo estava exatamente como deveria. Normal. Seguro. Previsível. Até eu olhar para a porta. Parei. Respirei fundo. — Não. Voltei a trabalhar. Alguns minutos depois, ouvi passos. Meu coração acelerou. Levantei os olhos. Melissa. — Bom dia. Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. — Bom dia. Ela deixou a bolsa atrás do balcão e me observou por alguns segundos. — Você está esperando alguém? Fechei os olhos. — Não começa. — Eu nem falei nada. — Mas eu conheço essa cara. — Que cara? — A cara de quem vai me irritar antes das oito da manhã. Ela sorriu. — Então você admite que está esperando alguém. — Não admiti coisa nenhuma. Melissa começou a rir. — Você está vermelha. — Está quente aqui. Ela olhou ao redor. — Está frio. — Então é um problema de circulação. — Claro. Antes que eu pudesse inventar outra desculpa, a porta se abriu. Dessa vez, não era Melissa. Meu corpo reconheceu antes dos meus olhos. Ian. Ele entrou como se a noite anterior não tivesse acontecido. Como se não tivesse sentado comigo numa loja de conveniência. Como se não tivesse me olhado daquele jeito. Como se não tivesse me deixado acordada pensando em uma única palavra. Ainda. Ele caminhou até o balcão. Camisa preta novamente. Calça escura. O cabelo um pouco bagunçado. E aquela expressão tranquila que me dava vontade de jogar alguma coisa nele. — Bom dia, Kiara. Meu nome na voz dele pareceu diferente. — Bom dia. Melissa olhou para mim. Depois para ele. Depois novamente para mim. Eu conhecia aquele olhar. — Café preto — falei rapidamente. Ian ergueu uma sobrancelha. — Você já sabe. — Eu sei. — Sem açúcar. — Eu sei. — Médio. — Ian. Ele sorriu. — Só conferindo. Melissa mordeu o lábio para não rir. Eu ignorei os dois. Peguei o copo e comecei a preparar o café. — Dormiu bem? — ele perguntou. Minha mão parou por um instante. Olhei para ele. — Por que quer saber? — Curiosidade. — Dormi. Mentira. — E você? — Mais ou menos. — Problemas? — Talvez. A palavra fez meu estômago apertar. Ele percebeu. Claro que percebeu. — Ainda não descobri se você gosta de me responder com uma palavra ou se simplesmente não gosta de conversar comigo. — Talvez as duas coisas. Ele riu. Entreguei o café. Dessa vez, ele pegou imediatamente. Mas antes de sair, colocou algo sobre o balcão. Meu cartão preto. Fiquei imóvel. — Onde você encontrou isso? Ele me encarou. — Então era seu? Olhei para o cartão. O mesmo. Ian Lee. — Eu encontrei ontem no Atelier. — E guardou. — Eu ia devolver. — Quando? — Hoje. — Então estamos quites. Ele começou a se afastar. — Espera. Ele parou. — O quê? Apontei para o cartão. — Isso é seu mesmo? Um sorriso discreto apareceu. — Você ficou com ele a noite inteira e ainda não acreditou? Meu rosto esquentou. — Eu só queria ter certeza. — É meu. Peguei o cartão. — Certo. Ele me observou por alguns segundos. — Você poderia ter jogado fora. — Eu não jogo fora coisas que não são minhas. — Eu sei. Franzi a testa. — Como sabe? Ele deu de ombros. — Você parece o tipo de pessoa que devolve o que encontra. Antes que eu pudesse responder, ele saiu. Fiquei olhando para a porta. Melissa se aproximou devagar. — Então... — Não. — Eu nem perguntei. — Mas vai. — Ele sabe seu nome. — Meu crachá diz meu nome. — Você sabe o nome dele. — Porque encontrei o cartão. — Vocês se encontraram ontem. Meu olhar foi imediatamente para ela. — Como você sabe? Ela abriu um sorriso enorme. — Na verdade eu não sabia, mas Você acabou de confirmar. Droga. — Melissa. — Onde? — Não importa. — Kiara. — Não aconteceu nada. — Eu não disse que aconteceu. — Mas está pensando. — Muito. Passei a mão pelo rosto. — Você é insuportável. — E você está apaixonada. Quase derrubei uma pilha de copos. — O quê?! Ela começou a rir. — Calma! — Não fala uma coisa dessas! — Então não está? — Claro que não! — Ótimo. — Ótimo o quê? — Então posso ficar tranquila. — Por quê? Ela apontou para a porta. — Porque ele está olhando para cá. Meu coração disparou. Virei. Ian estava do outro lado do salão. Parado perto da saída. Olhando diretamente para mim. Quando nossos olhos se encontraram, ele não desviou. Apenas ergueu o copo de café em um gesto silencioso. Depois saiu. Fiquei imóvel. Melissa cruzou os braços. — Ainda acha que não está acontecendo nada? — Não aconteceu nada. — Claro. --- O resto da manhã passou devagar. Ou talvez eu só estivesse prestando atenção demais. Sempre que a porta abria, meus olhos se levantavam. Sempre que alguém caminhava pelo salão, eu procurava inconscientemente pela camisa preta. Era ridículo. Eu