Mag-log in
Meu despertador tocou às seis da manhã.
E eu o odiei por isso. Estiquei a mão para encontrá-lo no criado-mudo, ainda de olhos fechados, mas acabei derrubando o celular no chão antes de conseguir silenciar ele. - Merda... Fiquei alguns segundos encarando o teto. Seis da manhã. Eu realmente tinha aceitado um emprego que exigia que eu acordasse às seis da manhã. Talvez eu tenha enlouquecido. Ou talvez estivesse simplesmente cansada de contar cada centavo no final do mês. Essa segunda opção parecia mais provável. Suspirei e finalmente saí da cama. O apartamento estava silencioso, exceto pelo barulho distante dos carros começando a ocupar as ruas. Abri a cortina e encontrei um céu cinzento, pesado, daquele tipo que fazia qualquer pessoa querer voltar para debaixo das cobertas. Por um instante, considerei seriamente fazer exatamente isso. Então lembrei do aluguel. Cinco minutos depois, estava no banheiro, prendendo o cabelo enquanto escovava os dentes. Meu primeiro dia. A frase continuava repetindo dentro da minha cabeça. Meu primeiro dia na VOSSEN Atelier. Eu tinha ouvido falar daquela empresa antes mesmo de imaginar que um dia trabalharia lá. Todo mundo conhecia a VOSSEN. Era impossível não conhecer. Uma casa de moda enorme, famosa pelas coleções luxuosas, campanhas com modelos internacionais e desfiles que apareciam em revistas que eu só via nas bancas. E eu? Eu faria café. Não era exatamente o emprego dos meus sonhos. Mas era um emprego. E, naquele momento, isso bastava. Terminei de me arrumar, coloquei uma roupa simples e confortável e prendi meu cabelo em um coque frouxo. Depois peguei a bolsa e conferi meu celular. 06:47. - Ótimo. Eu tinha dez minutos para sair. Peguei o crachá que haviam me entregado no dia anterior. KIARA VOSS. Passei o polegar sobre as letras por alguns segundos. Voss. Um sobrenome que eu preferia não pensar muito a respeito. Não porque fosse importante. Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesma. Coloquei o crachá na bolsa, peguei as chaves e saí. A viagem até a VOSSEN Atelier demorou mais do que eu gostaria. Quando finalmente desci do carro, fiquei alguns segundos parada na calçada. Eu já tinha visto fotos do lugar. As fotos não faziam justiça. A VOSSEN Atelier parecia menos uma empresa e mais um castelo construído para alguém que tinha dinheiro demais e bom gosto demais para se contentar com um prédio comum. Torres escuras se erguiam contra o céu nublado. Grandes janelas arqueadas refletiam a luz da manhã. Esculturas de pedra decoraram as fachadas, enquanto enormes portões de ferro cercavam a propriedade. Era bonito. Assustadoramente bonito. - Só vim fazer café - murmurei para mim mesma. Era uma tentativa de diminuir a importância daquele lugar. Não funcionou. Atravessei os portões e entrei pela entrada destinada aos funcionários. O interior era ainda mais impressionante. Mármore escuro, lustres enormes, paredes decoradas com molduras douradas e corredores tão largos que pareciam ter sido feitos para receber um desfile. Funcionários passavam apressados por todos os lados. Alguns carregavam cabides com roupas protegidas por capas transparentes. Outros seguravam tablets, pastas e araras cheias de peças. Uma mulher passou por mim usando um vestido preto tão elegante que eu provavelmente precisaria trabalhar seis meses para pagar apenas um dos seus sapatos. Olhei para os meus tênis. Depois para ela. Definitivamente mundos diferentes. Segui as placas até encontrar a cafeteria interna. Quando entrei, uma funcionária mais velha me recebeu com um sorriso gentil e explicou rapidamente onde ficavam os grãos, as xícaras, os ingredientes e as máquinas. Eu ouvi tudo com atenção. Ou pelo menos tentei. - E essa máquina aqui é a principal. Não mexa nessa