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Agora é diferente

last update publish date: 2026-09-08 22:32:55

Acordei antes do despertador.

O que, para mim, já era um péssimo sinal.

Fiquei alguns segundos encarando o teto, tentando entender por que meu coração parecia estar correndo uma maratona dentro do peito.

Então lembrei.

O beijo.

Fechei os olhos imediatamente.

— Não.

Yuki, que estava enrolada aos meus pés, levantou a cabeça.

— Nem comece!

Ela piscou para mim.

— Eu sei o que você está pensando.

Yuki soltou um miado.

— Não, eu não vou ficar falando sobre ele com você.

Outro miado.

— Muito menos vou admitir que gostei.

Ela se levantou e caminhou até meu travesseiro.

— Para de me olhar assim.

Yuki se sentou ao meu lado.

— Foi só um beijo.

Ela inclinou a cabeça.

— Um beijo.

Meu rosto esquentou.

— Tá bom.

Suspirei.

— Foram dois.

Yuki ronronou.

— Mas isso não significa nada.

Ela continuou me encarando.

— Você é péssima amiga.

Levantei da cama antes que minha própria gata pudesse me julgar mais.

O problema era que eu sabia que estava mentindo.

Aquele beijo tinha significado alguma coisa.

Eu só ainda não sabia o quê.

E porquê...

---

Passei a manhã inteira tentando convencer a mim mesma de que nada havia mudado.

Funcionou por aproximadamente cinco minutos.

Assim que cheguei à VOSSEN ATELIER, meu coração começou a agir como se soubesse alguma coisa que eu não sabia.

Peguei meu uniforme.

Prendi o cabelo.

Preparei a primeira leva de cafés.

Tudo normal.

Até a porta da cozinha abrir.

Levantei os olhos.

Ian entrou.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Ele estava de terno, como sempre.

Elegante.

Sério.

Impecável.

Mas havia uma diferença.

Ele olhou diretamente para mim.

E sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas era para mim.

— Bom dia, Kiara.

Minha mão apertou a xícara.

— Bom dia.

Ele se aproximou do balcão.

— Café preto.

— Eu sei.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Sabe?

— Você sempre pede café preto.

— Talvez eu esteja começando a gostar de outras coisas.

Meu coração deu um salto.

— Como o quê?

Ele se inclinou um pouco sobre o balcão.

— Chocolate.

Fiquei olhando para ele.

— Você está falando do chocolate?

— Estou.

— Que eu gosto?

— Exatamente.

Ele pegou a xícara.

Nossos dedos se tocaram.

Foi rápido.

Mas suficiente para me fazer prender a respiração.

Ian percebeu.

Claro que percebeu.

— Você está nervosa.

— Não estou.

— Está sim.

— Você que está estranho.

— Talvez.

— Por quê?

Ele tomou um gole do café.

— Porque agora eu sei como você beija.

Quase derrubei a bandeja.

— Ian!

Ele sorriu.

— Bom saber que ainda consigo te deixar sem palavras.

Olhei ao redor.

— Alguém pode ouvir.

— Então fala baixo.

— Você não ajuda.

— Não estou tentando ajudar.

Ele se aproximou novamente.

— Estou tentando flertar com você.

Meu rosto queimou.

— Na cozinha?

— Onde mais?

— Aqui trabalham pessoas.

— Eu sei.

— E alguém pode nos escutar!

— Também sei.

— Então se comporte.

Ele sorriu.

— Você não parecia pedir isso ontem.

Eu fiquei completamente sem resposta.

Ian pegou o café e se afastou.

Antes de sair, porém, deixou alguma coisa sobre o balcão.

Uma pequena barra de chocolate.

Olhei para ele.

— Ian.

Ele parou na porta.

— Sim?

— Você comprou isso para mim?

— Talvez.

— Por quê?

Ele sorriu.

— Porque você gosta.

E foi embora.

Fiquei olhando para o chocolate como uma idiota.

— Meu Deus.

— Exatamente.

Quase pulei.

Virei rapidamente.

Minha colega estava encostada na porta.

— Você estava aí?

Ela cruzou os braços.

— Tempo suficiente.

— Você não viu nada.

— Eu vi tudo.

— Não viu.

— Kiara, ele praticamente confessou que comprou chocolate porque lembra do que você gosta.

— Isso não significa nada.

Ela olhou para o chocolate.

Depois para mim.

— Claro.

— É sério.

— Então por que você está vermelha?

— Está quente.

Ela olhou para o ar-condicionado.

— Está congelando.

Fiquei quieta.

Ela sorriu.

