LOGINChegando eu e Luna ao tal fliperama, um lugar bem bacana por sinal, um pouco antigo, mas era o que tinha.
Adentramos o local e percebi vários olhos nos observando. O ambiente estava bem cheio, acho que a maioria dos jovens da cidade estava ali. Havia garçonetes com patins que passavam por nós para lá e para cá. Eu e Luna fomos até o caixa comprar fichas para usar as máquinas. — Oi, Bill! - ela o cumprimentou calorosamente, com um sorriso largo, para o senhor bigodudo que ficava no caixa. — Oi, Luna, o que vai ser hoje? — Quero fichas para usar as máquinas - ela respondeu. — Vou ficar te devendo, filha. As máquinas estão em manutenção. — Ah, sério? — Sim, olha ali o Fred com aquela boa vontade dele. Olhamos mais ao fundo. Um cara ruivo, de macacão jeans, estava encostado em uma das máquinas mexendo no celular. — Vamos, Fred, vamos! - gritou o senhor do balcão. — Tô perdendo dinheiro por tua causa! O cara deu de ombros, guardou o celular e se abaixou, mexendo na maleta de ferramentas. — Ah, que pena. Não vai ser dessa vez - lamentou Luna. — Ah, Bill, já conhece o Josh? Ele é filho da diretora Rebeca. — Ah, sim, eu lembro. Sinto muito pelo seu pai - disse ele, estendendo a mão para mim. — Obrigado. Muito prazer, Joshua Campbell, mas pode me chamar de Josh. — Então, crianças, hoje infelizmente não vou poder ajudar vocês, mas, só porque eu adoro essa garota aqui -disse, apertando o nariz de Luna —, dois milkshakes saindo! Mila!! — berrou do balcão. — O mesmo de sempre pra Luna, e um... - apontou o dedo indicador para mim. — Pode ser de chocolate — respondi. — De chocolate pro rapaz aqui. — Mas eu tenho dinheiro pra pagar, senhor - eu disse. — Amizade não se compra - respondeu ele, piscando o olho. — Aceita, bobo - disse Luna. — Está bem. — Bill!!! - o cara ruivo gritou de uma das máquinas. — Essa aqui tá pronta! — A que o povo quase não usa, ele consertou primeiro - resmungou Bill. — Não sei o que faço com esse rapaz. Se não fosse pela mãe dele, já tinha colocado ele pra correr. — Que nada, você gosta dele — debochou Luna. — Pior que eu gosto dessa praga! — É esse seu coração gigante, né, Bill? Acolhe todo mundo... Enquanto eles conversavam, retirei o dinheiro do bolso e coloquei no balcão. — Quero tudo em fichas para aquela máquina - apontei. — Josh! — Luna arregalou os olhos. — Viemos pra nos divertir, não viemos? - perguntei. — Então que seja naquela máquina mesmo. — Máquina de ursinhos? — Não importa - respondi. Ela olhou para o senhor no balcão, que deu de ombros. — Está bem, mas aviso: você vai perder seu dinheiro. - disse ela em tom de deboche. — Você não me conhece, Luna. Sou um verdadeiro pegador de ursinho! - ela gargalhou, me causando um alvoroço no estômago. Olhei para o senhor no balcão, que devolveu um sorriso debochado, como se tivesse percebido algo. — Aqui estão as fichas - disse ele, me entregando cerca de trinta fichas. — Vamos lá - falei. Coloquei ficha por ficha e, a cada uma, eu perdia. Ficava nervoso com Luna ao meu lado. — Ué, você não era o “pegador de ursinho” de Nova York? — Hahaha, engraçadinha! — Deixa eu tentar uma vez - disse ela. — Duvido você conseguir. Quero ver. Duvidei dela e me arrependi. Na primeira tentativa, Luna pegou uma girafa de pelúcia e comemorou. — Ah, não acredito! - reclamei. — O ruivo deve ter manipulado a máquina pra você, só pode ser isso. Ela riu. — Me dá aqui. — Vai lá, todo seu. Tentei uma, duas, três vezes e nada. Na penúltima tentativa, consegui pegar um boneco do Minions. — Yes! Até que enfim, ufa! — Ainda bem, senão eu ia te zoar pro resto da vida - disse ela. — Rapaz, você se meteu com a garota errada. Bill veio em nossa direção com os copos de milkshake nas mãos. — Como assim? — Ela não te contou? — O que eu preciso saber? - perguntei. — Ela está sempre nessa máquina. Já teve até competição. Uma vez ela saiu daqui com quase cinquenta bonecos desses. — O quê? — Sim. — Por Deus, Luna! E onde você coloca todos esses ursos? — Ela doa pro orfanato, creches e até para moradores de rua. — Uau! - eu disse, boquiaberto. Fiquei perplexo e ainda mais encantado com o que acabei de ouvir de Bill. Quanto mais tempo eu passava perto dela, mais eu a admirava. Em tão pouco tempo, Luna me fez querer, sem perceber, ficar na cidade. Um sininho na porta avisou que mais pessoas entravam no lugar. Bill olhou e fechou o semblante. O senhor bondoso e alegre mudou completamente a fisionomia. Luna também. Seu