configuração. - Certo. - O espresso precisa ser servido imediatamente. - Certo. - E se alguém da diretoria pedir alguma coisa, tente atender rápido. Parei. - Diretoria? Ela me olhou como se aquilo fosse óbvio. - O pessoal do último andar. Ah. Claro. O pessoal do último andar. Aqueles que provavelmente nunca precisavam olhar o preço de alguma coisa antes de comprar. - Entendi. Ela me entregou um avental preto com o símbolo dourado da VOSSEN. Coloquei-o e olhei para meu reflexo no vidro da máquina de café. Era estranho. Eu realmente estava ali. Uma Voss trabalhando dentro da VOSSEN. Quase engraçado. Quase. Afastei o pensamento. Eu tinha trabalho para fazer. As primeiras horas passaram rápido. Café. Cappuccino. Mais café. Água. Um chá. Mais café. Descobri que pessoas que trabalhavam com moda aparentemente precisavam de quantidades absurdas de cafeína para sobreviver. Também descobri que modelos não eram tão diferentes das pessoas comuns. Algumas eram simpáticas. Outras mal olhavam para mim. Uma delas pediu um café, agradeceu e saiu correndo para algum ensaio. Eu não me importava. Não estava ali para fazer amizades. Estava ali para trabalhar. Por volta das dez da manhã, o movimento aumentou. A cafeteria começou a ficar cheia. Eu estava preparando três pedidos ao mesmo tempo quando ouvi alguém mencionar uma reunião importante. - O pessoal do último andar está descendo? - Não. A reunião é lá em cima. - Então manda os cafés. Olhei para a bandeja. Seis xícaras. Respirei fundo. - Lá vamos nós. Preparei tudo com cuidado e deixei a bandeja pronta. Foi então que percebi uma coisa. Um dos pedidos estava marcado apenas com uma palavra: Espresso. Sem açúcar. Sem leite. Sem observações. Apenas espresso. Coloquei a xícara sobre a bandeja e continuei trabalhando. Eu não fazia ideia de quem beberia aquele café. Na verdade, não fazia questão nenhuma de descobrir. Ainda não. Pouco antes do meio-dia, tive meu primeiro intervalo. Sentei em uma pequena área reservada aos funcionários e finalmente consegui respirar. Peguei o celular. Nenhuma mensagem importante. Nenhuma ligação. Nada. Encostei a cabeça na parede e fechei os olhos. Meu primeiro dia estava sendo mais tranquilo do que eu imaginava. Talvez eu estivesse me preocupado demais. Talvez aquele lugar não fosse tão assustador. Ou talvez eu ainda não tivesse conhecido as pessoas certas. Abri os olhos e olhei pela janela. De onde eu estava, conseguia ver parte do enorme pátio da VOSSEN. Um carro preto atravessou os portões. Depois outro. Funcionários se movimentaram rapidamente na entrada. Não dei muita importância. Voltei a olhar para o celular. Eu não sabia quem tinha acabado de chegar. Não sabia quem comandava aquele lugar. Não sabia quem ocupava o último andar. E definitivamente não sabia que, naquele mesmo momento, existia alguém dentro daquele castelo cujo caminho cruzaria o meu de uma maneira que eu jamais poderia imaginar. Para mim, era apenas mais um dia. Um novo emprego. Uma nova rotina. Um salário no final do mês. Nada além disso. E talvez fosse justamente essa a parte mais perigosa. Porque algumas mudanças começam de maneira tão silenciosa que, quando percebemos que nossa vida nunca mais será a mesma, já é tarde demais para voltar atrás. Saí do meu mundinho e voltei a atenção para o trabalho, um rapaz se aproximou e eu o olhei de canto de olho, não tirando minha atenção dos meus afazeres. - Um espresso. - Bom dia! - Respondi e levantei o olhar. - Um espresso! Rápido! - Ele cruza os braços e olha para seu relógio aparentemente caro. - Quando o senhor me responder com educação eu prepararei o espresso do senhor. - Respondo me endireitando e deixo o corpo ereto. Ele revira os olhos e sorri sarcástico. - Claro, erro meu, poderia por gentileza preparar meu