LOGINA melodia do piano derramava-se pela penumbra da luthieria como um rastro prateado sob o luar. Do lado de fora, as ruínas da cidade adormecida repousavam em absoluto silêncio, enquanto a brisa noturna soprava suavemente, fazendo farfalhar as trepadeiras que cobriam a fachada de pedra. O som do instrumento, suave e cadenciado, encontrava eco no vazio da rua abandonada, agindo como um escudo invisível contra a vastidão daquele mundo destruído.
Clara mantinha a gaitinha de boca prateada apertada entre as mãos quentes, sentindo o frio do metal esquentar contra a sua pele. Ela continuava sentada ao lado de Gabriel no banco de madeira, o corpo inclinado de leve para apoiar o ombro contra o moletom verde-oliva do garoto. Suas botas de couro marrom repousavam imóveis sobre as tábuas do chão, e a calça camuflada cobria suas pernas exaustas após dias ininterruptos de fuga. Ao fundo do corredor, o cano de ferro galvanizado descansava no chão, esquecido e dispensável diante da paz pura que preenchia o ambiente. Gabriel tocava com uma precisão hipnotizante. Seus dedos pálidos e compridos de unhas arroxeadas moviam-se sobre as teclas de marfim com uma leveza inacreditável. O capuz do moletom verde deixava transparecer a gola da camisa xadrez em azul e vermelho, onde o pequeno bóton metálico de disco de vinil reluzia com o brilho fraco da lua. No pé esquerdo, o tênis vermelho de cano alto permanecia apoiado no piso com o cadarço desamarrado. As veias arroxeadas na lateral do seu pescoço acinzentado estavam serenas, sem qualquer vestígio do impulso cego que dominava as hordas da contaminação. O drama do apocalipse parecia ter desvanecido, cedendo espaço para a beleza daquela conexão mútua. Gabriel interrompeu o dedilhar do piano por um segundo, mantendo apenas um acorde grave ressoando na caixa de madeira. Ele virou o rosto na direção de Clara, os olhos tom de avelã reluzindo com uma clareza serena e amorosa. Sem emitir som, ele levou a mão gélida até a mão da garota, tocando suavemente a gaitinha prateada que ela segurava. Atendendo ao convite mudo, Clara ergueu a gaitinha aos lábios. Ela soprou uma nota harmônica e doce, que se entrelaçou com perfeição ao som suave do piano. Gabriel ofereceu um pequeno e raro mover de lábios — a sombra do sorriso de um garoto que a morte não conseguiu apagar. Ele voltou a tocar, acompanhando o sopro da garota em uma sinfonia improvisada e perfeita. Ali, na escuridão acolhedora da luthieria esquecida, a humana de jaqueta jeans e o jovem de olhar avelã encontravam a sua maior vitória: a certeza de que a música e o afeto eram mais fortes do que qualquer fim de mundo. O ar no interior da velha oficina parecia ganhar uma densidade quase mística à medida que a dueto ganhava vida. A vibração das cordas de aço do piano de cauda não se limitava a preencher o espaço aéreo do recinto; ela penetrava no assoalho de tábuas corridas, propagava-se pelas pernas de madeira do banco e subia pela espinha de Clara como uma corrente de energia reconfortante. Cada nota emitida pela gaitinha prateada encontrava uma resposta exata e ressonante nas caixas de acústica dos violões, violoncelos e violas pendurados em ganchos de ferro ao longo das paredes de pedra. Era como se a própria estrutura da luthieria estivesse acordando de um longo e doloroso torpor, transformando-se num órgão vivo de ressonância humana. Clara fechou os olhos por alguns momentos, entregando-se completamente ao fluxo da respiração. A jaqueta jeans pesava suavemente sobre seus ombros, protegendo-a das correntes de ar frio que insistiam em infiltrar-se pelas frestas das vitrines trincadas. Sentia a cadência dos batimentos de seu próprio coração desacelerar até emparelhar com o tempo da música que Gabriel construía. A mente da garota viajava no tempo, resgatando memórias de um mundo em que a música era ouvida em salas de concerto iluminadas, em rádios de carros em estradas movimentadas ou em alto-falantes de praças públicas lotadas de pessoas sorridentes. Agora, aquele pequeno pedaço de melodia nascia no coração de uma terra devastada, como uma flor delicada desabrochando sobre as ruínas de uma civilização esquecida. Gabriel ajustou suavemente o peso dos braços sobre o teclado. Suas mãos pálidas, marcadas pela rigidez biológica do vírus Alfa, moviam-se com uma desenvoltura que desafiava a física da contaminação. As articulações dos seus dedos compridos não demonstravam qualquer hesitação ou tremor. O moletom verde-oliva balançava levemente com a amplitude dos seus movimentos, revelando alternadamente a estampa xadrez da camisa azul e vermelha e a textura rústica do tecido de algodão encorpado. A luz da lua cheia, ao