— Eu sabia.

— Sabia o quê?

— Que tinha alguma coisa acontecendo.

— Não tem nada acontecendo.

— Então vocês não se beijaram?

Meu coração parou.

— Quem disse isso?

— Seu rosto.

— Você está inventando.

— Kiara.

Ela se aproximou.

— O que está acontecendo entre vocês?

Mordi o lábio.

— Eu não sei.

Ela arregalou os olhos.

— Você não sabe?

— Não.

— Mas vocês se beijaram?

Olhei para a porta.

Depois para ela.

— Talvez.

Ela abriu um sorriso enorme.

— Meu Deus!

— Fala baixo!

— Você e o Ian?

— Shhh!

Ela começou a rir.

— Eu sabia!

— Você não sabia.

— Sabia sim.

— E se alguém ouvir?

— Então finalmente teremos alguma fofoca interessante nesta empresa.

Balancei a cabeça.

— Não aconteceu nada demais.

Ela apontou para o chocolate.

— Isso também não aconteceu?

— Ele só comprou.

— Para você.

— Sim.

— Porque lembra que você gosta.

— Sim.

Ela cruzou os braços.

— Kiara.

— O quê?

— Você está apaixonada?

Quase engasguei.

— Não!

Minha resposta saiu rápido demais.

Ela sorriu.

— Interessante.

— Não estou.

— Ainda.

— Nem irei me apaixonar.

— Vamos ver.

---

O restante da manhã passou lentamente.

Ou talvez eu só estivesse consciente demais de cada vez que Ian aparecia.

Ele não fazia nada.

Não dizia nada.

Mas sempre que passava por mim, nossos olhos se encontravam.

E isso estava começando a ser perigoso.

Durante o horário de almoço, fui buscar alguns documentos em uma das salas menores.

Entrei.

Deixei os papéis sobre a mesa.

Quando me virei para sair, encontrei Ian encostado na porta.

Meu coração disparou.

— Você me assustou.

— Desculpa.

— O que você está fazendo aqui?

— Procurando você.

— Por quê?

Ele entrou e fechou a porta.

Meu coração acelerou ainda mais.

— Ian...

— Calma.

Ele parou a poucos passos de mim.

— Eu só queria falar com você.

— Então fala.

Ele me encarou.

— Você está me evitando?

— Não.

— Está sim.

— Estou trabalhando.

— Você não olhou para mim uma vez sequer durante o almoço.

— Eu olhei.

— Duas vezes.

— Você contou?

— Contei.

Sorri sem querer.

— Você é impossível.

— E você está sorrindo.

— Não estou.

Ele se aproximou.

— Está sim.

— Talvez.

— Gostei de ontem.

Meu sorriso desapareceu.

— Eu também.

Ele ficou em silêncio.

— Você gostou mesmo?

Assenti.

— Gostei.

Ian se aproximou mais.

— Então posso fazer uma coisa?

— O quê?

Ele esperou.

Eu sabia o que ele queria.

E, dessa vez, não recuei.

— Pode.

Ele segurou delicadamente minha cintura.

E me beijou.

Dessa vez foi diferente.

Não houve hesitação.

Não houve surpresa.

Eu passei os braços ao redor do pescoço dele, aproximando nossos corpos enquanto o beijo se aprofundava.

Meu coração disparou.

Minha respiração ficou curta.

Por alguns segundos, esqueci completamente onde estávamos.

Esqueci a empresa.

Esqueci o trabalho.

Esqueci tudo.

Só existia aquele momento.

Quando nos afastamos, fiquei alguns segundos de olhos fechados.

Ian encostou a testa na minha.

— Agora você não pode dizer que foi acidente.

Abri os olhos.

— Eu nunca disse que foi.

Ele sorriu.

— Bom.

— Mas isso é uma péssima ideia.

— Provavelmente.

— Estamos no trabalho.

— Eu sei.

— Alguém pode entrar.

— A porta está trancada.

Olhei para ele.

— Você trancou?

— Talvez.

Comecei a rir.

— Você é completamente louco.

— Por você, talvez.

Meu sorriso desapareceu.

Ele percebeu.

— Foi demais?

Balancei a cabeça.

— Não.

— Então?

— Eu só não estou acostumada com alguém falando essas coisas para mim.

O olhar dele suavizou.

— Então se acostume.

Fiquei em silêncio.

Ele passou os dedos suavemente pelo meu cabelo.

— Eu quero te conhecer, Kiara.

Meu coração apertou.

— Você já me conhece.

— Não.

Ele balançou a cabeça.