sabia. Mas havia alguma coisa diferente agora. Antes, Ian era apenas uma presença estranha dentro da minha rotina. Agora eu sabia o nome dele. Sabia como ele ria. Sabia que podia ser menos arrogante quando queria. Sabia que gostava de provocar. E sabia que, por algum motivo, parecia interessado em me conhecer. O problema era que eu também queria conhecê-lo. E não sabia se isso era uma boa ideia. No início da tarde, encontrei uma pequena sacola sobre uma das mesas. Olhei ao redor. Não havia ninguém. Dentro havia um chocolate. O mesmo que eu havia comprado na noite anterior. Meu coração bateu mais rápido. Peguei a embalagem. Havia um pequeno pedaço de papel dobrado junto. Abri. A letra era simples. "Para a próxima vez que disser que não tem jantar." Fiquei encarando a frase. Não havia assinatura. Não precisava. Eu sabia. Olhei para o segundo andar do Atelier. As janelas refletiam o céu claro. Ian estava lá em cima. Ou talvez não. Mesmo assim, sorri. — Idiota. Guardei o bilhete no bolso. O chocolate ficou sobre a bancada. Eu não deveria aceitar. Era uma péssima ideia. Mas também não consegui jogar fora. --- No fim do expediente, Melissa foi embora primeiro. Eu terminei de organizar as últimas coisas sozinha. Quando fechei uma das gavetas, ouvi passos atrás de mim. Não precisei olhar. — Você sempre aparece quando eu estou fechando tudo? — Talvez. Sorri sem querer. Virei. Ian estava ali. Sem café. Sem pressa. Apenas parado diante de mim. — Você esqueceu alguma coisa? — Não. — Então por que voltou? Ele colocou as mãos nos bolsos. — Queria falar com você. Meu sorriso desapareceu. — Sobre o quê? Ele ficou em silêncio por um momento. — Sobre ontem. Meu coração acelerou. — Aconteceu alguma coisa? — Não. — Então? Ele deu um passo na minha direção. Não o suficiente para me deixar desconfortável. Só o bastante para diminuir a distância. — Você ficou assustada comigo? A pergunta me pegou desprevenida. — Não. — Tem certeza? — Tenho. Ele assentiu. — Bom. — Por que está perguntando? Ian me encarou. Dessa vez, não havia provocação. — Porque eu não quero que você ache que estou brincando com você. Meu peito apertou. — E está? — Não. Fiquei em silêncio. Ele respirou fundo. — Eu gosto de conversar com você, Kiara. Meu coração bateu mais forte. — Mesmo quando eu sou irritante? Um sorriso apareceu. — Principalmente quando você é irritante. Revirei os olhos. — Você estragou o momento. — Eu sei. Ele se afastou um pouco. — Até amanhã. — Até. Ian caminhou até a porta. Antes de sair, olhou para trás. — E, Kiara? — Sim? — O chocolate era para você. Sorri. — Eu imaginei. Ele foi embora. Fiquei sozinha no Atelier. Olhei para o chocolate sobre a bancada. Depois para a porta. E percebi que alguma coisa havia mudado. Eu ainda não sabia quase nada sobre Ian Lee. Não sabia de onde vinha. Não sabia o que fazia exatamente. Não sabia por que parecia me observar tanto. Mas agora sabia uma coisa. Ele não estava apenas entrando na minha rotina. Estava começando a fazer parte dela. E, pela primeira vez, isso não parecia perigoso. Parecia inevitável.Minha mãe quase sempre dizia que não precisava de nada. Ainda assim, quando perguntei o que ela queria fazer no aniversário, respondeu que gostaria de passar o dia com a família. — Só isso? — perguntei. Ela me olhou por cima da xícara de café. — “Só isso” parece pouco? — Não. Parece fácil. — Então você pode organizar. Eu devia ter desconfiado do sorriso dela. Minha mãe sabia transformar uma tarefa simples numa lista cheia de detalhes, mesmo quando garantia que não queria nada demais. Mas, dessa vez, a lista foi curta: um bolo, comida suficiente para todos e nenhum discurso longo. — E nada de presentes caros — acrescentou. — Certo. — Kiara. — Certo — repeti, dessa vez com mais sinceridade. Meu pai, sentado à outra ponta da mesa, levantou os olhos do jornal. — Posso fazer alguma coisa? — Você pode ficar responsável pela música — disse minha mãe. — Música de aniversário ou música que você gosta? — As duas coisas podem ser a mesma coisa. — Vou preparar uma seleção. — Uma