atingir o pequeno bóton metálico de disco de vinil fixado em sua gola, criava um pequeno feixe refletido que dançava no tampo de jacarandá do piano, marcando o tempo da composição improvisada como um mettrônomo prateado. Abaixo do banco de madeira, o cadarço desamarrado do tênis vermelho de cano alto tocava uma pequena pilha de serragem seca acumulada no pé do instrumento. O detalhe, tão humano e despretensioso, servia como um lembrete constante de quem Gabriel fora antes da tragédia que varrera as cidades e de quem ele continuava a ser por dentro. As veias arroxeadas que contornavam seu pescoço acinzentado permaneciam calmas e quase translúcidas sob a pele, sem a pulsação violenta ou a tonalidade opaca que caracterizava os contagiados tomados pelo frenesi predatório. O equilíbrio delicado alcançado pela frequência da música funcionava como um antídoto biológico, um estado de harmonia perfeita onde a consciência do garoto mantinha o monstro devidamente acorrentado nas profundezas do seu organismo. Clara puxou o ar com mais força, fazendo a gaitinha soar numa oitava mais alta, um timbre cristalino e melancólico que cortou o ar gélido da saleta. A resposta de Gabriel foi imediata: ele deslizou a mão esquerda pelas teclas graves, produzindo um acorde denso e aveludado que envolveu a nota aguda da garota, dando-lhe sustentação e profundidade. A garota abriu os olhos e encontrou o olhar avelã dele fixo no seu. Havia naquela troca de olhares um diálogo mudo e cristalino, um idioma sem palavras composto por gratidão, cumplicidade e pela promessa tácita de que nenhum deles deixaria o outro cair no abismo da solidão. Do lado de fora, a névoa da madrugada começava a adensar-se sobre a praça vazia da pequena cidade interiorana. O vapor branco e denso esgueirava-se pelas calçadas de paralelepípedos, cobrindo as rodas de um carro abandonado e a estrutura retorcida de uma antiga banca de jornais. No entanto, o frio externo não conseguia transpor a barreira invisível criada pela música na luthieria. O ambiente exalava o calor da resina de carvalho, da madeira tratada e do afeto genuíno que unia os dois sobreviventes. A calça camuflada de Clara, coberta pelo pó vermelho das estradas de terra batida que percorreram nas últimas semanas, e as botas de couro marrom, gastas pelas longas caminhadas sob a chuva e o sol causticante, eram os testemunhos visíveis da jornada épica que os trouxera até aquele refúgio. A melodia diminuiu gradualmente de ritmo. Gabriel começou a tocar as teclas com notas cada vez mais esparsas, permitindo que a sustentação dos pedais prolongasse o som no ar por longos segundos. Clara acompanhou a desaceleração, suavizando o sopro na gaitinha prateada até que a última nota se dissolveu no silêncio da noite, deixando apenas a ressonância morna das cordas do piano ecoando no interior do instrumento. O silêncio que retornou à luthieria não trazia consigo a opressão da morte ou o medo da escuridão. Era um silêncio restaurador, pleno de significado e descanso. Gabriel retirou delicadamente as mãos do teclado e deixou-as repousar sobre as coxas, permanecendo imóvel no banco de madeira. Seu olhar avelã continuou voltado para Clara, calmo e protetor, enquanto as estrelas visíveis através do teto de vidro poeirento pareciam testemunhar a trégua sagrada que ambos haviam conquistado no meio do apocalipse.O cheiro de ferrugem, chuva fraca e poeira antiga era o perfume oficial do centro de suprimentos da zona sul.Era um cheiro que grudava na roupa, no cabelo, na alma. Não era um cheiro de um dia. Era o cheiro de seis anos de mundo quebrado. Ferrugem dos portões que nunca mais foram pintados. Chuva fraca que caía sobre telha de amianto quebrada e criava poças pretas de limo. Poeira antiga, de papelão mofado, de remédio vencido, de casas que ninguém mais varria. Esse era o cheiro do mundo agora.Aos dezenove anos, Clara já tinha esquecido o cheiro de um perfume de verdade, de flor de laranjeira ou baunilha, coisas que sua mãe costumava mencionar quando conversavam antes de dormir, naquela casa de dois quartos que tinha cheiro de amaciante. Hoje ela nem lembrava mais direito como era cheiro de amaciante. Só lembrava do cheiro de óleo queimado e de sangue seco.Naquela tarde fria, de céu cinza fechado, suas preocupações eram infinitamente mais práticas: encontrar antibióticos intactos, por
