FAZER LOGINMeu segundo dia no Atelier começou às seis e quarenta e cinco da manhã.
Eu sei disso porque olhei para o relógio três vezes antes de finalmente decidir sair da cama. Na primeira vez, pensei em dormir mais cinco minutos. Na segunda, pensei em dormir mais dez. Na terceira, percebi que, se fechasse os olhos novamente, provavelmente perderia meu horário. Então levantei. Tomei um banho rápido, me arrumei e saí de casa ainda tentando convencer meu cérebro de que aquilo tudo era uma boa ideia. Trabalhar em uma cafeteria parecia simples. Atender clientes. Preparar bebidas. Organizar mesas. Receber pedidos. Sorrir. Eu conseguia fazer tudo isso. O problema era que eu ainda estava tentando me acostumar com o Atelier. O lugar era enorme, movimentado e cheio de pessoas que pareciam saber exatamente para onde estavam indo. Eu ainda precisava pensar duas vezes antes de descobrir qual corredor levava a determinado lugar. Quando cheguei à cafeteria, o movimento ainda estava começando. Cumprimentei algumas pessoas da equipe e fui direto colocar meu avental. — Segundo dia — alguém comentou atrás de mim. Olhei por cima do ombro. — Infelizmente, sobrevivi ao primeiro. Ela riu. — Vai sobreviver ao segundo também. — Espero que sim. Comecei meu turno. Durante a primeira hora, tudo correu tranquilamente. Depois, o lugar começou a encher. Pedidos. Copos. Bandejas. Máquina de café. Pessoas entrando e saindo. Eu já estava começando a entender o ritmo. Não era tão difícil quando eu parava de pensar demais. E então ele apareceu. Eu o reconheci imediatamente. O homem do dia anterior. Terno escuro. Postura impecável. Expressão séria. Aquele mesmo olhar que parecia analisar tudo ao redor sem demonstrar interesse por nada. Eu não sabia quem ele era. Não sabia se trabalhava no Atelier. Não sabia qual era sua função. Não sabia nem sequer seu nome. Só sabia que já tinha visto aquele rosto. E, pelo jeito como ele entrou na cafeteria, tive a impressão de que aquilo fazia parte da rotina dele. Ele se aproximou do balcão. Fiquei responsável pelo atendimento. — Bom dia. Ele olhou para mim. Por um instante, tive a impressão de que também havia me reconhecido. — Café. Só isso. Piscaram algumas luzes imaginárias na minha cabeça. Nem "bom dia". Nem "por favor". Nem "eu gostaria de". Apenas: "Café." Olhei para ele. — Que tipo? Ele pareceu genuinamente surpreso com a pergunta. — Café. — Isso eu entendi. Ele me encarou. — Preto. — Tamanho? — Médio. — Açúcar? — Não. Anotei. — Alguma coisa para acompanhar? — Não. Terminei o pedido e ergui os olhos. — Mais alguma coisa? Ele fez uma pausa. — Não. — Ótimo. Entreguei o número do pedido. — Pode aguardar ali. Ele pegou o papel. — Eu sei. Fiquei olhando enquanto ele se afastava. Arrogante. Foi a primeira palavra que me veio à cabeça. Nem conhecia o homem e já tinha conseguido me irritar. Isso era quase um talento. Preparei o café e coloquei sobre o balcão. — Café médio, preto. Ele apareceu alguns segundos depois. Pegou o copo. — Obrigado. Dessa vez, pelo menos, havia um "obrigado". — Disponha. Ele se virou. Depois olhou novamente para mim. — Você é nova. Não era exatamente uma pergunta. — Segundo dia. — Imaginei. — Como? Ele tomou um gole do café. — Você ainda olha para tudo como se estivesse tentando descobrir onde está. Meu sorriso desapareceu. — E você olha para todo mundo como se fosse dono do lugar. Ele ficou parado. Eu também. