ログインO cheiro de ferrugem, chuva fraca e poeira antiga era o perfume oficial do centro de suprimentos da zona sul.Era um cheiro que grudava na roupa, no cabelo, na alma. Não era um cheiro de um dia. Era o cheiro de seis anos de mundo quebrado. Ferrugem dos portões que nunca mais foram pintados. Chuva fraca que caía sobre telha de amianto quebrada e criava poças pretas de limo. Poeira antiga, de papelão mofado, de remédio vencido, de casas que ninguém mais varria. Esse era o cheiro do mundo agora.Aos dezenove anos, Clara já tinha esquecido o cheiro de um perfume de verdade, de flor de laranjeira ou baunilha, coisas que sua mãe costumava mencionar quando conversavam antes de dormir, naquela casa de dois quartos que tinha cheiro de amaciante. Hoje ela nem lembrava mais direito como era cheiro de amaciante. Só lembrava do cheiro de óleo queimado e de sangue seco.Naquela tarde fria, de céu cinza fechado, suas preocupações eram infinitamente mais práticas: encontrar antibióticos intactos, por
O silêncio que se seguiu à queda da caixinha de música parecia espesso, denso o suficiente para ser cortado com uma faca. Não era um silêncio normal. Era um silêncio que pesava nos ouvidos.PLIM. A caixinha amarela caiu no chão de linóleo quebrado da farmácia e fez um barulho ridículo de brinquedo. E depois... nada. Só o pó descendo.O ar frio do fim da tarde entrava pelas frestas do teto da farmácia, aquele teto de gesso todo rachado com a claraboia trincada, fazendo a barra da jaqueta jeans de Clara balançar suavemente, fazendo o cabelo dela, preso num rabo mal feito, arrepiar na nuca. Ela continuava com o cano de ferro galvanizado erguido à altura do peito, na posição de ataque que o instrutor da colônia ensinou: duas mãos, cotovelos travados, ponta para a garganta do inimigo. Os nós dos dedos dela estavam doloridos, brancos, pela pressão que exercia no metal frio, que já estava suado da mão dela. No entanto, a ponta afiada do cano tremia imperceptivelmente. Tremia muito. Ela estav
O dia seguinte passou arrastado como um pesadelo lento. Um pesadelo acordado, que não acabava nunca.Clara mal conseguiu focar suas tarefas na colônia. Eram tarefas simples, que ela fazia há anos desde que tinha 14: limpar suprimentos que os coletores traziam, separar gaze limpa de gaze suja, contar comprimidos, checar as cercas de arame farpado do setor leste com um pedaço de pau para ver se tinha algum infectado preso, anotar num caderno quantos litros de água da chuva tinham nos barris. Coisas automáticas.Mas naquele dia, nada era automático. A mão dela limpava a gaze, mas os olhos estavam longe. A mente distante, presa, colada, tatuada na imagem dos olhos tom de avelã de Gabriel. Naquele olhar que tinha ficado nela ontem na farmácia. Na mão fria dele que não a atacou. Na caixinha de música.Ela derrubou um pote de álcool. Esqueceu de trancar um portão. Levou bronca do Chefe da enfermaria.— Clara! Tá sonhando com o quê, garota? Quer atrair os corredores com esse portão aberto? Fo
A melodia da caixinha de música finou-se lentamente.Cric... cric... cric... até o último dente da engrenagem amarela rodar em falso e o som morrer no ar. Ficou só o silêncio de volta. E no meio desse silêncio, apenas o som da respiração desajeitada de Gabriel no ar. Uma respiração que ele não precisava ter, mas que insistia em fazer. Como um hábito de quando era vivo. Puxava o ar pelo nariz, soltava pela boca, num ritmo quebrado, com um chiado leve no fundo do peito.Clara guardou o brinquedo no bolso da jaqueta jeans com cuidado, como se fosse de vidro. Tirou da mochila, daquela mochila camuflada toda rasgada que era a casa dela, um pequeno caderno de capas gastas, pretas, com as bordas comidas por ratos, e um pedaço de grafite curto, quase um toco, que ela guardava enrolado em esparadrapo.Ela se ajoelhou de novo na frente dele e abriu o caderno no chão sujo, entre os dois.Ela desenhou. A mão tremia, mas desenhou a figura de um violão. Simples, torto, mas era um violão. Mostrou a
O toque das mãos se desfez num sobressalto violento.Estava quente. Estava bom. A mão quente de Clara na mão fria de Gabriel. Uma conexão impossível. E então... CREC.Um estalo seco ecoou no beco dos fundos. Não foi vidro. Foi metal. Foi a grade do beco sendo chutada. Ou uma lata sendo amassada por uma bota. Seco. Alto. Perto demais.O ar congelou na farmácia. De verdade. A poeira que flutuava parou de flutuar.Gabriel ergueu a cabeça rapidamente, num movimento que nenhum humano faz, rápido demais, antinatural, o moletom verde-oliva farfalhando, roçando no pescoço, enquanto suas narinas dilatavam, farejando o ar como um lobo, captando um cheiro que não era o da poeira, não era o de mofo, não era o de Clara. Era cheiro de óleo de arma. De suor de homem vivo. De gente da colônia.A aura avelã dos seus olhos, aquele brilho quente que tinha voltado com a caixinha de música, deu lugar em um piscar de olhos a uma palidez turva e ameaçadora; o branco leitoso tomando conta de tudo, a pupila d
A respiração de Clara estava presa na garganta.Literalmente presa. Como uma bolha de ar que não conseguia sair nem entrar. Sufocada pela mão fria e rígida de Gabriel sobre sua boca. Uma mão que não era mais mão de gente. Era fria como a porta de um necrotério, rígida como pedra, com a palma áspera e os dedos compridos tampando o nariz e a boca dela ao mesmo tempo. Ela não conseguia respirar. E não podia fazer barulho.O tecido áspero do moletom verde-oliva dele, molhado, cheirando a chuva e a ferro, pressionava o ombro dela com força contra a madeira mofada do armário tombado onde eles se esconderam. O armário que eles derrubaram para fazer uma barricada. A madeira estava podre, cheia de cupim, e espetava as costas dela mesmo através da jaqueta jeans.A centímetros do seu rosto, tão perto que ela podia contar os cílios dele, os olhos dele alternavam. Era a coisa mais aterrorizante que ela já viu na vida. Alternavam entre o tom avelã consciente, quente, humano, o Gabriel que ela conhe