— Conheço seu café favorito. Sei que gosta de chocolate. Sei que sua gata se chama Yuki. Sei que você fica nervosa quando alguém te encara demais.

Sorri.

— E o que mais?

— Quero descobrir.

Aquelas palavras ficaram dentro de mim.

Antes que eu pudesse responder, ouvimos passos no corredor.

Nós dois congelamos.

Ian soltou minha cintura.

Eu ajeitei meu cabelo rapidamente.

— Meu Deus.

Ele segurou o riso.

— Calma.

A maçaneta se mexeu.

— Tem alguém aí?

Era a voz da minha colega.

Olhei para Ian.

Ele olhou para mim.

Nós dois começamos a rir baixinho.

— Kiara?

— Já estou saindo!

Abri a porta.

Minha colega estava parada no corredor.

Ela olhou para mim.

Depois para Ian.

Depois novamente para mim.

— Ah.

— O quê?

Ela estreitou os olhos.

— Nada.

Ian passou por nós com a maior tranquilidade do mundo.

— Bom trabalho.

Ela esperou ele desaparecer.

Depois olhou para mim.

— Bom trabalho?

— Não começa.

— Eu não vou começar.

Ela fez uma pausa.

— Vou continuar.

— Não aconteceu nada.

— Você estava trancada numa sala com alguém importante.

A frase da minha colega ficou ecoando na minha cabeça enquanto eu mexia distraidamente no café que tinha acabado de preparar.

— O quê? — perguntei, franzindo a testa.

Ela apoiou os cotovelos sobre o balcão e me encarou com uma expressão séria.

— Você ouviu.

— Eu estava trancada numa sala com um homem. Só isso.

— Um homem?

Ela arqueou a sobrancelha.

— Kiara, pelo amor de Deus. Você acha mesmo que eu não percebi?

— Percebeu o quê?

— O jeito que ele olha para você.

Meu estômago revirou.

— Ele olha para todo mundo assim.

— Não olha.

— Olha, sim.

— Não.

— Você estava lá?

— Não precisei estar.

Bufei.

Minha colega cruzou os braços.

— Aquele homem não é um funcionário qualquer.

Parei de mexer o café.

— Como você sabe?

— Porque eu trabalho aqui há tempo suficiente para reconhecer quando alguém não está no mesmo nível que nós.

Aquilo me deixou desconfortável.

— O que você quer dizer com isso?

Ela baixou um pouco a voz.

— Quero dizer que você precisa tomar cuidado.

— Cuidado com o quê?

— Com Ian.

Meu coração bateu um pouco mais rápido.

— Por quê?

Ela hesitou.

— Porque ele é importante.

Soltei uma risada sem humor.

— Ele mesmo vive fazendo mistério sobre isso. Provavelmente está só brincando comigo.

— Não acho.

— Você está exagerando.

— Kiara.

Ela segurou meu braço.

— Você está se envolvendo com alguém importante.

Fiquei em silêncio.

Aquelas palavras me atingiram de um jeito que eu não esperava.

Alguém importante.

Olhei para o outro lado do corredor.

Ian não estava mais ali.

Ainda assim, tive a sensação de que poderia aparecer a qualquer momento.

— Eu não estou me envolvendo com ninguém — falei.

— Está sim.

— Não estou.

— Você fala dele diferente.

— Porque ele é...

Parei.

Não sabia completar.

Irritante?

Divertido?

Misterioso?

Bonito?

Principalmente bonito.

Balancei a cabeça.

— Ele é só um cara que eu conheci.

Minha colega me encarou.

— E que compra chocolate para você?

— Coincidência.

— Que sabe o nome da sua gata?

— Eu contei.

— Que aparece nos mesmos lugares que você?

— Também coincidência.

Ela suspirou.

— Você está se convencendo disso ou tentando me convencer?

Não respondi.

Porque, pela primeira vez, eu não tinha certeza.

Mais tarde, enquanto trabalhava, comecei a pensar no que ela tinha dito.

Ian realmente não parecia um funcionário comum.

Eu já tinha percebido isso.

O jeito como algumas pessoas o tratavam.

A maneira como ele circulava pela empresa sem parecer preocupado com horários ou regras.

A facilidade com que entrava em determinados lugares.

E aquela segurança irritante.

Mas eu nunca tinha pensado muito sobre aquilo.

Até agora.

Alguém importante.

E se fosse verdade?

E se Ian fosse alguém muito acima de mim?

Um diretor?

Um executivo?

Alguém ligado à administração?

Talvez até alguém que pudesse decidir o futuro de funcionários como eu.

Meu peito apertou.