espresso senhorita? - Responde com sarcasmo. Reviro meus olhos e o ignoro. - Claro. - Respondo fria e preparo o espresso. Feito eu o entrego. - Aqui está. - Coloco o copo em sua frente. - Obrigada, e um ótimo dia! - Ele sorri e pega o copo, sumindo de vista. Essas pessoas acham que só por que tem um pouco mais de dinheiro que os outros, podem agir dessa forma ignorante e totalmente ridícula, mais Oque eu posso fazer? eu nem poderia ter falado assim com um cliente, se minha gerente vê, eu nem passo da experiência! - Tudo bem, hoje foi um dia péssimo, mas amanhã pode ser melhor.... - Falo para mim mesma. Algumas horas se passaram, e a correria foi a mesma. Logo deu minha hora de ir pra casa, tirei o uniforme e me arrumei, peguei minha mochila com um sorriso me despedi de todos, e fui para minha casa. Assim que coloquei o pé para fora do Vossen, começou a chover. - Ótimo, tudo que eu precisava agora era tomar banho de chuva! - Reclamo para mim mesma e percebo o quão reclamona e rabugenta eu estou. Olho para trás, observando o edifício Vossen, e em uma janela vejo o mesmo rapaz grosseiro e egocêntrico de mais cedo, o mesmo me observa, com seu copo de espresso na mão, alguns segundos depois ele levanta o copo, como se estivesse agradecendo, ou sei lá oque ele estava fazendo, e eu reviro os olhos. Segundos depois um rapaz de terno se aproxima e me entrega um guarda-chuva. - Isso não é meu. - O alerto mais ele se vira de costas e se afasta. - Está entregando para a pessoa errada, moço? - Eu o chamo, mais sou ignorada e ele vai embora. Olho para a janela mais uma vez, e o mesmo rapaz ainda me observa, e aponta para o céu, como se avisasse para eu abrir o guarda-chuva. Talvez ele tivesse pedido para entregar a mim? Não, nada haver, por que ele entregaria um guarda-chuva para uma desconhecida? Enfim, ignoro meus pensamentos, abro o mesmo e me abrigo da chuva, deixando Vossen Atelier para trás, ao chegar em meu apartamento, fecho o guarda-chuva e entro no elevador, vou até meu andar e tiro a chave da porta de dentro da minha bolsa, e destranco a porta. Entro no apartamento, coloco o guarda-chuva no canto ao lado da porta e me sento no sofá, olho para o teto. - Hoje foi um dia cansativo Yuki. - Ao escutar minha voz, minha gatinha de 2 meses, mia em resposta. Encontrei Yuki em uma caixinha no beco na volta para casa, depois de um dia estressante em uma lanchonete onde trabalhei por uma semana, literalmente. Me empenhei e dei o meu melhor, mas pela ignorância dos outros e minha cor, não fiquei lá. Yuki estava em uma caixa com um pequeno cobertor sozinha e no meio da chuva, estava passando pelo beco quando escutei um miado, ou melhor, um pedido de socorro, eu me aproximei e a vi, encolhida ali, com medo, fome e frio. Tomando chuva, e sabe lá Deus, quanto tempo ela ficou ali pedindo socorro, enquanto as pessoas passavam por ela e nem sequer olhavam. Eu a peguei e a trouxe para casa, e estou cuidando dela. Ela é uma gatinha Branca, de olhos esverdeados, comprei para ela uma coleirinha preta, com uma pedrinha roxa. Come pouco, só mia quando eu chego, não faz barulho nenhum, e se deixar dorme o dia todo. - Miau... - Ela se j**a no sofá ao meu lado e se abre como flor. Sorrio com seu gesto e faço carinho em sua barriguinha, e escuto a mesma ronronar. - Você é o amor da minha vida sabia Yuki? - Pego ela e seguro em meu colo, fazendo carinho nela e a mesma lambe minhas mãos, coloco-a de volta no sofá e me levanto me direcionando ao meu quarto, pego um pijama e vou para o banheiro, começo a me despir e entro no Box, ligo o chuveiro e sinto a água quente cair sobre meu corpo, me sentindo instantaneamente relaxada, lavo meu corpo todo, e começo a cuidar do meu cabelo, assim que termino de enxaguar, pego minha toalha