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Então ele soltou um pequeno sorriso. Não parecia exatamente simpático. — Talvez eu seja. — Então deveria saber onde fica a saída. Ele ergueu uma sobrancelha. — Por quê? — Porque eu estou sugerindo que use. Dessa vez, ele realmente sorriu. Foi rápido. Quase imperceptível. Mas eu vi. Ele saiu. E eu fiquei ali pensando que talvez tivesse acabado de cometer um erro. Ou talvez não. --- O restante da manhã passou rápido. Tão rápido que, quando finalmente tive alguns minutos para respirar, percebi que já era quase meio-dia. Sentei-me no pequeno espaço reservado aos funcionários, bebi um pouco de água e apoiei a cabeça contra a parede. Eu estava cansada. Mas era um cansaço diferente do dia anterior. No primeiro dia, tudo parecia estranho. Hoje, pelo menos, eu já sabia onde guardar algumas coisas. Sabia quais máquinas davam mais problema. Sabia qual cliente gostava de reclamar. Sabia qual funcionária sempre esquecia onde colocava as colheres. Pequenos detalhes. Eu estava começando a pertencer àquele lugar. Voltei para o balcão. E, aproximadamente vinte minutos depois, ele apareceu novamente. O homem do café. Olhei para o relógio. Ele tinha voltado praticamente no mesmo horário. — De novo? Ele me encarou. — Algum problema? — Nenhum. Peguei o bloco. — O mesmo? Ele pareceu surpreso. — Você lembra? — Foi há poucas horas. — Ainda assim. — Minha memória funciona. Ele assentiu. — Café preto. — Médio. — Sem açúcar. — Exatamente. — Pelo menos você aprende rápido. Olhei para ele. — E você continua simpático. — Nunca disse que era. — Nem precisava. Preparei o café. Dessa vez, quando coloquei o copo no balcão, ele não saiu imediatamente. Ficou olhando para mim. — Você sempre responde assim? — Assim como? — Como se estivesse pronta para uma discussão. — Só quando alguém começa uma. Ele inclinou levemente a cabeça. — Interessante. — O quê? — Nada. Pegou o café. — Até amanhã. Franzi a testa. — Você pretende voltar amanhã? — Provavelmente. — Então eu deveria pedir transferência. Ele sorriu. — Boa ideia. E saiu. Fiquei olhando para a porta por alguns segundos. Eu realmente não sabia quem aquele homem era. Mas, aparentemente, ele estava decidido a transformar o meu segundo dia em uma espécie de disputa silenciosa. E o pior? Eu não estava exatamente incomodada com isso. --- O turno da tarde foi mais tranquilo. Alguns clientes conversavam nas mesas. Outros trabalhavam em seus notebooks. Uma criança derrubou chocolate no chão. Um senhor pediu o mesmo cappuccino três vezes porque continuava esquecendo que já tinha pedido. Coisas normais. Coisas que me faziam esquecer por alguns minutos que eu ainda era nova naquele lugar. No fim do expediente, comecei a limpar o balcão. Foi quando ouvi uma voz conhecida. — Você vai embora agora? Levantei os olhos. Era ele novamente. O homem do terno escuro. — Sim. — Está chovendo. Olhei para a porta de vidro. Ele tinha razão. A chuva começava a cair do lado de fora. — Eu sei. — Trouxe guarda-chuva? — Não. Ele olhou para a chuva. Depois para mim. — Você costuma sair despreparada? — Você costuma fazer perguntas demais? — Quando necessário. — Então não. Ele ficou em silêncio. Depois colocou alguma coisa sobre o balcão. Um guarda-chuva. Olhei para o objeto. Depois para ele. — O que é isso? — Um guarda-chuva. — Eu sei o que é um guarda-chuva. — Então estamos progredindo. Olhei para ele, incrédula. — Você sempre é assim? — Assim como? — Arrogante. Ele pareceu pensar. — Talvez. — Pelo menos admite. — Você também não parece exatamente fácil. Cruzei os braços. — Eu nunca disse que era. — Nem precisava. Ele empurrou o guarda-chuva na minha direção. — Pegue. — Não. — Por quê? — Porque não preciso. — Você acabou de dizer que não trouxe um. — Posso esperar a chuva passar. Ele olhou pela janela. — Pode demorar. — Eu tenho paciência. — Eu não. — Problema seu. Ele me encarou por alguns segundos. Então soltou uma risada baixa. — Você realmente não facilita. — E você realmente gosta de insistir. Ele deixou o guarda-chuva sobre o balcão. — Use. — E você? — Tenho outro. Olhei para ele, desconfiada. — Tem certeza? — Tenho. Peguei o guarda-chuva. — Eu devolvo amanhã. Ele assentiu. — Estarei aqui. — Como sabe? — Porque eu venho todos os dias. Aquilo respondeu uma pergunta que eu nem tinha feito. Então ele começou a sair. — Ei. Ele olhou para trás. — Obrigada. Dessa vez, seu rosto perdeu um pouco daquela expressão arrogante. — De nada. E