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Segundo dia

last update publish date: 2026-09-02 02:40:16

Meu segundo dia no Atelier começou às seis e quarenta e cinco da manhã.

Eu sei disso porque olhei para o relógio três vezes antes de finalmente decidir sair da cama.

Na primeira vez, pensei em dormir mais cinco minutos.

Na segunda, pensei em dormir mais dez.

Na terceira, percebi que, se fechasse os olhos novamente, provavelmente perderia meu horário.

Então levantei.

Tomei um banho rápido, me arrumei e saí de casa ainda tentando convencer meu cérebro de que aquilo tudo era uma boa ideia.

Trabalhar em uma cafeteria parecia simples.

Atender clientes.

Preparar bebidas.

Organizar mesas.

Receber pedidos.

Sorrir.

Eu conseguia fazer tudo isso.

O problema era que eu ainda estava tentando me acostumar com o Atelier.

O lugar era enorme, movimentado e cheio de pessoas que pareciam saber exatamente para onde estavam indo.

Eu ainda precisava pensar duas vezes antes de descobrir qual corredor levava a determinado lugar.

Quando cheguei à cafeteria, o movimento ainda estava começando.

Cumprimentei algumas pessoas da equipe e fui direto colocar meu avental.

— Segundo dia — alguém comentou atrás de mim.

Olhei por cima do ombro.

— Infelizmente, sobrevivi ao primeiro.

Ela riu.

— Vai sobreviver ao segundo também.

— Espero que sim.

Comecei meu turno.

Durante a primeira hora, tudo correu tranquilamente.

Depois, o lugar começou a encher.

Pedidos.

Copos.

Bandejas.

Máquina de café.

Pessoas entrando e saindo.

Eu já estava começando a entender o ritmo.

Não era tão difícil quando eu parava de pensar demais.

E então ele apareceu.

Eu o reconheci imediatamente.

O homem do dia anterior.

Terno escuro.

Postura impecável.

Expressão séria.

Aquele mesmo olhar que parecia analisar tudo ao redor sem demonstrar interesse por nada.

Eu não sabia quem ele era.

Não sabia se trabalhava no Atelier.

Não sabia qual era sua função.

Não sabia nem sequer seu nome.

Só sabia que já tinha visto aquele rosto.

E, pelo jeito como ele entrou na cafeteria, tive a impressão de que aquilo fazia parte da rotina dele.

Ele se aproximou do balcão.

Fiquei responsável pelo atendimento.

— Bom dia.

Ele olhou para mim.

Por um instante, tive a impressão de que também havia me reconhecido.

— Café.

Só isso.

Piscaram algumas luzes imaginárias na minha cabeça.

Nem "bom dia".

Nem "por favor".

Nem "eu gostaria de".

Apenas:

"Café."

Olhei para ele.

— Que tipo?

Ele pareceu genuinamente surpreso com a pergunta.

— Café.

— Isso eu entendi.

Ele me encarou.

— Preto.

— Tamanho?

— Médio.

— Açúcar?

— Não.

Anotei.

— Alguma coisa para acompanhar?

— Não.

Terminei o pedido e ergui os olhos.

— Mais alguma coisa?

Ele fez uma pausa.

— Não.

— Ótimo.

Entreguei o número do pedido.

— Pode aguardar ali.

Ele pegou o papel.

— Eu sei.

Fiquei olhando enquanto ele se afastava.

Arrogante.

Foi a primeira palavra que me veio à cabeça.

Nem conhecia o homem e já tinha conseguido me irritar.

Isso era quase um talento.

Preparei o café e coloquei sobre o balcão.

— Café médio, preto.

Ele apareceu alguns segundos depois.

Pegou o copo.

— Obrigado.

Dessa vez, pelo menos, havia um "obrigado".

— Disponha.

Ele se virou.

Depois olhou novamente para mim.

— Você é nova.

Não era exatamente uma pergunta.

— Segundo dia.

— Imaginei.

— Como?

Ele tomou um gole do café.

— Você ainda olha para tudo como se estivesse tentando descobrir onde está.

Meu sorriso desapareceu.

— E você olha para todo mundo como se fosse dono do lugar.

Ele ficou parado.

Eu também.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Então ele soltou um pequeno sorriso.

Não parecia exatamente simpático.

— Talvez eu seja.

— Então deveria saber onde fica a saída.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Por quê?

— Porque eu estou sugerindo que use.

Dessa vez, ele realmente sorriu.

Foi rápido.

Quase imperceptível.

Mas eu vi.

Ele saiu.

E eu fiquei ali pensando que talvez tivesse acabado de cometer um erro.

Ou talvez não.

---

O restante da manhã passou rápido.

Tão rápido que, quando finalmente tive alguns minutos para respirar, percebi que já era quase meio-dia.

Sentei-me no pequeno espaço reservado aos funcionários, bebi um pouco de água e apoiei a cabeça contra a parede.

Eu estava cansada.

Mas era um cansaço diferente do dia anterior.

No primeiro dia, tudo parecia estranho.

Hoje, pelo menos, eu já sabia onde guardar algumas coisas.

Sabia quais máquinas davam mais problema.

Sabia qual cliente gostava de reclamar.

Sabia qual funcionária sempre esquecia onde colocava as colheres.

Pequenos detalhes.

Eu estava começando a pertencer àquele lugar.

Voltei para o balcão.