e me seco, me visto, escovo meus dentes, e hidrato o cabelo. Assim que me sinto pronta, volto para a sala e vejo Yuki batendo a patinha no puxador do pote de ração, e a ração cai instantaneamente no seu pratinho, e a mesma se exibe para mim e começa a comer, me aproximo dela e faço carinho nela. - Boa garota! - Ela mia em resposta e volta a comer, me levanto e vou para a cozinha, preparo um miojo instantâneo e me sento no sofá. Olho para o relógio e já são 20:40 da noite, como o dia passou tão rápido, assisto um pouco de TV e desligou a televisão assim que me sinto entediada, lavo a pouquíssima louça que havia deixado durante o dia e vou para meu quarto. Me deito em minha cama, pego meu celular, porém nenhuma mensagem, a não ser da minha mãe e de Amélia, uma amiga, minha mãe, perguntando como foi o primeiro dia de trabalho, eu a respondo rápida e saio do chat, logo vejo o de Amélia. "Oi amiga, como foi o dia de trabalho?" Respondo rapidamente, e a mesma visualiza e responde em seguida. "Quando poderemos sair? encontrei uma boate que supostamente o Rei do Vossen Atelier frequenta, pelo menos assim são os boatos, vai que você fisga ele" Dou risada com sua mensagem e respondo que no domingo estarei livre, sábado também folgarei, porém tenho que resolver umas coisas então não dará. "Combinado, então nós nos encontramos no L’Obscur" É um nome bem enigmático para uma boate, e "nós nós encontramos no L’Obscur" é quase um código. "Nós nos encontraremos lá!" Respondo e verifico o despertador, coloco o celular para carregar e desligou a luz me preparando para dormir.Minha mãe quase sempre dizia que não precisava de nada. Ainda assim, quando perguntei o que ela queria fazer no aniversário, respondeu que gostaria de passar o dia com a família. — Só isso? — perguntei. Ela me olhou por cima da xícara de café. — “Só isso” parece pouco? — Não. Parece fácil. — Então você pode organizar. Eu devia ter desconfiado do sorriso dela. Minha mãe sabia transformar uma tarefa simples numa lista cheia de detalhes, mesmo quando garantia que não queria nada demais. Mas, dessa vez, a lista foi curta: um bolo, comida suficiente para todos e nenhum discurso longo. — E nada de presentes caros — acrescentou. — Certo. — Kiara. — Certo — repeti, dessa vez com mais sinceridade. Meu pai, sentado à outra ponta da mesa, levantou os olhos do jornal. — Posso fazer alguma coisa? — Você pode ficar responsável pela música — disse minha mãe. — Música de aniversário ou música que você gosta? — As duas coisas podem ser a mesma coisa. — Vou preparar uma seleção. — Uma
Minha mãe quase sempre dizia que não precisava de nada. Quando eu perguntava se queria sair, ela respondia que tinha roupa suficiente, sapatos suficientes e compromissos suficientes para encher a semana. Mas, depois do passeio de barco com meu pai, senti vontade de fazer algo parecido com ela: passar algumas horas juntas, sem documentos para organizar nem assuntos urgentes para resolver. — Vamos fazer compras? — perguntei naquela manhã. Ela ergueu os olhos do livro que lia à mesa. — Compras de quê? — Não sei. Roupas, talvez. Ou qualquer coisa que a gente encontre pelo caminho. — Você está me convidando para gastar dinheiro sem um plano? — Exatamente. Minha mãe fechou o livro. — Então preciso pensar. — Pense até o almoço. Ela fingiu considerar a proposta com seriedade. Depois, sorriu. — Está bem. Mas só porque quero ver o que você considera uma tarde sem plano. Saímos depois do almoço. Minha mãe dirigiu até o centro, enquanto eu escolhia as músicas no rádio. A