Não gostei daquela ideia.

Não porque ele fosse importante.

Mas porque, de repente, tudo o que tínhamos vivido começou a parecer diferente.

As conversas.

Os encontros.

Os olhares.

Os pequenos flertes.

E se, para ele, aquilo fosse apenas uma brincadeira?

Talvez fosse fácil para alguém como Ian brincar com uma garota como eu.

Eu não fazia parte daquele mundo.

E talvez tivesse esquecido disso por alguns momentos.

Então tomei uma decisão.

Eu precisava me afastar.

Não dramaticamente.

Não precisava fugir da empresa.

Só precisava colocar distância.

Quando vi Ian entrando no corredor naquela tarde, meu coração imediatamente acelerou.

Ele me viu.

Sorriu.

E começou a caminhar na minha direção.

— Kiara.

Fingi procurar alguma coisa numa caixa.

— Oi.

— Está ocupada?

— Muito.

Ele olhou para as minhas mãos vazias.

— Com o quê?

— Trabalho.

— Você está segurando uma caixa vazia.

Olhei para minhas mãos.

Droga.

— É uma caixa importante.

Ele soltou uma risada.

— Claro.

— Preciso ir.

Passei por ele antes que pudesse continuar.

— Kiara.

Parei.

Não olhei para trás.

— Sim?

— Está tudo bem?

Respirei fundo.

— Está.

— Tem certeza?

— Tenho.

E fui embora.

Meu coração estava acelerado.

Eu sabia que estava sendo estranha.

Mas talvez fosse melhor assim.

Porque, se Ian realmente fosse alguém importante, eu não queria descobrir tarde demais que tinha confundido gentileza com interesse.

E, principalmente, não queria me apaixonar por alguém que talvez nunca pudesse enxergar uma garota como eu da mesma forma.

Nos dias seguintes, comecei a evitá-lo.

Se ele aparecia no corredor, eu encontrava outro caminho.

Se entrava na copa, eu inventava alguma coisa para fazer.

Se ouvia sua voz, fingia estar ocupada.

E funcionou.

Ou pelo menos eu achei que funcionou.

Até o momento em que encontrei Ian parado na minha frente, bloqueando completamente o caminho.

Ele me olhou por alguns segundos.

— Você está me evitando.

Meu coração disparou.

— Não estou.

— Está.

— Não estou.

Ele inclinou a cabeça.

— Então por que está fugindo de mim?

Abri a boca.

Nenhuma resposta saiu.

Ian deu um pequeno sorriso, mas dessa vez não havia sarcasmo nele.

Havia curiosidade.

— O que aconteceu, Kiara?

Baixei os olhos.

Eu não podia contar.

Não podia dizer que minha colega tinha colocado uma ideia na minha cabeça.

Que eu estava com medo de descobrir quem ele realmente era.

Então apenas murmurei:

— Acho que é melhor mantermos as coisas como estão.

— Como estão?

— Você sabe.

— Não, não sei.

Finalmente olhei para ele.

— Você é alguém importante demais para mim.

Ele ficou completamente imóvel.

E eu percebi tarde demais o que tinha acabado de dizer.

— Você é alguém importante demais para mim.

As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.

Ian ficou parado diante de mim.

Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.

Então ele franziu levemente a testa.

— O que isso significa?

— Nada.

Tentei passar por ele.

Ian deu um passo para o lado, bloqueando novamente meu caminho.

— Kiara.

— Eu preciso trabalhar.

— Não.

Olhei para ele, surpresa.

— Não?

— Você não vai fugir dessa vez.

— Eu não estou fugindo.

— Está desde ontem.

Meu coração apertou.

Ele me conhecia pouco demais para perceber aquilo tão rápido.

Ou talvez me conhecesse mais do que eu imaginava.

— Ian...

— O que aconteceu?

— Nada.

— Você mudou comigo.

— Não mudei.

— Mudou.

A voz dele não estava irritada.

Era pior.

Estava calma.

Quase paciente.

— Eu fiz alguma coisa?

Balancei a cabeça.

— Não.

— Então por quê?

Desviei o olhar.

— Porque eu percebi algumas coisas.

— Que coisas?

— Sobre você.

Ele esperou.

Eu respirei fundo.

— Você não é como eu.

A expressão dele mudou.

— Como assim?

— Você sabe.

— Não, Kiara. Eu quero que você diga.

— Você ocupa um cargo acima do meu.

Ele ficou em silêncio.

Eu continuei antes que perdesse a coragem.