E, aproximadamente vinte minutos depois, ele apareceu novamente.

O homem do café.

Olhei para o relógio.

Ele tinha voltado praticamente no mesmo horário.

— De novo?

Ele me encarou.

— Algum problema?

— Nenhum.

Peguei o bloco.

— O mesmo?

Ele pareceu surpreso.

— Você lembra?

— Foi há poucas horas.

— Ainda assim.

— Minha memória funciona.

Ele assentiu.

— Café preto.

— Médio.

— Sem açúcar.

— Exatamente.

— Pelo menos você aprende rápido.

Olhei para ele.

— E você continua simpático.

— Nunca disse que era.

— Nem precisava.

Preparei o café.

Dessa vez, quando coloquei o copo no balcão, ele não saiu imediatamente.

Ficou olhando para mim.

— Você sempre responde assim?

— Assim como?

— Como se estivesse pronta para uma discussão.

— Só quando alguém começa uma.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Interessante.

— O quê?

— Nada.

Pegou o café.

— Até amanhã.

Franzi a testa.

— Você pretende voltar amanhã?

— Provavelmente.

— Então eu deveria pedir transferência.

Ele sorriu.

— Boa ideia.

E saiu.

Fiquei olhando para a porta por alguns segundos.

Eu realmente não sabia quem aquele homem era.

Mas, aparentemente, ele estava decidido a transformar o meu segundo dia em uma espécie de disputa silenciosa.

E o pior?

Eu não estava exatamente incomodada com isso.

---

O turno da tarde foi mais tranquilo.

Alguns clientes conversavam nas mesas.

Outros trabalhavam em seus notebooks.

Uma criança derrubou chocolate no chão.

Um senhor pediu o mesmo cappuccino três vezes porque continuava esquecendo que já tinha pedido.

Coisas normais.

Coisas que me faziam esquecer por alguns minutos que eu ainda era nova naquele lugar.

No fim do expediente, comecei a limpar o balcão.

Foi quando ouvi uma voz conhecida.

— Você vai embora agora?

Levantei os olhos.

Era ele novamente.

O homem do terno escuro.

— Sim.

— Está chovendo.

Olhei para a porta de vidro.

Ele tinha razão.

A chuva começava a cair do lado de fora.

— Eu sei.

— Trouxe guarda-chuva?

— Não.

Ele olhou para a chuva.

Depois para mim.

— Você costuma sair despreparada?

— Você costuma fazer perguntas demais?

— Quando necessário.

— Então não.

Ele ficou em silêncio.

Depois colocou alguma coisa sobre o balcão.

Um guarda-chuva.

Olhei para o objeto.

Depois para ele.

— O que é isso?

— Um guarda-chuva.

— Eu sei o que é um guarda-chuva.

— Então estamos progredindo.

Olhei para ele, incrédula.

— Você sempre é assim?

— Assim como?

— Arrogante.

Ele pareceu pensar.

— Talvez.

— Pelo menos admite.

— Você também não parece exatamente fácil.

Cruzei os braços.

— Eu nunca disse que era.

— Nem precisava.

Ele empurrou o guarda-chuva na minha direção.

— Pegue.

— Não.

— Por quê?

— Porque não preciso.

— Você acabou de dizer que não trouxe um.

— Posso esperar a chuva passar.

Ele olhou pela janela.

— Pode demorar.

— Eu tenho paciência.

— Eu não.

— Problema seu.

Ele me encarou por alguns segundos.

Então soltou uma risada baixa.

— Você realmente não facilita.

— E você realmente gosta de insistir.

Ele deixou o guarda-chuva sobre o balcão.

— Use.

— E você?

— Tenho outro.

Olhei para ele, desconfiada.

— Tem certeza?

— Tenho.

Peguei o guarda-chuva.

— Eu devolvo amanhã.

Ele assentiu.

— Estarei aqui.

— Como sabe?

— Porque eu venho todos os dias.

Aquilo respondeu uma pergunta que eu nem tinha feito.

Então ele começou a sair.

— Ei.

Ele olhou para trás.

— Obrigada.

Dessa vez, seu rosto perdeu um pouco daquela expressão arrogante.

— De nada.

E foi embora.

Fiquei observando a porta se fechar atrás dele.

Olhei para o guarda-chuva nas minhas mãos.

Eu ainda não sabia seu nome.

Não sabia o que fazia.

Não sabia por que aparecia naquela cafeteria todos os dias.

Não sabia sequer se ele trabalhava no Atelier ou apenas tinha o hábito de tomar café ali.

Sabia apenas que aquele rosto estava começando a fazer parte da minha rotina.

E isso era estranho.

Porque era só o meu segundo dia.

Eu deveria estar preocupada em aprender meu trabalho.

Em decorar os pedidos.

Em não derrubar uma bandeja.

Em sobreviver ao ritmo daquele lugar.

Não em ficar curiosa sobre um homem arrogante que sequer havia se apresentado.

Balancei a cabeça.

— Esquece, Kiara.

Peguei minha bolsa.

Apaguei as luzes da área do balcão e saí da cafeteria.

A chuva continuava caindo.

Abri o guarda-chuva.

E, enquanto caminhava para casa, percebi que estava sorrindo.

Não sabia o nome dele.

Ainda.

Mas, de alguma forma, tinha a sensação de que não demoraria muito para descobrir.

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