foi embora. Fiquei observando a porta se fechar atrás dele. Olhei para o guarda-chuva nas minhas mãos. Eu ainda não sabia seu nome. Não sabia o que fazia. Não sabia por que aparecia naquela cafeteria todos os dias. Não sabia sequer se ele trabalhava no Atelier ou apenas tinha o hábito de tomar café ali. Sabia apenas que aquele rosto estava começando a fazer parte da minha rotina. E isso era estranho. Porque era só o meu segundo dia. Eu deveria estar preocupada em aprender meu trabalho. Em decorar os pedidos. Em não derrubar uma bandeja. Em sobreviver ao ritmo daquele lugar. Não em ficar curiosa sobre um homem arrogante que sequer havia se apresentado. Balancei a cabeça. — Esquece, Kiara. Peguei minha bolsa. Apaguei as luzes da área do balcão e saí da cafeteria. A chuva continuava caindo. Abri o guarda-chuva. E, enquanto caminhava para casa, percebi que estava sorrindo. Não sabia o nome dele. Ainda. Mas, de alguma forma, tinha a sensação de que não demoraria muito para descobrir.O celular permaneceu na minha mão mesmo depois que a mensagem desapareceu.Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.O silêncio daquele porão parecia diferente agora.Antes, ele era apenas vazio.Agora parecia esconder olhos.Como se as paredes soubessem exatamente o que tínhamos acabado de descobrir.— Vamos embora — Ian disse.Olhei para ele.— Embora?— Por algumas horas.— Ian...— Kiara, você acabou de desmaiar.— Eu estou bem.— Você acabou de ter lembranças que nem sabia que existiam, descobriu que alguém apagou parte da nossa história e recebeu uma mensagem de uma pessoa que sabe exatamente o que estamos fazendo.Ele fez uma pausa.— Acho que merecemos algumas horas sem procurar respostas.Eu queria discordar.Queria dizer que não podíamos parar.Que cada minuto importava.Mas, pela primeira vez desde que tudo aquilo começou, eu estava cansada.Não apenas fisicamente.Cansada de descobrir pedaços de uma vida que eu não lembrava de ter vivido.Cansada de olhar para fotogra
Na manhã seguinte, a mensagem continuava na tela do meu celular. A segunda está onde tudo começou. Eu havia dormido pouco. Na verdade, quase não dormi. Passei horas olhando para o teto, tentando decidir o que aquela frase significava. O hospital Lee? A clínica? A casa do meu pai? Ou talvez algo ainda mais antigo. Ian apareceu na minha frente pouco depois das oito da manhã. — Você descobriu alguma coisa? Balancei a cabeça. — Nada. Ele olhou para o celular. — Então vamos descobrir juntos. A palavra ficou na minha cabeça. Juntos. Talvez porque, desde que tudo aquilo começou, essa fosse a primeira vez que eu não sentia que estava carregando o passado sozinha. --- O hospital Lee parecia ainda mais vazio durante o dia. A parte abandonada continuava isolada, coberta por poeira e pelo silêncio de um lugar que havia sido esquecido. Descemos até o porão. Ian carregava uma lanterna. Eu segurava a pasta com os documentos que havíamos encontrado. — A entrada subterrânea dev
Kiara A casa de Ian parecia diferente naquela noite. Talvez porque, pela primeira vez, eu não estivesse ali apenas como alguém tentando descobrir respostas. Eu estava entrando no lugar onde ele guardava as próprias perguntas. Assim que fechamos a porta, ele colocou a caixa de documentos sobre a mesa. — Trouxemos tudo? Olhei para a caixa. — Tudo. Ian respirou fundo. — Então vamos começar. — Agora? — Se deixarmos para amanhã, provavelmente nenhum de nós vai dormir. Soltei uma risada curta. — Você tem razão. Sentamo-nos à mesa. A primeira coisa que fizemos foi organizar os documentos. Relatórios médicos. Registros de entrada. Anotações. Fotografias. Páginas incompletas. Tudo parecia fazer parte de uma história maior, mas as peças não se encaixavam. Ian abriu um dos documentos. — Olha isso. Aproximei-me. Era o registro de Killian Voss. Meu pai. Ainda era estranho ver aquele nome escrito em documentos oficiais. — Ele esteve na clínica várias vezes. — Quantas?