O silêncio que se seguiu à queda da caixinha de música parecia espesso, denso o suficiente para ser cortado com uma faca. Não era um silêncio normal. Era um silêncio que pesava nos ouvidos.PLIM. A caixinha amarela caiu no chão de linóleo quebrado da farmácia e fez um barulho ridículo de brinquedo. E depois... nada. Só o pó descendo.O ar frio do fim da tarde entrava pelas frestas do teto da farmácia, aquele teto de gesso todo rachado com a claraboia trincada, fazendo a barra da jaqueta jeans de Clara balançar suavemente, fazendo o cabelo dela, preso num rabo mal feito, arrepiar na nuca. Ela continuava com o cano de ferro galvanizado erguido à altura do peito, na posição de ataque que o instrutor da colônia ensinou: duas mãos, cotovelos travados, ponta para a garganta do inimigo. Os nós dos dedos dela estavam doloridos, brancos, pela pressão que exercia no metal frio, que já estava suado da mão dela. No entanto, a ponta afiada do cano tremia imperceptivelmente. Tremia muito. Ela estav
O dia seguinte passou arrastado como um pesadelo lento. Um pesadelo acordado, que não acabava nunca.Clara mal conseguiu focar suas tarefas na colônia. Eram tarefas simples, que ela fazia há anos desde que tinha 14: limpar suprimentos que os coletores traziam, separar gaze limpa de gaze suja, contar comprimidos, checar as cercas de arame farpado do setor leste com um pedaço de pau para ver se tinha algum infectado preso, anotar num caderno quantos litros de água da chuva tinham nos barris. Coisas automáticas.Mas naquele dia, nada era automático. A mão dela limpava a gaze, mas os olhos estavam longe. A mente distante, presa, colada, tatuada na imagem dos olhos tom de avelã de Gabriel. Naquele olhar que tinha ficado nela ontem na farmácia. Na mão fria dele que não a atacou. Na caixinha de música.Ela derrubou um pote de álcool. Esqueceu de trancar um portão. Levou bronca do Chefe da enfermaria.— Clara! Tá sonhando com o quê, garota? Quer atrair os corredores com esse portão aberto? Fo
A melodia da caixinha de música finou-se lentamente.Cric... cric... cric... até o último dente da engrenagem amarela rodar em falso e o som morrer no ar. Ficou só o silêncio de volta. E no meio desse silêncio, apenas o som da respiração desajeitada de Gabriel no ar. Uma respiração que ele não precisava ter, mas que insistia em fazer. Como um hábito de quando era vivo. Puxava o ar pelo nariz, soltava pela boca, num ritmo quebrado, com um chiado leve no fundo do peito.Clara guardou o brinquedo no bolso da jaqueta jeans com cuidado, como se fosse de vidro. Tirou da mochila, daquela mochila camuflada toda rasgada que era a casa dela, um pequeno caderno de capas gastas, pretas, com as bordas comidas por ratos, e um pedaço de grafite curto, quase um toco, que ela guardava enrolado em esparadrapo.Ela se ajoelhou de novo na frente dele e abriu o caderno no chão sujo, entre os dois.Ela desenhou. A mão tremia, mas desenhou a figura de um violão. Simples, torto, mas era um violão. Mostrou a
O toque das mãos se desfez num sobressalto violento.Estava quente. Estava bom. A mão quente de Clara na mão fria de Gabriel. Uma conexão impossível. E então... CREC.Um estalo seco ecoou no beco dos fundos. Não foi vidro. Foi metal. Foi a grade do beco sendo chutada. Ou uma lata sendo amassada por uma bota. Seco. Alto. Perto demais.O ar congelou na farmácia. De verdade. A poeira que flutuava parou de flutuar.Gabriel ergueu a cabeça rapidamente, num movimento que nenhum humano faz, rápido demais, antinatural, o moletom verde-oliva farfalhando, roçando no pescoço, enquanto suas narinas dilatavam, farejando o ar como um lobo, captando um cheiro que não era o da poeira, não era o de mofo, não era o de Clara. Era cheiro de óleo de arma. De suor de homem vivo. De gente da colônia.A aura avelã dos seus olhos, aquele brilho quente que tinha voltado com a caixinha de música, deu lugar em um piscar de olhos a uma palidez turva e ameaçadora; o branco leitoso tomando conta de tudo, a pupila d
A respiração de Clara estava presa na garganta.Literalmente presa. Como uma bolha de ar que não conseguia sair nem entrar. Sufocada pela mão fria e rígida de Gabriel sobre sua boca. Uma mão que não era mais mão de gente. Era fria como a porta de um necrotério, rígida como pedra, com a palma áspera e os dedos compridos tampando o nariz e a boca dela ao mesmo tempo. Ela não conseguia respirar. E não podia fazer barulho.O tecido áspero do moletom verde-oliva dele, molhado, cheirando a chuva e a ferro, pressionava o ombro dela com força contra a madeira mofada do armário tombado onde eles se esconderam. O armário que eles derrubaram para fazer uma barricada. A madeira estava podre, cheia de cupim, e espetava as costas dela mesmo através da jaqueta jeans.A centímetros do seu rosto, tão perto que ela podia contar os cílios dele, os olhos dele alternavam. Era a coisa mais aterrorizante que ela já viu na vida. Alternavam entre o tom avelã consciente, quente, humano, o Gabriel que ela conhe