Minha mãe quase sempre dizia que não precisava de nada. Quando eu perguntava se queria sair, ela respondia que tinha roupa suficiente, sapatos suficientes e compromissos suficientes para encher a semana. Mas, depois do passeio de barco com meu pai, senti vontade de fazer algo parecido com ela: passar algumas horas juntas, sem documentos para organizar nem assuntos urgentes para resolver. — Vamos fazer compras? — perguntei naquela manhã. Ela ergueu os olhos do livro que lia à mesa. — Compras de quê? — Não sei. Roupas, talvez. Ou qualquer coisa que a gente encontre pelo caminho. — Você está me convidando para gastar dinheiro sem um plano? — Exatamente. Minha mãe fechou o livro. — Então preciso pensar. — Pense até o almoço. Ela fingiu considerar a proposta com seriedade. Depois, sorriu. — Está bem. Mas só porque quero ver o que você considera uma tarde sem plano. Saímos depois do almoço. Minha mãe dirigiu até o centro, enquanto eu escolhia as músicas no rádio. A
Meu pai perguntou se eu queria sair no sábado de manhã. Não explicou para onde. Disse apenas que deveríamos levar um casaco e que voltaríamos antes do anoitecer. Eu aceitei sem perguntar muito. Depois de tantas semanas em que cada convite parecia esconder uma pista ou uma preocupação, havia algo reconfortante em não saber exatamente o que nos esperava. O dia amanheceu claro, com nuvens finas espalhadas pelo céu. Minha mãe nos entregou uma sacola com sanduíches, duas maçãs e uma garrafa térmica de café. — Vocês vão voltar com fome — disse ela, colocando a sacola no banco de trás. — Sempre voltamos com fome — respondeu meu pai. Ele dirigiu para fora do centro, seguindo uma estrada que acompanhava o rio. Eu conhecia aquele caminho, embora não soubesse de onde. As casas foram ficando para trás, depois vieram árvores altas, pequenas lojas e trechos de água que apareciam entre os galhos. — Onde estamos indo? — perguntei. — Para o lugar onde costumávamos passar os sábados, quando você
Na manhã em que as investigações terminaram, o ateliê estava quieto. Não era o silêncio tenso dos últimos dias, cheio de ruídos que pareciam esconder mensagens. Era um silêncio comum: o som distante de um ônibus passando, o vento mexendo nas folhas do jardim, a chaleira começando a ferver na cozinha. Ainda assim, ninguém conseguia agir como se fosse uma manhã qualquer. O medalhão de Amélia permanecia sobre a mesa, guardado num saco transparente. Ao lado dele, havia uma caixa de madeira, uma pilha de documentos e a fotografia da árvore plantada em 1987. O doutor Ramos chegaria a qualquer momento com o resultado da análise dos registros, das mensagens e dos objetos encontrados. Cecília estava sentada perto da janela, com o caderno da mãe aberto sobre os joelhos. Desde que voltáramos da porta azul, ela passava horas tentando encontrar outras anotações sobre a música. Não falava muito. Às vezes, cantarolava as quatro primeiras notas e parava, como se ainda tivesse medo de chamar alguém
Na manhã seguinte, a melodia ainda estava na minha cabeça. Quatro notas. Duas repetidas. Mais duas. Uma última, sustentada até desaparecer. Eu a cantarolava sem perceber enquanto meu pai preparava café no ateliê. Quando me dei conta, parei no meio da sequência. — Não precisa interromper — disse ele, sem tirar os olhos da chaleira. — É uma música bonita. — É uma pista. — Pode ser as duas coisas. A observação me fez pensar em Cecília. Na véspera, ela ouvira a gravação várias vezes, como se quisesse memorizar cada respiração da mãe e cada palavra do homem que talvez fosse seu pai. Não sei se conseguiu dormir. Eu também não dormira muito. O doutor Ramos chegou pouco depois das nove. Trazia uma pasta e notícias da equipe que examinava a porta azul. — Encontraram quatro pequenas placas metálicas na moldura — explicou. — Estão ligadas a um mecanismo antigo. Ainda não sabemos se respondem a som, pressão ou a uma sequência manual. Ian, que chegara comigo, apontou para a pasta. — E a
A frase ficou comigo durante toda a volta ao ateliê. "Ceci, eu tentei voltar." Eu a repetia em silêncio, como se a cada vez pudesse descobrir algo que não tinha visto. Uma despedida. Um pedido de perdão. Uma prova de que Marcelo estivera mesmo atrás daquela porta. Mas as palavras não mudavam, e nenhuma delas respondia à pergunta que mais importava: para onde ele tinha ido? Cecília permaneceu quieta no banco de trás. Tomás sentou-se ao lado dela, sem tentar preencher o silêncio. Ian dirigia devagar, atento ao trânsito e, pelo retrovisor, ao carro que nos seguia desde o prédio. — O carro atrás de nós está desde a rua paralela — disse ele. Ramos, no banco da frente, olhou pelo vidro traseiro. — Não mude de rota bruscamente. Continue até a avenida e entre no estacionamento da delegacia. Ian fez o que ele pediu. O carro escuro manteve a distância. Quando entramos no estacionamento, passou direto pela rua. Não pudemos ver quem dirigia. — Isso não prova que estava nos seguindo — diss