rosto avermelhou e percebi sua inquietação. — Vamos embora? - disse ela, olhando no relógio. — Já está ficando tarde. — Mas nem cinco horas são - falei. — É, mas nossa caminhada é longa, né? - justificou ela. Bill saiu de perto de nós e foi em direção ao grupo de jovens que acabara de entrar. Deviam ter a nossa idade. Havia três meninas e quatro rapazes. Um deles, um pouco mais musculoso, ergueu a cabeça para Bill. O ruivo e mais dois homens que estavam sentados se levantaram e foram na direção deles. Ficamos de longe, observando. Logo depois, aquele grupo saiu. — Vamos embora - pediu Luna novamente. — Você está bem? - perguntei, notando seu nervosismo. — Estou sim - respondeu ela. Nos despedimos de Bill e saímos. Ao chegar na entrada do estabelecimento, aquele grupo ainda estava ali. Olhei para eles, que estavam de costas, mas Luna permanecia cabisbaixa, segurando firme os bonecos de pelúcia. Eu sabia que havia algo errado e que eu iria descobrir o que era. Virando a saída, seguindo para casa, escutei uma voz desconhecida me chamar — Josh? Me virei. Uma das garotas do grupo gritava meu nome. — Josh, é você mesmo? Eles se aproximaram de nós. — Sou eu. Geórgia, lembra? — insistiu a loira de olhos azuis. — Me desculpe, mas não lembro quem é você - falei. — Poxa vida, Josh! Nós todos brincávamos no jardim de infância, nas vezes em que você vinha visitar sua mãe. Vagamente, aquele grupo me pareceu familiar. — Lembra de mim? - O mesmo cara que pouco antes enfrentava Bill se aproximou e me abraçou. Todos ali me cumprimentavam e eu ficava sem ação. Não sabia como agir, não lembrava de quase ninguém. — Cara, você tem que conhecer o clube - disse um deles. — Vamos, Josh, vamos lá. Você vai adorar. E o melhor... a entrada é de graça. Meu pai é o dono - disse uma das garotas, com pinta de modelo. — Não sei, não é uma boa ideia. Eu tenho que ir pra casa, ainda tenho coisas pra fazer hoje. — Vai, Josh - disse Luna, um pouco distante de nós. — Como assim “vai, Josh”? - perguntei. — Você está comigo, o convite é estendido a nós dois. — Claro! - A garota loira se aproximou de Luna e a abraçou deixando Luna desconfortável. — Não, muito obrigada - respondeu Luna. — Eu tenho um trabalho de geometria pra terminar. Pode ir, eu falo pra sua mãe. Relutei e insisti, mas Luna colocou todos os empecilhos possíveis para não ir. Ao mesmo tempo, eu queria ir com eles, mas meu coração doía em deixar Luna sozinha. — Não, eu acho melhor deixar pra outro dia. — Ah, Josh, por favor! — o grupo insistiu, quase me arrastando dali. — Okay - eu disse. — Mas não posso ficar muito tempo, certo? — Certo, senhor certinho. Logo te levaremos de volta pra casa - disse Geórgia. — Você vai ficar bem? - perguntei a Luna. — Vou sim, pode ir. Divirta-se. Me despedi dela e partimos. Luna seguiu na direção oposta, sem olhar para trás. Entramos em uma camionete preta com cabine dupla e seguimos até o clube.Os dias com Luna sempre são estranhamente de um jeito bom.Eu e Luna mal nos desgrudávamos. Caminhávamos juntos para a escola, almoçávamos juntos, fazíamos as tarefas juntos e, quando não estávamos juntos, estávamos trocando mensagens. Parecia que o mundo tinha encolhido até caber só nós dois.Na manhã de sexta-feira, enquanto eu preparava o café, ouvi o som de uma caminhonete parando em frente à nossa casa. Rebeca foi até a porta e voltou com um sorriso largo.— Josh… tem alguém aqui pra te ver.Saí da cozinha e me deparei com meu tio Patrick, irmão do meu pai. Alto, cabelo grisalho nas laterais, o mesmo olhar vivo que meu pai tinha.— Tio? — falei, surpreso.Ele me puxou para um abraço forte.— Feliz aniversário atrasado, sobrinho. Vim passar uns dias. Rebeca me contou que você estava se adaptando… e que até tem uma namorada agora.Senti o rosto esquentar.— É… tenho...— Quero conhecer essa menina. Garota de sorte — disse ele.— Eu que tenho sorte em ter ela tio. Ela é incrível.—
Acordei no dia seguinte com um sorriso no rosto.Pela primeira vez em muito tempo, não precisei de despertador. O sol entrava pela janela e, por alguns segundos, fiquei quieto, relembrando tudo.O aniversário, a festa.O “sim” de Luna.E o abraço de Rebeca...Peguei o celular. Já tinha uma mensagem dela que me fez esboçar um sorriso de orelha a orelha.Luna: Bom dia, namorado.Josh: Bom dia, namorada. Ainda acho estranho escrever isso.Luna: Estranho bom?Josh: Muito bom.Sorri sozinho.Fiquei conversando por um tempo com ela, planejando o dia, me despedi e logo segui para a cozinha. Rebeca já estava lá, preparando o café. Quando me viu, ergueu uma sobrancelha.— Olha só quem acordou sorrindo, e nenhum pouco atrasado.— Bom dia — respondi, tentando disfarçar.— Bom dia, meu filho de dezoito anos. Dormiu bem?— Dormi.Ela me entregou uma xícara de café e se apoiou na bancada.— Ontem foi… especial, não foi?Assenti.— Foi.— Eu gostei de te ver você assim. Mais leve. Mais… presente.F