Meu pai perguntou se eu queria sair no sábado de manhã. Não explicou para onde. Disse apenas que deveríamos levar um casaco e que voltaríamos antes do anoitecer. Eu aceitei sem perguntar muito. Depois de tantas semanas em que cada convite parecia esconder uma pista ou uma preocupação, havia algo reconfortante em não saber exatamente o que nos esperava. O dia amanheceu claro, com nuvens finas espalhadas pelo céu. Minha mãe nos entregou uma sacola com sanduíches, duas maçãs e uma garrafa térmica de café. — Vocês vão voltar com fome — disse ela, colocando a sacola no banco de trás. — Sempre voltamos com fome — respondeu meu pai. Ele dirigiu para fora do centro, seguindo uma estrada que acompanhava o rio. Eu conhecia aquele caminho, embora não soubesse de onde. As casas foram ficando para trás, depois vieram árvores altas, pequenas lojas e trechos de água que apareciam entre os galhos. — Onde estamos indo? — perguntei. — Para o lugar onde costumávamos passar os sábados, quando você
Na manhã em que as investigações terminaram, o ateliê estava quieto. Não era o silêncio tenso dos últimos dias, cheio de ruídos que pareciam esconder mensagens. Era um silêncio comum: o som distante de um ônibus passando, o vento mexendo nas folhas do jardim, a chaleira começando a ferver na cozinha. Ainda assim, ninguém conseguia agir como se fosse uma manhã qualquer. O medalhão de Amélia permanecia sobre a mesa, guardado num saco transparente. Ao lado dele, havia uma caixa de madeira, uma pilha de documentos e a fotografia da árvore plantada em 1987. O doutor Ramos chegaria a qualquer momento com o resultado da análise dos registros, das mensagens e dos objetos encontrados. Cecília estava sentada perto da janela, com o caderno da mãe aberto sobre os joelhos. Desde que voltáramos da porta azul, ela passava horas tentando encontrar outras anotações sobre a música. Não falava muito. Às vezes, cantarolava as quatro primeiras notas e parava, como se ainda tivesse medo de chamar alguém
Na manhã seguinte, a melodia ainda estava na minha cabeça. Quatro notas. Duas repetidas. Mais duas. Uma última, sustentada até desaparecer. Eu a cantarolava sem perceber enquanto meu pai preparava café no ateliê. Quando me dei conta, parei no meio da sequência. — Não precisa interromper — disse ele, sem tirar os olhos da chaleira. — É uma música bonita. — É uma pista. — Pode ser as duas coisas. A observação me fez pensar em Cecília. Na véspera, ela ouvira a gravação várias vezes, como se quisesse memorizar cada respiração da mãe e cada palavra do homem que talvez fosse seu pai. Não sei se conseguiu dormir. Eu também não dormira muito. O doutor Ramos chegou pouco depois das nove. Trazia uma pasta e notícias da equipe que examinava a porta azul. — Encontraram quatro pequenas placas metálicas na moldura — explicou. — Estão ligadas a um mecanismo antigo. Ainda não sabemos se respondem a som, pressão ou a uma sequência manual. Ian, que chegara comigo, apontou para a pasta. — E a
A frase ficou comigo durante toda a volta ao ateliê. "Ceci, eu tentei voltar." Eu a repetia em silêncio, como se a cada vez pudesse descobrir algo que não tinha visto. Uma despedida. Um pedido de perdão. Uma prova de que Marcelo estivera mesmo atrás daquela porta. Mas as palavras não mudavam, e nenhuma delas respondia à pergunta que mais importava: para onde ele tinha ido? Cecília permaneceu quieta no banco de trás. Tomás sentou-se ao lado dela, sem tentar preencher o silêncio. Ian dirigia devagar, atento ao trânsito e, pelo retrovisor, ao carro que nos seguia desde o prédio. — O carro atrás de nós está desde a rua paralela — disse ele. Ramos, no banco da frente, olhou pelo vidro traseiro. — Não mude de rota bruscamente. Continue até a avenida e entre no estacionamento da delegacia. Ian fez o que ele pediu. O carro escuro manteve a distância. Quando entramos no estacionamento, passou direto pela rua. Não pudemos ver quem dirigia. — Isso não prova que estava nos seguindo — diss