— Eu não sei exatamente qual. Não sei se você é diretor, executivo, se trabalha diretamente com a administração... não sei. Mas eu percebi como as pessoas te tratam.

Ian não negou.

Isso me deixou ainda mais nervosa.

— Eu sabia — murmurei.

— E isso muda alguma coisa?

— Para mim, muda.

— Por quê?

— Porque eu não quero problemas.

— Eu sou um problema?

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Então o que quis dizer?

Passei a mão pelo cabelo, nervosa.

— Eu sou funcionária. Você está em uma posição muito acima da minha. A gente não deveria...

Parei.

— Não deveria o quê?

— Não deveria se envolver.

Ian ficou me encarando.

— É isso?

— É.

— E quem decidiu isso?

— Eu.

— Por quê?

— Porque alguém precisa ter bom senso.

Ele soltou uma pequena risada, mas não parecia achar graça.

— Você acha que eu não tenho?

— Acho que você não entende.

— Então me explica.

— Eu não pertenço ao seu mundo.

A frase saiu baixa.

Mas ele ouviu.

Ian ficou em silêncio por alguns segundos.

Então se aproximou.

— Olha para mim.

Eu hesitei.

— Kiara.

Obedeci.

Os olhos dele estavam diferentes.

Sérios.

Sem o sarcasmo de sempre.

— Você acha que eu vejo você como alguém abaixo de mim?

Engoli em seco.

— Não sei.

— Eu nunca olhei para você assim.

— Mas você é...

Parei.

Não queria dizer "importante".

Não queria dizer "superior".

Ele já tinha entendido.

— Eu sei exatamente o que você está pensando — disse ele.

— Então entende por que estou tentando me afastar.

— Entendo.

Meu peito apertou.

Por um instante, achei que ele simplesmente aceitaria.

Mas Ian continuou:

— Só não concordo.

— Ian...

— Você está criando uma distância que nunca existiu.

— Para você.

— Para nós dois.

Balancei a cabeça.

— Não é tão simples.

— É mais simples do que você está fazendo parecer.

— Não é.

— É.

Ele respirou fundo.

— Eu não vou te dizer coisas que você não está pronta para ouvir.

Franzi a testa.

Aquilo me confundiu.

— O que isso quer dizer?

— Que você não precisa saber tudo sobre mim agora.

— Mas eu preciso saber o suficiente para não cometer um erro.

Ele me encarou.

— Você não está cometendo erro nenhum.

— Como pode ter tanta certeza?

Um sorriso triste apareceu em seu rosto.

— Porque eu nunca vi você como alguém menor.

Meu coração apertou.

— Ian...

— Você está tão preocupada em descobrir onde eu me encaixo que esqueceu de perguntar onde você se encaixa.

Fiquei em silêncio.

Ele continuou:

— E, para mim, você sempre esteve exatamente onde deveria estar.

Não consegui responder.

Ele deu um passo para trás.

Eu senti uma vontade absurda de pedir que ficasse.

Mas não pedi.

— Não existe essa diferença que você está tentando criar, Kiara.

Ele me olhou uma última vez.

— Você e eu somos, sim, do mesmo mundo.

Meu coração disparou.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Ian se afastou.

— Ian...

Ele parou, mas não se virou.

— Eu nunca te vi abaixo de mim.

E então foi embora.

Fiquei parada no corredor, olhando enquanto ele desaparecia pela esquina.

Não consegui trabalhar direito pelo resto do dia.

As palavras dele continuaram voltando para minha cabeça.

Você e eu somos, sim, do mesmo mundo.

Eu não sabia o que ele queria dizer com aquilo.

Talvez fosse apenas uma tentativa de me acalmar.

Talvez ele realmente acreditasse que cargos não importavam.

Mas, para mim, importavam.

Porque eu não sabia quem Ian realmente era.

E talvez fosse justamente isso que mais me assustava.

Quando meu expediente finalmente terminou, guardei minhas coisas em silêncio.

Saí da VOSSEN e caminhei até o ponto de ônibus.

O céu já estava escuro.

Enquanto voltava para casa, encostei a cabeça no vidro da janela e fiquei olhando as luzes da cidade passarem.

Eu deveria estar aliviada.

Tinha conseguido me afastar.

Tinha colocado limites.

Era o certo.

Então por que parecia que eu tinha deixado alguma coisa importante para trás?

Fechei os olhos.

E, contra a minha vontade, lembrei do rosto de Ian.

Da voz dele.

E daquela última frase.

Eu nunca te vi abaixo de mim.

Talvez o problema fosse exatamente esse.

Eu ainda não sabia se conseguia me enxergar ao lado dele.

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