Acordei com o som do alarme, mas por alguns segundos fiquei parado, encarando o teto, tentando entender se tudo o que tinha acontecido com Luna era real.A lembrança veio em ondas. O toque, os olhares, o jeito como ela pronunciou meu nome.Meu peito apertou e uma sensação quente tomou conta de mim.Era como se o mundo tivesse mudado, e eu ainda estivesse aprendendo a viver dentro dele.Me levantei devagar, ainda com o corpo leve, mas a mente cheia.Cada movimento me trazia de volta aqueles momentos e o quanto eles significaram.Não era só desejo. Era algo maior, mais profundo.E, ao mesmo tempo, havia o medo.O medo de que ela se arrependesse.O medo de que eu tivesse ido longe demais.Olhei meu reflexo no espelho e suspirei.— O que você fez, Josh? — murmurei para mim mesmo, meio rindo, meio nervoso. Mil pensamentos me invadiam naquele momento.Será que ela também estava pensando em mim? Será que estava bem?Peguei o celular e abri o chat. Nenhuma mensagem.Escrevi um “bom dia” e ap
No dia seguinte, como sempre, mal consegui me concentrar nas aulas. Cada segundo que passava, meu pensamento se voltava para Luna e para o encontro que tínhamos marcado mais tarde, na casa dela. Seus pais tiveram que viajar novamente com urgência para resolver um problema de família, então teríamos um tempo a sós, sem olhares curiosos ou fofoqueiros.Meu coração acelerava só de imaginar o que poderia acontecer quando estivéssemos sozinhos.Quando o sinal final tocou, meu passo era apressado, mas controlado, para não demonstrar a ansiedade que me consumia. Luna me esperava em frente à casa dela, sorrindo com aquele jeito tímido que sempre me deixava sem fôlego.— Oi, Josh. - Ela disse, —Vim mais cedo pra casa , para me organizar e fazer algum lanche pra nós.— Oi, Luna. - Respondi, tentando soar natural, mas sentindo que minhas mãos suavam.Entramos na casa e ela me conduziu até a sala, onde o ambiente estava aquecido pela luz suave do abajur e pelo cheiro de lavanda que tinha no ambie
O dia na escola passou rápido, mas meu coração ainda pulsava acelerado cada vez que eu lembrava da conversa com Luna. Ao final das aulas, combinei com ela de nos encontrarmos em um lugar tranquilo antes de voltarmos para casa.Ela me esperava em um pequeno parque próximo à praça central, sentada em um banco com os cabelos soltos e o olhar curioso. Quando me viu, sorriu levemente, e meu peito se aqueceu de imediato.— Oi, Josh — disse ela, levantando-se para me cumprimentar.— Oi, Luna — respondi, tentando parecer calmo, mas com o coração disparado.Caminhamos juntos pelos caminhos arborizados, deixando o parque quase vazio nos cercar com tranquilidade. Conversamos sobre coisas simples no começo como o livro que ela estava lendo, um filme que queria assistir, pequenas histórias do dia a dia. Mas, aos poucos, a conversa se tornou mais profunda, mais próxima.— Sabe, Josh… — ela começou, parando para olhar para o céu —, eu estava pensando sobre ontem, sobre nós.— E? — perguntei, ansios
Nos dias que se seguiram, o clima entre mim e Luna parecia mais leve, ainda que carregado de uma certa tensão. Começamos a passar mais tempo juntos, como ela sugeriu. No começo, nossas conversas eram como sempre tinham sido: sobre música, filmes, a escola e nossas famílias. Mas, aos poucos, havia algo novo se infiltrando entre as palavras, um misto de curiosidade e vulnerabilidade que ambos ainda estávamos aprendendo a navegar.Em um fim de tarde, depois da aula, decidimos caminhar juntos até um parque próximo. O sol estava se pondo, tingindo o céu de tons quentes de laranja e rosa, e a brisa fresca ajudava a aliviar o calor do dia. Sentamos em um banco sob uma árvore grande, o som das folhas ao vento preenchendo os momentos de silêncio entre nós.— Você vem aqui com frequência? - perguntei, observando como ela parecia confortável ali.— Não tanto quanto gostaria. - Ela sorriu, olhando para o horizonte. — Gosto do silêncio, sabe? Dá pra pensar melhor aqui.Assenti, sem dizer nada. Por