Saímos da sala dos arquivos. Eu ainda segurava a fotografia de Killian contra o peito. Não conseguia parar de olhar para aquele rosto. Meu pai. O homem que eu não lembrava. O homem que, aparentemente, havia tentado me encontrar. Caminhamos pelo corredor em silêncio. Então ouvi um som. Toc. Parei. Ian também. — Você ouviu? Ele levantou o celular, iluminando o corredor. — Ouvi. Ficamos imóveis. Nada. Apenas o silêncio do prédio abandonado. Então veio novamente. Toc. Dessa vez, mais forte. O som vinha do final do corredor. Olhei naquela direção. Havia uma porta que não tínhamos visto antes. Uma porta de metal. Escura. Sem maçaneta aparente. Acima dela, uma pequena placa enferrujada. SUBSOLO — ACESSO RESTRITO. Meu coração acelerou. — Essa porta não estava na planta. Ian se aproximou. — Não. Ele iluminou a parede ao redor. Havia marcas antigas. Como se alguma coisa tivesse sido arrastada várias vezes pelo chão. — Tem alguém aqui? — perguntei. Minha própr
Kiara voss Acho que acabamos de descobrir quem eu sou. A voz de Ian ainda ecoava na minha cabeça. Ele permanecia diante daquele quadro. Dr. Daniel Lee — Diretor Clínico. Seu pai. Não o meu. Por algum motivo, eu sentia que precisava deixar isso claro até para mim mesma. Daniel Lee pertencia à história de Ian. Eu ainda precisava descobrir quem pertencia à minha. Olhei novamente para as fotografias penduradas na parede. Médicos. Funcionários. Pessoas que haviam trabalhado naquela clínica anos atrás. Meu olhar passou por cada rosto até parar novamente em Daniel. Ian continuava imóvel. — Você está bem? — perguntei. Ele demorou a responder. — Não sei. Aproximei-me. — Você nunca tinha visto essa foto? — Não. Ele passou os dedos pela moldura, sem tocá-la de verdade. — Eu sabia o nome do meu pai. Sabia que ele era médico. Mas nunca imaginei que ele tivesse sido diretor daqui. — Talvez seja por isso que suas memórias começaram a voltar. Ian me olhou. — Talvez. Ficamos
Kiara Naquela noite, eu não consegui dormir. Não depois de descobrir que Ian também tinha perdido parte da própria memória. Não depois de descobrir que nossos pais estavam envolvidos. E muito menos depois de ver aquele pingente. Eu ainda conseguia sentir o metal frio entre meus dedos. Aquela pequena peça parecia insignificante. Mas minha memória dizia o contrário. Ela tinha pertencido à nossa história. E eu precisava saber qual. Às sete da manhã, Ian apareceu no Atelier. Eu ainda estava organizando algumas caixas quando ele entrou. Não disse bom-dia. Não sorriu. Apenas colocou uma pasta sobre o balcão. — Precisamos ir. Olhei para a pasta. — Para onde? Ele me encarou. — Lee Medical Center. Meu coração acelerou. — Hoje? — Agora. Olhei para o relógio. — Você descobriu alguma coisa? — Descobri onde ficavam os arquivos antigos. Meu corpo ficou tenso. — Como? — Um dos funcionários antigos da VOSSEN ainda trabalha para minha família. Conversei com ele ontem. — E?







